domingo, 13 de novembro de 2016

Eu, a América e Donald Trump


Muita gente boa escreveu sobre a vitória de Donald Trump. Sei menos da história dos Estados Unidos do que gostaria, mas também tenho observações. Acho que nada nos Estados Unidos deve ser visto de uma única maneira, uma vez que os norte-americanos agem c/ duplicidade: falam em liberdade/democracia e patrocinam ditadores.

Invocam os direitos humanos e adotam a pena de morte. Além disso, lucram vendendo armas para quem estiver interessado. Sem esquecer que argumentam sobre soberania, mas, não hesitam em invadir o território dos outros. Seriam então os Estados Unidos piores do que outras nações? Não. No contexto internacional não há santidade. A duplicidade faz parte da política, notadamente da política externa. Não há Estados inocentes.  

Donald Trump assusta por ser fanfarrão, trapalhão e ignorante em política internacional. O cenário com ele sinaliza isolacionismo da única superpotência do planeta. Acho, porém, que Trump parece tão interessado em ganhar, em ser sempre campeão, que pode ir melhorando com os dias e até mostrar-se à altura do posto que conquistou.

O compromisso de Trump contra o terrorismo não difere das promessas dos demais republicanos que ocuparam a Casa Branca e não deixaram o mundo acabar. A propósito: eles contam com grandes quadros, caso de Colin Powell, por exemplo. São quadros que, no caso da guerra ao terror, não são pacifistas e tampouco neófitos. O Estado Islâmico é a besta a enfrentar e, nesta guerra, tenho lado. Torço pelo triunfo de Trump e da América.

domingo, 6 de novembro de 2016

Reflexões sobre a entrevista de Sérgio Moro

Li a entrevista do juiz Sérgio Moro no jornal O Estado de S. Paulo neste domingo, 6 de novembro de 2016. Estou impressionada com sua segurança e seu estilo direto: ‘Jamais entraria para a política’, ele disse. Acredito que o Meritíssimo Juiz sabe que, ao dizer isso, está excluindo a Política dos caminhos mais nobres a serem trilhados. Eu diria até que algumas pessoas poderão entender a afirmação como “demonização” da política.

Discordo tão completamente das suas palavras neste ponto que resolvi manifestar minha opinião: só por meio da Política o Brasil vai se inserir no espaço civilizacional que mais consolidou a dignidade do ser humano. Aliás, apesar de todos os obstáculos, o País deve aos seus governos realizações e avanços significativos no aspecto social, econômico, cultural, e até, embora menos, no aspecto político. Pena que tudo o que se fez não foi suficiente.

O Meritíssimo juiz está tentando dar um basta no colapso de credibilidade do sistema judicial brasileiro e está fazendo renascer a esperança do sonho de reformar, reconstruir e reabilitar a confiança neste pilar do Estado de Direito que estávamos diariamente a deixar de ser. Não posso, contudo, celebrar sua visão excludente da Política. Nada legitima nem justifica a exclusão da Política como um dos principais espaços para o exercício da vida pública.

O que um jovem vai pensar ao ler a manchete do Estadão de hoje? Acho que poderá concluir que a Política não presta. O juiz até disse que não vê demérito na Política, mas o fato de dizer que “jamais” trilharia um caminho, acaba por condená-lo, levando em conta o peso e a dimensão de suas palavras.

Sérgio Moro faz parte de uma geração que nasceu com liberdade. Uma geração que deve à Política a liberdade de pensar, participar e discordar. Uma geração que exerce esse tributo com gosto e naturalidade. Não é por acaso que ele, acertadamente, avança contra a impunidade e a corrupção sem vênias aos que se consideram proprietários do Brasil e sem reconhecer qualquer autoridade aos que manipulam as leis para desviar recursos públicos.

Ele age da forma que age porque pode fazê-lo e isso se deve à Política. Mas, será que importará defender a política mesmo tão desacreditada? Acho que sim, até para homenagear os antepassados que garantiram aos brasileiros, além da liberdade individual, a liberdade enquanto povo soberano. Importa também para lembrar as personalidades e organizações civis que ao longo de décadas se bateram pela justiça e equidade.

Importará fazê-lo, ainda, para um momento de estímulo à reflexão sobre a nossa realidade e os nossos erros cujos responsáveis, em primeira linha são os políticos, as direções partidárias e os integrantes da elite empresarial. Mas, responsáveis são, em menor grau, os cidadãos e a Sociedade Civil porque não cuidaram de desenvolver uma colaboração exigente com o Estado.

Os brasileiros, obviamente com exceções, não respondem bem à sua responsabilidade social. A nós, e só a nós – Estado, sistema político, Sociedade Civil e mercado; enfim, partidos políticos e cidadãos – cumpre a ação e a responsabilidade de enfrentar e vencer os desafios. Somos nós (todos nós) que fazemos o nosso destino.

