Todos temos coisas em nós que
reprimimos, muitas vezes porque as condenamos, outras vezes porque a sociedade
as condena.
Basta um acesso de raiva, uma frustração qualquer, para a
agressividade transbordar. Na verdade, sabemos muito pouco sobre nós mesmos. Essa é uma condição
da nossa espécie.
Lembro que explodi uma vez, há alguns anos, com
minha filha porque ela estava usando uma das minhas blusas. De forma exagerada
e desnecessária, gritei para ela tirar. Momentos depois, quase morri de culpa
ao perceber o quanto tinha sido mesquinha. Como explicar aquilo?
Eu realmente não sabia de onde
vinha toda aquela hostilidade. Fui refletir na terapia: a fúria poderia ter
vindo de algum lado obscuro e invejoso que, infelizmente, também era meu? Mesmo
relutando, tive de admitir.
Minha filha era jovem, bonita
e ficava melhor que eu naquela roupa. E, pior, eu iria morrer antes dela. Esse
era o ponto central da inveja. Assim, fui obrigada a reconhecer que havia em
mim uma sombra cruel, feia e humana. Em vez de sublime, meu interior era mau.
Quase fiquei demente de tanto
pensar nisso na ocasião, mas o terapeuta aliviou, assegurando que todos temos atitudes
agressivas de vez em quando. Mais: sombras ruins podem se manifestar até em pessoas
que, racionalmente, são as mais doces e mansas criaturas deste vale verde de
Deus.
Os ganhos democráticos dos
últimos 40 anos são de saudar, mas, lastimavelmente, o resto é vergonha junta.
Acredito que esse é o sentimento que predomina entre as pessoas da minha
geração. Andávamos pelos 20/30 anos quando a democracia chegou e ficamos
eufóricos. Íamos finalmente mudar o Brasil no Estado democrático. Nossos filhos e os filhos dos pobres teriam água limpa.
A morte de Tancredo Neves e a
derrota da centro-esquerda em 1989 fez a esperança desaparecer, mas tinhámos
liberdade e juventude, logo cada um de nós tratou da própria vida, da carreira
e da carteira. Enquanto isso, os partidos tomaram conta da política, com
inacreditável irresponsabilidade e uma corrupção crescente, contra as quais o
cidadão comum era impotente.
À nossa volta, sucessivos
governos distribuíam cargos, favores, verbas e posições na máquina pública a
homens sem qualidades que passaram a formar a "elite" política
brasileira. Os efeitos dessa pestilência, dessa degradação do poder político por
incompetência, abuso, dolo e corrupção, estão aí na Lava-Jato. Os inquéritos
estão saindo pelo ladrão na Procuradoria Geral da República.
A julgar pelas pesquisas e as
notícias das revistas e dos jornais a reação da população pode ser resumida
numa frase: não devemos confiar em nada e contar com nada. O emprego e
“crescimento da economia” são fenômenos tão míticos como os unicórnios. Não
temos escola, formação, investigação ou cultura. Omundo das ideias caiu na absoluta irrelevância.
Ganharam os lobbies, a preguiça,
a corrupção, a esperteza. E não há fio de Ariadne para nos orientar. A política
jaz ao rés do chão. A corrupção pôs em risco a beatificação de Lula e roeu tudo
à sua volta. O movimento estudantil foi tomado por arrivistas, que não o
largaram mais. A cegueira ideológica afastou a esquerda pensante das
universidades.
Dispersos, os intelectuais não
realizam o debate. No vácuo, oportunistas e truculentos se organizam para
comandar a história sem preparo ou dimensão humana. Nessa altura, ante a
corrupção descortinada pela Lava-Jato, o que se impõe é dar sequência aos
processos para estabelecer as responsabilidades por meio de julgamentos
rigorosos. A propósito: na minha opinião, os escândalos da corrupção
dificilmente serão esclarecidos.
Acho que a população
dificilmente saberá se as acusações correspondem aos fatos. O complicado é
que, na dúvida, alguns políticos poderão se sentir
encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune fosse “o
velho” e o “novo normal”. Se assim for, as dificuldades presentes vão
agravar-se no futuro próximo, mas, se formos capazes de continuar lutando e de
seguir em frente, vamos superar.
