terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um grande texto sobre os confins do cerrado

O PESSIMISMO COMO DEVER CIVIL
JOSÉ EDUARDO FARIA
Passou despercebido dos cadernos culturais dos jornais, em 2016, o 60.º aniversário de Vila dos Confins, um livro singular de Mário Palmério, nascido da confluência entre ficção e realidade e que trata da política miúda protagonizada por coronéis, jagunços e cabos eleitorais com suas práticas conhecidas, como trocas de favores, compra de votos, intimidações e fraudes de todo tipo.


O livro, cujo enredo é a manipulação do processo político num remoto lugar do sertão mineiro, fez sua época, levou o autor à Academia Brasileira de Letras, mas hoje é pouco lembrado. Talvez porque o universo de que trata, uma cidadezinha dos grotões recém-alçada à condição de município, tenha sido substituído por Brasília, a capital do País inaugurada poucos anos após sua primeira edição.
Apesar das diferenças de escala, há muita coisa em comum nos dois universos – até porque, em Brasília, do chefe do Executivo aos integrantes do Legislativo, passando pela juíza aposentada que exibe título jamais conquistado ou pelo luminar jurídico que, se confirmadas as denúncias de plágio, careceria de reputação ilibada e notório saber jurídico para ascender a ministro de Corte Suprema, todos olham o mundo não do alto de uma montanha, mas da altura de um rodapé, como os personagens de Vila dos Confins.
Ainda que espertos, a ponto de patrocinarem projetos de lei que retiram prerrogativas da Justiça Eleitoral e revogam normas penais com base nas quais podem ser condenados por seus ilícitos, os personagens dos confins brasilienses são intelectualmente toscos e moralmente abjetos. Praticam uma política degradada, em que não há espaço para o exercício de virtudes públicas e compromissos cívicos – uma política praticada num círculo fechado, hipócrita e distante do mundo real.
Esse cenário encerra questões incômodas. Será a sociedade brasileira tão ruim quanto seus representantes? Quase três décadas depois da promulgação de uma Constituição que sepultou o autoritarismo, o que explica incapacidade do regime democrático para construir um poder público legítimo e eficiente? Por que as instituições não conseguem evitar a captura do poder público por presidiários, corporações, parlamentares esfaimados e empreiteiras? O denominador comum dessas indagações é um certo surrealismo.
Quem optou por Dilma em 2014 também votou no esquema que levou Angorás, Cajus e Lupinões a ocupar cargos estratégicos. A democracia conta com sistemas de contrapesos para proteger os interesses da sociedade e evitar efeitos desastrosos de decisões desinformadas. Mas eles às vezes falham. E quanto mais duradoura é uma decisão tomada por sistemas falhos, maiores são as dificuldades a superar. De que modo um processo democrático pode ser representativo se seus sistemas de controle nem sempre funcionam, como se está vendo com as tentativas de frear as investigações do órgão encarregado pela Constituição de defender a ordem jurídica e a moralidade pública?
Assim, mesmo que a economia volte a crescer, as decisões políticas desastrosas tomadas por dirigentes e parlamentares com escasso capital político acarretam indignação e revolta. O perigo de tanta aversão à política é o da sedução aos encantos da antipolítica. É a ideia de que a política seria prescindível, podendo ser substituída por gestores. Obviamente, ainda que precise ser submetida a um processo de depuração ética, em hipótese alguma a política é prescindível, pois implica diferenças, conflitos, aprendizado com frustrações e direitos, por um lado, e negociações, compromissos, alianças, pactos e interesses compartilhados, por outro. Esforçando-se para superar os desencantos que o tempo carrega e acreditando que a participação democrática abre a todos a possibilidade de ascender ao poder e governar, há quem diga que a depuração ética pressupõe não só renovação da classe política, mas, igualmente, seu rejuvenescimento.
Consciente da importância das noções de pluralismo ideológico e da alternância do poder para a efetividade do regime democrático, também há quem lembre que a regeneração democrática requer uma reavaliação das formas de legitimação das relações entre governantes e governados. E há ainda quem diga que, na medida em que a democracia é um mecanismo de vigilância, crítica e protesto, permitindo assim a identificação das fontes de corrupção, a política é a aprendizagem da decepção. Quanto mais eficiente é seu funcionamento, mais decepções e desenganos ela propicia.
São argumentos conhecidos. Para assegurar o sucesso do processo de regeneração democrática e permitir que a política volte a estar à altura do que dela se espera, em matéria de representatividade e responsabilidade, é preciso reduzir o fenômeno político aos seus componentes básicos – as relações de força, de autoridade, de mando e obediência – e retomar questões básicas sobre, por exemplo, a definição do tipo de sociedade que desejamos construir pela via democrática e as condições para que se possam converter alternativas partidárias em poder efetivo. Evidentemente, essas questões só têm sentido se forem discutidas com base na realidade brasileira, da qual a grande Vila dos Confins que se tornou o Planalto Central e seus patéticos protagonistas fazem parte.
Diante dos confins do cerrado, é preciso ser pessimista – mais precisamente, é preciso valorizar o ceticismo da razão, como condição para entender a situação em que o País se encontra e tentar mudá-lo. Há 40 anos, quando a Itália estava em situação dramática, Norberto Bobbio afirmou que, nos períodos de crise institucional, o pessimismo é um dever civil. "Deixo para os fanáticos, aqueles que desejam a catástrofe, e para os insensatos, aqueles que pensam que no fim tudo se acomoda, o prazer de serem otimistas. O pessimismo é um dever civil porque só um pessimismo radical da razão pode despertar aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros", escreveu.
O Estado de S.Paulo 21/02/2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O peso da verdade