Aliás, o Meritíssimo juiz faz política ao usar a força e a influência que merecidamente conquistou na República para condenar o foro privilegiado, o projeto de lei do abuso de autoridade e a criminalização do caixa dois como formas de combater a impunidade e a corrupção. Tudo certo. Temos mais é de agradecer pela sua luta para resgatar a decência e a honestidade no nosso País.

A propósito: a resposta que Moro dá aos seus críticos é primorosa: “Processo é questão de prova. É errado tentar medir a Justiça por réguas ideológicas. Se a pessoa é culpada ou não, não importa se ela é de esquerda, se é de direita, se ela é de centro, tampouco importa se o juiz é de direita, se é de esquerda ou se é de centro.”

Eu também lamento que a liberdade do nosso país, uma oportunidade que devia ser de todos, tenha servido muito mais aos desonestos que não hesitaram em tentar conformar a Justiça; clientelizar o voto e condicionar a autonomia das instituições. Não é por acaso que cada vez menos brasileiros acreditam nas palavras de quem quer que seja, a começar pela dos políticos.  

É isso. A proteção da nossa liberdade implica políticas mais firmes, leis mais realistas e tribunais mais eficazes, mas só na Política podemos promover uma cultura social diferente, fazendo com que cada direito corresponda a um dever e cada liberdade corresponda a uma responsabilidade.  Só assim vamos reinventar nosso destino.

Vanda Célia


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Prezados Prefeitos!


Prezados prefeitos eleitos,

Prezadas prefeitas eleitas,

Não se esqueçam que o Brasil tem carência de engenheiros, cientistas e pesquisadores. Não gera tecnologia própria em quase nenhum setor. Na verdade, o trabalhador brasileiro tem a escolaridade média dos países mais pobres do planeta. Parcela significativa de adolescentes brasileiros de 15 anos não consegue escrever um bilhete nem fazer um cálculo que não seja adição. 

Melhoramos em muitos aspectos sim, mas há muito a fazer. Metade dos domicílios está sem acesso a esgoto. E a violência cresceu demais nos últimos anos. No período de 2011 a 2015,  278.839 brasileiros foram vítimas da violência, número superior aos 256.124 mortos no conflito da Síria. Em cinco anos, nosso País teve mais assassinatos que a Síria. 

A insegurança impede a cidadania. Prefeitos devem participar sim, por meio da organização e do treinamento de guardas municipais, da luta contra o aumento da criminalidade e no combate às drogas ilícitas. Ninguém está dispensado de participar da guerra contra a violência. 

A vida das pessoas não está nada fácil. O trânsito anda infernal e a espera exaspera.

O melhor caminho é investir em Educação e fazer reformas para combater o desperdício e a corrupção. As máquinas públicas podem e devem prestar bons serviços de Saúde e Educação, além de investir em programas que gerem emprego e renda. Um bom ambiente nas cidades vai melhorar, com certeza, o futuro de todos. 

A desigualdade é o mal a enfrentar. Em todos os momentos e em todas as áreas. Cidade nenhuma será boa para os visitantes se não for boa para seus moradores. Os melhores prefeitos são próximos, vão à feira, ao posto de saúde e visitam as escolas e as obras de saneamento. Ser prefeito é ser uma espécie de irmão mais velho do cidadão. 

Muitas coisas estão sendo feitas na área social, conforme atestam os resultados do IBGE, mas há muito trabalho a fazer. Coisa boa de comemorar, por exemplo, é a queda da desigualdade. O índice de Gini vem continuamente caindo no Brasil, mas o ritmo é muito lento. Prefeitos e prefeitas podem acelerar esta queda com coragem, força e perseverança. 

Uma pessoa pode mover para melhor o mundo de outras pessoas, se souber mover direito. A prefeitura é a instância de poder mais próxima das pessoas. Essa proximidade faz do prefeito o vizinho que pode acudir na hora do aperto e ajudar os que dependem do poder público para garantir a sobrevivência. Espero que cuidem dos aflitos, os que mais precisam de cuidados. 

Como minha formação é na área da imprensa, não posso encerrar sem uma palavra a respeito: informem as pessoas. O exercício da vida pública exige transparência e implica tolerância com a liberdade de opinião dos outros, uma das condições da vida democrática. Ouçam as críticas com interesse e paciência. Em algumas vezes, quem critica pode ajudar até mais do que o pessoal que só bajula.