Por que a militância em um
partido ou a dedicação a uma causa leva as pessoas — em muitos
casos até as que são extremamente preparadas, cultas e legais — a ofender e a agredir
quem discorda delas? Ser filiado, militante, ou simpatizante de um partido, ou a adesão a determinada causa significa assumir algum lado obscuro da
personalidade humana?
Nietzsche dizia que só a
vontade de poder permite ao indivíduo tornar-se o que realmente é. E, assim, ele pode atingir a auto realização. Logo, a busca do poder via o caminho
político, por si só, não é erro. Cumpre reconhecer, a propósito, que há
pessoas com vocação e competência para liderar equipes e tirar projetos do
papel.
Jeremy Paxman, no livro "The
Political Animal", afirma que a realidade sobre a política, no entanto, é cruel, uma vez que existe falta de respeito generalizada contra quem busca o
poder via partidos políticos. Se a pessoa é militante da política, ela,
invariavelmente recebe algum desprezo, afirma o autor.
Acredito que para reagir a isso,
para se convencer de que está certo, de que não merece desprezo, o engajado mergulha mais fundo nas próprias crenças e convicções, passando a desenvolver certo fanatismo. Na sequência, tende a tornar-se mais radical.
O passo seguinte da
escalada: ele passa a aborrecer todos à sua volta para convencê-los com
suas razões e seus argumentos. Na avaliação de Paxman, o mundo da política
partidária acaba por criar células de pessoas à parte. São núcleos fechados, marmóreos. Funcionam como células em tudo até na simplificação dos conceitos para não admitir contestação. Não reconhecem qualquer validade das teses contrárias às suas linhas de pensamento. Não há nuances. Tampouco racionalidade. Depois de analisar
a vida de inúmeros cidadãos engajados e com posições radicais, o autor concluiu
que nessas células não existe gente heroica, confiante, iluminada ou mesmo com sabedoria.
Segundo ele, o grosso da
militância abriga graves exemplos de criaturas anedóticas, histéricas,
obsessivas e complexadas. E a maioria sem uma satisfatória vida pessoal.
Parcela
significativa dos fanáticos falha na solução das neuroses pessoais e tenta se consolar dizendo
que resolverá os problemas do mundo. A suposta preocupação com o mundo pode fazer
dessas células verdadeiras “castas de salvadores” com os olhos vendados por suas ideologias. Claro que pessoas assim não mudam e, dificilmente, mudarão para melhor algo à sua volta.
Passou despercebido dos cadernos culturais dos jornais, em 2016, o 60.º aniversário de Vila dos Confins, um livro singular de Mário Palmério, nascido da confluência entre ficção e realidade e que trata da política miúda protagonizada por coronéis, jagunços e cabos eleitorais com suas práticas conhecidas, como trocas de favores, compra de votos, intimidações e fraudes de todo tipo.
O livro, cujo enredo é a manipulação do processo político num remoto lugar do sertão mineiro, fez sua época, levou o autor à Academia Brasileira de Letras, mas hoje é pouco lembrado. Talvez porque o universo de que trata, uma cidadezinha dos grotões recém-alçada à condição de município, tenha sido substituído por Brasília, a capital do País inaugurada poucos anos após sua primeira edição.
Apesar das diferenças de escala, há muita coisa em comum nos dois universos – até porque, em Brasília, do chefe do Executivo aos integrantes do Legislativo, passando pela juíza aposentada que exibe título jamais conquistado ou pelo luminar jurídico que, se confirmadas as denúncias de plágio, careceria de reputação ilibada e notório saber jurídico para ascender a ministro de Corte Suprema, todos olham o mundo não do alto de uma montanha, mas da altura de um rodapé, como os personagens de Vila dos Confins.
Ainda que espertos, a ponto de patrocinarem projetos de lei que retiram prerrogativas da Justiça Eleitoral e revogam normas penais com base nas quais podem ser condenados por seus ilícitos, os personagens dos confins brasilienses são intelectualmente toscos e moralmente abjetos. Praticam uma política degradada, em que não há espaço para o exercício de virtudes públicas e compromissos cívicos – uma política praticada num círculo fechado, hipócrita e distante do mundo real.
Esse cenário encerra questões incômodas. Será a sociedade brasileira tão ruim quanto seus representantes? Quase três décadas depois da promulgação de uma Constituição que sepultou o autoritarismo, o que explica incapacidade do regime democrático para construir um poder público legítimo e eficiente? Por que as instituições não conseguem evitar a captura do poder público por presidiários, corporações, parlamentares esfaimados e empreiteiras? O denominador comum dessas indagações é um certo surrealismo.
