quarta-feira, 7 de setembro de 2016

VAMOS FALAR DE MISOGINIA?


Dilma caiu agarrada a todo tipo de argumento, incluindo o fato de ser mulher. Fiquei pensando na insensibilidade dela com o legado que recebeu das mulheres. Ninguém encontra o mundo pronto, todos sabem disso, mesmo ingratos e mal agradecidos. Antes de Dilma, o Brasil teve, no topo do Poder, a Princesa Isabel. Sempre achei estranho e incompreensível o fato de Dilma não fazer referência a este fato histórico.

Em 1889, uma das razões para a deposição do impoluto D. Pedro II consistiu na falsa questão sucessória porque as oligarquias não toleravam ter como Chefe de Estado uma mulher, mesmo sendo ela A Redentora. Aquilo era misoginia, perseguição e ruptura violenta. Dilma fica com dois motoristas, um staff à disposição e verba para seu sustento? Dilma não foi exilada? Seus direitos políticos estão preservados? Isabel teve de fugir no meio da madrugada. A família inteira embarcada às escondidas para que o povo não visse e não se revoltasse. Os bens da família imperial foram apropriados pelo "novo regime", os palácios do Estado vandalizados e despejados do conteúdo histórico.

Até os móveis foram dispersos, os quadros e bibelots divididos ou roubados, enfim, o que sobrou foi a leilão, ou hasta pública. Hoje, felizmente, o mundo é outro. A misoginia resiste, mas Dilma não caiu por ser mulher. Ao contrário. Ela chegou lá, entre outras razões, por ser mulher. A sociedade  não questionou sequer sua inexperiência porque havia um ambiente, no Brasil e no mundo, de extrema confiança no trabalho das mulheres. Ambiente criado por milhares de mulheres que cumpriram jornada excepcional na linha do tempo, abrindo espaço para postos de comando aqui e em todos os países do mundo.

As mulheres prepararam terreno para um futuro que inevitavelmente chegaria. E ele chegou. Dilma participou e beneficiou-se desta luta, mas nunca referiu-se às mulheres que a antecederam, principalmente Isabel. Ela se dizia a primeira mulher a assumir o poder, mas a verdade é outra. Isabel foi a primeira e era tão legítima quanto Dilma, Elizabeth da Inglaterra, ou qualquer outro chefe de Estado. Isabel constitui referência história essencial, uma vez que assinou uma das leis mais importantes que temos, a da Abolição da escravatura. Na  soma das interinidades, ela ficou mais tempo no poder que Collor/Janio e Itamar.

Historiadores internacionais consideram sua presença na história do Brasil um marco de modernidade, uma vez que apenas nove países, até o século passado, tiveram mulheres no comando. E seu legado honra o Brasil e a todos nós, brasileiros e brasileiras.  Uma preocupação final a propósito: só vamos  melhorar a qualidade da nossa democracia por meio  de uma maior participação de todos os cidadãos nas decisões políticas, e de uma abertura dos círculos do poder a novos públicos e a novos problemas.

Essa transformação não se dará com o mero aumento do número de mulheres na política. Ela exige reflexão sobre conteúdos do trabalho político. E exige, igualmente, conhecimento da história do país, dos personagens e das causas que devemos abraçar. Um país não é só a terra com qual a gente nasce e vive. Um país é isso mais a irradiação secular das pessoas que nele viveram e que podem nos inspirar.



































domingo, 4 de setembro de 2016

Se eu tivesse dito sim, em vez de não...

"Se, em certa altura, tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita. Se, em certo momento, tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim. Se, em certa conversa, tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro — se tudo isso tivesse sido assim seria outro hoje e, talvez, o universo inteiro seria, insensivelmente levado a ser, outro também."

Álvaro de Campos  

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ler é ...

  • "A exemplo de escrever, ler é protestar contra as insuficiências da vida. Quem procura na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizer, e nem de saber, que a vida tal como é não nos basta para apagar a nossa sede de absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos as ficções para podermos viver de, alguma maneira, as muitas vidas que queríamos ter, quando apenas dispomos de uma só." Mario Vargas Lhosa



Ler é ...