É isso, muita obrigada pela atenção,

Vanda Célia, cidadã brasileira

sábado, 22 de outubro de 2016

Aos filhos, por Jorge Sena

"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena
Carta a meus filhos
Sobre os fuzilamentos de Goya

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Tolerância

A democracia é para todos e a culpa é dos gregos, não há o que fazer a respeito. Por essa razão tenho certa birra daqueles que proclamam a democracia como se fossem donos dela, mas na hora do voto na urna preferiam que só eles (e os que pensam como eles) pudessem votar. Tem gente assim em todas as correntes de opinião. Para identifica-los basta prestar atenção naqueles que vivem criticando as opções de voto dos outros quando a democracia indica um caminho contrário ao que desejavam. A boa notícia é que existe cura para este mal: tolerância. Sim, tolerância. A democracia é para todos. É chato, mas é assim que é. E assim deve ser.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nevoeiro, Fernando Pessoa

NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
Fernando Pessoa

domingo, 2 de outubro de 2016

Declaração de voto


Meu candidato à Presidência da República em 2018 deve ousar contrariar o centrismo dominante, o direitismo reacionário e o esquerdismo ultrapassado. E que Deus me livre e guarde de quem busca a política para renegar a política. Nossos erros já duram demais. Fora da política não há solução política.
Gostaria de ler programa conjugando valores conservadores (trabalho & propriedade) e liberais (menos impostos, menos poder sindical) com forte inclusão social. Gostaria também de ouvir um candidato dizendo «os nossos amigos norte-americanos» com altivez, sem ironias e provocações inócuas, mas, sobretudo, sem ser servil e obediente. 

A política externa deveria ser prudente e corajosa, incluindo temas da imigração e da segurança. E todo o seu sentido deve ser no combate à desigualdade. A desigualdade é um tema que não deve ser monopólio dos setores radicais, nem reclama respostas radicais, mas exige saídas responsáveis e imediatas, de curto e médio prazo.

Defenderei um candidato com a retórica da grandeza(compatível com a nossa geografia) que tenha coragem para respirar autoridade, sem abraçar o atraso, o autoritarismo e a  truculência. Que abrace ideias novas ou esquecidas, mas que renegue e abomine a violência, a criminalização dos pobres e dos que precisam do Estado.

Lamentavelmente, setores de centro, incluindo o centro-esquerda, e quase todos os campos à direita, adotam a onda da não-política. Levam em conta que a população, nessa altura, só quer as delícias da televisão e do consumismo. E acham que podem levar vantagem porque a maioria dá sinais que abandonou os discursos ideológicos baseados em análises datadas.

Á esquerda, prevalece a derrocada dos líderes, quase todos suspeitos de corrupção, enriquecimento ilícito e desvios de verbas públicas. Sobre este momento dos setores de esquerda cumpre dizer, honestamente, o seguinte: se renovar, abandonando seu principal e único líder, Lula, acaba. Se não se renovar, acabará do mesmo modo.

Finalmente gostaria de dizer que não estou aqui pregando o fim de nenhum partido, nem pretendo a renovação dos conservadores. Já disse e repito: escrevo aqui apenas o que penso, defendendo as minhas ideias, e não tenho qualquer outra ambição que não essa.

Leonard Cohen

Invísivel esta noite
Sou invisível esta noite
só algumas mulheres tímidas me vêem
em todos os meus odiosos dias de visibilidade
ansiei pelo sorriso delas
agora elas debruçam-se dos seus tristes
planos-para-logo-à-noite
para que nos saudemos uns aos outros.
Irmãs
irmãs do meu povo destroçado
que seguem amantes de terceira escolha
elas sorriem para mim dizendo
que nunca nos encontraremos
enquanto permitirmos que
continue este estado de coisas
em que somos nós os miseráveis

Leonard Cohen

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

VAMOS FALAR DE MISOGINIA?


Dilma caiu agarrada a todo tipo de argumento, incluindo o fato de ser mulher. Fiquei pensando na insensibilidade dela com o legado que recebeu das mulheres. Ninguém encontra o mundo pronto, todos sabem disso, mesmo ingratos e mal agradecidos. Antes de Dilma, o Brasil teve, no topo do Poder, a Princesa Isabel. Sempre achei estranho e incompreensível o fato de Dilma não fazer referência a este fato histórico.

Em 1889, uma das razões para a deposição do impoluto D. Pedro II consistiu na falsa questão sucessória porque as oligarquias não toleravam ter como Chefe de Estado uma mulher, mesmo sendo ela A Redentora. Aquilo era misoginia, perseguição e ruptura violenta. Dilma fica com dois motoristas, um staff à disposição e verba para seu sustento? Dilma não foi exilada? Seus direitos políticos estão preservados? Isabel teve de fugir no meio da madrugada. A família inteira embarcada às escondidas para que o povo não visse e não se revoltasse. Os bens da família imperial foram apropriados pelo "novo regime", os palácios do Estado vandalizados e despejados do conteúdo histórico.

Até os móveis foram dispersos, os quadros e bibelots divididos ou roubados, enfim, o que sobrou foi a leilão, ou hasta pública. Hoje, felizmente, o mundo é outro. A misoginia resiste, mas Dilma não caiu por ser mulher. Ao contrário. Ela chegou lá, entre outras razões, por ser mulher. A sociedade  não questionou sequer sua inexperiência porque havia um ambiente, no Brasil e no mundo, de extrema confiança no trabalho das mulheres. Ambiente criado por milhares de mulheres que cumpriram jornada excepcional na linha do tempo, abrindo espaço para postos de comando aqui e em todos os países do mundo.