Quem optou por Dilma em 2014 também votou no esquema que levou Angorás, Cajus e Lupinões a ocupar cargos estratégicos. A democracia conta com sistemas de contrapesos para proteger os interesses da sociedade e evitar efeitos desastrosos de decisões desinformadas. Mas eles às vezes falham. E quanto mais duradoura é uma decisão tomada por sistemas falhos, maiores são as dificuldades a superar. De que modo um processo democrático pode ser representativo se seus sistemas de controle nem sempre funcionam, como se está vendo com as tentativas de frear as investigações do órgão encarregado pela Constituição de defender a ordem jurídica e a moralidade pública?
Assim, mesmo que a economia volte a crescer, as decisões políticas desastrosas tomadas por dirigentes e parlamentares com escasso capital político acarretam indignação e revolta. O perigo de tanta aversão à política é o da sedução aos encantos da antipolítica. É a ideia de que a política seria prescindível, podendo ser substituída por gestores. Obviamente, ainda que precise ser submetida a um processo de depuração ética, em hipótese alguma a política é prescindível, pois implica diferenças, conflitos, aprendizado com frustrações e direitos, por um lado, e negociações, compromissos, alianças, pactos e interesses compartilhados, por outro. Esforçando-se para superar os desencantos que o tempo carrega e acreditando que a participação democrática abre a todos a possibilidade de ascender ao poder e governar, há quem diga que a depuração ética pressupõe não só renovação da classe política, mas, igualmente, seu rejuvenescimento.
Consciente da importância das noções de pluralismo ideológico e da alternância do poder para a efetividade do regime democrático, também há quem lembre que a regeneração democrática requer uma reavaliação das formas de legitimação das relações entre governantes e governados. E há ainda quem diga que, na medida em que a democracia é um mecanismo de vigilância, crítica e protesto, permitindo assim a identificação das fontes de corrupção, a política é a aprendizagem da decepção. Quanto mais eficiente é seu funcionamento, mais decepções e desenganos ela propicia.
São argumentos conhecidos. Para assegurar o sucesso do processo de regeneração democrática e permitir que a política volte a estar à altura do que dela se espera, em matéria de representatividade e responsabilidade, é preciso reduzir o fenômeno político aos seus componentes básicos – as relações de força, de autoridade, de mando e obediência – e retomar questões básicas sobre, por exemplo, a definição do tipo de sociedade que desejamos construir pela via democrática e as condições para que se possam converter alternativas partidárias em poder efetivo. Evidentemente, essas questões só têm sentido se forem discutidas com base na realidade brasileira, da qual a grande Vila dos Confins que se tornou o Planalto Central e seus patéticos protagonistas fazem parte.
Diante dos confins do cerrado, é preciso ser pessimista – mais precisamente, é preciso valorizar o ceticismo da razão, como condição para entender a situação em que o País se encontra e tentar mudá-lo. Há 40 anos, quando a Itália estava em situação dramática, Norberto Bobbio afirmou que, nos períodos de crise institucional, o pessimismo é um dever civil. "Deixo para os fanáticos, aqueles que desejam a catástrofe, e para os insensatos, aqueles que pensam que no fim tudo se acomoda, o prazer de serem otimistas. O pessimismo é um dever civil porque só um pessimismo radical da razão pode despertar aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros", escreveu.
Minha filha Júlia é absurdamente sincera comigo e, de modo
geral, com todas as pessoas. A melhor palavra, aliás, é brutalmente sincera. Sei
que seu estilo direto, franco, honesto e sem rodeios, mostra que ela tem mais
virtudes que defeitos.
Ela não lida com a hipocrisia. Nem como exigência social. Só que
preciso confessar uma coisa: a sinceridade da minha filha magoa um bocado. Procuro
pensar que o problema é meu, vai ver tenho muitos defeitos, é isso.
Não consigo, porém, deixar de sofrer quando ela fala como se
estivesse me insultando. Além dela,
ninguém mais me trata de modo tão honesto. Não que as outras pessoas tenham
sido desonestas comigo. Não é isso.
