terça-feira, 22 de agosto de 2017

Um juiz polêmico

Gilmar Mendes
Não penso como ele em rigorosamente nada mas, mesmo discordando de suas ideias e da sua linha política,  sei reconhecer  talento das pessoas. Ele tem saber sobre o ofício que exerce. Isso não é pouco. 

Ah, mas Gilmar Mendes é bruto, polêmico e só decide politicamente, sempre em defesa do seu grupo político... Não tenho dúvidas sobre isso. E nunca tive ilusão alguma a respeito das autoridades públicas.

A verdade é que todo o mundo só decide politicamente e com base nos seus interesses e/ou nas suas emoções. Alguns com docura, outros com hipocricia. Decisões são sempre decisões de classe, como ensinou Marx.

A diferença é que Gilmar Mendes, por ser corajoso e frontal, age com transparência e sem se importar com opiniões alheias. Diz o que pensa, mesmo quando pensa mal e de forma escroque. 

Até nas entrevistas, ele responde a tudo com desassombro, como quem diz: “vão chatear outro e deixem-me fazer o meu trabalho.” Lembro-me da pergunta de uma jornalista sobre o julgamento do TSE:

- “Podemos imaginar que o senhor vai absolver a chapa Dilma/Temer?”
- “A senhora pode imaginar o que bem entender"...
 
Temos homem.


terça-feira, 25 de julho de 2017

Cuba: Há quase 70 anos

 
Hoje, 25 de julho começam as comemorações do aniversário da revolução de Cuba. O regime de Fidel Castro governa a ilha desde a revolução cubana, de inspiração marxista, em 1959. Há 68 anos, portanto.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Reflexão serena

Ultrapassar os preconceitos e os ódios não está inscrito na natureza humana. Aceitar o outro não é nem mais nem menos natural do que rejeitá-lo. Reconciliar, reunir, adotar, moderar, pacificar são gestos voluntários, gestos de civilização que exigem lucidez e perseverança; gestos que se adquirem, que se ensinam, que se cultivam. Ensinar os homens a viver juntos é uma longa batalha que nunca está completamente ganha. Requer uma reflexão serena, uma pedagogia hábil, uma legislação apropriada e instituições adequadas.
Um Mundo Sem Regras, Amin Maalouf

sexta-feira, 2 de junho de 2017

As regras do jogo

Todas as pessoas que conheço, absolutamente todas, a começar por mim, nadam no sentido da corrente. Aceitam o "sistema" e exercem a liberdade possível dentro dos  limites deste  sistema. 

Não estou dizendo isso para criticar quem quer que seja. Estou dizendo porque é verdade. Sim, prezado amigo, ou prezada amiga, a  verdade é que ninguém nada contra a corrente.  

Muita gente gosta de imaginar que é rebelde, que não se submete e que é capaz de enfrentar tudo e todo o mundo. Alguns até lembram que transgrediram uma ou outra regra.  Ok, mas seria um grande exagero dizer que isso significa bater de frente com o sistema. Isso ninguém faz.  

No máximo, ariscamos um pouco ou assumimos atitudes corajosas em defesa do nosso amor próprio, nosso orgulho, ou a nossa autoestima. Só que fazemos isso de acordo com as leis sociais do sistema.É isso, somos previsíveis e agimos de modo previsível.
 

 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vida sexual é vida privada, não é da conta de inguém


Vez ou outra a carreira de um político nos Estados Unidos entra em colapso com a divulgação de escândalos da sua vida sexual. Há casos emblemáticos. Gary Hart viu a sua candidatura presidencial abortada por causa de uma infidelidade conjugal. 

Anos depois, o presidente Clinton foi ameaçado de impeachment em razão do caso amoroso que mantinha com uma estagiária. Em todo o mundo ecoaram as notícias sobre charutos e vestidos manchados no Salão Oval da Casa Branca.

Na América o moralismo é enraizado. E as pesquisas assinalam: a maioria dos norte-americanos acredita que quem mente sobre a vida sexual não merece confiança. Não vejo sentido nesta crença por uma razão que me parece simples e direta: todo o mundo mente sobre a sua vida sexual.

E por que todos mentem? Os motivos são umas vezes louváveis, outras vezes discutíveis, mas sempre compreensíveis. De todo modo, ninguém tem nada a ver com isso. O que devemos exigir dos políticos, e de todos que nos cercam, são valores como firmeza de carácter, correção e honestidade.