"A exemplo de escrever, ler é protestar contra as insuficiências
da vida. Quem procura na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizer, e nem de saber, que a vida tal como é não nos basta para apagar a nossa sede de absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos as ficções para podermos viver de, alguma maneira, as muitas vidas que queríamos ter, quando apenas dispomos de uma só." 
Mario Vargas Lhosa

domingo, 14 de agosto de 2016

Dia dos Pais


Falta pai nos lares brasileiros. Nas favelas do Rio, 70% dos jovens entre 12 e 17 anos não têm pai, 25% declaram não saber nada sobre sua mãe e 20% dizem que foram criados por tios ou avós. Assim, quem joga papel central na rotina diária dessas favelas são as gangues do tráfico de drogas. Da seguinte maneira: “elas são as que organizam a vida cotidiana das favelas, que estabelecem leis e códigos de condutas, enquanto as polícias são vistas como perseguidoras e agressivas”, sustenta estudo, divulgado pelo Clarín. Link: http://www.clarin.com/mundo/estudio-echa-luz-narcos-favelas_0_773922679.html

Os dados são reais e muito fortes. Mostram que a paternidade irresponsável é um dos males do país. Pena. Com base na família tradicional - sob a liderança de um pai autoritário e "provedor" - a humanidade avançou nos últimos séculos. Agora, quase não há pai em lugar nenhum. Na Europa, depois de ter sido considerado "fonte de neuroses", o pai tradicional entrou em extinção. Seriados infantis europeus (o desenho Pepa é o maior exemplo disso ) tratam o pai quase como o bobo da corte familiar. Reflexos da perda de poder do "macho", dizem os analistas e as feministas. Pode ser...  


sábado, 13 de agosto de 2016

Você sabe o que Fidel disse a Sartre?


“Todos os homens têm direito a tudo que pedem”, disse Fidel a Sartre.

—“E se eles pedem a Lua?” — quis saber Sartre.

—“Se eles pedem a Lua” — respondeu Fidel — “é porque dela necessitam”.

Sartre confessou, mais tarde, que Fidel era um político único, uma espécie de ilha. Como Cuba. Vi Fidel uma vez na vida, no dia da posse de Fernando Collor. Estava na equipe do Jornal do Brasil e atravessava a pé a distância que separa o Congresso das 24 colunas que sustentam o Palácio do Planalto. Era uma manhã excepcionalmente clara.

De repente, veio na minha direção um leviatã de fotógrafos. Saí rapidamente da frente. Se perder a imagem, o fotógrafo não conseguirá recuperá-la. Só quando se abriu uma clareira no leviatã, vi o motivo do tumulto: Fidel Castro estava bem do meu lado, a menos de dois metros de distância. Apertei bem os olhos, como fazem os míopes, para ver Fidel de perto.

Seu porte é compatível com sua grandeza histórica. Parece um gigante. Reconheço isso, mesmo discordando dele. Aliás, apesar da pressão da minha geração na universidade, nunca fui fanática por Fidel. E, no entanto...No entanto, sempre consegui entender as razões que levavam jovens do mundo inteiro a admirá-lo. Ele simbolizou o "David" que enfrentou e venceu "Golias".

Não há metáfora mais forte que essa no contexto de países pobres, submetidos a uma vida política fodida e quase sem líderes para respeitar. Não ignoro (e também considero imperdoável) que o embargo dos Estados Unidos tenha lançado Cuba no abismo econômico durante tantos e tantos anos. Acredito, contudo, que o maior de todos os problemas do país sempre foi político.

Fidel ficou tempo demais no poder, sem aceitar a rotatividade, e sem permitir contestação. Não há futuro político sem liberdade, sem respeito à Oposição, sem eleição e sem liberdade de imprensa. Sem isso, vale dizer o pacote da democracia, a história de Cuba desandou e todo o mundo lá passou a viver em condições difíceis de suportar. E o país tornou-se uma ditadura cruel, triste e anacrônica.

Ninguém fica indiferente à beleza natural de Cuba. A linha de horizonte em Havana é tão ampla, que não consigo compreender porque Fidel abriu mão do ideal da liberdade. Ainda bem que agora, com a virada na política internacional de Obama e o fim do embargo, os cubanos voltam a ter o sentido da utopia e da esperança. Aos 90 anos, Fidel acompanha tudo. Ele  jamais deixará de ser o guerreiro do seu povo, aquele que buscou o impossível para mudar a vida do seu país e a história do seu tempo. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Se a conoa não virar, olê, olê, olá...


As Olimpíadas conquistaram o Brasil e os brasileiros. Não é para menos. Nas notícias, saíram Dilma, Eduardo Cunha e a galera da política e no lugar entraram as meninas do vôlei e os meninos e meninas da ginástica olímpica. O resultado é todo o mundo feliz e maravilhado com as conquistas dos atletas e as medalhas.
Estou feliz, mas bem quieta no meu canto. No mundo do esporte, quem me conhece sabe que sou um notável fracasso. Desde pequena, sofro de miopia em grau elevado (no olho direito é pior do que no esquerdo) e tenho medo inexplicável de altura. Estou assistindo tudo pela televisão.Com a evolução dos aparelhos de tevê e as imagens cada vez mais nítidas, confesso que tenho receio de me distrair e acabar levando uma bolada nas costas ou mesmo no rosto, o que derrubaria meus óculos e tudo que resta da minha segurança.