Minha filha Júlia é absurdamente sincera comigo e, de modo geral, com todas as pessoas. A melhor palavra, aliás, é brutalmente sincera. Sei que seu estilo direto, franco, honesto e sem rodeios, mostra que ela tem mais virtudes que defeitos.

Ela não lida com a hipocrisia. Nem como exigência social. Só que preciso confessar uma coisa: a sinceridade da minha filha magoa um bocado. Procuro pensar que o problema é meu, vai ver tenho muitos defeitos, é isso.

Não consigo, porém, deixar de sofrer quando ela fala como se estivesse me insultando.  Além dela, ninguém mais me trata de modo tão honesto. Não que as outras pessoas tenham sido desonestas comigo. Não é isso.

As demais pessoas, incluindo meu marido, meus irmãos, meus amigos e minhas amigas, são moderadas e extremamente gentis. Percebo nelas, no entanto, alguma omissão, ou certos eufemismos.

Minha filha não, minha filha me insulta com a verdade. Sempre tive admiração pela sinceridade dela, mas, confesso, bastante envergonhada aliás, que eu preferia que ela fosse brutalmente sincera só com os outros.   

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Não é o destino que importa, é a viagem

Ítaca



















Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.

Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.


Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria- nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.

Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!


Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras: coral e madrepérola,
âmbar e marfim, e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.


E vai ver as cidades do Egito, para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito, que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.


É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.


Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.


Sábio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.


Poema de Constantino Cavafis, traduzido por Jorge de Sena

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Por um governo de soberania

Ficou fácil jogar pedra em tudo que diz respeito aos últimos dez, doze anos. Os erros foram muitos e todos que estavam no comando merecem as condenações que recebem. Em política é assim mesmo, 8 ou 80.O clubismo impera no Brasil e em todos os lugares.

Muita desta raiva vem de uma certeza: hoje os cofres estão vazios, os melhores dias estão no passado e as perspectivas são sombrias.

É bem verdade que muitos que atiram pedras estão muito bem, uma vez que aproveitaram os anos de ouro para se incrustar em lugares de nomeação ou influência governamental por meio de partidos aliados ao ex-governo. E vão continuar lá jogando na política e aproveitando a engrenagem. O sistema é bom para as minorias corporativas. Só maiorias indefesas dão mais do que tiram.

O cenário agora é o seguinte: ou se é petista ou se é golpista. Como antes ou se era golpista, ou se era petista. Vale dizer: tudo segue igual, previsível e muito errado na política. Ontem, como hoje, não há respeito a quem não se alia a lado nenhum porque se recusa a escolher entre duas opções ruins. Entre a peste e a cólera, para dizer de forma clara. 

O lado que ganhou esquece que as pesquisas de opinião mostram com muita clareza que muita gente ultrapassou os argumentos mesquinhos da guerra PSDB/PMDB/PT e tem sim simpatia por alguns traços do projeto anterior. Gente que sabe muito bem que o governo anterior existiu por várias razões e uma delas é que o Brasil precisava de um assomo qualquer de dignidade nacional, precisava ter rotatividade democrática para ser respeitado pelo resto do mundo. 