Excetuando-se, naturalmente, os casos que envolvem pedofilia, crimes contra vulneráveis e estupro, que devem ser punidos de forma implacável pela Justiça, a vida sexual e privada de ninguém deve ser assunto de exploração política.  

Outro aspecto a considerar: a vida sexual de um político não diz nada sobre a sua ética. Nunca um casto foi mais correto por ser casto, e nunca um devasso foi honesto por causa da sua devassidão.

As medidas da correção e da honestidade não passam por critérios da vida sexual. Se uma pessoa faz isso ou faz aquilo no sigilo de seus aposentos trata-se de assunto exclusivamente dela e da família dela. E de mais ninguém. 

 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Cruel e desnecessário


Fiquei impressionada com a hostilidade com que José Dirceu foi recebido em Brasília. Por que hostilizar uma pessoa que já está respondendo à Justiça pelos seus erros? Por que  ir a casa dela fazer arruaça e perturbar o sossego de sua família? Aquilo foi cruel e desnecessário, além de uma manifestação de intolerância incompatível com o nível cultural de uma cidade acostumada a respeitar diferenças.

Sempre achei que existia convivência civilizada em Brasília, uma vez que aqui funcionam as embaixadas e o Congresso Nacional, lugares onde indivíduos que pensam de forma diferente trabalham lado a lado de forma pacífica - na quase totalidade do tempo. Salvo um ou outro ponto fora da curva, a cidade tem a marca da tolerância e do respeito mútuo.

José Dirceu é acusado de atos ilegais que quase todos nós repudiamos, mas isso não dá a ninguém o direito de desrespeitar seus direitos humanos. Ah, mas ele não pode ficar livre e sossegado por que cometeu crimes e ilegalidades. Sim, mas cabe à Justiça decidir a pena, proporcional aos seus erros, que ele deve cumprir. 

Quem quiser criticá-lo  que o faça de forma civilizada, em recintos públicos. O lar de qualquer pessoa é inviolável perante a lei. A propósito: ninguém pode esquecer que a Constituição protege a todos: bons e maus. Não é correto ameaçar com ataques físicos, além de dirigir agressões e impropérios a quem quer que seja.

É isso. Claro que meus pensamentos podem ser criticados e avaliados como equivocados. É discutindo as ideias, mesmo as mais incompatíveis com o nosso modo de pensar e de sentir, que devemos viver e conviver numa sociedade livre. E só assim podemos avançar de forma crescente e constante.  

 
 

 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Pena de Morte:Matar é errado


Donald Trump não é o maior atraso dos EUA. O principal atraso deles é a manutenção da pena de morte. Trump vai passar, e acredito que vá passar rápido, mas a pena de morte parece enraizada em alguns estados como se fosse vegetação nativa.
 
Lastimável. A pena de morte é ilegítima porque o Estado não tem legitimidade para tirar vidas (mesmo de culpados comprovados) a sangue-frio. Humberto Eco fez um belíssimo ensaio condenando a ideia torta de que o Estado pode usar a vida de um homem como exemplo para outro homem.

Assim, rechaçou a tese doentia de que a pena de morte pode ser adotada para inibir a criminalidade. No Brasil, dizem que se fosse feito um plebiscito a pena de morte ganharia na primeira volta. Não posso acreditar numa barbaridade dessas.

Se a nossa razão não estivesse tão cega, talvez pudéssemos ver o argumento maior: as sociedades não devem matar seus cidadãos – nem mesmo por meio de um processo legal, e nem mesmo se a execução for relativamente indolor.

Matar só é admissível em legítima defesa (de que a guerra pode ser um exemplo extremo), mas os juristas estão de acordo em que faltam à pena de morte as características da legítima defesa, sobretudo a atualidade.

A pena de morte é errada porque matar é errado. E não é preciso ser adepto do catecismo, ou ser cristão para saber disso.

É isso, de minha parte gostaria de ter poder suficiente para finalizar decretando a morte da pena de morte.

terça-feira, 25 de abril de 2017

LAVA-JATO EM RESUMO


415 políticos de 26 partidos são citados.

PT, PMDB e PSDB lideram a lista e concentram 59,5% dos acusados, de acordo com levantamento em 337 petições do MPF

O PT lidera a lista com o maior número de atingidos – ao todo, 93 petistas foram citados nos depoimentos.

