- No Brasil, acredito que a confiança nas instituições do poder – e não apenas do poder político – se encontra, certamente, ao nível mais baixo da história do país. Essa confiança nunca foi extraordinária, mas nunca me pareceu tão ostensiva a ideia de que não podemos confiar nos políticos, nos gestores, nos trabalhadores; não podemos confiar nos jornais, nas televisões, na política; não podemos confinar na justiça, no fisco, nas escolas, nas prisões. Não podemos confiar porque, estranhamente, cresce a impressão que nenhum destes poderes, instituições ou pessoas, funciona como deveria funcionar; nenhum destes poderes age sem uma qualquer obscura motivação ou interesse. Por isso, acho que chegamos neste estado de coisas.
- E agora, o que precisamos mudar? Creio que precisamos refletir, voltar à política e buscar soluções com maturidade, lembrando que a maioria das mudanças costuma ser ilusória, porque não se mudam as leis da economia, da concorrência, do conflito; mudar sim, mas para onde? O país terá de seguir com base em alianças parlamentares, sem assustar os investidores ou alienar as classes médias. Seu comando terá de ser sensato e eficaz, moderado e empreendedor. De nada vai adiantar chorar o lei derramado, reclamar as injustiças do mundo e simular lágrimas ao canto do olho. Demagogia e populismo não resolvem.
- Os líderes políticos não precisam de ser «boas pessoas», mas precisam sim ter caráter, honestidade e propósitos grandes, realistas e firmes. Precisam, igualmente, reconhecer que a política trata da paz e da prosperidade das pessoas aqui na terra e não da santificação da alma.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
A palavra é confiança...
terça-feira, 28 de abril de 2015
A poesia de Cecília Meireles
É preciso não esquecer nada
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a ideia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.
(1962)
domingo, 26 de abril de 2015
Sabedoria do povo: Cristo ou Barrabás?
Cristo ou Barrabás? Deu Barrabás... Não, nós não devemos alimentar visões românticas do povo e da sua
sabedoria. Quando o povo escolhe mal, escolhe
mal.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
Os livros são tudo

Estava certo o poeta Jorge Luis Borges ao imaginar o Paraíso como uma espécie de biblioteca. Os livros são tudo. Só os livros alcançam a eternidade. Nas sociedades, tudo passa, – até mesmo as coisas que pensamos ser importantes. Quem mandava no tempo de Gustave Flaubert? Não importa, importa saber que Madame Bovary, com seu tédio e sua cadelinha, sobreviveu e segue conosco.
E quem foram as celebridades e os magnatas do tempo de Shakespeare? Ninguém sabe. Só Shakespeare está vivo até hoje. Julieta é eterna e sempre será assim. No Brasil, temos Capitu, com seus "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" ou "olhos de ressaca". A seu lado, o inseguro Bentinho. Será que ele amava Escobar? Sempre penso nessa possibilidade. Afinal, são insondáveis os mistérios da alma humana.
Dizem que Machado de Assis, mulato e filho de pobres, desejava ser incluído na alta sociedade do Rio de Janeiro. Hoje, ninguém sabe o nome de um só banqueiro ou de um grande comerciante daquele tempo. Só Machado está entre nós com Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Também seguem conosco Guimarães Rosa, Lima Barreto, Autran Dourado, Graciliano Ramos, Érico Verissimo e tantos outros autores de livros notáveis.
Quem, neste século, e no século passado, não deve alguma coisa ao romance russo Os Irmãos Karamazov? Paulo Francis dizia que Dostoievski inaugurou a psicanálise antes de Freud, não como método terapêutico, mas como investigação da psique. Ele seria o equivalente russo de Shakespeare, "reinventando" o humano. Cabe tudo nos seus livros: o real e o transcendente.
Não há quem não fique maravilhado com Os Miseráveis, de Victor Hugo. Também são pontos máximos da literatura obras como Cem Anos de Solidão, O Apanhador no Campo de Centeio e A Sangue Frio. E Dom Quixote, um dos livros mais extraordinários de todos os tempos? Como esquecer um herói que navega entre a perplexidade e a desorientação em sua infinita aventura?
Meu livro favorito, Antígona, de Sófocles (496–406 a.C.), descreve uma das guerreiras mais destemidas de todos os tempos. Ousada e indomável, ela foi em frente e lutou sozinha contra um Rei e seu reinado. Perdeu a vida, derrubou tudo à sua volta mas deixou um grande legado: nenhum poder é absoluto. Borges, outro autor maravilhoso, tem razão: se há paraíso ele é, seguramente, uma espécie de biblioteca. Os livros são tudo. O resto é nada...
Texto escrito a propósito do 23 de abril, Dia Mundial do Livro.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Brasil: erros e incapaciedade
No mundo do poder, deveria predominar o espírito do filme Gladiador: em um dia o protagonista é general e tem poder para mandar milhares de soldados para a morte, no outro é escravo que desperta no meio de uma arena de circo, onde deve lutar desesperadamente para manter o fiapo de vida que lhe resta. É a gangorra do poder, a roda-viva.