As mulheres prepararam terreno para um futuro que inevitavelmente chegaria. E ele chegou. Dilma participou e beneficiou-se desta luta, mas nunca referiu-se às mulheres que a antecederam, principalmente Isabel. Ela se dizia a primeira mulher a assumir o poder, mas a verdade é outra. Isabel foi a primeira e era tão legítima quanto Dilma, Elizabeth da Inglaterra, ou qualquer outro chefe de Estado. Isabel constitui referência história essencial, uma vez que assinou uma das leis mais importantes que temos, a da Abolição da escravatura. Na  soma das interinidades, ela ficou mais tempo no poder que Collor/Janio e Itamar.

Historiadores internacionais consideram sua presença na história do Brasil um marco de modernidade, uma vez que apenas nove países, até o século passado, tiveram mulheres no comando. E seu legado honra o Brasil e a todos nós, brasileiros e brasileiras.  Uma preocupação final a propósito: só vamos  melhorar a qualidade da nossa democracia por meio  de uma maior participação de todos os cidadãos nas decisões políticas, e de uma abertura dos círculos do poder a novos públicos e a novos problemas.

Essa transformação não se dará com o mero aumento do número de mulheres na política. Ela exige reflexão sobre conteúdos do trabalho político. E exige, igualmente, conhecimento da história do país, dos personagens e das causas que devemos abraçar. Um país não é só a terra com qual a gente nasce e vive. Um país é isso mais a irradiação secular das pessoas que nele viveram e que podem nos inspirar.



































domingo, 4 de setembro de 2016

Se eu tivesse dito sim, em vez de não...

"Se, em certa altura, tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita. Se, em certo momento, tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim. Se, em certa conversa, tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro — se tudo isso tivesse sido assim seria outro hoje e, talvez, o universo inteiro seria, insensivelmente levado a ser, outro também."

Álvaro de Campos  

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ler é ...

  • "A exemplo de escrever, ler é protestar contra as insuficiências da vida. Quem procura na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizer, e nem de saber, que a vida tal como é não nos basta para apagar a nossa sede de absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos as ficções para podermos viver de, alguma maneira, as muitas vidas que queríamos ter, quando apenas dispomos de uma só." Mario Vargas Lhosa



Ler é ...


"A exemplo de escrever, ler é protestar contra as insuficiências
da vida. Quem procura na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizer, e nem de saber, que a vida tal como é não nos basta para apagar a nossa sede de absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos as ficções para podermos viver de, alguma maneira, as muitas vidas que queríamos ter, quando apenas dispomos de uma só." 
Mario Vargas Lhosa

domingo, 14 de agosto de 2016

Dia dos Pais


Falta pai nos lares brasileiros. Nas favelas do Rio, 70% dos jovens entre 12 e 17 anos não têm pai, 25% declaram não saber nada sobre sua mãe e 20% dizem que foram criados por tios ou avós. Assim, quem joga papel central na rotina diária dessas favelas são as gangues do tráfico de drogas. Da seguinte maneira: “elas são as que organizam a vida cotidiana das favelas, que estabelecem leis e códigos de condutas, enquanto as polícias são vistas como perseguidoras e agressivas”, sustenta estudo, divulgado pelo Clarín. Link: http://www.clarin.com/mundo/estudio-echa-luz-narcos-favelas_0_773922679.html

Os dados são reais e muito fortes. Mostram que a paternidade irresponsável é um dos males do país. Pena. Com base na família tradicional - sob a liderança de um pai autoritário e "provedor" - a humanidade avançou nos últimos séculos. Agora, quase não há pai em lugar nenhum. Na Europa, depois de ter sido considerado "fonte de neuroses", o pai tradicional entrou em extinção. Seriados infantis europeus (o desenho Pepa é o maior exemplo disso ) tratam o pai quase como o bobo da corte familiar. Reflexos da perda de poder do "macho", dizem os analistas e as feministas. Pode ser...  


sábado, 13 de agosto de 2016

Você sabe o que Fidel disse a Sartre?


“Todos os homens têm direito a tudo que pedem”, disse Fidel a Sartre.

—“E se eles pedem a Lua?” — quis saber Sartre.

—“Se eles pedem a Lua” — respondeu Fidel — “é porque dela necessitam”.

Sartre confessou, mais tarde, que Fidel era um político único, uma espécie de ilha. Como Cuba. Vi Fidel uma vez na vida, no dia da posse de Fernando Collor. Estava na equipe do Jornal do Brasil e atravessava a pé a distância que separa o Congresso das 24 colunas que sustentam o Palácio do Planalto. Era uma manhã excepcionalmente clara.

De repente, veio na minha direção um leviatã de fotógrafos. Saí rapidamente da frente. Se perder a imagem, o fotógrafo não conseguirá recuperá-la. Só quando se abriu uma clareira no leviatã, vi o motivo do tumulto: Fidel Castro estava bem do meu lado, a menos de dois metros de distância. Apertei bem os olhos, como fazem os míopes, para ver Fidel de perto.