PSDB e PMDB estão em segundo lugar: cada um tem 77 membros citados pelos delatores.

PT, PMDB e PSDB juntos concentram 59,5% dos políticos enredados nas delações da maior empreiteira do País.

O PP é a quarta sigla mais afetada, com 35 citados, incluindo seu presidente, o senador Ciro Nogueira (PI).

O DEM vem a seguir, com 22 denunciados, entre eles o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ).

O PSB (19), o PSD (15), o PTB (11), o PR e o PCdoB, com 10, o PPS (9), e o PDT (8) completam a lista. Destes, só o PCdoB e o PDT não estão no governo.

Entre os pequenos partidos sobram 25 citados. Aqui, só dois deles – o PSOL e o PTN não apoiam Temer.
PS: todos os políticos até agora citados negaram o conteúdo das delações.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Como sair deste poço de corrupção e de descrença?

Como vamos sair deste poço de corrupção e de descrença? 2017 é um ano sem eleições e isso significa que não vamos ouvir promessas de felicidade para os nossos destinos.

Chega de ilusões, de promessas vãs e da linguagem falsa e rasteira dos marqueteiros. Precisamos, acima de tudo, de sensatez e de normalidade. Precisamos, igualmente, de um projeto para nossa vida coletiva que seja real, mobilizador e equilibrado.

Um projeto inclusivo, que dê a mão a quem depende do Estado. Neste tempo da descrença há alguns compromissos que devíamos assumir. O primeiro é deixar de achar que ou não temos remédio ou somos tão bons que só vamos driblar dificuldades com nosso charme. Não vamos.

A segunda providência é tentar eliminar, de uma vez por todas, a absurda irresponsabilidade de parcela dos governantes do Legislativo, Executivo e Judiciário. Temos de exigir ao Estado decência e racionalidade, nunca o paraíso.

Precisamos renovar as atuais elites políticas. A confiança no poder e nas suas instituições é básica, se quisermos ter um mínimo de respeito pelo Estado. Por fim, uma última evidência: convém que cada um de nós faça mais do que tem feito até aqui.

terça-feira, 18 de abril de 2017

2018:só falar não muda nada.


Dizem por aí que um candidato inexperiente, bom de marketing e demagógico, pregando a mudança, palavra emblemática no mundo político, terá grande chance de ganhar a corrida pela Presidência da República em 2018.
Asseguram: tal Messias sequer precisará manifestar respeito pelo custo da democracia institucional que temos. Aliás, o que se prevê é que será de bom tom que ele renegue completamente o passado e que prometa mudar tudo, até a lei da gravidade. 
Sempre achei que falar por falar em mudanças não leva a lugar nenhum, uma vez que, assim como a gravidade, não se mudam as leis da economia, da concorrência, do conflito.
Mais que falar, precisamos de propostas concretas para criar e fortalecer órgãos de fiscalização que funcionem efetivamente  para auditar os gastos públicos. Só com forte fiscalização vamos estacar a corrupção.
Não existe Estado honesto, existe Estado auditado, fiscalizado e transparente. Falar que tudo vai mudar não significa mudar coisa nenhuma. Muito mais importante é estabelecer prioridades tipo combater a miséria, a desigualdade e o crime.
Além de atender as urgências, acredito que cumpre  assumir o compromisso de exercer o cargo com coragem e dignidade perante as duras realidades da política e das cobranças diárias que a vida pública impõe.
Um presidente precisa ser sensato e eficaz, moderado e empreendedor. Não lhe basta um coração magoado pelas injustiças do mundo e uma lágrima ao canto do olho. Grandes presidentes não fazem tais demagogias.
Grandes líderes têm propósitos grandes, realistas e firmes. Sabem que a política trata da paz e da prosperidade para aqueles que mais necessitam do Estado e não das baboseiras de «homem novo» e coisa e tal. João Dória, faça o favor...
 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Por favor, não me venham com essa história de Constituinte...


Por favor, não me venham com essa história de Constituinte. Se perguntam a qualquer brasileiro letrado como devemos salvar a Pátria, ele não hesita em dar uma solução que, na maioria das vezes, passa pela criação de uma qualquer lei, mais perfeita e racional do que as leis em vigor.

