sábado, 27 de janeiro de 2018

Crônica da vida que passa


Por Fernando Pessoa

“Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeismo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeismo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade. Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele-próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz. E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de génio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos. Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida-eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da cousa transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez. Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas - e quem sabe a que ponto reais? - que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.”

(in Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)


Texto reproduzido do Blog Portugal dos Pequeninos de João Gonçalves

domingo, 21 de janeiro de 2018

Fogo e Fúria


Terminei de ler “Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca de Trump”, do jornalista Michael Wolff — livro que relata ao mundo um perfil sombrio de Donald Trump. Não há uma só palavra que realmente o ajude.
Da vitória inesperada, à obsessão por Putin, o presidente dos Estados Unidos — narcisista e distraído demais para ser capaz de governar — não teria a menor “noção” do lugar que ocupa na história.
Além disso, seu alto escalão estaria rachado, se digladiando. No centro desta guerra, esteve o hoje ex-conselheiro Steve Bannon e a família de Trump, mais especificamente, a filha Ivanka e o cunhado Jared Kushner.
Todos disputavam força e influência sobre o presidente e certamente uma das fontes de Wolff foi Steve Bannon. Ele é citado várias vezes ao longo do texto – bem escrito e uma leitura agradável.
 
Exemplo: “No Salão Oval, na frente do pai dela, Bannon atacou abertamente [Ivanka]. ‘Você’, ele disse, apontando para ela enquanto o presidente assistia, ‘é uma mentirosa do caralho’.
O retrato de Trump é demolidor. Ele é descrito como avoado, um indivíduo com capacidade de concentração curta, incapaz de ler resumos de planos políticos, analisar problemas e tomar decisões bem embasadas.
Trump seria alguém que vê TV frequentemente e que segue frustrado e confuso com o fato de não ter obtido aprovação generalizada dos americanos.
Seus assessores aparecem cientes de seus defeitos e, segundo o livro, se perguntam por quanto tempo podem manter a ilusão de que Donald Trump é capaz de governar.
“Somos todos perdedores”, teria dito Trump ao longo da campanha. ‘Todo o nosso pessoal é terrível, ninguém sabe o que está fazendo'”.
Em conversa com doador eleitoral, ele teria sido mais específico: “Esta coisa’ – disse sobre a campanha – ‘está fodida'”.
– O choque da vitória –
“Ao longo da campanha, quando o inesperado parecia se confirmar – surgiu um Donald Trump que achava ser totalmente capacitado a ocupar a Presidência dos Estados Unidos”.
Tudo combinado com os russos?
“Os três caras mais importantes da campanha’ (Donald Trump Jr, o genro de Trump, Jared Kushner, e o chefe de campanha, Paul Manafort), tiveram reunião explosiva com um governo estrangeiro na sala de conferências, no 25º andar da Trump Tower, e sem advogados.
Diz trecho do livro: “Eles não tinham advogados. Mesmo que você pensasse que isto não era traição, antipatriótico ou uma merda ruim – o FBI deveria ter sido chamado imediatamente'”.
Trump não sabe nada da Constituição?
Sam Nunberg foi enviado para explicar a Constituição para o então candidato, mas não passou da Quarta Emenda
Trump teme ser envenenado – “Ele tem um medo antigo de ser envenenado, razão pela qual gosta de comer no McDonald’s – ninguém sabia que ele estava chegando e a comida estava seguramente pré-preparada”.
– As pretensões presidenciais de Ivanka – A primeira mulher presidente nos Estados Unidos, considera Ivanka, não seria Hillary Clinton, seria Ivanka Trump.”
– Uday e Qusay Trump – “Seus filhos, Don Jr. e Eric, são chamados pelas costas por pessoas próximas de Trump de Uday e Qusay, nomes dos filhos de Saddam Hussein”.
– Rupert Murdoch sobre Trump
“Que idiota da porra”, teria exclamado o magnata dos meios de comunicação, depois de conversar sobre imigração com Trump.
Ivanka revela o segredo do topete – Ivanka “trata o pai com certo distanciamento, inclusive com ironia, a ponto de fazer brincadeiras com os outros sobre seu penteado.
Ela explicou aos amigos: Trump tem uma parte totalmente calva no topo da cabeça – depois de uma cirurgia de redução da pele do crânio – rodeada por um círculo de cabelo dos lados e à frente; as extremidades são penteadas para se encontrarem no centro e, depois, jogadas para trás, e fixadas com spray.
A cor, ela observa com tom cômico, é de um produto chamado ‘Just for Men’. Quanto mais tempo fica aplicado, mais escuro o cabelo fica. A impaciência resultou no louro-alaranjado de Trump”.
Retórica tosca...
É isso, este é o homem que manda na Casa Branca.  O livro despreza e desmonta a retórica tosca e semi-primária de Trump, o homem que está dando aos Estados Unidos (e ao mundo) o que dele se esperava.


 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Escrever com o vigor de uma mulher...



«Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem.» 
LYA LUFT

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Dinheiro público

Porquê falar tanto de punição a quem desvia dinheiro público?
 
Porque tudo que é sustentado pelo Estado é pago por mim e por uma enorme quantidade de gente que nem sequer consegue ser bem atendida em um hospital público e, mesmo assim, segue pagando salários absurdos a inúmeras pessoas que nem sequer merecem um pontapé no traseiro se forem despedidas por justa causa. Tenho mais do que o direito de falar sobre esses assuntos, tenho a obrigação. Sinto esse dever moral.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Tens de inverter o sentido de marcha... KAFKA

KAFKA

«Ah», disse o rato, «o mundo cada dia fica mais apertado. A princípio era tão grande que até me metia medo, depois continuei a andar e ao longe já se viam os muros à esquerda e à direita, e agora - e não passou assim tanto tempo desde que eu comecei a andar - estou no quarto que me foi destinado e naquele canto está já a armadilha em que vou cair.»
«Tens de inverter o sentido de marcha - disse o gato, e comeu-o».
Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Dever moral

Por que é preciso defender o interesse público? Porque toda e qualquer instituição que recebe dinheiro do estado tem de ser auditada, fiscalizada e prestar contas. Sim, é preciso cobrar responsabilidade de tudo que é pago por mim e por uma enormidade de pessoas que nem sequer consegue ser bem atendida num hospital público e que vai pagando salários astronômicos a gente que nem sequer merecia um pontapé no traseiro, além de demissão por justa causa. Sim, é isso. Todos nós temos o direito de falar com indignação e revolta sobre esse assunto. Mais que isso: temos a obrigação. Sinto esse dever moral.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Cadê os outros?


No Brasil de hoje temos dezenas de pessoas investigadas (muitas condenadas e algumas presas) por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e todos os tipos de desvios dos fundos públicos.

Além de dizer que neste álbum histórico estão muitos nomes e fotos da "elite" nacional, lamento assinalar a estranha exceção do Judiciário, da polícia e dos altos funcionários públicos que foram omissos na fiscalização, prevenção ou denúncia da roubalheira.

Já que aparentemente houve tanto cuidado em juntar o maior número possível de figuras públicas de diversas áreas, por que foram incluídas fotos de mais setores institucionais do que de outros? Não estou criticando, estou lamentando as ausências que são muitas e injustificáveis.

Sei que a Lava-Jato é uma benção no país da impunidade, mas acredito que neste caso, e logo desde o início, criou-se e deixou-se alastrar pela opinião pública a ideia de que por trás dos crimes de corrupção estavam apenas os "políticos poderosos".

E, sendo "poderosos", convinha que tivessem rostos conhecidos.  Assim, o álbum foi aparentemente limitado às figuras e os rostos que as televisões, as revistas e os jornais mostram.

O mundo da magistratura, onde alguns sempre olharam para a política com um misto de inveja e de ressentimento, passou a exercer o poder de arruinar, com gosto e naturalidade, a reputação de algumas das figuras públicas mais conhecidas do Legislativo e do Executivo.  

Ao consentir na orientação da investigação neste sentido, viram aqui mais uma oportunidade para "limpar" um "sistema" que intimamente desprezam.    

Não quero dizer que muitos políticos não dão motivo para a maldição pública. O que quero dizer é que no meio disto tudo, porém, existem seguramente vítimas de um crime concreto.

E não sabemos se os criminosos, os verdadeiros, vão ter o seu castigo ou se os inocentes vão ser absolvidos. O que acho é que a legítima indignação de muitos se confundiu demasiadas vezes com a demagogia sensacionalista de alguns.

Acho ainda que falta  credibilidade e "serenidade"  em alguns líderes da investigação. Ver um procurador de dedo em riste no Jornal Nacional investindo contra todos os poderes da República não pode ser sinal de avanço. É, no mínimo, excesso de parcialidade.

Tudo visto e ponderado, estou certa de que uma justiça "justa" jamais poderá ser aquela que se apoia, seja de forma ingênua ou mesmo de maneira convicta, no triunfo do recalcado.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Natal



Estrela de Belém e dos pastores
Lava da alma humana as suas dores...

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

UTOPIAS ANTIPOLÍTICAS!

 
 
Por Angela Alonso - Iustríssima- FSP, 17 
 
1.  Versão notável desse tipo de utopia é a da empresa Seasteading Institute, fundada em 2008 por um empreendedor de tecnologia e um engenheiro de softwares. O segundo é neto de Milton Friedman, assegurando o DNA liberal.
 
2. A organização abandonou os "sistemas políticos obsoletos" em favor de "cidades flutuantes que permitirão à próxima geração de pioneiros testar pacificamente novas ideias de como viver em comunidade." Bem-sucedidas, disseminarão a "mudança", abolindo os Estados.
  
3. Este novo utopismo tem geografia móvel: ilhas artificiais ancoradas em alto-mar. Assim, se insatisfeitas com a vizinhança, levantariam âncora em vez de guerrear. O residente também se livraria do Estado, cabendo a gestão a especialistas. Escaparia do aborrecimento com políticos, tornando-se cliente de um serviço.
  