Seu porte é compatível com sua grandeza histórica. Parece um gigante. Reconheço isso, mesmo discordando dele. Aliás, apesar da pressão da minha geração na universidade, nunca fui fanática por Fidel. E, no entanto...No entanto, sempre consegui entender as razões que levavam jovens do mundo inteiro a admirá-lo. Ele simbolizou o "David" que enfrentou e venceu "Golias".

Não há metáfora mais forte que essa no contexto de países pobres, submetidos a uma vida política fodida e quase sem líderes para respeitar. Não ignoro (e também considero imperdoável) que o embargo dos Estados Unidos tenha lançado Cuba no abismo econômico durante tantos e tantos anos. Acredito, contudo, que o maior de todos os problemas do país sempre foi político.

Fidel ficou tempo demais no poder, sem aceitar a rotatividade, e sem permitir contestação. Não há futuro político sem liberdade, sem respeito à Oposição, sem eleição e sem liberdade de imprensa. Sem isso, vale dizer o pacote da democracia, a história de Cuba desandou e todo o mundo lá passou a viver em condições difíceis de suportar. E o país tornou-se uma ditadura cruel, triste e anacrônica.

Ninguém fica indiferente à beleza natural de Cuba. A linha de horizonte em Havana é tão ampla, que não consigo compreender porque Fidel abriu mão do ideal da liberdade. Ainda bem que agora, com a virada na política internacional de Obama e o fim do embargo, os cubanos voltam a ter o sentido da utopia e da esperança. Aos 90 anos, Fidel acompanha tudo. Ele  jamais deixará de ser o guerreiro do seu povo, aquele que buscou o impossível para mudar a vida do seu país e a história do seu tempo. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Se a conoa não virar, olê, olê, olá...


As Olimpíadas conquistaram o Brasil e os brasileiros. Não é para menos. Nas notícias, saíram Dilma, Eduardo Cunha e a galera da política e no lugar entraram as meninas do vôlei e os meninos e meninas da ginástica olímpica. O resultado é todo o mundo feliz e maravilhado com as conquistas dos atletas e as medalhas.
Estou feliz, mas bem quieta no meu canto. No mundo do esporte, quem me conhece sabe que sou um notável fracasso. Desde pequena, sofro de miopia em grau elevado (no olho direito é pior do que no esquerdo) e tenho medo inexplicável de altura. Estou assistindo tudo pela televisão.Com a evolução dos aparelhos de tevê e as imagens cada vez mais nítidas, confesso que tenho receio de me distrair e acabar levando uma bolada nas costas ou mesmo no rosto, o que derrubaria meus óculos e tudo que resta da minha segurança.

Sem óculos, o míope vaga nas sombras. Na adolescência, ouvi o oftalmologista dizer à minha mãe que minhas retinas poderiam esgarçar o que comprometeria minha visão para sempre. Enquanto minhas amigas tinham medo de desconhecidos, estupros e outras violências, eu sofria com o tal esgarçamento. Nenhuma criança merece crescer com um pavor desses. Eu devia ir à ONU fazer queixa tardia daquele oculista. O infeliz era medalha de ouro em bulling infantil, modalidade meio fora de moda, mas que detém recordes históricos inacreditáveis. Mantive as retinas longe das bolas e boladas.

Jamais me arrisquei no vôlei, na natação ou na corrida. Como sou baixinha, podia ter tentado a ginástica, mas no meu tempo isso era coisa da Romênia. Hoje, pela tevê, vejo tudo o que passa, mas meu esporte favorito é a canoagem. A canoagem demonstra que remar para o mesmo lado de forma consistente, simultânea e ritmada é condição de triunfo. Um exemplo para todos, sobretudo educadores, líderes políticos e aqueles que estão no comando. Além disso, a imagem do atleta enfrentando as ondas e remando sem parar é a metáfora da vida de todos nós.

Caímos no meio do caos, temos de escolher um lado e avançar, no meio da incerteza. Sem temer as ondas, a turbulência e os imprevistos. Na infância e na adolescência remei contra a corrente. É difícil enfrentar vento ao contrário? Muito difícil, mas o gosto que dá é incomparável. Sei por tê-lo sentido muitas vezes na boca. Agora, não tenho mais coragem de "remar" quase nunca. Muito menos contra a correnteza. Envelheci. Meu tempo hoje é o da acomodação. Então, o que me resta é seguir na geleia geral em busca da insignificante glória de vencer um dia depois do outro. Pena que desse jeito eu não mereça medalha...




segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O abuso e a ofensa são o novo normal?


Sempre achei que jornalismo é um jeito de tentar fazer história a sangue quente. Basta ler os jornais diários com atenção e interesse para perceber isso. Ou mesmo ouvir rádio e ver tevê.