Nós, visivelmente, gostamos de leis. Chega a ser comovente a pureza de algumas pessoas em relação ao assunto. Parece que acreditam realmente que uma nova Constituição encantada, um conjunto de leis cheio de elevadas intenções, vai extinguir nossas mazelas...

Lamento dizer que isso não vai acontecer. E lembrar que se sair algum consenso por aí, essa nova constituinte será negociada pelos atuais partidos políticos. Partidos que há mais de dez anos passam por uma gravíssima crise moral e de confiança.

Talvez fosse mais adequado um “mea culpa”, aliado a um esforço hercúleo das instituições, para tentar reaver algumas réstias de confiança das pessoas. Confiança em todas as instituições de poder – e não apenas poder político. 

 Sem uma reconciliação das instituições de poder com a sociedade não há saída. E isso tem de ser tentado imediatamente porque a confiança das pessoas, que nunca foi grandes coisas, piorou demais nos últimos dois anos pelas razões que todos conhecemos.  

A verdade é que nunca foi tão ostensiva a ideia de que não podemos confiar nos gestores, nos empresários, nos funcionários das estatais, nos políticos, nos trabalhadores; nos jornais, nas televisões, na política; no fisco, nas escolas, nas prisões...

E por que não podemos confiar? Porque nenhum destes poderes, instituições ou pessoas funciona como deveria funcionar. A verdade é que nenhum deles (ou a esmagadora maioria) age sem uma qualquer obscura motivação ou interesse.

Por isso, não vejo sentido em pensar numa nova Constituição. As reformas que o sistema exige não dependem de alterações na Carta. Nossa Constituição não é um mal, é um bem. Um dos poucos que temos.


  

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A DECADÊNCIA


A lista de Fachin nos leva a descobrir que o Brasil é o Brasil. E isto significa ver o óbvio: não temos a cultura da honestidade, não somos civilizados, não somos bons, não temos órgãos de fiscalização e controle da administração pública e não estamos melhorando.

Essa é a realidade. E a lista é prova   contundente do nosso atraso de décadas em relação aos países que são honestos, corretos, bons e desenvolvidos. Todos que deixaram de nos dizer isso, no decorrer das últimas décadas, nos contaram mentiras.

Sei que a percepção do nosso atraso não é nova, mas jamais vi a Nação tão exposta como hoje. As coisas não deviam ser assim. Afinal, todo o debate político da minha geração, e das gerações que a antecederam, foi sobre as formas possíveis de evitar essa decadência.

Por que não investíamos em educação? Por que nossas riquezas não passavam de uma miragem para o povo que mais precisava delas? Se todos os intelectuais do início do República já debatiam isso por que razão o Brasil não avançou?

Graças a intelectuais, professores e produtores culturais com espírito crítico, o Brasil, no mundo das ideias, sempre teve excelência no debate, mesmo sendo um país rural e analfabeto. À sua maneira, Getúlio Vargas pretendeu ultrapassar a decadência. 

JK também teve motivação e objetividade para impulsionar a edificação de um país melhor. Pelo trabalho deles, entre outras razões, o Brasil iria deslanchar. Tivemos fé e confiança nessa lengalenga durante décadas.

Nosso destino seria melhor com as instituições democráticas. Sim, a sonhada transição dos anos 80.  Veio a democracia e acreditamos que finalmente faríamos parte do lado do mundo onde se vive melhor. Balela. Só tivemos mais decadência. 

As sucessivas eleições não trouxeram mais conhecimento e mais avanço político, social, econômico ou cultural. Cinco governos depois da transição e o resultado é que estamos encalacrados com a lista do Fachin.
Se os últimos anos são a história de nossa decadência e nossas falhas, tais falhas agora têm protagonistas com nomes e sobrenomes. E eles formam a elite empresarial e política do país. Convém não nos esquecermos disto.
Nós falhamos. Os protagonistas da República falharam. Eles tinham a responsabilidade maior. Eram titulares de Poderes e de deveres. Precisam prestar contas à Justiça. Seria fácil, mas é um erro, tentar culpar o povo. O povo é a grande vítima da nossa decadência.

sábado, 8 de abril de 2017

Qual a origem do Mal?


Qual a origem do Mal? Nem a Ciência sabe. Durante décadas os médicos tentaram localizar a região do cérebro onde o Mal poderia ser localizado para extirpá-lo a golpes de bisturi. Não deu certo. Cientistas sociais  tentaram reduzi-lo a «causas socais». Fracassaram.