4. Essa utopia antipolítica concretiza o que pensam muitos: que políticos são parasitas ineficientes e dispensáveis, assim como tudo que os cerca —as Constituições, as instituições políticas, as candidaturas e os votos.
  
5. Tal negação extrema da política tem correspondentes no debate brasileiro. A opinião, as redes e as mídias entronizaram o mercado, com seu princípio de eficiência. Ao mesmo tempo, subiu na consideração popular um Poder não eleito: o Judiciário, único guardião da coisa pública, mais capaz e confiável que os políticos. Produziu-se verdadeira glamorização de juízes e promotores, com livros, eventos, filmes, séries, homenagens e prêmios aos "heróis" da Lava Jato.
   
6. O prestígio se estendeu para a Polícia Federal. O empoderamento público da corporação começou jocoso, com o "japonês" que conduzia políticos acusados de corrupção e o culto a policiais-musos. E se assentou na equação "justiça igual a prisão" —apesar de nossa população carcerária ser a terceira no ranking mundial.
   
7. Em princípio, como diz o nome do filme —"Polícia Federal: A Lei é para Todos"—, a regra independe de a quem se aplique. Mas como tudo se interpreta, uns são inocentados e outros aprisionados, conforme as conveniências.
   
8. Essa moralidade antipolítica incita uma lógica da exclusão e anima o milhão de pessoas que foi ao cinema prestigiar a PF e aqueles que aderem à candidatura presidencial de um militar.  E é o que legitima as idas da polícia aos campi de universidades públicas, onde muitos discordam dos partidários da utopia antipolítica.
   
9. As operações da PF se baseiam na crença sincera de que o combate à corrupção lhe confere um mandato tácito da opinião pública para vigiar e punir. A UFMG foi o caso mais recente de uma série de seis operações em universidades federais. Feriu direitos individuais. Não houve intimação para depor que, desobedecida, justificaria a condução coercitiva.
   
10. Essa ação e suas congêneres se amparam na tese de que o serviço público é ineficaz e corrupto, ao contrário do mundo privado de Seasteading Institute, Odebrecht, Friboi e similares, onde só existiriam pessoas eficientes e de bem. Mas não é bem assim. Em toda parte há joio e trigo, no Estado e no mercado, na universidade e na PF.
   
11. A utopia antipolítica produz um antiestatismo às cegas, que evita a política como esfera de debate entre os divergentes. Ancorados em uma superioridade moral que julgam autoevidente, os novos utopistas excluem, discriminam, impõem. Seus fins justificam seus meios. O apelo à ética respalda a prática da violência.
   
12. Pode parecer distopia, mas, como a ilha do neto de Friedman denota, o pesadelo de uns é justamente a utopia de outros.
 
 

Texto da Folha extraído do Ex-blog de Cesar Maia em 19/12/2017 

sábado, 16 de dezembro de 2017

A pobreza extrema de um país rico nos números do IBGE


Deve saber-se com quem se está e contra quem é preciso travar combate.
Neste momento, qualquer tentativa de consenso político que ignore os dados do IBGE sobre a pobreza no Brasil, seja em que setor for, é um puro equívoco.

De acordo com o Instituto, um quarto da população, ou 52,2 milhões de brasileiros, estava abaixo da linha da pobreza em 2016, conforme parâmetros estabelecidos pelo Banco Mundial no mês passado. Um contingente que corresponde a cinco vezes e pouco a população de Portugal ou a da Grécia, perto de nove vezes a da Dinamarca, ou tanta gente quanto tem a África do Sul.

Desses 52,2 milhões — que viviam com renda domiciliar per capita diária inferior a US$ 5,50 (R$ 387,07 por mês) —, quase 18 milhões eram crianças de zero a 14 anos.

43,1% dos habitantes do Norte e 43,5% dos moradores do Nordeste vivem com renda igual ou inferior a R$400 reais por mês, contra 25,4% da média nacional. Ou seja, quase metade da população das duas regiões.

É difícil fazer brilhar nos olhos dos meus netos alguma  esperança no futuro do País com uma realidade dessas. Uma vez mais, sei que alguma coisa tem de acontecer, qualquer coisa, mesmo eu não sabendo o quê, quando ou como...

Pior é lembrar que nada do que vai acontecer sairá da política tendo em vista a barafunda institucionalizada... E pior ainda é constatar essa necessidade de consenso que muitos defendem.

O objetivo é manter tudo como está? Discordo completamente! Há momentos na vida em que é preciso mudar de lugar, curvar noutra direção e passar a estar num "outro lado" qualquer. Sem consensos.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

"Tenta e fracassa, tenta outra vez e fracassa melhor".