Os jornalistas estão ali no calor dos acontecimentos contando o que acontece, o que estão vendo acontecer. Trabalhei no jornalismo diário e aprendi que só vale a pena fazer assim, contando o mundo como o vemos, sabendo avançar com determinação e parar quando as circunstâncias impõem essa prudência.

Erros podem acontecer e defendo que se faça mea-culpa e que sejam corrigidos imediatamente. Um erro corrigido  serve ao debate democrático, mostra maturidade e capacidade de renovação dos laços de confiança com os leitores, a comunidade para quem temos o privilégio de trabalhar. Na verdade, o reconhecimento de erros é exigência do bom jornalismo e sinal de rigor editorial, respeito aos leitores e a nós próprios.

A reputação das pessoas, todas elas, deve ser protegida. Erros têm impacto sobre quem os sofre na pele e sobre quem os comete. Hoje, percebo muita agressividade e irresponsabilidade nas redes sociais sobre equívocos cometidos que perduram para sempre. Quem os comete não os corrige e nem liga para isso. 

Sobra liberdade e falta responsabilidade nas redes. Ainda bem que liberdade faz um bem enorme a todos. Nesse ambiente, às vezes, o inconveniente é que há muita agressão. Muita gente acha que pode agredir, pode denegrir. Sem critérios ou valores, peso, medida, ou dimensão humana. Uma lástima. 

Um dos melhores aprendizados que tive no jornalismo, e que conservo comigo, é que nosso trabalho, dos jornalistas, não é a última palavra. Durante o período que trabalhei nos veículos de informação nunca tive essa aspiração ou este delírio. Tive sim, e continuo tendo, é vontade de contribuir e participar, com honestidade, do debate nacional para a discussão das ideias e o debate público.

Tenho muita resistência a quem diz as maiores barbaridades sobre os outros com grande despreocupação. Quando fiz curso de jornalismo tínhamos de aprender a lidar com a honra alheia. Com todas as cautelas. Aprendíamos a ser intransigentes com o erro.

Hoje, percebo que uma minoria acha que abusos e ofensas são o novo normal. Considero isso um atraso. E acredito que esse tipo de atitude não vai prosperar. A educação e o respeito garantem o avanço das pessoas e das sociedades. Sentado em seu computador, de forma isolada, qualquer um acha que pode xingar e desacatar o outro até por meio do anonimato? Se agir assim um indivíduo pode até ter êxito em curto prazo, mas vai acabar fazendo barulho sozinho. E uma andorinha só não faz verão. Nem outono, inverno e muito menos primavera.

Felizmente, a maioria da internet é formada por gente culta, bonita e elegante. Naveguem e encontrem. Vale a pena...
 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Como vota o senador Cristovam?


Como vota o senador Cristovam?

O senador Cristovam Buarque representa a diferença entre a navegação e o naufrágio para jovens, mulheres e todos que formam do lado frágil da embarcação. 

Votei no senador nas oportunidades que tive e repetirei o gesto nas chances que tiver. Com o país dividido vejo muita gente cobrando o voto de Cristovam em Dilma.
Ela perdeu o poder, a despeito dele e de todos que a apoiaram e apesar dos inúmeros apelos públicos dele e de tantos outros — Lula inclusive — para que mudasse o governo que fazia. Não ouviu ninguém.
Com ou sem o voto de Cristovam, o fato é que Inês é morta. Salvo um milagre, nada parece suficiente para livrar Dilma do impeachment no Senado. Também não se vislumbra ato capaz de salvá-la perante a história.
Toda derrota é uma derrota de classe. Dilma deixou ir para o ralo um governo dos trabalhadores. Não deverá ser perdoada  pela esquerda. 

Um eleitorado conservador superou receios e entregou, de forma inédita, o comando da República aos trabalhadores. Dilma não segurou o leme. Atrapalhou-se ao fazer política.

Por que Cristovam teria de votar na afastada que nunca lhe consultou para nada e que não tem um só projeto em comum com o futuro que ele sonha e a esquerda que ele representa? Com que direito o PT exige o voto de Cristovam?
No Senado, na caderneta de Dilma e do PT, na letra "C" só constava um senador: Collor. Se o PT admitia a existência de algum outro “C” era Ciro Nogueira do PP. Sério. A volta de Cristovam ao alfabeto do PT parece até pirraça, picuinha, coisas da lingua do P.
Cristovam não saiu do PT por acaso. Como outros fundadores deixou a sigla há algum tempo. De lá para cá a coisa só piorou até desandar de vez com o impeachment e as delações. Agora, parece que não há mais ponto de retorno.
O PT, no entanto, faz cobranças, argumentando que é  vítima de golpe. Ok. A maioria dos outros partidos, que está capengando, alega que cumpre regras do jogo constitucional, que valem para quem esteve no poder e para quem vier a ocupar o poder. 
A despeito das palavras, a verdade é que há muita pressão sobre o senador. Como dizem os portugueses, tudo isso é fato, tudo isso é fado. Faz parte da  força da democracia direta que estamos vivendo. 