Alguém aí tem dúvidas sobre a tendência de FHC por Lula em 2002? Ele queria ser patrono desta rotatividade perante o planeta. Enganam-se portanto,  se acham que estou falando de esquerdistas enrustidos. Estou falando de gente de centro, de centro-direita e até da esquerda. Estou falando de gente que tem plena consciência que o Brasil precisava sim romper o ciclo de uma elite política autoritária e escassamente democrática que se revezava no poder por meio de acordos e armações governamentais há tempo demais.

Estou falando de gente esclarecida que sabe muito bem que existe uma "maioria silenciosa" no Brasil que buscou a ruptura com o PT e perdeu. Sim, perdeu, mas continua apostando na construção de um governo de afirmação nacional, de independência, de soberania. Gente que sabe que não vamos conseguir isso com pseudo líderes extremistas (à direita ou à esquerda). Sabe, igualmente, que não se constrói um governo assim com líderes amestrados, patriotas de boca para fora e empáfia que aceitam tudo, assinam tudo e colaboram com tudo que nos empurram goela abaixo. 

Não é por acaso que o Brasil continua esperando um governo que combata a desigualdade, a impunidade, a criminalidade a submissão e a bovinidade. Sim, esperamos por um governo que tenha a coragem de não renegar nossas aspirações por dignidade nacional. Um governo que lute com valentia para buscar a honra perdida da Nação resgatada pelo povo. Que os anjos digam Amém.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Qual a diferença entre um País e a bárbarie?


Mesmo que tenha dezenas de bibliotecas, universidades, orquestras, inúmeros escritores e poetas, um País indiferente ao sofrimento das pessoas não é uma Nação de cultura democrática, mas um lugar de barbárie. 

Acho, sinceramente, que se o Brasil não melhorar a desigualdade extrema e a crueldade com que trata os pobres, nosso País não será mais visto como democracia. Como uma das maiores economias do mundo segue sendo tão corrupta e tão incapaz de adotar um projeto para reduzir a pobreza e a desigualdade?

É muita indiferença e descaso. Um País indiferente costuma ser egoísta e classista, do tipo que divide a população entre cidadãos de primeira e de segunda classe em razão da pobreza. Normalmente são nações insensíveis, como a nossa, que adotam sistemas de castas e de privilégios.

O mesmo vale para todos os demais países da Europa, da América do Norte e dos demais continentes. De nada adianta ter toda a cultura do mundo, no caso da Europa, e todo o dinheiro e toda a tecnologia do planeta, no caso dos Estados Unidos, se a população for indiferente a dor dos outros. 

No caso dos Estados Unidos da América: se adotarem mesmo o rumo do egoísmo o País deixará de ser grande a Nação da democracia que é para ser um País de mercadores e de mercenários. Isso vai significar uma regressão histórica jamais vista. 

Não há povo mais rico que o norte-americano.Basta olhar o prato de um norte-americano para ver o desperdício, mas o novo presidente dos Estados Unidos reclama mais vantagens. Sou só uma cidadã, mas acho que esse tipo de discurso da indiferença total com a dor de quem nada tem deve ser recusado e combatido.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Elis Regina, para sempre


Eu resolvi ser jornalista porque acreditava que seria melhor para mim do que ser professora, advogada, ou dona de um restaurante. Tinha vocação para qualquer um desses nobres ofícios. Fiquei com o jornalismo e não me arrependi. Pensei nisso hoje, ao lembrar a morte de Elis Regina.
O Brasil deve muito a Elis mas não foi para que o Brasil lhe devesse alguma coisa que ela se tonou a maior cantora do país. Ela buscou sua vocação e, felizmente, fez (e faz) a felicidade de todos que podem ouvir sua linda voz de mezzo-soprano com um fundo levemente metálico e vagamente rouco.

Tenho me despedido de Elis há mais de três décadas ouvindo seus discos e lembrando sua figura miúda e explosiva no palco, exatamente como a vi uma vez em Brasília. Quatro anos antes, numa tarde chuvosa em que fui pela primeira vez a São Paulo, foi sua voz que me consolou da ausência de sol e da impossibilidade de qualquer passeio.

Sempre fui apaixonada por Elis. Gostava tanto das suas qualidades como dos seus defeitos. Sinto enorme gratidão pelas alegrias que tenho ao ouvir seu lindo canto e reconheço a absoluta importância desta cantora que foi maior do que o seu país.