"Uma mulher aborda-me na rua e pergunta-me se sou seu filho. Olho-a por uns segundos e sigo em frente. Já de costas, ouço-a repetir a pergunta. Continuo. Perplexo. Toda a cidade tem os seus loucos, os seus disturbados, os seus perdedores. Eu não quero fantasiar: a loucura é caso clínico e não traz glória. Mas o fracasso, amigos, o fracasso, a derrota humana têm um esplendor profundo e imaterial que eu admiro. Admiro intensamente os que fracassam, os que perdem. O fracasso é infinitamente preferível à vitória. Quem perde, ganha uma angústia metafísica, uma compaixão existencial. Merece respeito. E merece ainda mais respeito se perde de propósito, se é um perdedor nato e intencional. Os vencedores aborrecem-me, escandalizam-me, oprimem-me. Não exalam uma única vergonha, um único constrangimento, uma única incerteza. E são cinicamente inverosímeis no seu brilho estudado e elefantino. Meias da cor dos sapatos, sapatos da cor das calças, cuecas da cor da gravata. Uma voz segura, um perfil de estátua. Os vencedores sabem o que dizer, o que fazer, o que esperar. E permanecem sempre os mesmos, aconteça o que acontecer. Se tivesse coragem, digo-vos que fracassaria com afinco todos os dias. É muito mais saudável perder do que ganhar. Ganhar é um luxo, uma embriaguez fácil, uma descaracterização. Fracassar não é nada disso. Fracassar é muito mais difícil, muito mais exigente e muito mais conservador do que ganhar. É a única utopia conservadora em que eu acredito: a utopia do fracasso. Tenho há muito tempo esta certeza e não me peçam para explicar: o mundo será melhor no dia em que for universalmente feito de fracassados".

"Fracassar é preciso", de Pedro Lomba
Título: Frase de Samuel Beckett    

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Um novo ano está chegando...


Em 2018, como todos os otimistas, espero mais sensatez e normalidade. E torço por um projeto coletivo que seja razoável, mobilizador e equilibrado.

O desânimo de alguns é profundo, mas os lamentos sobre a nossa desigualdade não ajudam. Não adianta insistir em  diagnósticos sobre a nossa cultura de maus tratos aos mais pobres, que dependem do Estado. 

Convém trabalhar pela responsabilidade social e defender líderes políticos com sensibilidade, capazes de enxergar a dor do outro. 

A confiança no poder e nas instituições é básica, se quisermos ter um mínimo de respeito pelo Estado. Confiança se conquista com decência, capacidade e racionalidade.

Vamos tentar fazer com que a política nos ajude a tornar-nos mais donos da nossa vida, mais responsáveis pelo nosso País. Nesse sentido, convém que cada um de nós faça mais do que tem feito.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Lula

Lula faz política há mais de 50 anos. Tornou-se mestre na arte do paradoxo político: consegue dizer sempre mais do que realmente diz e tem sido dono de uma rara capacidade de fazer dos seus defeitos “extraordinárias virtudes”, como ele costuma dizer. 
 
Lula também pode ser definido pela resiliência – está em campanha pela Presidência da República pela sexta vez, apesar de condenado na Lava-jato em primeira instância e de enfrentar uma fieira de outros processos na Justiça.
 
Não se pode negar que ele se alimenta e se realimenta de algumas características do caráter nacional: a capacidade de reverter adversidades; a complacência com o erro, a recusa ao mérito e o silêncio sobre toda e qualquer qualidade dos adversários.
 
Se Getúlio Vargas foi nosso político mais protetor e autoritário; JK o mais solar e avançado; Tancredo o mais conciliador  e FHC o mais diplomático, Lula é irrecusavelmente o mais brasileiro. Para o bem e para o mal. Com tudo que isso significa. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

Questão democrática

Li e reli a pesquisa Datafolha que aponta Lula na ponta e Jair Bolsonaro isolado em segundo lugar. Fiquei pensando: o que une Lula e Bolsonaro? 
 
Resposta mais plausível:  os dois são produtos da democracia que construímos. Sim, somos nós, todos nós, os responsáveis pelos resultados políticos que estamos colhendo.

Não há inocentes na política brasileira ou na política de qualquer lugar do mundo.  
Esta verdade, contudo, parece incomodar profundamente alguns democratas que, ultimamente, estão assinalando a natureza maléfica destas duas candidaturas.
 
Posso até concordar com as advertências sobre isso, mas não posso deixar de lembrar que as pesquisas  indicam, até aqui, que a maioria do povo está com eles. E, parece se inclinar para garantir que os dois passem para um duelo direto, em caso de uma segunda volta da corrida presidencial de 2018.
 
Se os demais candidatos não parecem capazes de reunir forças e argumentos para mudar o cenário, das duas; uma: mudamos de povo ou continuamos acreditando na democracia?
 
PS: Não se ofenda, por favor, é só uma pergunta...

sábado, 2 de dezembro de 2017

Nada me espanta

O sorteio da copa não me espanta. Brasil x Alemanha não me espanta. Bolsonaro no topo das pesquisas não me espanta. Nada  me espanta. Estou me tornando descrente até aos ossos.
 