Dezenas de filósofos e centenas de doutores buscaram associar o Mal a frustrações e loterias genéticas, mas ninguém chegou a conclusões objetivas.  Freud jogou luz nos corações, mentes e inconscientes, mas não conseguiu descortinar toda a escuridão e explicar o Mal.

A verdade é que o Mal parece ser parte integrante da natureza humana. Felizmente, a maioria de nós consegue viver a existência inteira sem ultrapassar a gravidade de pequenas transgressões, delitos menores e males reparáveis.

Sim, podemos nos orgulhar. Mais de 80% da humanidade não pisa na linha. Em proporção menor, segundo estatísticas carcerárias, sempre houve aquilo a que Joseph Conrad, em O Coração das Trevas, chama de «o horror».

Trata-se do Mal que, dependendo apenas das circunstâncias, faz a civilização se confundir com a barbárie e vice versa. O Mal que leva a civilização, depositária de valores humanitários e sinônimo por vezes de superioridade moral, a não dar a mínima para a dor das pessoas em função de seus luxos, desperdícios e frivolidades. 

Conrad desmistifica a civilização e os ricos cheios de cobiça. O escritor condena aqueles que escravizam e consideram isso normal. Seria normal, também, o escravo se ver como escravo, como objeto. Será mesmo? Conrad não concorda.

Ele, que viveu durante o apogeu do Império Britânico, se sentiu “dominado pelo horror” ao testemunhar a flagelação causada pelo imperialismo. O coração das trevas não é pura ficção – resulta antes de tudo de uma experiência pessoal do autor.

Muitos homens daquela época não achavam a escravidão normal, embora comum, e Conrad era um desses nobres cavalheiros. Conrad não aceita a banalização do mal sob nenhum pretexto. Segundo ele, o horror é o lado obscuro da alma humana, irredutível a qualquer análise sociológica ou psicológica.

É isso: moralmente, somos imperfeitos, e por vezes horríveis, conforme define Conrad e atestam as páginas policiais. Ao mesmo tempo que podemos realizar atos de grandeza podemos cometer atos torpes e abomináveis. Especialistas discutem o Mal que existe entre nós sob o ponto de vista jurídico, médico, educativo.

O ponto consensual é que temos de conviver sempre com o Mal. Aliás, a internet confirma os piores diagnósticos sobre este assunto.  E a Ciência comportamental comprova: temos de procurar, por meios racionais ou espirituais, o equilíbrio consciente - sempre buscando o lado luminoso da nossa existência, ou, ao menos, nossa face mais mansa e inofensiva.

 
 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sobre a mentira

A mentira faz parte da vida e fez sempre parte da política diz Nicolau Maquiavel, em O Príncipe. Segundo ele, “os homens são tão ingênuos e tão conformados com as necessidades do momento, que quem engana encontrará sempre quem se deixe enganar”.

Também estipulou que os príncipes que “souberam com inteligência enganar os cérebros dos homens, no final ultrapassaram aqueles que se basearam na verdade”. Ora, se os políticos mentiram e enganaram é porque houve uma maioria que se deixou enganar.”
 
Conclusão “A mentira é tão útil e tão pouco penalizada na política, que os norte-americanos têm há muito esta piada fácil: “Como é que se percebe que um político está a mentir? Ele mexe os lábios”.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Onde você esconde seu lado mau?

Todos temos coisas em nós que reprimimos, muitas vezes porque as condenamos, outras vezes porque a sociedade as condena.

Basta um acesso de raiva, uma frustração qualquer, para a agressividade transbordar. Na verdade, sabemos muito pouco sobre nós mesmos. Essa é uma condição da nossa espécie.

Lembro que explodi uma vez, há alguns anos,  com minha filha porque ela estava usando uma das minhas blusas. De forma exagerada e desnecessária, gritei para ela tirar. Momentos depois, quase morri de culpa ao perceber o quanto tinha sido mesquinha. Como explicar aquilo?
 