As demais pessoas, incluindo meu marido, meus irmãos, meus
amigos e minhas amigas, são moderadas e extremamente gentis. Percebo
nelas, no entanto, alguma omissão, ou certos eufemismos.
Minha filha não, minha filha me insulta com a verdade. Sempre
tive admiração pela sinceridade dela, mas, confesso, bastante envergonhada
aliás, que eu preferia que ela fosse brutalmente sincera só com os outros.
Quando partires de regresso a Ítaca, deves orar por uma viagem longa, plena de aventuras e de experiências. Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros, um Poseidon irado – não os temas, jamais encontrarás tais coisas no caminho, se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime teu corpo toca e o espírito te habita. Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros, Poseidon em fúria- nunca encontrarás, se não é na tua alma que os transportes, ou ela os não erguer perante ti. Deves orar por uma viagem longa. Que sejam muitas as manhãs de Verão, quando, com que prazer, com que deleite, entrares em portos jamais antes vistos! Em colónias fenícias deverás deter-te para comprar mercadorias raras: coral e madrepérola, âmbar e marfim, e perfumes subtis de toda a espécie: compra desses perfumes o quanto possas. E vai ver as cidades do Egito, para aprenderes com os que sabem muito. Terás sempre Ítaca no teu espírito, que lá chegar é o teu destino último. Mas não te apresses nunca na viagem. É melhor que ela dure muitos anos, que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho, e sem esperar que Ítaca te dê riquezas. Ítaca deu-te essa viagem esplêndida. Sem Ítaca, não terias partido. Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te. Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu. Sábio como és agora, senhor de tanta experiência, terás compreendido o sentido de Ítaca.
Poema de Constantino Cavafis, traduzido por Jorge de Sena
Ficou fácil jogar pedra em tudo que diz respeito aos últimos dez, doze anos. Os erros foram muitos e todos que estavam no comando merecem as condenações que recebem. Em política é assim mesmo, 8 ou 80.O clubismo impera no Brasil e em todos os lugares.
Muita desta raiva vem de uma certeza: hoje os cofres estão vazios, os melhores dias estão no passado e as perspectivas são sombrias.
É bem verdade que muitos que atiram pedras estão muito bem, uma vez que aproveitaram os anos de ouro para se incrustar em lugares de nomeação ou influência governamental por meio de partidos aliados ao ex-governo. E vão continuar lá jogando na política e aproveitando a engrenagem. O sistema é bom para as minorias corporativas. Só maiorias indefesas dão mais do que tiram. O cenário agora é o seguinte: ou se é petista ou se é golpista. Como antes ou se era golpista, ou se era petista. Vale dizer: tudo segue igual, previsível e muito errado na política. Ontem, como hoje, não há respeito a quem não se alia a lado nenhum porque se recusa a escolher entre duas opções ruins. Entre a peste e a cólera, para dizer de forma clara.
O lado que ganhou esquece que as pesquisas de opinião mostram com muita clareza que muita gente ultrapassou os argumentos mesquinhos da guerra PSDB/PMDB/PT e tem sim simpatia por alguns traços do projeto anterior. Gente que sabe muito bem que o governo anterior existiu por várias razões e uma delas é que o Brasil precisava de um assomo qualquer de dignidade nacional, precisava ter rotatividade democrática para ser respeitado pelo resto do mundo.
Alguém aí tem dúvidas sobre a tendência de FHC por Lula em 2002? Ele queria ser patrono desta rotatividade perante o planeta. Enganam-se portanto, se acham que estou falando de esquerdistas enrustidos. Estou falando de gente de centro, de centro-direita e até da esquerda. Estou falando de gente que tem plena consciência que o Brasil precisava sim romper o ciclo de uma elite política autoritária e escassamente democrática que se revezava no poder por meio de acordos e armações governamentais há tempo demais.
Estou falando de gente esclarecida que sabe muito bem que existe uma "maioria silenciosa" no Brasil que buscou a ruptura com o PT e perdeu. Sim, perdeu, mas continua apostando na construção de um governo de afirmação nacional, de independência, de soberania. Gente que sabe que não vamos conseguir isso com pseudo líderes extremistas (à direita ou à esquerda). Sabe, igualmente, que não se constrói um governo assim com líderes amestrados, patriotas de boca para fora e empáfia que aceitam tudo, assinam tudo e colaboram com tudo que nos empurram goela abaixo.