Se dependesse de pessoas como Cristovam, a democracia seria ainda mais forte e mais profunda porque os mais pobres chegariam em terra firme sem cair na rede das trutas, piranhas e tubarões que nadam por aí.

Quem acompanha o senador de perto sabe disso que o senador que o senador rema contra a correnteza. Ele não é de consensos. E nem tem a pretensão de sê-lo. Por não ser provinciano, conservador e nem ordeiro.
Cristovam incomoda também por isso: ele mostra que o Brasil é antigo, que a desigualdade é um atraso e que o País esta marcando passo e que demora a dar-se por vencido.

No Senado, chega cedo , logo no início da tarde, e mostra o que país está dando volta. E sempre aponta para a naftalina que está em volta. Mostra os mais velhos que fingem ser novos, os que não querem deixar o Brasil novo surgir.

Sim, existe um Brasil antigo que diz pouco aos mais novos, mas que dá alguma segurança porque parece inofensivo como um avô que toma sol em um banco da praça.
Um avô conservador, tacanho e provinciano, mas seguro. Cristovam discorda e segue em frente lutando por uma sociedade mais justa para todos porque acredita que a liberdade só vale quando é uma oportunidade para todos. 

Ele tem preocupações sociais, é ficha-limpa, está atento com a dor dos vulneráveis. Aos 70 anos, Cristovam é um político singular por não deslumbrar-se com ele próprio e por ter a mente aberta. Na política e na vida, isso não é pouco.
Outro dia, tentei começar um artigo sobre o senador e as primeiras palavras que me ocorreram foram: Cristovam pensa além do vermelho do PT e do azul do PSDB.  Não é sempre que acontece, mas acho que acertei.

Como vota o senador Cristovam?


Como vota o senador Cristovam?

O senador Cristovam Buarque representa a diferença entre a navegação e o naufrágio para jovens, mulheres e todos que formam do lado frágil da embarcação. 

Votei no senador nas oportunidades que tive e repetirei o gesto nas chances que tiver. Com o país dividido vejo muita gente cobrando o voto de Cristovam em Dilma.
Ela perdeu o poder, a despeito dele e de todos que a apoiaram e apesar dos inúmeros apelos públicos dele e de tantos outros — Lula inclusive — para que mudasse o governo que fazia. Não ouviu ninguém.
Com ou sem o voto de Cristovam, o fato é que Inês é morta. Salvo um milagre, nada parece suficiente para livrar Dilma do impeachment no Senado. Também não se vislumbra ato capaz de salvá-la perante a história.
Toda derrota é uma derrota de classe. Dilma deixou ir para o ralo um governo dos trabalhadores. Não deverá ser perdoada  pela esquerda. 

Um eleitorado conservador superou receios e entregou, de forma inédita, o comando da República aos trabalhadores. Dilma não segurou o leme. Atrapalhou-se ao fazer política.

Por que Cristovam teria de votar na afastada que nunca lhe consultou para nada e que não tem um só projeto em comum com o futuro que ele sonha e a esquerda que ele representa? Com que direito o PT exige o voto de Cristovam?
No Senado, na caderneta de Dilma e do PT, na letra "C" só constava um senador: Collor. Se o PT admitia a existência de algum outro “C” era Ciro Nogueira do PP. Sério. A volta de Cristovam ao alfabeto do PT parece até pirraça, picuinha, coisas da lingua do P.
Cristovam não saiu do PT por acaso. Como outros fundadores deixou a sigla há algum tempo. De lá para cá a coisa só piorou até desandar de vez com o impeachment e as delações. Agora, parece que não há mais ponto de retorno.
O PT, no entanto, faz cobranças, argumentando que é  vítima de golpe. Ok. A maioria dos outros partidos, que está capengando, alega que cumpre regras do jogo constitucional, que valem para quem esteve no poder e para quem vier a ocupar o poder. 
A despeito das palavras, a verdade é que há muita pressão sobre o senador. Como dizem os portugueses, tudo isso é fato, tudo isso é fado. Faz parte da  força da democracia direta que estamos vivendo. 

Se dependesse de pessoas como Cristovam, a democracia seria ainda mais forte e mais profunda porque os mais pobres chegariam em terra firme sem cair na rede das trutas, piranhas e tubarões que nadam por aí.

Quem acompanha o senador de perto sabe disso que o senador que o senador rema contra a correnteza. Ele não é de consensos. E nem tem a pretensão de sê-lo. Por não ser provinciano, conservador e nem ordeiro.
Cristovam incomoda também por isso: ele mostra que o Brasil é antigo, que a desigualdade é um atraso e que o País esta marcando passo e que demora a dar-se por vencido.

No Senado, chega cedo , logo no início da tarde, e mostra o que país está dando volta. E sempre aponta para a naftalina que está em volta. Mostra os mais velhos que fingem ser novos, os que não querem deixar o Brasil novo surgir.

Sim, existe um Brasil antigo que diz pouco aos mais novos, mas que dá alguma segurança porque parece inofensivo como um avô que toma sol em um banco da praça.