Eu realmente não sabia de onde vinha toda aquela hostilidade. Fui refletir na terapia: a fúria poderia ter vindo de algum lado obscuro e invejoso que, infelizmente, também era meu? Mesmo relutando, tive de admitir.
Minha filha era jovem, bonita e ficava melhor que eu naquela roupa. E, pior, eu iria morrer antes dela. Esse era o ponto central da inveja. Assim, fui obrigada a reconhecer que havia em mim uma sombra cruel, feia e humana. Em vez de sublime, meu interior era mau.
Quase fiquei demente de tanto pensar nisso na ocasião, mas o terapeuta aliviou, assegurando que todos temos atitudes agressivas de vez em quando. Mais: sombras ruins podem se manifestar até em pessoas que, racionalmente, são as mais doces e mansas criaturas deste vale verde de Deus.

terça-feira, 14 de março de 2017

A GERAÇÃO ENVERGONHADA


A GERAÇÃO ENVERGONHADA

Os ganhos democráticos dos últimos 40 anos são de saudar, mas, lastimavelmente, o resto é vergonha junta. Acredito que esse é o sentimento que predomina entre as pessoas da minha geração. Andávamos pelos 20/30 anos quando a democracia chegou e ficamos eufóricos. Íamos finalmente mudar o Brasil no Estado democrático. Nossos filhos e os filhos dos pobres teriam água limpa.
A morte de Tancredo Neves e a derrota da centro-esquerda em 1989 fez a esperança desaparecer, mas tinhámos liberdade e juventude, logo cada um de nós tratou da própria vida, da carreira e da carteira. Enquanto isso, os partidos tomaram conta da política, com inacreditável irresponsabilidade e uma corrupção crescente, contra as quais o cidadão comum era impotente.
À nossa volta, sucessivos governos distribuíam cargos, favores, verbas e posições na máquina pública a homens sem qualidades que passaram a formar a "elite" política brasileira. Os efeitos dessa pestilência, dessa degradação do poder político por incompetência, abuso, dolo e corrupção, estão aí na Lava-Jato. Os inquéritos estão saindo pelo ladrão na Procuradoria Geral da República.
A julgar pelas pesquisas e as notícias das revistas e dos jornais a reação da população pode ser resumida numa frase: não devemos confiar em nada e contar com nada. O emprego e “crescimento da economia” são fenômenos tão míticos como os unicórnios. Não temos escola, formação, investigação ou cultura. O  mundo das ideias caiu na absoluta irrelevância.
Ganharam os lobbies, a preguiça, a corrupção, a esperteza. E não há fio de Ariadne para nos orientar. A política jaz ao rés do chão. A corrupção pôs em risco a beatificação de Lula e roeu tudo à sua volta. O movimento estudantil foi tomado por arrivistas, que não o largaram mais. A cegueira ideológica afastou a esquerda pensante das universidades.
Dispersos, os intelectuais não realizam o debate. No vácuo, oportunistas e truculentos se organizam para comandar a história sem preparo ou dimensão humana. Nessa altura, ante a corrupção descortinada pela Lava-Jato, o que se impõe é dar sequência aos processos para estabelecer as responsabilidades por meio de julgamentos rigorosos. A propósito: na minha opinião, os escândalos da corrupção dificilmente serão esclarecidos.
Acho que a população dificilmente saberá se as acusações correspondem aos fatos. O complicado é que, na dúvida, alguns políticos poderão se sentir encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune fosse “o velho” e o “novo normal”. Se assim for, as dificuldades presentes vão agravar-se no futuro próximo, mas, se formos capazes de continuar lutando e de seguir em frente, vamos superar.  

quinta-feira, 2 de março de 2017

Por que ninguém respeita opiniões diferentes?


Por que a militância em um partido ou a dedicação a uma causa leva as pessoas — em muitos casos até as que são extremamente preparadas, cultas e legais — a ofender e a agredir quem discorda delas? Ser filiado, militante, ou simpatizante de um partido, ou a adesão a determinada causa significa assumir algum lado obscuro da personalidade humana?

Nietzsche dizia que só a vontade de poder permite ao indivíduo tornar-se o que realmente é. E, assim, ele pode atingir a auto realização. Logo, a busca do poder via o caminho político, por si só, não é erro. Cumpre reconhecer, a propósito, que há pessoas com vocação e competência para liderar equipes e tirar projetos do papel.
Jeremy Paxman, no livro "The Political Animal", afirma que a realidade sobre a política, no entanto, é cruel, uma vez que existe falta de respeito generalizada contra quem busca o poder via partidos políticos. Se a pessoa é militante da política, ela, invariavelmente recebe algum desprezo, afirma o autor.  
Acredito que para reagir a isso, para se convencer de que está certo, de que não merece desprezo, o engajado mergulha mais fundo nas próprias crenças e convicções, passando a desenvolver certo fanatismo. Na sequência, tende a tornar-se mais radical. O passo seguinte da escalada: ele passa a aborrecer todos à sua volta para convencê-los com suas razões e seus argumentos.