Só lamento não poder lembrar Elis como uma mulher feliz e não apenas como cantora de sucesso. Sim, gostaria muitíssimo de pensar nela brincando com suas crianças, acordando de uma soneca, lendo um livro, vendo um filme ou rindo de alguma anedota. Não é o que acontece.

Só lembro de uma Elis sofrida, inquieta, tensa e preocupada com o futuro. Alguém que se sacrificou pela própria carreira e pela carreira dos jovens compositores que lançava. Uma cantora que insistia em ser cidadã marcada pelo inconformismo, que estava sempre angustiada com o Brasil. Vale dizer, uma pessoa, como tantos de nós, que não conseguia ser feliz como podia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

"Há, nos olhos meus, ironias e cansaços"



"Há, nos olhos meus, ironias e cansaços" diz o belíssimo verso de José Régio. É mais ou menos o que venho sentindo sobre as conversas políticas.

Entrei para a cobertura de política no final da década de 80,formada jornalismo, aos 22 anos. Ali permaneci por três décadas.

Tive a honra de cobrir a Assembleia Constituinte, vi a  queda dos militares, o retorno das diretas e dos exilados, acompanhei dois impeachment.  

Estou há mais de dez anos em assessoria de imprensa em Brasília. Acho, sem arrogância, que a política interessa-me com um sentido um pouco mais forte do que interessa a todos.
Acredito que a política garante os valores da liberdade e as normas democráticas, que constituem legado da civilização edificada pelos humanos e que deve valer para todos de forma indisputável e pacífica.

Não concordo com quem leva a política para a praça pública com o intuito de apedrejá-la até o último suspiro porque muitos dos seus líderes afastaram-se dos ideais nobres e das causas públicas.
Da política fizeram parte homens como o admirável Winston Churchill e o ditador Augusto Pinochet, além de milhares de cidadãos decentes que nada tiram e tudo dão. 

Há na política de tudo. E há sobretudo quem esteja nela pelas mais díspares razões, incluindo as moralmente honestas.



Cântico negro

Cântico negro

José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
          

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?



Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
          

A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
          

Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
          

Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.



Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio
, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estreia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

VIOLÊNCIA NO BRASIL


O MAPA DA VIOLÊNCIA NO BRASIL

As estatísticas macabras sobre a violência que enchem de dor e de tristeza o dia a dia de inúmeras famílias e que mancham de sangue a imagem do País 

De janeiro de 2011 a dezembro de 2015, 278.839 pessoas foram mortas no País, número maior do que o de mortos na guerra da Síria, onde 256.124 morreram no mesmo período. Para avaliar o impacto deste fato: uma pessoa é assassinada a cada 9 minutos no Brasil. Ao longo de um dia ocorrem 160 assassinatos. Em 2016, foram mortos violenta e intencionalmente 58.383 brasileiros.

Os estados das regiões Nordeste e Norte lideram o ranking com altas taxas de assassinatos. Os primeiros cinco colocados: Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará e Pará. Os estados que registraram as menores taxas de mortes violentas intencionais foram São Paulo (11,7), Santa Catarina (14,3) e Roraima (18,2).

Em 2015, das 50 cidades com maior taxa de homicídios por 100 mil habitantes,  um total de 21 são brasileiras. Fortaleza é a cidade mais violenta. Em seguida vem Natal, depois Salvador e região metropolitana e João Pessoa.

Das 50 cidades, nada menos que 41 ficam na América Latina: 21 no Brasil, 8 na Venezuela, 5 no México, 3 na Colômbia, 2 em Honduras, uma em El Salvador e uma na Guatemala. Outros países com cidades na lista são África do Sul, Estados Unidos e Jamaica.