Sem óculos, o míope vaga nas sombras. Na adolescência, ouvi o oftalmologista dizer à minha mãe que minhas retinas poderiam esgarçar o que comprometeria minha visão para sempre. Enquanto minhas amigas tinham medo de desconhecidos, estupros e outras violências, eu sofria com o tal esgarçamento. Nenhuma criança merece crescer com um pavor desses. Eu devia ir à ONU fazer queixa tardia daquele oculista. O infeliz era medalha de ouro em bulling infantil, modalidade meio fora de moda, mas que detém recordes históricos inacreditáveis. Mantive as retinas longe das bolas e boladas.

Jamais me arrisquei no vôlei, na natação ou na corrida. Como sou baixinha, podia ter tentado a ginástica, mas no meu tempo isso era coisa da Romênia. Hoje, pela tevê, vejo tudo o que passa, mas meu esporte favorito é a canoagem. A canoagem demonstra que remar para o mesmo lado de forma consistente, simultânea e ritmada é condição de triunfo. Um exemplo para todos, sobretudo educadores, líderes políticos e aqueles que estão no comando. Além disso, a imagem do atleta enfrentando as ondas e remando sem parar é a metáfora da vida de todos nós.

Caímos no meio do caos, temos de escolher um lado e avançar, no meio da incerteza. Sem temer as ondas, a turbulência e os imprevistos. Na infância e na adolescência remei contra a corrente. É difícil enfrentar vento ao contrário? Muito difícil, mas o gosto que dá é incomparável. Sei por tê-lo sentido muitas vezes na boca. Agora, não tenho mais coragem de "remar" quase nunca. Muito menos contra a correnteza. Envelheci. Meu tempo hoje é o da acomodação. Então, o que me resta é seguir na geleia geral em busca da insignificante glória de vencer um dia depois do outro. Pena que desse jeito eu não mereça medalha...




segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O abuso e a ofensa são o novo normal?


Sempre achei que jornalismo é um jeito de tentar fazer história a sangue quente. Basta ler os jornais diários com atenção e interesse para perceber isso. Ou mesmo ouvir rádio e ver tevê.

Os jornalistas estão ali no calor dos acontecimentos contando o que acontece, o que estão vendo acontecer. Trabalhei no jornalismo diário e aprendi que só vale a pena fazer assim, contando o mundo como o vemos, sabendo avançar com determinação e parar quando as circunstâncias impõem essa prudência.

Erros podem acontecer e defendo que se faça mea-culpa e que sejam corrigidos imediatamente. Um erro corrigido  serve ao debate democrático, mostra maturidade e capacidade de renovação dos laços de confiança com os leitores, a comunidade para quem temos o privilégio de trabalhar. Na verdade, o reconhecimento de erros é exigência do bom jornalismo e sinal de rigor editorial, respeito aos leitores e a nós próprios.

A reputação das pessoas, todas elas, deve ser protegida. Erros têm impacto sobre quem os sofre na pele e sobre quem os comete. Hoje, percebo muita agressividade e irresponsabilidade nas redes sociais sobre equívocos cometidos que perduram para sempre. Quem os comete não os corrige e nem liga para isso. 

Sobra liberdade e falta responsabilidade nas redes. Ainda bem que liberdade faz um bem enorme a todos. Nesse ambiente, às vezes, o inconveniente é que há muita agressão. Muita gente acha que pode agredir, pode denegrir. Sem critérios ou valores, peso, medida, ou dimensão humana. Uma lástima. 

Um dos melhores aprendizados que tive no jornalismo, e que conservo comigo, é que nosso trabalho, dos jornalistas, não é a última palavra. Durante o período que trabalhei nos veículos de informação nunca tive essa aspiração ou este delírio. Tive sim, e continuo tendo, é vontade de contribuir e participar, com honestidade, do debate nacional para a discussão das ideias e o debate público.

Tenho muita resistência a quem diz as maiores barbaridades sobre os outros com grande despreocupação. Quando fiz curso de jornalismo tínhamos de aprender a lidar com a honra alheia. Com todas as cautelas. Aprendíamos a ser intransigentes com o erro.

Hoje, percebo que uma minoria acha que abusos e ofensas são o novo normal. Considero isso um atraso. E acredito que esse tipo de atitude não vai prosperar. A educação e o respeito garantem o avanço das pessoas e das sociedades. Sentado em seu computador, de forma isolada, qualquer um acha que pode xingar e desacatar o outro até por meio do anonimato? Se agir assim um indivíduo pode até ter êxito em curto prazo, mas vai acabar fazendo barulho sozinho. E uma andorinha só não faz verão. Nem outono, inverno e muito menos primavera.

Felizmente, a maioria da internet é formada por gente culta, bonita e elegante. Naveguem e encontrem. Vale a pena...
 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Como vota o senador Cristovam?


Como vota o senador Cristovam?