Não é por acaso que o Brasil continua esperando um governo que combata a desigualdade, a impunidade, a criminalidade a submissão e a bovinidade. Sim, esperamos por um governo que tenha a coragem de não renegar nossas aspirações por dignidade nacional. Um governo que lute com valentia para buscar a honra perdida da Nação resgatada pelo povo. Que os anjos digam Amém.
Mesmo que tenha dezenas de bibliotecas, universidades, orquestras, inúmeros escritores e poetas, um País indiferente ao sofrimento das pessoas não é uma Nação de cultura democrática, mas um lugar de barbárie.
Acho, sinceramente, que se o Brasil não melhorar a desigualdade extrema e a crueldade com que trata os pobres, nosso País não será mais visto como democracia. Como uma das maiores economias do mundo segue sendo tão corrupta e tão incapaz de adotar um projeto para reduzir a pobreza e a desigualdade?
É muita indiferença e descaso. Um País indiferente costuma ser egoísta e classista, do tipo que divide a população entre cidadãos de primeira e de segunda classe em razão da pobreza. Normalmente são nações insensíveis, como a nossa, que adotam sistemas de castas e de privilégios.
O mesmo vale para todos os demais países da Europa, da América do Norte e dos demais continentes. De nada adianta ter toda a cultura do mundo, no caso da Europa, e todo o dinheiro e toda a tecnologia do planeta, no caso dos Estados Unidos, se a população for indiferente a dor dos outros.
No caso dos Estados Unidos da América: se adotarem mesmo o rumo do egoísmo o País deixará de ser grande a Nação da democracia que é para ser um País de mercadores e de mercenários. Isso vai significar uma regressão histórica jamais vista.
Não há povo mais rico que o norte-americano.Basta olhar o prato de um norte-americano para ver o desperdício, mas o novo presidente dos Estados Unidos reclama mais vantagens. Sou só uma cidadã, mas acho que esse tipo de discurso da indiferença total com a dor de quem nada tem deve ser recusado e combatido.
Eu resolvi ser jornalista porque
acreditava que seria melhor para mim do que ser professora, advogada, ou dona
de um restaurante. Tinha vocação para qualquer um desses nobres ofícios. Fiquei
com o jornalismo e não me arrependi. Pensei nisso hoje, ao lembrar a morte
de Elis Regina.
O Brasil deve muito a Elis mas
não foi para que o Brasil lhe devesse alguma coisa que ela se tonou a maior
cantora do país. Ela buscou sua vocação e, felizmente, fez (e faz) a felicidade de
todos que podem ouvir sua linda voz de mezzo-soprano
com um fundo levemente metálico e vagamente rouco.
Tenho me despedido de Elis há
mais de três décadas ouvindo seus discos e lembrando sua figura miúda e explosiva
no palco, exatamente como a vi uma vez em Brasília. Quatro anos antes, numa
tarde chuvosa em que fui pela primeira vez a São Paulo, foi sua voz que
me consolou da ausência de sol e da impossibilidade de qualquer passeio.
Sempre fui apaixonada por Elis. Gostava
tanto das suas qualidades como dos seus defeitos. Sinto enorme gratidão pelas
alegrias que tenho ao ouvir seu lindo canto e reconheço a absoluta importância
desta cantora que foi maior do que o seu país.
Só lamento não poder lembrar Elis
como uma mulher feliz e não apenas como cantora de sucesso. Sim, gostaria
muitíssimo de pensar nela brincando com suas crianças, acordando de uma soneca,
lendo um livro, vendo um filme ou rindo de alguma anedota. Não é o que acontece.
Só lembro de uma Elis sofrida, inquieta,
tensa e preocupada com o futuro. Alguém que se sacrificou pela própria carreira
e pela carreira dos jovens compositores que lançava. Uma cantora que insistia
em ser cidadã marcada pelo inconformismo, que estava sempre angustiada com
o Brasil. Vale dizer, uma pessoa, como tantos de nós, que não conseguia ser feliz
como podia.
"Há, nos olhos meus, ironias e
cansaços" diz o belíssimo verso de José Régio. É mais ou menos o
que venho sentindo sobre as conversas políticas. Entrei para a cobertura de política no
final da década de 80,formada jornalismo, aos 22 anos. Ali permaneci por três décadas. Tive a honra de cobrir a Assembleia
Constituinte, vi a queda dos militares, o
retorno das diretas e dos exilados, acompanhei dois impeachment.