AS CIDADES MAIS VIOLENTAS DO MUNDO

1° - Caracas (Venezuela) - 119.87 homicídios/100 mil habitantes

2° - San Pedro Sula (Honduras) - 111.03

3° - San Salvador (El Salvador) - 108.54

4° - Acapulco (México) - 104.73

5° - Maturín (Venezuela) - 86.45

6° - Distrito Central (Honduras) - 73.51

7° - Valencia (Venezuela) - 72.31

8° - Palmira (Colômbia) - 70.88

9° - Cidade do Cabo (África do Sul) - 65.53

10° - Cali (Colômbia) - 64.27

11° - Ciudad Guayana (Venezuela) - 62.33

12° - Fortaleza (Brasil) - 60.77

13° - Natal (Brasil) - 60.66

14° - Salvador e região metropolitana (Brasil) - 60.63

15° - ST. Louis (Estados Unidos) - 59.23

16° - João Pessoa; conurbação (Brasil) - 58.40

17° - Culiacán (México) - 56.09

18° - Maceió (Brasil) - 55.63

19° - Baltimore (Estados Unidos) - 54.98

20° - Barquisimeto (Venezuela) - 54.96

21° - São Luís (Brasil) - 53.05

22° - Cuiabá (Brasil) - 48.52

23° - Manaus (Brasil) - 47.87

24° - Cumaná (Venezuela) - 47.77

25° - Guatemala (Guatemala) - 47.17

26° - Belém (Brasil) - 45.83

27° - Feira de Santana (Brasil) - 45.50

28° - Detroit (Estados Unidos) - 43.89

29° - Goiânia e Aparecida de Goiânia (Brasil) - 43.38

30° - Teresina (Brasil) - 42.64

31° - Vitória (Brasil) - 41.99

32° - Nova Orleans (Estados Unidos) - 41.44

33° - Kingston (Jamaica) - 41.14

34° - Gran Barcelona (Venezuela) - 40.08

35° - Tijuana (México) - 39.09

36° - Vitória da Conquista (Brasil) - 38.46

37° - Recife (Brasil) - 38.12

38° - Aracaju (Brasil) - 37.70

39° - Campos dos Goytacazes (Brasil) - 36.16

40° - Campina Grande (Brasil) - 36.04

41° - Durban (África do Sul) - 35.93

42° - Nelson Mandela Bay (África do Sul) - 35.85

43° - Porto Alegre (Brasil) - 34.73

44° - Curitiba (Brasil) - 34.71

45° - Pereira (Colômbia) - 32.58

46° - Victoria (México) - 30.50

47° - Johanesburgo (África do Sul) - 30.31

48° - Macapá (Brasil) - 30.25

49° - Maracaibo (Venezuela) - 28.85

50° - Obregón (México) - 28.29

Fonte: 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

São Paulo era político...

“Porque, sendo livre e não pertencendo a ninguém, fiz-me de escravo de todos, para ganhar muitos deles. Para os judeus, fiz-me de judeu, para ganhar os judeus; para aqueles observadores da lei, me tornei alguém observador da lei (embora não tivesse de observar a lei), para ganhar os observadores da lei. Para os que não observam a lei, me tornei alguém que não observa a lei (apesar de não estar livre da lei de Deus e observando a lei de Cristo), para ganhar os que não observam a lei. Fiz-me de fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para, por todos os meios, chegar a salvar alguns”.

Carta de Paulo aos coríntios
(1 Coríntios 9:19-23), Bíblia Sagrada - Edição 2013 Vozes 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Alexandre O'Neill


Se fosse vivo, Alexandre O'Neill estaria completando noventa e um anos depois de amanhã, 19 de dezembro. Era poeta,  cronista e publicitário. Escreveu textos magníficos. Até o epitáfio que sugeriu para seu túmulo era genial: 

"Aqui jaz Alexandre O’Neill

Um Homem que dormiu muito pouco

Bem merecia isto»



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Adelia Prado faz 82 anos hoje

As Mortes Sucessivas, de Adélia Prado

Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,
cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
´deixa, tá bom assim´.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.

Poema integra o livro "Bagagem", de Adélia Prado, publicado pela Editora Record que reedita toda a obra da poeta.

PS: Adélia Prado faz 82 anos hoje. Fiquei comovida ao ler que é dia do seu aniversário. Eu a acompanho há anos e tudo dela me comove. Em 2006, muita gente chorou quando a escritora mineira Adélia Prado leu, pela primeira vez, "As Mortes Sucessivas" para a plateia da 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).  Foi um momento inesquecível e emocionante.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Um brasileiro extraordinário


Um dos grandes amigos que tenho, o ex-senador Jorge Bornhausen será homenageado amanhã em Santa Catarina com a medalha Anita Garibaldi, a maior condecoração do Estado. Ele faz por merecer os aplausos que lhe são concedidos. Durante seis ou sete anos tive a honra de fazer parte da sua equipe (assessoria de imprensa) no Senado. Só tenho a agradecer pela honrosa convivência.