Na avaliação de Paxman, o mundo da política partidária acaba por criar células de pessoas à parte. São núcleos fechados, marmóreos. Funcionam como células em tudo até na simplificação dos conceitos para não admitir contestação. Não reconhecem qualquer validade das teses contrárias às suas linhas de pensamento. Não há nuances. Tampouco racionalidade.

Depois de analisar a vida de inúmeros cidadãos engajados e com posições radicais, o autor concluiu que nessas células não existe gente heroica, confiante, iluminada ou mesmo com sabedoria. Segundo ele, o grosso da militância abriga graves exemplos de criaturas anedóticas, histéricas, obsessivas e complexadas. E a maioria sem uma satisfatória vida pessoal.
Parcela significativa dos fanáticos falha na solução das neuroses pessoais e tenta se consolar dizendo que resolverá os problemas do mundo. A suposta preocupação com o mundo pode fazer dessas células verdadeiras “castas de salvadores” com os olhos vendados por suas ideologias. Claro que pessoas assim não mudam e, dificilmente, mudarão para melhor algo à sua volta.   








terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um grande texto sobre os confins do cerrado

O PESSIMISMO COMO DEVER CIVIL
JOSÉ EDUARDO FARIA
Passou despercebido dos cadernos culturais dos jornais, em 2016, o 60.º aniversário de Vila dos Confins, um livro singular de Mário Palmério, nascido da confluência entre ficção e realidade e que trata da política miúda protagonizada por coronéis, jagunços e cabos eleitorais com suas práticas conhecidas, como trocas de favores, compra de votos, intimidações e fraudes de todo tipo.