Estou há mais de dez anos em
assessoria de imprensa em Brasília. Acho, sem arrogância, que a política interessa-me
com um sentido um pouco mais forte do que interessa a todos.
Acredito que a política garante os valores
da liberdade e as normas democráticas, que constituem legado da civilização
edificada pelos humanos e que deve valer para todos de forma indisputável e
pacífica.
Não concordo com quem leva a
política para a praça pública com o intuito de apedrejá-la até o último suspiro
porque muitos dos seus líderes afastaram-se dos ideais nobres e das causas
públicas.
Da política fizeram parte homens
como o admirável Winston Churchill e o ditador Augusto Pinochet,
além de milhares de cidadãos decentes
que nada tiram e tudo dão. Há na política de tudo. E há sobretudo quem esteja nela
pelas mais díspares razões, incluindo as moralmente honestas.
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali...
A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tetos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí!
José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estreia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.
As
estatísticas macabras sobre a violência que enchem de dor e de tristeza o dia a dia de inúmeras famílias e que mancham de sangue a imagem do País
De janeiro de 2011 a dezembro de 2015, 278.839 pessoas
foram mortas no País, número maior do que o de mortos na guerra da Síria, onde
256.124 morreram no mesmo período. Para avaliar o impacto deste fato: uma pessoa
é assassinada a cada 9 minutos no Brasil. Ao longo de um dia ocorrem 160 assassinatos.
Em 2016, foram mortos violenta e intencionalmente 58.383 brasileiros.
Os estados das regiões Nordeste e Norte lideram o ranking com
altas taxas de assassinatos. Os primeiros cinco colocados: Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará e Pará. Os estados que
registraram as menores taxas de mortes violentas intencionais foram São Paulo
(11,7), Santa Catarina (14,3) e Roraima (18,2).
Em 2015, das 50 cidades com maior taxa de homicídios por 100
mil habitantes, um total de 21 são brasileiras. Fortaleza
é a cidade mais violenta. Em seguida vem Natal, depois Salvador
e região metropolitana e João Pessoa.
Das 50 cidades, nada menos que 41 ficam na América Latina: 21 no
Brasil, 8 na Venezuela, 5 no México, 3 na Colômbia, 2 em Honduras, uma em El
Salvador e uma na Guatemala. Outros países com cidades na lista são África do
Sul, Estados Unidos e Jamaica.
AS CIDADES MAIS VIOLENTAS DO MUNDO
1° - Caracas (Venezuela) - 119.87 homicídios/100
mil habitantes
2° - San Pedro Sula (Honduras) - 111.03
3° - San Salvador (El Salvador) - 108.54
4° - Acapulco (México) - 104.73
5° - Maturín (Venezuela) - 86.45
6° - Distrito Central (Honduras) - 73.51
7° - Valencia (Venezuela) - 72.31
8° - Palmira (Colômbia) - 70.88
9° - Cidade do Cabo (África do Sul) - 65.53
10° - Cali (Colômbia) - 64.27
11° - Ciudad Guayana (Venezuela) - 62.33
12° - Fortaleza (Brasil) - 60.77
13° - Natal (Brasil) - 60.66
14° - Salvador e região metropolitana (Brasil) -
60.63
15° - ST. Louis (Estados Unidos) - 59.23
16° - João Pessoa; conurbação (Brasil) - 58.40
17° - Culiacán (México) - 56.09
18° - Maceió (Brasil) - 55.63
19° - Baltimore (Estados Unidos) - 54.98
20° - Barquisimeto (Venezuela) - 54.96
21° - São Luís (Brasil) - 53.05
22° - Cuiabá (Brasil) - 48.52
23° - Manaus (Brasil) - 47.87
24° - Cumaná (Venezuela) - 47.77
25° - Guatemala (Guatemala) - 47.17
26° - Belém (Brasil) - 45.83
27° - Feira de Santana (Brasil) - 45.50
28° - Detroit (Estados Unidos) - 43.89
29° - Goiânia e Aparecida de Goiânia (Brasil) -
43.38
30° - Teresina (Brasil) - 42.64
31° - Vitória (Brasil) - 41.99
32° - Nova Orleans (Estados Unidos) - 41.44
33° - Kingston (Jamaica) - 41.14
34° - Gran Barcelona (Venezuela) - 40.08
35° - Tijuana (México) - 39.09