Hoje, reli Nelson Rodrigues. Passo a citá-lo:
 
(...) “no passado, eram os "melhores" que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os sentimentos etc…etc…
 
(...) “E, de repente, tudo mudou. No presente mundo, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito não existe, simplesmente não existe”…
(...) “E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou herói, precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino.»
Por questão de príncipio, discordo de Nelson Rodrigues quando ele se refere a outras pessoas como "idiotas" e/ou "cretinos". Essas são palavras que ninguém devia usar para se referir a outros seres humanos.      
De todo modo, devo reconhecer que seu texto forte continua ecoando. E, para alguns, com verdade e atualidade, apesar do estilo duro e indigesto.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O presépio da Giovana


 
Comprei um presépio para Giovana, minha neta de sete anos. Sempre defendi a formação religiosa das crianças. Como escreveu  Dostoievski, no seu último e monumental romance Os Irmãos Karamazov, “se Deus não existe tudo é permitido".
 
Mantive minha fé no correr da vida, apesar de muitas divergências com a Igreja, mas hoje, na maturidade, nunca me senti tão distante das ideias religiosas como neste momento.
 
Quando li Nietzsche na juventude fiquei muito perturbada com suas pesadas críticas, a bem da verdade, com sua forma impiedosa e verdadeira de enxergar o catolicismo.
 
Para fugir ao conflito pessoal (sou especialista nisso) lembro-me de ter pensado que, na prática, as coisas não eram assim tão lamentáveis, uma vez que os católicos se beneficiavam de suas crenças. E, por meio delas, realimentavam a esperança.  
 
A minha fé é assunto privado que não depende das leituras ou das minhas flutuações opinativas. Leio a Bíblia com proveito, tenho santo de devoção (São José) e procuro cumprir as obrigações espirituais desde o tempo do catecismo.

Nunca fui surda ao poder cultural da religião. Na verdade, eu creio que Deus é a maior das ideias humanas.
 
Nos últimos anos, contudo, minhas relações com uma Igreja que concede perdão sem limite e, com isso, favorece a impunidade, passaram a incomodar-me profundamente.
 
Sinto falta da força e da nobreza da religião de S. Paulo e de Sto. Agostinho. Ao agarrar-se à pieguice, o catolicismo parece ignorar que tem atrás de si uma longa tradição intelectual. Tradição que esses dois santos representam com louvor.
 
Hoje, no entanto, tudo no catolicismo mudou depois dos escabrosos e imperdoáveis casos de pedofilia. E a Igreja Católica  definitivamente não parece ter força para se levantar, depois da gestão catastrófica dos crimes em série feita por Roma. 
 
Não é por acaso que nunca me senti tão distante da opinião católica, como neste momento. Mesmo assim, comprei um presépio para minha neta. Como podem ver, este é o texto de uma católica que não tem orgulho da sua Igreja, mas que não vê mal em ensinar uma criança a ter fé, a acreditar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Leonard Cohen

Acabou
Acabou
Já não vou mais atrás de ti
vou deitar-me meia-hora
Acabou
não vou ficar na tua memória
não vou esfregar a minha cara na tua memória
vou bocejar
vou-me espreguiçar
vou espetar uma agulha de crochê
pelo nariz acima
e arrancar o cérebro
Não te quero amar
a vida inteira
quero que a tua pele
caia da minha pele
quero que a minha garra
deixe a tua garra
não quero viver
com a língua de fora
e outra canção nojenta
em vez
do meu taco de basebol
Acabou
agora vou dormir minha querida
Não tentes impedir-me
vou dormir
terei um rosto macio
e baba na boca
estarei a dormir
quer me ames ou não me ames
Acabou
A Nova Ordem Mundial
das rugas e do mau hálito
Já nada vai ser
como era antes
quando te comia
com os meus olhos fechados
esperando que não te levantasses
e fosses embora
Agora vai ser uma coisa diferente

uma coisa pior
uma coisa mais estúpida
uma coisa como esta
mas ainda mais pequena


Leonard Cohen, Book of Longing (2006)
(trad. PM)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Lutero: a singularidade de um homem

Por Ana Paula Menino Avelar

 
A 31 de Outubro de 1517, frei Martinho Lutero publica as 95 teses contra as indulgências, cuja tradição, para a qual muito contribuiu Philipp Melanchthon, consagra terem sido afixadas na porta lateral da igreja de Wittemberg. Nelas, Lutero contestava a prática comum de "resgate de almas do purgatório", entretanto transformada num comércio lucrativo.
 
O então frade Agostinho contribuía assim para o debate em torno da reforma da Igreja que ia acompanhando através dos seus estudos filosóficos e teológicos. Este era um assunto particularmente sensível, perigoso até, como atesta a excomunhão e condenação à morte na fogueira, em 1498, do dominicano Girolamo Savonarola, pregador da renovação eclesial.