Quem só o enxerga de longe, vê a imagem de um político severo, mas ele é extremamente gentil no convívio pessoal, além de um amigo leal e generoso. Nunca dei por intervenção sua que fosse inoportuna ou banal. Ele sempre está à altura dos fatos, das conversas e dos debates.

Age com cautela e sabedoria, mas não teme a polêmica. Exigente, mas capaz de reconhecer o esforço dos outros, é rigoroso e combate a ideia de uma cultura sem esforço e sem disciplina. Racional, recebe críticas injustas, mas não se queixa porque sabe que todo o poder tem preço e quem vai à guerra dá e leva. Por essa razão, mesmo sendo firme em suas convicções políticas, reserva espaço para o contra-ataque dos adversários.

Sei que o uso manda que em períodos de homenagens se enalteçam apenas as virtudes, mas na minha amizade pelo ex-senador não cabe a hipocrisia. Seria diminuí-lo dizê-lo infalível. Ninguém o é. Como a maioria de nós ele erra. Mas em muito ele se distingue do comum: pela inteligência, pelo conhecimento, pela clareza do raciocínio, a gentileza e o sentido público.

Jorge Bornhausen gosta muito mais do Brasil do que o Brasil gosta dele. Ele é forte sem precisar fazer ninguém de fraco. Nunca o vi usar sua inteligência, os cargos que conquistou na política ou sua dimensão humana para diminuir quem quer que seja. É por estas e muitas outros razões que cumprimento o Governo de Santa Catarina pela homenagem a Jorge Bornhausen, um brasileiro extraordinário que põe a integridade acima dos jogos e interesses da política.


Brasília, 8 de dezembro de 2016

Vanda Célia


domingo, 4 de dezembro de 2016

Uma história de Ferreira Gullar


Em 1989, militantes do Partidão convocaram uma reunião no Rio para avaliar a campanha de Roberto Freire à Presidência da República.

Um dos presentes disse a Freire que ele não deveria falar que não acreditava em Deus porque, se ficasse repetindo isso, correria o risco de não ir ao segundo turno da disputa. Todo o mundo ficou em silêncio mas antes que Freire respondesse, Ferreira Gullar disse, do fundo da sala, com aquele vozeirão:
- Mesmo porque Roberto, se você for ao segundo turno, Deus existe!

Poemas de Ferreira Gullar


Ferreira Gullar

Ferreira Gullar morreu hoje, 4 de dezembro de 2016. Era o maior poeta vivo da literatura brasileira. Sua poesia engajada – ele sempre foi do Partidão - era um importante instrumento de denúncia social desde 1950. Ele pertencia ao Centro Popular de Cultura (CPC), grupo de intelectuais de esquerda criado em 1961, no Rio de Janeiro, cujo objetivo era defender o caráter coletivo e didático da obra de arte, bem como o engajamento político do artista. Perseguido pela ditadura militar, Ferreira Gullar exilou-se na Argentina durante os anos de repressão. Em 2014, aos 84 anos, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira de número 37, que pertencera ao escritor Ivan Junqueira, morto nesse mesmo ano.
Não há vagas 


Não há vagas

O preço do feijão

não cabe no poema. O preço

do arroz

não cabe no poema.

Não cabem no poema o gás

a luz o telefone

a sonegação

do leite

da carne

do açúcar

do pão

O funcionário público

não cabe no poema

com seu salário de fome

sua vida fechada

em arquivos.

Como não cabe no poema

o operário

que esmerila seu dia de aço

e carvão

nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,

está fechado:

“não há vagas”

Só cabe no poema

o homem sem estômago

a mulher de nuvens

a fruta sem preço

O poema, senhores,

não fede

nem cheira.





Poema: Traduzir-se – Ferreira Gullar

Traduzir-se

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir-se uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?



Poema: No corpo – Ferreira Gullar

No corpo

De que vale tentar reconstruir com palavras

O que o verão levou

Entre nuvens e risos

Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,

o apelo da noite

Agora são apenas esta

contração (este clarão)

do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.





Poema: Poemas Neoconcretos I – Ferreira Gullar

Poemas Neoconcretos I

mar azul

mar azul marco azul

mar azul marco azul barco azul

mar azul marco azul barco azul arco azul

mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul



Poema: Aprendizado – Ferreira Gullar

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria

abre-te agora ao sofrimento

que é fruto dela

e seu avesso ardente.