Um avô conservador, tacanho e provinciano, mas seguro. Cristovam discorda e segue em frente lutando por uma sociedade mais justa para todos porque acredita que a liberdade só vale quando é uma oportunidade para todos. 

Ele tem preocupações sociais, é ficha-limpa, está atento com a dor dos vulneráveis. Aos 70 anos, Cristovam é um político singular por não deslumbrar-se com ele próprio e por ter a mente aberta. Na política e na vida, isso não é pouco.
Outro dia, tentei começar um artigo sobre o senador e as primeiras palavras que me ocorreram foram: Cristovam pensa além do vermelho do PT e do azul do PSDB.  Não é sempre que acontece, mas acho que acertei.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Jornalismo e democracia


Sempre entendi o jornalismo como profissão de gente séria, que informa e não como ofício de gente que usa a profissão para ter liberdade de opinar e a imunidade de insultar. Gente que faz uso dessa profissão respeitável para degradá-la e desqualificá-la.
Discordo dos que são incapazes de aceitar uma opinião diferente, dos que não gostam de discutir a opinião diferente dos outros, daqueles que têm de recorrer ao insulto para debater ideias diferentes.
Claro que existe um conceito ético, uma linha ou espaço de civilização. Ninguém é obrigado a concordar com pontos de vistas pessoais e de foro íntimo, como a questão do aborto  ou aceitar ofensas racistas, retrocessos, sexismos, ou coisas fora de propósito.
Quem se julga capaz de julgar o caráter de quem não conhece também não merece consideração, por exemplo. Não concordo com quem defende a pena de morte e também não acho fácil algum dia aceitar qualquer argumento contra imigrantes. Mas acho que temos de escutar as pessoas.
Acho também que é preciso respeito no debate público. E que o jornalismo, assim como a política, e as ciências sociais e humanas, em geral, devem ser os primeiros a prezar formar o pelotão favorável ao debate. É por meio do debate que avançamos. 
A democracia funciona melhor com mais informação, mais debate  e mais liberdade. A democracia não sobrevive sem imprensa livre, valor essencial para consolidar a dignidade do ser humano.
Nos últimos anos, com vigor, a liberdade de manifestação de ideias fluiu no País. Imprensa livre e liberdade de expressão são conquistas máximas da democracia que todos nós construímos.
E sabemos todos que o Brasil evoluiu e que é hoje, sem sombra de dúvida, um país melhor. Um país que pode se orgulhar da liberdade de pensar, participar e discordar de todos.
A Constituição Federal explicita a liberdade de informação no art. 5º, incisos IV (liberdade de pensamento); IX (liberdade de expressão) e XIV (acesso à informação) e no art. 220, § 1º (liberdade de informação propriamente dita).
No art. 220, § 2º, a Constituição veda qualquer censura de natureza política, ideológica e artística. O referido artigo dispõe que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.
“Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV”, determina o parágrafo 1º.
Inadmite-se toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística (artigo 220, § 2º da Constituição Federal), não se esquecendo que a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão, dentre outros, o princípio do respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família (artigo 221, inciso IV da Carta Magna).
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, no seu art. 19, proclamou em favor de todos o direito à liberdade de opinião e expressão sem constrangimento e o direito correspondente de investigar e receber informações e opiniões e de divulgá-las sem limitação de fronteiras.
A Convenção Europeia dos Direitos do Homem estabeleceu no art. 10, § 1º que “toda a pessoa tem direito à liberdade de expressão”. Esse direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber ou de comunicar informações ou ideias, sem que possa haver a ingerência da autoridade pública e sem consideração de fronteiras.
A ascensão política exige, e deve exigir, rigidez moral de todos os responsáveis pela administração pública. Isso não se discute. E aos meios de informação exige-se compromisso com a verdade dos fatos. 
O uso das chamadas informações em off, sem a identificação do autor,  quando veiculadas para denegrir a imagem de quem quer que seja, me parece um erro.
Segundo Cláudio Abramo: o  “jornalismo é o exercício diário do caráter”.  O exercício da vida pública também deve ser o exercício diário do caráter. Minha conclusão: a liberdade de expressão, a crítica, a realização das eleições, enfim o respeito às determinações da Constituição, formam o pacote democrático.
Ao cidadão ou cidadã que não percebe esta evidência não podem ser dados poderes acrescidos. Ninguém está imune a crítica: nem os governos, nem a imprensa.
A crítica é direito de qualquer cidadão. Não se pode cunhar ninguém de autoritário  por fazer críticas a setores da imprensa.
Nenhum governo pode tentar estabelecer, no plano da administração pública, um "tribunal de jornalistas" para marcar com o estigma do ferrete oficial, como “inimigos”, aqueles que discordam. 
A liberdade de informar implica a liberdade de discordar. Não podem seguir no serviço público funcionários que afrontam as leis e não acatam os valores democráticos.