Lutero só sobreviveria à polémica gerada pelas suas teses devido à proteção do príncipe eleitor, Friedrich, o sábio, e ainda ao eco que teve não só junto dos que o ouviam pregar
como daqueles que o liam e admiravam. Com efeito, a imprensa facultou a rápida e constante propagação das suas ideias, contribuindo para configurar um tempo novo marcado pelas rupturas religiosas e por profundas transformações da sociedade.

Lutero nasce em Eisleben a 10 de novembro de 1483. No ano seguinte, a família muda-se para Mansfeld, onde o pai inicia um lucrativo negócio de mineração do cobre. Martinho entraria na Universidade de Erfurt, onde em 1505 seria mestre em Artes. Nesse mesmo ano, contra a vontade paterna, ingressa no mosteiro Agostinho. Segundo a tradição, terá sido durante uma forte tempestade que, perante o medo da morte, prometeu seguir a vida religiosa.Após a ordenação, em Maio de 1507, regressa à Universidade de Erfurt, onde irá leccionar e aprofundar os estudos em filosofia e teologia. A sua atividade docente prosseguirá na recém-criada Universidade de Wittenberg.

Em 1510 é enviado a Roma, onde participa no debate sobre a reforma dos Agostinhos, contatando com a cúria papal de Júlio II, e testemunhando o fausto que mais tarde critica abertamente. Ao regressar à Alemanha prossegue a atividade como professor, continuando imerso na reflexão em torno da éxegese bíblica, e doutorando-se em Teologia. Devido à proteção do seu superior Johann von Staupitz e do príncipe eleitor, ocupa um lugar na Universidade de Wittenberg.

Após a publicação das 95 teses iniciam-se constantes disputas com outros doutores da Igreja e humanistas. Em 1518 escreve o seu Tratado sobre as indulgências e a Graça em que retoma princípios antes enunciados, transmitindo-os de um modo mais pastoral. Vários teólogos e humanistas acompanham-no nas suas reflexões, sendo Philipp Melanchthon um dos seus mais próximos interlocutores. Damião de Góis testemunhou a amizade que os unia, quando visitou Wittenberg, em 1531, um mês após a formação da Liga de Schmalkalden, que endurecia a luta dos príncipes protestantes do Sacro Império Romano contra Carlos V e o papa.

Góis ouviu o serviço religioso e a prédica de Lutero, e jantou em sua casa com Melanchthon. Aí conversaram sobre as práticas protestantes, tendo Góis declarado o seu desacordo face a alguns dos tópicos abordados. O diálogo continuaria, porém, através das missivas trocadas entre ambos.

Em 1518 e em 1519, Lutero é chamado a responder perante o imperador Maximiliano e perante o papa devido às suas posições. No entanto, a morte daquele e a eleição do novo imperador marcaria o seu destino. Embora Friedrich fosse inicialmente um dos candidatos, posteriores negociações levariam à eleição de Carlos V.

Em 1520 recrudescem os libelos de Lutero em defesa das suas posições. Redige, então, À Nobreza Cristã da Nação Alemã ..., exortando o papel da nobreza nas mudanças da Igreja para a salvação das almas. Dois meses depois redige Do Cativeiro Babilónico da Igreja... em que discorre sobre os sacramentos e sobre lugar do ritual na Igreja.

Em novembro sai A Liberdade do Cristão, em que retoma um dos seus temas nucleares, a questão da redenção. Por fim, publica Contra a Execrável Bula do Anticristo, cujo título na impressão alemã perde a palavra execrável, o que não lhe retira a tonalidade antipapal, num claro manifesto contra a excomunhão de que fora alvo. As posições tinham-se extremado: enquanto em Roma e noutras cidades se afixa a bula de excomunhão e se queimam os livros de Lutero, nalgumas cidades alemãs, como Wittenberg, queimam-se as decretais do papa e a bula que o excomungara.

Corre o ano de 1521 quando o imperador Carlos V convoca a sua primeira Dieta em Worms. Embora Lutero compareça, o resultado será a sua expulsão do Império. Sob a protecção de Friedrich, refugia-se em Warturg, onde traduz o Novo Testamento para alemão. Em março do ano seguinte regressa a Wittenberg, já então um dos mais importantes centros de impressão. Aí continua a escrever e a publicar.

Em 1525, numa discreta cerimónia, casa com Katharina von Bora, na presença dos seus amigos mais chegados, entre os quais se conta um dos principais impressores da cidade, o também gravador e pintor Lucas Cranach, o Velho. A ação deste, a par da de outros artistas, contribuiria decisivamente para a construção da iconografia da reforma e difusão dos seus textos.

Lutero continuaria, entretanto, a aprofundar a sua reflexão teológica. Recorde-se que, no ano anterior ao seu casamento, Erasmo, seu amigo de há muito, dele se afastara quando em Discurso sobre o Livre-Arbítrio defendeu a tese segundo a qual este permitia ao homem alcançar a salvação através dos seus atos e obras. Em resposta, Lutero escreveu Do Servo Arbítrio, em que defendia que os homens só são livres pela fé e não pela vontade ou pelo livre-arbítrio.