36° - Vitória da Conquista (Brasil) - 38.46
37° - Recife (Brasil) - 38.12
38° - Aracaju (Brasil) - 37.70
39° - Campos dos Goytacazes (Brasil) - 36.16
40° - Campina Grande (Brasil) - 36.04
41° - Durban (África do Sul) - 35.93
42° - Nelson Mandela Bay (África do Sul) - 35.85
43° - Porto Alegre (Brasil) - 34.73
44° - Curitiba (Brasil) - 34.71
45° - Pereira (Colômbia) - 32.58
46° - Victoria (México) - 30.50
47° - Johanesburgo (África do Sul) - 30.31
48° - Macapá (Brasil) - 30.25
49° - Maracaibo (Venezuela) - 28.85
50° - Obregón (México) - 28.29
Fonte:
10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
“Porque, sendo livre e não pertencendo a ninguém, fiz-me de escravo de todos, para ganhar muitos deles. Para os judeus, fiz-me de judeu, para ganhar os judeus; para aqueles observadores da lei, me tornei alguém observador da lei (embora não tivesse de observar a lei), para ganhar os observadores da lei. Para os que não observam a lei, me tornei alguém que não observa a lei (apesar de não estar livre da lei de Deus e observando a lei de Cristo), para ganhar os que não observam a lei. Fiz-me de fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para, por todos os meios, chegar a salvar alguns”.
Carta de Paulo aos coríntios (1 Coríntios 9:19-23), Bíblia Sagrada - Edição 2013 Vozes
Se fosse vivo, Alexandre O'Neill estaria completando noventa e um anos depois de amanhã, 19 de dezembro. Era poeta, cronista e publicitário. Escreveu textos magníficos. Até o epitáfio que sugeriu para seu túmulo era genial:
Quando minha irmã morreu eu chorei muito e me consolei depressa. Tinha um vestido novo e moitas no quintal onde eu ia existir. Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento. Tinha uma perturbação recém-achada: meus seios conformavam dois montículos e eu fiquei muito nua, cruzando os braços sobre eles é que eu chorava. Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei. Busquei retratos antigos, procurei conhecidos, parentes, que me lembrassem sua fala, seu modo de apertar os lábios e ter certeza. Reproduzi o encolhido do seu corpo em seu último sono e repeti as palavras que ele disse quando toquei seus pés: ´deixa, tá bom assim´. Quem me consolará desta lembrança? Meus seios se cumpriram e as moitas onde existo são pura sarça ardente de memória.
Poema integra o livro "Bagagem", de Adélia Prado, publicado pela Editora Record que reedita toda a obra da poeta.
PS: Adélia Prado faz 82 anos hoje. Fiquei comovida ao ler que é dia do seu aniversário. Eu a acompanho há anos e tudo dela me comove. Em 2006, muita gente chorou quando a escritora mineira Adélia Prado leu, pela primeira vez, "As Mortes Sucessivas" para a plateia da 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Foi um momento inesquecível e emocionante.
Um dos grandes amigos que tenho, o ex-senador Jorge
Bornhausen será homenageado amanhã em Santa Catarina com a medalha Anita
Garibaldi, a maior condecoração do Estado. Ele faz por merecer os aplausos
que lhe são concedidos. Durante seis ou sete anos tive a honra de fazer
parte da sua equipe (assessoria de imprensa) no Senado. Só tenho a agradecer pela honrosa convivência.
Quem
só o enxerga de longe, vê a imagem de um político severo, mas ele é extremamente
gentil no convívio pessoal, além de um amigo leal e generoso. Nunca dei por intervenção
sua que fosse inoportuna ou banal. Ele sempre está à altura dos fatos, das
conversas e dos debates. Age com cautela e sabedoria, mas não teme a polêmica. Exigente, mas capaz de reconhecer o esforço dos outros,
é rigoroso e combate a ideia de uma cultura sem esforço e sem disciplina. Racional,
recebe críticas injustas, mas não se queixa porque sabe que todo o poder tem
preço e quem vai à guerra dá e leva. Por essa razão, mesmo sendo firme em suas
convicções políticas, reserva espaço para o contra-ataque dos adversários.