O senador Cristovam Buarque representa a diferença entre a navegação e o naufrágio para jovens, mulheres e todos que formam do lado frágil da embarcação. 

Votei no senador nas oportunidades que tive e repetirei o gesto nas chances que tiver. Com o país dividido vejo muita gente cobrando o voto de Cristovam em Dilma.
Ela perdeu o poder, a despeito dele e de todos que a apoiaram e apesar dos inúmeros apelos públicos dele e de tantos outros — Lula inclusive — para que mudasse o governo que fazia. Não ouviu ninguém.
Com ou sem o voto de Cristovam, o fato é que Inês é morta. Salvo um milagre, nada parece suficiente para livrar Dilma do impeachment no Senado. Também não se vislumbra ato capaz de salvá-la perante a história.
Toda derrota é uma derrota de classe. Dilma deixou ir para o ralo um governo dos trabalhadores. Não deverá ser perdoada  pela esquerda. 

Um eleitorado conservador superou receios e entregou, de forma inédita, o comando da República aos trabalhadores. Dilma não segurou o leme. Atrapalhou-se ao fazer política.

Por que Cristovam teria de votar na afastada que nunca lhe consultou para nada e que não tem um só projeto em comum com o futuro que ele sonha e a esquerda que ele representa? Com que direito o PT exige o voto de Cristovam?
No Senado, na caderneta de Dilma e do PT, na letra "C" só constava um senador: Collor. Se o PT admitia a existência de algum outro “C” era Ciro Nogueira do PP. Sério. A volta de Cristovam ao alfabeto do PT parece até pirraça, picuinha, coisas da lingua do P.
Cristovam não saiu do PT por acaso. Como outros fundadores deixou a sigla há algum tempo. De lá para cá a coisa só piorou até desandar de vez com o impeachment e as delações. Agora, parece que não há mais ponto de retorno.
O PT, no entanto, faz cobranças, argumentando que é  vítima de golpe. Ok. A maioria dos outros partidos, que está capengando, alega que cumpre regras do jogo constitucional, que valem para quem esteve no poder e para quem vier a ocupar o poder. 
A despeito das palavras, a verdade é que há muita pressão sobre o senador. Como dizem os portugueses, tudo isso é fato, tudo isso é fado. Faz parte da  força da democracia direta que estamos vivendo. 

Se dependesse de pessoas como Cristovam, a democracia seria ainda mais forte e mais profunda porque os mais pobres chegariam em terra firme sem cair na rede das trutas, piranhas e tubarões que nadam por aí.

Quem acompanha o senador de perto sabe disso que o senador que o senador rema contra a correnteza. Ele não é de consensos. E nem tem a pretensão de sê-lo. Por não ser provinciano, conservador e nem ordeiro.
Cristovam incomoda também por isso: ele mostra que o Brasil é antigo, que a desigualdade é um atraso e que o País esta marcando passo e que demora a dar-se por vencido.

No Senado, chega cedo , logo no início da tarde, e mostra o que país está dando volta. E sempre aponta para a naftalina que está em volta. Mostra os mais velhos que fingem ser novos, os que não querem deixar o Brasil novo surgir.

Sim, existe um Brasil antigo que diz pouco aos mais novos, mas que dá alguma segurança porque parece inofensivo como um avô que toma sol em um banco da praça.
Um avô conservador, tacanho e provinciano, mas seguro. Cristovam discorda e segue em frente lutando por uma sociedade mais justa para todos porque acredita que a liberdade só vale quando é uma oportunidade para todos. 

Ele tem preocupações sociais, é ficha-limpa, está atento com a dor dos vulneráveis. Aos 70 anos, Cristovam é um político singular por não deslumbrar-se com ele próprio e por ter a mente aberta. Na política e na vida, isso não é pouco.
Outro dia, tentei começar um artigo sobre o senador e as primeiras palavras que me ocorreram foram: Cristovam pensa além do vermelho do PT e do azul do PSDB.  Não é sempre que acontece, mas acho que acertei.

Como vota o senador Cristovam?


Como vota o senador Cristovam?

O senador Cristovam Buarque representa a diferença entre a navegação e o naufrágio para jovens, mulheres e todos que formam do lado frágil da embarcação. 

Votei no senador nas oportunidades que tive e repetirei o gesto nas chances que tiver. Com o país dividido vejo muita gente cobrando o voto de Cristovam em Dilma.
Ela perdeu o poder, a despeito dele e de todos que a apoiaram e apesar dos inúmeros apelos públicos dele e de tantos outros — Lula inclusive — para que mudasse o governo que fazia. Não ouviu ninguém.
Com ou sem o voto de Cristovam, o fato é que Inês é morta. Salvo um milagre, nada parece suficiente para livrar Dilma do impeachment no Senado. Também não se vislumbra ato capaz de salvá-la perante a história.
Toda derrota é uma derrota de classe. Dilma deixou ir para o ralo um governo dos trabalhadores. Não deverá ser perdoada  pela esquerda. 