A sua voz continua a intervir nos acontecimentos do seu tempo. Discorda da revolta dos camponeses que eclode entre nos anos 1524 e 1525, e acompanha, nos anos subsequentes, a evolução do movimento da reforma, dissertando sobre vários assuntos eclesiais. Um dos seus gestos públicos mais polémicos ocorrerá, em 1543, ao defender a expulsão dos judeus da Alemanha; ele, que anteriormente se tinha lamentado pelo facto de a hierarquia cristã impedir tentativas de trazer os judeus para o cristianismo e se tinha pronunciado sobre os rituais judaicos.

Se a educação foi um dos seus temas de reflexão mais constante, a Bíblia permaneceu sempre no centro do seu pensamento e da sua ação, tendo concluído em 1534 a sua tradução integral. No ocaso da sua vida não deixa de acompanhar a atividade quotidiana da sua Igreja e de nela participar. Às três da manhã do dia 18 de fevereiro de 1546 morreu na cidade que o viu nascer: Eislaben.

*Prof. Assoc. Agregada Univ. Aberta CHAM-Centro de Humanidades

sábado, 21 de outubro de 2017

Ser conservador é ...

A sucessão presidencial vem aí o que acentuará a má vontade, a desinformação e a  preguiça ideológica com os conservadores — apontados como autoritários, insensíveis, fascistas e até  neonazistas, entre outros equívocos de costume. João Pereira Coutinho, escritor e brilhante jornalista português, é autor da melhor definição/conceito sobre a palavra:
"Conservadorismo é, antes de tudo, uma «disposição» filosófica, para usar o termo feliz de Michael Oakeshott - o maior filósofo conservador do século XX e um dos maiores pensadores de toda a história das ideias políticas. É isso que o distingue do liberalismo, ou do socialismo, mais facilmente sistematizados num cardápio político e prático."
Um conservador é alguém que possui uma disposição conservadora baseada na fruição e na resistência à mudança. A fruição nasce diretamente do conceito temporal essencial para um conservador: não o passado (como para um reacionário), não o futuro (como para um revolucionário) - mas O PRESENTE.
O conservador estima o presente porque ele tende a desfrutar aquilo que existe e não necessariamente aquilo que ele desejaria que existisse. O conservador lida com a realidade, não com o desejo. Prefere o familiar ao desconhecido; o tentado ao nunca tentado; o fato ao mistério; o atual ao possível; o limitado ao ilimitado; o próximo ao distante; o conveniente ao perfeito; a gargalhada presente à promessa utópica.
Para um conservador, é preferível manter do que adquirir, cultivar do que alargar. Isto está diretamente ligado com o problema da mudança. Não que o conservador seja contrário à mudança. Como diria Burke, uma sociedade que não sabe mudar não se sabe conservar. Mas, ao contrário de um revolucionário - de esquerda ou de direita -, um conservador sabe que em cada mudança existe uma perda. Por vezes, uma perda brutal e irreparável. Tanto que só abraça entusiasticamente a mudança quem, no essencial, nada tem para preservar.
O conservador define-se pelo ceticismo racional. E pela prudência. Naturalmente que algumas mudanças são inevitáveis para a continuidade da aventura humana, mas o conservador prefere alterações graduais, lentas, cautelosas, capazes de respeitar os arranjos sociais que resistiram ao teste do tempo.  
Em termos estritamente políticos, esta «disposição» não tem nada que ver com a lei natural ou com uma ordem providencial; nada que ver com a moral ou a religião.
Politicamente, interessa a um conservador ter bem presente que o exercício do governo é uma atividade específica e limitada: ele sabe que é necessário prover a sociedade com regras gerais de conduta e não, nunca, jamais, com comandos diretos ou imposições abusivas.
As regras gerais de conduta são um instrumento para que as pessoas possam seguir os seus próprios caminhos com a mínima frustração possível.
Um governo conservador não impõe soluções: ele resolve conflitos. Não começa com a visão de um mundo melhor, um Outro mundo. Começa com este mundo e sabe que é aqui que vivemos, é aqui que temos de acreditar e, quando a altura chegar, agir também. Um governo conservador não está preocupado com pessoas concretas, com classes, com atividades.
Não é um governo «moralista», no sentido de que exige dos homens determinados comportamentos tidos por «corretos» - sancionando os «desviantes». A principal preocupação de um governo conservador é a manutenção da paz e da segurança. Porque é da paz e da segurança que nasce a liberdade, ou seja, a pretensão legítima dos seres humanos conduzirem as suas próprias vidas.
Sou filha de conservadores.  Aprendi desde pequena, no exercício diário da tolerância, que não há perfeição humana. Não há mundos com prados verdejantes e nem tudo se pode resolver com slogans de cartilhas. Existe o vício, existe o caos, existem limites às ideias, existe a falibilidade humana, existe a experiência, existem dúvidas cruciais que recomendam prudência e não ousadia; e existem ameaças, perpétuas ameaças, ao que construímos.
O mundo que pisamos é sempre um mundo frágil, é sempre um mundo que precisa de defesa. Um conservador acredita nisto: na dúvida, mantém; na dúvida, fica; na dúvida, conserva. Mas a dúvida não o impede de prosseguir, a dúvida não o impede de mudar, quando é essa a melhor alternativa, quando o que não temos seja literalmente melhor do que o que temos.
Mas um conservador saber que devemos ser nós a assumir essa mudança, que somos nós que escrevemos o nosso destino, somos nós os responsáveis. Não o partido, não a multidão que vemos nas ruas, não o Estado que faz sempre menos do que pode.