Do mesmo modo

que da alegria foste

ao fundo

e te perdeste nela

e te achaste

nessa perda

deixa que a dor se exerça agora

sem mentiras

nem desculpas

e em tua carne vaporize

toda ilusão

que a vida só consome

o que a alimenta.



Poema: Um Instante – Ferreira Gullar

Aqui me tenho/ Como não me conheço/ nem me quis/ sem começo/ nem fim/ aqui me tenho/ sem mim/ nada lembro/ nem sei/ à luz presente/ sou apenas um bicho/ transparente.

Poema: Subversiva – Ferreira Gullar

Subversiva

A poesia

Quando chega

Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.

Quando ela chega

De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil

Infringe o Código de Águas

Relincha

Como puta

Nova

Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois

Reconsidera: beija

Nos olhos os que ganham mal

Embala no colo

Os que têm sede de felicidade

E de justiça.

E promete incendiar o país.





Poema: Os mortos – Ferreira Gullar

Os mortos

os mortos vêem o mundo

pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,

com nossos ouvidos,

certas sinfonias

algum bater de portas,

ventanias

Ausentes

de corpo e alma

misturam o seu ao nosso riso

se de fato

quando vivos

acharam a mesma graça





Poema: Cantiga para não morrer – Ferreira Gullar

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve.

Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração.

Se no coração não possa

por acaso me levar,

moça de sonho e de neve,

me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa

por tanta coisa que leve

já viva em seu pensamento,

menina branca de neve,

me leve no esquecimento.



Poema: Prometi-me Possuí-la – Ferreira Gullar

Prometi-me Possuí-la

Prometi-me possuí-la muito embora

ela me redimisse ou me cegasse.

Busquei-a na catástrofe da aurora,

e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora

da água e do musgo, solitária nasce.

Mas sempre que me acerco vai-se embora

como se temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.

Se por detrás da tarde transparente

seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!

Vocabulário e corpo — deuses frágeis —

eu colho a ausência que me queima as mãos.

[Poemas Portugueses]





Poema: Extravio – Ferreira Gullar

Extravio

Onde começo, onde acabo,

se o que está fora está dentro

como num círculo cuja

periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,

nas pessoas, nas gavetas:

de repente encontro ali

partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:

vejo do alto a cidade

e em cada esquina um menino,

que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.

Onde estarão meus pedaços?

Muito se foi com os amigos

que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,

em seu corpo, em seu olfato,

onde durmo feito aroma

ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:

esta manhã, esta sala.





Poema: Madrugada – Ferreira Gullar

Madrugada

Do fundo de meu quarto, do fundo

de meu corpo

clandestino

ouço (não vejo) ouço

crescer no osso e no músculo da noite

a noite

a noite ocidental obscenamente acesa

sobre meu país dividido em classes.





Neste Leito de Ausência – Ferreira Gullar

Neste Leito de Ausência

Neste leito de ausência em que me esqueço

desperta o longo rio solitário:

se ele cresce de mim, se dele cresço,

mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo

nem foz, e o curso, que é constante, é vário.

Vai nas águas levando, involuntário,

luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:

duplo espelho — o precário no precário.

Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,

de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,

passa um rio sem foz e sem começo.

[Poemas Portugueses]





Meu povo, meu poema – Ferreira Gullar

Meu povo, meu poema

Meu povo e meu poema crescem juntos

como cresce no fruto

a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo

como no canavial

nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro

como o sol

na garganta do futuro

Meu povo em meu poema

se reflete

como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo

menos como quem canta

do que planta



Poema: MINHA MEDIDA – Ferreira Gullar

MINHA MEDIDA

Meu espaço é o dia

de braços abertos

tocando a fímbria de uma e outra noite

o dia

que gira

colado ao planeta

e que sustenta numa das mãos a aurora

e na outra

um crepúsculo de Buenos Aires

Meu espaço, cara,

é o dia terrestre

quer o conduzam os pássaros do mar

ou os comboios da Estrada de Ferro Central do Brasil

o dia

medido mais pelo pulso

do que

pelo meu relógio de pulso

Meu espaço — desmedido —

é o nosso pessoal aí, é nossa

gente,

de braços abertos tocando a fímbria

de uma e outra fome,

o povo, cara,

que numa das mãos sustenta a festa

e na outra

uma bomba de tempo.

Fonte: site Escola Educação