Sei que
o uso manda que em períodos de homenagens se enalteçam apenas as virtudes, mas
na minha amizade pelo ex-senador não cabe a hipocrisia. Seria diminuí-lo dizê-lo infalível. Ninguém o é. Como
a maioria de nós ele erra. Mas em muito ele se distingue do comum: pela
inteligência, pelo conhecimento, pela clareza do raciocínio, a gentileza e o sentido público.
Jorge Bornhausen gosta muito mais do Brasil do que o Brasil
gosta dele. Ele é forte sem precisar fazer ninguém de fraco. Nunca
o vi usar sua inteligência, os cargos que conquistou na política ou
sua dimensão humana para diminuir quem quer que seja. É por estas
e muitas outros razões que cumprimento o Governo de Santa Catarina pela
homenagem a Jorge Bornhausen, um brasileiro extraordinário que põe a integridade acima dos jogos e interesses da política.
Em 1989, militantes do Partidão convocaram
uma reunião no Rio para avaliar a campanha de Roberto Freire à Presidência da
República.
Um dos presentes disse a Freire que ele não deveria falar que
não acreditava em Deus porque, se ficasse repetindo isso, correria o risco de não ir ao segundo
turno da disputa. Todo o mundo ficou em silêncio mas antes que Freire respondesse, Ferreira Gullar disse, do fundo da sala, com aquele
vozeirão:
- Mesmo porque Roberto, se você for ao
segundo turno, Deus existe!
Ferreira Gullar morreu hoje, 4 de dezembro de 2016. Era o maior poeta vivo da literatura
brasileira. Sua poesia engajada – ele sempre foi do Partidão - era um importante instrumento de denúncia social desde
1950. Ele pertencia ao Centro Popular de Cultura (CPC), grupo de intelectuais de esquerda
criado em 1961, no Rio de Janeiro, cujo objetivo era defender o caráter
coletivo e didático da obra de arte, bem como o engajamento político do
artista. Perseguido pela ditadura militar, Ferreira Gullar exilou-se
na Argentina durante os anos de repressão. Em 2014, aos 84 anos, foi eleito
imortal da Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira de número 37, que
pertencera ao escritor Ivan Junqueira, morto nesse mesmo ano.
Não há vagas
Não há vagas
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.
Poema: Traduzir-se – Ferreira Gullar
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?
Poema: No corpo – Ferreira Gullar
No corpo
De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
Poema: Poemas Neoconcretos I –
Ferreira Gullar
Poemas Neoconcretos I
mar azul
mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul
Poema: Aprendizado – Ferreira Gullar
Aprendizado
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
Poema: Um Instante – Ferreira Gullar
Aqui me tenho/ Como não me conheço/ nem me quis/ sem começo/
nem fim/ aqui me tenho/ sem mim/ nada lembro/ nem sei/ à luz presente/ sou
apenas um bicho/ transparente.
Poema: Subversiva – Ferreira Gullar
Subversiva
A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.
Poema: Os mortos – Ferreira Gullar
Os mortos
os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos
eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias
Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça
Poema: Cantiga para não morrer –
Ferreira Gullar
Cantiga para não morrer
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Poema: Prometi-me Possuí-la –
Ferreira Gullar
Prometi-me Possuí-la
Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,
entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se temesse ou me odiasse.
Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos
das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo — deuses frágeis —
eu colho a ausência que me queima as mãos.
[Poemas Portugueses]
Poema: Extravio – Ferreira Gullar
Extravio
Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.
Poema: Madrugada – Ferreira Gullar
Madrugada
Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite
a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes.
Neste Leito de Ausência – Ferreira
Gullar
Neste Leito de Ausência
Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.
Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.
[Poemas Portugueses]
Meu povo, meu poema – Ferreira Gullar
Meu povo, meu poema
Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova
No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar
No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro
Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil
Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta
Poema: MINHA MEDIDA – Ferreira Gullar
MINHA MEDIDA
Meu espaço é o dia
de braços abertos
tocando a fímbria de uma e outra noite
o dia
que gira
colado ao planeta
e que sustenta numa das mãos a aurora
e na outra
um crepúsculo de Buenos Aires
Meu espaço, cara,
é o dia terrestre
quer o conduzam os pássaros do mar
ou os comboios da Estrada de Ferro Central do Brasil