Um eleitorado conservador superou receios e entregou, de forma inédita, o comando da República aos trabalhadores. Dilma não segurou o leme. Atrapalhou-se ao fazer política.

Por que Cristovam teria de votar na afastada que nunca lhe consultou para nada e que não tem um só projeto em comum com o futuro que ele sonha e a esquerda que ele representa? Com que direito o PT exige o voto de Cristovam?
No Senado, na caderneta de Dilma e do PT, na letra "C" só constava um senador: Collor. Se o PT admitia a existência de algum outro “C” era Ciro Nogueira do PP. Sério. A volta de Cristovam ao alfabeto do PT parece até pirraça, picuinha, coisas da lingua do P.
Cristovam não saiu do PT por acaso. Como outros fundadores deixou a sigla há algum tempo. De lá para cá a coisa só piorou até desandar de vez com o impeachment e as delações. Agora, parece que não há mais ponto de retorno.
O PT, no entanto, faz cobranças, argumentando que é  vítima de golpe. Ok. A maioria dos outros partidos, que está capengando, alega que cumpre regras do jogo constitucional, que valem para quem esteve no poder e para quem vier a ocupar o poder. 
A despeito das palavras, a verdade é que há muita pressão sobre o senador. Como dizem os portugueses, tudo isso é fato, tudo isso é fado. Faz parte da  força da democracia direta que estamos vivendo. 

Se dependesse de pessoas como Cristovam, a democracia seria ainda mais forte e mais profunda porque os mais pobres chegariam em terra firme sem cair na rede das trutas, piranhas e tubarões que nadam por aí.

Quem acompanha o senador de perto sabe disso que o senador que o senador rema contra a correnteza. Ele não é de consensos. E nem tem a pretensão de sê-lo. Por não ser provinciano, conservador e nem ordeiro.
Cristovam incomoda também por isso: ele mostra que o Brasil é antigo, que a desigualdade é um atraso e que o País esta marcando passo e que demora a dar-se por vencido.

No Senado, chega cedo , logo no início da tarde, e mostra o que país está dando volta. E sempre aponta para a naftalina que está em volta. Mostra os mais velhos que fingem ser novos, os que não querem deixar o Brasil novo surgir.

Sim, existe um Brasil antigo que diz pouco aos mais novos, mas que dá alguma segurança porque parece inofensivo como um avô que toma sol em um banco da praça.

Um avô conservador, tacanho e provinciano, mas seguro. Cristovam discorda e segue em frente lutando por uma sociedade mais justa para todos porque acredita que a liberdade só vale quando é uma oportunidade para todos. 

Ele tem preocupações sociais, é ficha-limpa, está atento com a dor dos vulneráveis. Aos 70 anos, Cristovam é um político singular por não deslumbrar-se com ele próprio e por ter a mente aberta. Na política e na vida, isso não é pouco.
Outro dia, tentei começar um artigo sobre o senador e as primeiras palavras que me ocorreram foram: Cristovam pensa além do vermelho do PT e do azul do PSDB.  Não é sempre que acontece, mas acho que acertei.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Jornalismo e democracia