O livro, cujo enredo é a manipulação do processo político num remoto lugar do sertão mineiro, fez sua época, levou o autor à Academia Brasileira de Letras, mas hoje é pouco lembrado. Talvez porque o universo de que trata, uma cidadezinha dos grotões recém-alçada à condição de município, tenha sido substituído por Brasília, a capital do País inaugurada poucos anos após sua primeira edição.
Apesar das diferenças de escala, há muita coisa em comum nos dois universos – até porque, em Brasília, do chefe do Executivo aos integrantes do Legislativo, passando pela juíza aposentada que exibe título jamais conquistado ou pelo luminar jurídico que, se confirmadas as denúncias de plágio, careceria de reputação ilibada e notório saber jurídico para ascender a ministro de Corte Suprema, todos olham o mundo não do alto de uma montanha, mas da altura de um rodapé, como os personagens de Vila dos Confins.
Ainda que espertos, a ponto de patrocinarem projetos de lei que retiram prerrogativas da Justiça Eleitoral e revogam normas penais com base nas quais podem ser condenados por seus ilícitos, os personagens dos confins brasilienses são intelectualmente toscos e moralmente abjetos. Praticam uma política degradada, em que não há espaço para o exercício de virtudes públicas e compromissos cívicos – uma política praticada num círculo fechado, hipócrita e distante do mundo real.
Esse cenário encerra questões incômodas. Será a sociedade brasileira tão ruim quanto seus representantes? Quase três décadas depois da promulgação de uma Constituição que sepultou o autoritarismo, o que explica incapacidade do regime democrático para construir um poder público legítimo e eficiente? Por que as instituições não conseguem evitar a captura do poder público por presidiários, corporações, parlamentares esfaimados e empreiteiras? O denominador comum dessas indagações é um certo surrealismo.
Quem optou por Dilma em 2014 também votou no esquema que levou Angorás, Cajus e Lupinões a ocupar cargos estratégicos. A democracia conta com sistemas de contrapesos para proteger os interesses da sociedade e evitar efeitos desastrosos de decisões desinformadas. Mas eles às vezes falham. E quanto mais duradoura é uma decisão tomada por sistemas falhos, maiores são as dificuldades a superar. De que modo um processo democrático pode ser representativo se seus sistemas de controle nem sempre funcionam, como se está vendo com as tentativas de frear as investigações do órgão encarregado pela Constituição de defender a ordem jurídica e a moralidade pública?
Assim, mesmo que a economia volte a crescer, as decisões políticas desastrosas tomadas por dirigentes e parlamentares com escasso capital político acarretam indignação e revolta. O perigo de tanta aversão à política é o da sedução aos encantos da antipolítica. É a ideia de que a política seria prescindível, podendo ser substituída por gestores. Obviamente, ainda que precise ser submetida a um processo de depuração ética, em hipótese alguma a política é prescindível, pois implica diferenças, conflitos, aprendizado com frustrações e direitos, por um lado, e negociações, compromissos, alianças, pactos e interesses compartilhados, por outro. Esforçando-se para superar os desencantos que o tempo carrega e acreditando que a participação democrática abre a todos a possibilidade de ascender ao poder e governar, há quem diga que a depuração ética pressupõe não só renovação da classe política, mas, igualmente, seu rejuvenescimento.
Consciente da importância das noções de pluralismo ideológico e da alternância do poder para a efetividade do regime democrático, também há quem lembre que a regeneração democrática requer uma reavaliação das formas de legitimação das relações entre governantes e governados. E há ainda quem diga que, na medida em que a democracia é um mecanismo de vigilância, crítica e protesto, permitindo assim a identificação das fontes de corrupção, a política é a aprendizagem da decepção. Quanto mais eficiente é seu funcionamento, mais decepções e desenganos ela propicia.
São argumentos conhecidos. Para assegurar o sucesso do processo de regeneração democrática e permitir que a política volte a estar à altura do que dela se espera, em matéria de representatividade e responsabilidade, é preciso reduzir o fenômeno político aos seus componentes básicos – as relações de força, de autoridade, de mando e obediência – e retomar questões básicas sobre, por exemplo, a definição do tipo de sociedade que desejamos construir pela via democrática e as condições para que se possam converter alternativas partidárias em poder efetivo. Evidentemente, essas questões só têm sentido se forem discutidas com base na realidade brasileira, da qual a grande Vila dos Confins que se tornou o Planalto Central e seus patéticos protagonistas fazem parte.
Diante dos confins do cerrado, é preciso ser pessimista – mais precisamente, é preciso valorizar o ceticismo da razão, como condição para entender a situação em que o País se encontra e tentar mudá-lo. Há 40 anos, quando a Itália estava em situação dramática, Norberto Bobbio afirmou que, nos períodos de crise institucional, o pessimismo é um dever civil. "Deixo para os fanáticos, aqueles que desejam a catástrofe, e para os insensatos, aqueles que pensam que no fim tudo se acomoda, o prazer de serem otimistas. O pessimismo é um dever civil porque só um pessimismo radical da razão pode despertar aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros", escreveu.
O Estado de S.Paulo 21/02/2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O peso da verdade


Minha filha Júlia é absurdamente sincera comigo e, de modo geral, com todas as pessoas. A melhor palavra, aliás, é brutalmente sincera. Sei que seu estilo direto, franco, honesto e sem rodeios, mostra que ela tem mais virtudes que defeitos.

Ela não lida com a hipocrisia. Nem como exigência social. Só que preciso confessar uma coisa: a sinceridade da minha filha magoa um bocado. Procuro pensar que o problema é meu, vai ver tenho muitos defeitos, é isso.

Não consigo, porém, deixar de sofrer quando ela fala como se estivesse me insultando.  Além dela, ninguém mais me trata de modo tão honesto. Não que as outras pessoas tenham sido desonestas comigo. Não é isso.

As demais pessoas, incluindo meu marido, meus irmãos, meus amigos e minhas amigas, são moderadas e extremamente gentis. Percebo nelas, no entanto, alguma omissão, ou certos eufemismos.

Minha filha não, minha filha me insulta com a verdade. Sempre tive admiração pela sinceridade dela, mas, confesso, bastante envergonhada aliás, que eu preferia que ela fosse brutalmente sincera só com os outros.   

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Não é o destino que importa, é a viagem

Ítaca



















Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.

Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.


Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria- nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.

Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!


Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras: coral e madrepérola,
âmbar e marfim, e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.


E vai ver as cidades do Egito, para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito, que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.


É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.


Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.


Sábio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.


Poema de Constantino Cavafis, traduzido por Jorge de Sena