O que separa, politicamente, um conservador e um liberal? Sabendo que o conservadorismo acaba na defesa da liberdade e autonomia individuais e o liberalismo na preservação de uma ordem política imune ao poder do Estado, haverá diferenças entre liberais e conservadores?

Os conservadores defendem as liberdades (políticas, econômicas, nomeadamente). Mas temperam ou sobrepõem a essa defesa uma visão essencialmente cética e pessimista da natureza humana. Nós queremos segurança, queremos paz, queremos proteger direitos básicos, queremos continuar vivos.

PS: Não caia no conto de candidatos antidemocráticos que se dizem conservadores ou liberais. Um conservador, obrigatoriamente, é adepto da Democracia. Ponto.


 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

2018: Dois no páreo Candidato conservador e de direita contra Lula ou seu clone

BRASIL: A DIREITA CONSERVADORA TENDE A IR PARA O SEGUNDO TURNO NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DE 2018!

1. A presença permanente do deputado Jair Bolsonaro em segundo lugar nas pesquisas pré-eleitorais realizadas por todos os institutos de pesquisa, não deve ser vista de forma personalista em função da imagem e posicionamentos do deputado. É provável que se as pesquisas incluíssem o nome de um General -destacado nas redes e na imprensa por suas declarações conservadoras-, haveria uma troca com Bolsonaro, que perderia alguns pontos nas intenções de voto.

2. Pesquisa recente do Instituto Paulo Guimarães, perguntando se os eleitores preferiam um presidente civil ou militar, 33% responderam que preferiam um Presidente Militar. Em outra pergunta, se para o Brasil seria melhor a Democracia ou um Regime Autoritário, 21,6% responderam que preferiam um Regime Autoritário. O Instituto Datafolha, em pesquisa de outubro, mostra que a direita + centro-direita somam 40% da preferência dos eleitores. E ao elencar opiniões sobre temas, 29% são a favor do cidadão possuir uma arma legalizada, 46% a favor da pena de morte, 83% a favor da proibição de drogas e 26% de desencorajar homossexualismo.

3. O instituto Pew de pesquisas, dos Estados Unidos, em pesquisa recente, em 38 países, perguntou sobre apoio ou simpatia por governos militares ou não democráticos. Folha de S. Paulo, 17/10: “Segundo a pesquisa, 23% dos entrevistados no Brasil dizem não gostar da democracia representativa e apoiam ao menos uma das três formas de governo: tecnocrático, militar ou com um ‘líder forte’. Nos 38 países, a média é de 13%, com 23% que dizem descartar formas de governo "não democráticas".

4. Quando a pergunta é feita especificamente sobre um governo militar, 38% dizem que a opção seria boa no Brasil, contra 55% que se opõem. Em todos os países, a média é de 24% de apoio a esse tipo de governo”.

5. Cruzando essas e outras pesquisas com pesquisas recentes políticas e eleitorais no Brasil, verifica-se que uma, se não a mais importante, resultante de opinião da crise política, econômica e corrupção política, é reforçar o apoio às ideias não democráticas e retomar a memória positiva do regime militar no Brasil.

6. Importante destacar que quando se faz referência às ideias ditas de Direita, as que ganham maior apoio são as conservadoras e não as liberais. A criminalização da política em função dos escândalos, reforça essa tendência.

7. As consequências eleitorais, se as eleições fossem hoje, são claras. Um candidato com ideias conservadoras de direita iria para o segundo turno. E mais ainda. Se Lula conseguir ultrapassar seus problemas jurídicos e se candidatar a presidente, ou se seu apoio aberto e colado a um candidato que seja sua “imagem e semelhança”, a probabilidade –hoje- é que no segundo turno teríamos um candidato conservador e de direita e Lula ou seu clone.

8. E agregue-se o efeito que o crescimento dos votos brancos e nulos e da abstenção terá sobre a decisão do eleitor em 2018. É provável que o voto conservador de direita tenha maior estabilidade e se beneficie dessa tendência. Dessa forma, os candidatos de centro, centro-esquerda ou centro direita, e especialmente os liberais, estariam –hoje- fora do segundo turno.

9. Mas ainda há muita água a passar nesse rio da opinião pública política. E que esse processo não corra espontaneamente, mas que seja impressionado pela opinião das pessoas, das redes e da imprensa. Espera-se!

Texto de Cesar Maia - Nota de abertura do ex-blog desta quarta,18 /10/2017