Sempre entendi o jornalismo como profissão de gente séria, que informa e não como ofício de gente que usa a profissão para ter liberdade de opinar e a imunidade de insultar. Gente que faz uso dessa profissão respeitável para degradá-la e desqualificá-la.
Discordo dos que são incapazes de aceitar uma opinião diferente, dos que não gostam de discutir a opinião diferente dos outros, daqueles que têm de recorrer ao insulto para debater ideias diferentes.
Claro que existe um conceito ético, uma linha ou espaço de civilização. Ninguém é obrigado a concordar com pontos de vistas pessoais e de foro íntimo, como a questão do aborto  ou aceitar ofensas racistas, retrocessos, sexismos, ou coisas fora de propósito.
Quem se julga capaz de julgar o caráter de quem não conhece também não merece consideração, por exemplo. Não concordo com quem defende a pena de morte e também não acho fácil algum dia aceitar qualquer argumento contra imigrantes. Mas acho que temos de escutar as pessoas.
Acho também que é preciso respeito no debate público. E que o jornalismo, assim como a política, e as ciências sociais e humanas, em geral, devem ser os primeiros a prezar formar o pelotão favorável ao debate. É por meio do debate que avançamos. 
A democracia funciona melhor com mais informação, mais debate  e mais liberdade. A democracia não sobrevive sem imprensa livre, valor essencial para consolidar a dignidade do ser humano.
Nos últimos anos, com vigor, a liberdade de manifestação de ideias fluiu no País. Imprensa livre e liberdade de expressão são conquistas máximas da democracia que todos nós construímos.
E sabemos todos que o Brasil evoluiu e que é hoje, sem sombra de dúvida, um país melhor. Um país que pode se orgulhar da liberdade de pensar, participar e discordar de todos.
A Constituição Federal explicita a liberdade de informação no art. 5º, incisos IV (liberdade de pensamento); IX (liberdade de expressão) e XIV (acesso à informação) e no art. 220, § 1º (liberdade de informação propriamente dita).
No art. 220, § 2º, a Constituição veda qualquer censura de natureza política, ideológica e artística. O referido artigo dispõe que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.
“Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV”, determina o parágrafo 1º.
Inadmite-se toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística (artigo 220, § 2º da Constituição Federal), não se esquecendo que a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão, dentre outros, o princípio do respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família (artigo 221, inciso IV da Carta Magna).
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, no seu art. 19, proclamou em favor de todos o direito à liberdade de opinião e expressão sem constrangimento e o direito correspondente de investigar e receber informações e opiniões e de divulgá-las sem limitação de fronteiras.
A Convenção Europeia dos Direitos do Homem estabeleceu no art. 10, § 1º que “toda a pessoa tem direito à liberdade de expressão”. Esse direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber ou de comunicar informações ou ideias, sem que possa haver a ingerência da autoridade pública e sem consideração de fronteiras.
A ascensão política exige, e deve exigir, rigidez moral de todos os responsáveis pela administração pública. Isso não se discute. E aos meios de informação exige-se compromisso com a verdade dos fatos. 
O uso das chamadas informações em off, sem a identificação do autor,  quando veiculadas para denegrir a imagem de quem quer que seja, me parece um erro.
Segundo Cláudio Abramo: o  “jornalismo é o exercício diário do caráter”.  O exercício da vida pública também deve ser o exercício diário do caráter. Minha conclusão: a liberdade de expressão, a crítica, a realização das eleições, enfim o respeito às determinações da Constituição, formam o pacote democrático.
Ao cidadão ou cidadã que não percebe esta evidência não podem ser dados poderes acrescidos. Ninguém está imune a crítica: nem os governos, nem a imprensa.
A crítica é direito de qualquer cidadão. Não se pode cunhar ninguém de autoritário  por fazer críticas a setores da imprensa.
Nenhum governo pode tentar estabelecer, no plano da administração pública, um "tribunal de jornalistas" para marcar com o estigma do ferrete oficial, como “inimigos”, aqueles que discordam. 
A liberdade de informar implica a liberdade de discordar. Não podem seguir no serviço público funcionários que afrontam as leis e não acatam os valores democráticos.





segunda-feira, 6 de junho de 2016

Não sou de guerra,nem em filmes

Estimada amiga Vera!

Peço desculpas, mas ver feridos de guerra, mesmo em fotos e filmes, é uma experiência dilacerante. Não gosto de vivê-la. A estetização da «guerra» para efeitos de glorificação não me agrada.

Gostei de ver que a você também não. Entendi isso ao ver que você excluiu da sua lista  “A vida é bela”. É um filme tosco que brinca com coisa séria e faz em algumas  cenas a glorificação da guerra. Não se pode  gostar daquilo, em sã consciência.

Sei que a guerra é estetizada desde sempre e continuará a sê-lo nas televisões, nos filmes, nas fotografias, nos jornais, nos poemas, na arte toda.

Afinal, trata-se de retrato da realidade, mas procuro fugir, quando posso. Aliás, o mesmo ocorre com a estetização da paz.

Procuro acreditar que todo o mundo condena a glorificação da guerra, seja pela arte, seja pela propaganda.

O que é mau não é estetizar a guerra para condená-la. O que me parece equivocado é ver gente utilizando a arte do cinema para a promover.

Picasso foi cortante em Guernica. Usou sua genialidade para condenar a guerra civil espanhola de forma definitiva. Fez isso em um azul sombrio e único. Triste, dolorosa e inesquecível Guernica!

Voltando aos filmes, o tema de hoje. Sabe aquela cena inicial do dia "D" no filme do Soldado? Terrível. Vi e achei extremamente bem feita, mas sofri o Diabo. O filme sobre a lista me fez chorar de soluçar. É um dos mais emocionantes que vi na vida.  

A propósito, andei pensando sobre o filme de guerra que seria meu número um: Apocalypse Now de Fracis Ford Coppola com Marlon Brando e a música sensacional de Pink Floyd. Uma letra rebelde que minha geração berrava nos corredores das escolas do mundo inteiro. Ecoa ainda hoje.

O filme também ecoa e, certamente, vai ecoar pela eternidade porque fala sobre o mal que a guerra faz ao coração dos que sobrevivem. Sem opção ao horror, quem sobrevive torna-se parte do horror. 

Vanda C




 


 

sábado, 4 de junho de 2016

Brasil, meu Brasil brasileiro

Uma triste vantagem e uma desvantagem imensa...

A situação no Brasil parece mais confusa e perigosa a cada minuto que passa. Mas para a generalidade dos brasileiros, seja qual for o campo político no qual se situem, sê-lo-á de um modo ainda mais intenso. De um lado terão a triste vantagem de conviver há muito tempo com a instabilidade política, a desigualdade social e uma corrupção endêmica. De outro lado terão a enorme desvantagem de sofrer na pele suas imprevisíveis e nefastas consequências.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Manter a esperança

Estou com isso entalado na garganta: estes anos não foram quaisquer. Foram anos de ruína na economia, de desgraça na política, de devastação na sociedade. Conto hoje o que me foi sempre mais difícil: assistir à inconsequência dos encarregados de fiscalizar e prevenir os crimes de corrupção e ver todos tentando transferir responsabilidades ao homem comum que nada tem com isso, que trabalha em péssimas condições e paga elevados impostos sem receber a contrapartida mínima de serviços básicos. Quem tem assessores e verbas destinadas para fiscalizar e prevenir roubos e desvios de verbas do contribuinte são os órgãos federais, municipais e estaduais criados especificamente para este fim. O que vê é que, em vez disso, estes órgãos tornaram-se estruturas a serviço da corrupção. Lastimavelmente. O que fazer? Continuar a transmitir esperança, mesmo depois de ver  isso acontecendo. Por uma razão que me parece certa: O Brasil é capaz, sempre foi capaz ao longo da história. Apesar da destruição dos sonhos dos mais novos, das falhas, da falta de austeridade, de probidade, às vezes de seriedade, da insensatez, da arrogância e das medidas tortas acho que o que nos cabe é não perder a esperança. Para não espalhar mais miséria. Mais falta de sonho. Para não perder. Perdemos muito mais quando deixamos de amar e de acreditar. O amor é a luz que não deixa escurecer a vida. Ganhamos quando vivemos, quando sonhamos, quando acreditamos, quando não perdemos a esperança.

 
 
 
 
 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Filosofia incorreta

«Qualquer homem que não tem medo da sua mulher (coisa rara, porque os homens sempre têm medo da mulher que ama) sabe que toda mulher é sempre insatisfeita. Em parte, podemos até reconhecer que durante muito tempo, talvez, os homens não se preocupassem em fazer gozar suas mulheres. A afirmação de que muitas mulheres nunca gozaram se tornou uma máxima típica de sabedoria chinesa: independentemente de fazer ou não sentido, é sempre tomada como sabedoria muito profunda. Mas não me parece que mulheres "livres" ainda possam usar desse argumento, e, no entanto, a insatisfação continua. Não adianta, minha querida leitora, você nunca vai ficar satisfeita com o que tem. Logo nascerá em você aquele gosto azedo do vazio do que já não é mais novo.» Trecho do livro

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Bom dia!

Hoje é segunda-feira, 23 de maio de 2106. No início das semanas ninguém anda por aí a correr com promessas de indizível felicidade para os nossos destinos. Chega de ilusões e de romarias. Precisamos, acima de tudo, de sensatez e de normalidade para recomeçar. E aguentar novamente a convivência coletiva, a ideia de devemos pensar em propostas mobilizadoras, equilibradas e de acordo com o gosto médio de todos que participam da nossa comunidade. Primeiro, é bom que acabemos com esse triste hábito de achar que não temos remédio. E convém que cada um de nós faça mais do que tem feito até aqui. Quem sabe assim.. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Minha oração

Sou bem preparada, clara, defensora do interesse público, conhecedora, pela minha boa formação no jornalismo diário, das implicações sociais, culturais e mediáticas das principais regas da boa convivência. Tenho talento e competência. Por esta razão, sempre fui um dos alvos preferidos da má-fé dos puxa-sacos e dos medíocres.  Em parte por ser como sou e não esbanjar simpatia. 
 
Sou meio bruta com os meus amigos, sobretudo os mais íntimos, o que me tem valido uma larga debandada de interlocutores que só apreciam festas, favores e pancadinhas nas costas. Nessa brutalidade incluo o cuidado em não os deixar cair quando acredito firmemente neles. Sempre os obrigo a permanecer de pé quando gostariam de apoio para sentar. Não permito. 
 
Ajoelhar é para noivos apaixonados e para padres que rezam em igrejas pedindo misericórdia para pecadores. Não é para mim, nem para meus amigos.Temos de ser fortes. Sempre. Principalmente quando nossos adversários querem nos ver fracos e derrotados. Não vamos dar um prazer desses a eles. Isso nunca.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

BELEZA E CULTURA

"Eu digo-vos que a beleza culta existe...A mulher, toda a mulher, bela, feia, mediana, celestial, é, como dizia Pavese, um «homem de ação». E o problema é que o «homem de ação», simplesmente, não morre de amores por uma vida intelectual ativa. Pavese teve uma paixão funérea e disse que as mulheres são «homens de ação».
 
É certo: Pavese estava preso a uma necessidade maior. Queria analisar a natureza da americana Constance Dowling por quem se apaixonou tragicamente. O diário de Pavese está cheio dessa necessidade obsessiva, não sem um ressentimento difícil e embaraçoso. Mas o que importa é essa ideia realista das mulheres: as mulheres como criaturas menos falíveis, menos patéticas, menos lunáticas que os homens, as mulheres dotadas de um pragmatismo inabalável e de uma rara lucidez.
 
Para as mulheres, não existem abstrações. Por exemplo, não existe o Homem mas homens concretos e mulheres concretas. Existe o pai, o irmão ou, desculpem o termo, o companheiro; nunca o membro insípido e distante de um gênero humano. Depois, reparem que as mulheres, que nunca fizeram muitas revoluções, nunca fizeram, sobretudo, revoluções inúteis.
 
O sufragismo foi uma revolução útil. As feministas mais radicais sabem que não estão a contemplar a mefítica exploração masculina para ocupar o tempo. Querem uma nova revolução para ganhar alguma coisa. Quando os soldados portugueses partiram para a Flandres na primeira guerra mundial, as mulheres portuguesas organizaram peditórios públicos. Não era generosidade. Não era ocupação de tempos livres. Era o imenso pragmatismo feminino a funcionar.
 
Pensem num dos casais mais célebres de todos os tempos, Xantipa e Sócrates. Conhecem o que Sócrates pensava. E Xantipa? Quem era Xantipa? Discutia Parménides com o marido? Lavava o sovaco? Nada disso importa. Porque Xantipa sabia mais do que Sócrates, é o que vos digo. E talvez olhasse para o pobre com algum compassivo desprezo.
 
As mulheres não querem saber o que as coisas são. Querem saber como as coisas se apresentam, como foram ontem, como são hoje. Querem saber como fazer. A estratosfera que fique para os leitores de Heidegger. Arendt? Passo. A Sartreuse? Passo duas vezes. Doutorandas em Adorno? Give me a break.
 
Procurem uma terna beleza culta, com passagens de "Os Maias" na cabeça e o teatro de Nelson Rodrigues. Eu sei que isto existe. Eu acredito no acaso".
 
Trechos de artigo assinado pelo português Pedro Lomba
 

terça-feira, 10 de maio de 2016

"Nós somos ridículos", escreveu Dostoiévski


"Nós somos ridículos, levianos, cheios de maus hábitos, sentimos tédio, não sabemos olhar, não sabemos compreender, ora, todos nós somos assim, nós todos, e tanto os senhores quanto eu, quanto eles. Porque os senhores não vão ficar ofendidos pelo fato de eu estar lhes dizendo isto na cara, dizendo que somos ridículos. E sendo assim, por acaso os senhores não são material? Sabem, a meu ver, ser ridículo é às vezes até bom, até melhor: é mais fácil perdoar uns aos outros, é mais fácil fazer as pazes; não se vai compreender tudo de uma vez, não se vai começar diretamente pela perfeição. Para atingir a perfeição é preciso primeiro não compreender muita coisa. E se compreendemos muito rapidamente vai ver que não compreendemos bem"...

Dostoiévski

 

domingo, 8 de maio de 2016

Dia das Mães


No sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva. Nas amadas caras loucas batem e batem os dedos amarelos das candeias. Que balouçam. Que são puras. Gotas e candeias puras.

E as mães aproximam-se soprando os dedos frios. Seu corpo move-se pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões e órgãos mergulhados, e as calmas mães intrínsecas sentam-se nas cabeças filiais.

Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado, vendo tudo e queimando as imagens, alimentando as imagens, enquanto o amor é cada vez mais forte. E bate-lhes nas caras, o amor leve. O amor feroz. E as mães são cada vez mais belas. Pensam os filhos que elas levitam.

Flores violentas batem nas suas pálpebras. Elas respiram ao alto e em baixo. São silenciosas. E a sua cara está no meio das gotas particulares da chuva, em volta das candeias. No contínuo escorrer dos filhos.
 
As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos, porque os filhos estão como invasores dentes-de-leão no terreno das mães. E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, e atiram-se, através deles, como jactos para fora da terra.

E os filhos mergulham em escafandros no interior de muitas águas, e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos e na agudeza de toda a sua vida. E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, e através dele a mãe mexe aqui e ali, nas chávenas e nos garfos.

E através da mãe o filho pensa que nenhuma morte é possível e as águas estão ligadas entre si por meio da mão dele que toca a cara louca da mãe que toca a mão pressentida do filho. E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo, e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Hélder/ Blog “Das Pequenas Coisas