"Tudo que fazemos neste mundo ecoa pela eternidade" diz o general de Gladiador aos soldados. A mensagem, que tem força impressionante, mostra a responsabilidade histórica e eterna de quem exerce o poder. Ao mesmo tempo, expõe a natureza efêmera deste mesmo poder. O que pode ficar para a eternidade é o que você faz. Além de diversão, cinema de qualidade costuma ser lição de vida e de história.
Quase ninguém percebe a natureza efêmera do poder. O que prevalece no chamado pelotão da frente da política é a vaidade pessoal, a cobiça e o vício do jogo pelo jogo. Uma sociedade melhor exige amadurecimento e compreensão da verdadeira natureza da ação política, ou seja, mais sentido público de quem se apresenta como protagonista para o exercício da vida pública.
Todos que formam parte do poder deveriam controlar a vaidade e ter mais humildade para a necessária correção de rumos de forma rotineira. Vale a pena recordar Lenin: o pior governo não é aquele que comete erros mas aquele que, cometendo-os, não consegue corrigi-los. É nisto que o Brasil se revela meio que incorrigível: na sua capacidade de errar sucessivamente e sem remorso.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Consolar os aflitos, vestir os nus, perdoar as injúrias...
Ricardo Noblat escreveu certa vez que o jornalismo
existe para consolar os aflitos e não para acudir os satisfeitos. Gostei demais da grandeza daquelas palavras: consolar os aflitos. Pensei conhecê-las
do catecismo que aprendi na infância e fui conferir. Estava certa. Eram palavras
da catequese da primeira comunhão. Noblat não se lembrava com exatidão, mas não estranhou porque a influência da igreja em sua formação é muito forte. Ele
cresceu rodeado por católicos fervorosos, a começar por duas ou três tias que desejavam
torná-lo padre e queriam a todo custo entregá-lo aos cuidados da Igreja. Dom
Hélder Câmara foi seu mentor e o incentivou a tornar-se jornalista. A inspiração de Noblat deve ter sido mesmo a catequese e os
princípios cristãos que os católicos ensinam aos filhos na infância. São ensinamentos feitos para nos levar a ter sentimentos positivos em relação ao próximo. Exemplo: "vestir
os nus", "consolar os aflitos" e “perdoar as injúrias”.
Chamam-se obrigações, ou obras, de misericórdia corporal e obrigações, ou
obras, de misericórdia espiritual. No total são sete de um lado e sete de
outro, totalizando 14. Leia todas elas abaixo:
AS SETE OBRIGAÇÕES, OU OBRAS, DE
MISERICÓRDIA CORPORAL:
1) dar de comer a quem tem fome;
2) dar de beber a quem tem sede;3) vestir os nus;
4) dar pousada aos peregrinos;
5) visitar os enfermos;
6) visitar os prisioneiros;
7) enterrar os mortos.
AS SETE OBRIGAÇÕES OU OBRAS DE
MISERICÓRDIA ESPIRITUAL:
1) corrigir os que erram;
2) ensinar os ignorantes;
3) dar bom conselho;
4) consolar os aflitos;
5) sofrer com paciência as fraquezas do próximo;
6) perdoar as injúrias;
7) rogar a Deus pelos vivos e defuntos.quinta-feira, 9 de abril de 2015
Dez Mandamentos
Dez Mandamentos
- Prezarás a tua independência e a tua liberdade de pensamento e convicção.
- Não esconderás as tuas convicções políticas, ideológicas ou de outra natureza, ou até filiação partidária, mas nunca decidirás para agradar a quem as representa, disfarçando a dependência e “preparando” o futuro.
- Terás um percurso de vida levando em conta a redução de custos e perda do cargo a qualquer momento porque a necessidade cria dependência e, mais tarde ou mais cedo, transforma-te num escravo.
- Estudarás para decidir cada vez com mais competência, não terás receio de te abrir a outros saberes, que vão para lá da tua formação profissional de origem, e promoverás o conhecimento do meio que regulas, para que a tua decisão seja cada vez mais fundamentada e menos subjetiva.
- Ouvirás aqueles que regulas e aprenderás sempre com eles, mas, chegado o momento de decidir, não te acobertarás na sua opinião para seres popular ou para te protegeres.
- Não terás medo de decidir com dureza, mas saberás ser clemente com aqueles que estiverem em posição de fraqueza, e tentarás nunca ser forte com os fracos e fraco com os fortes.
- Aceitarás que, se decidires de forma livre e independente, perderás “amigos” e “conhecimentos”, e também aceitarás que, sempre que decidires contra os interesses de alguém, serás acusado de não ser independente, de não seres competente e de estares ao serviço de outrem.
- Terás a humildade de acreditar que o mais importante é a instituição que deixares quando saíres do cargo, e terás a noção de que ninguém é indispensável.
- Não recearás as reações que resultem das tuas decisões, mesmo que violentas e insultuosas, e nunca decidirás em função das críticas anunciadas ou que possas antecipar.
- Não deixarás sem resposta ataques à tua honra nem aceitarás vender a tua liberdade de expressão e de opinião, mesmo que te critiquem por falares no espaço público. Ou mesmo que te desempreguem.
domingo, 5 de abril de 2015
Manoel de Oliveira
Manoel de Oliveira morreu velhinho. Era o mais antigo realizador do mundo em atividade. Foi autor de trinta e dois longas-metragens e representava a língua portuguesa no cinema mundial. Dizem que, pessoalmente, era jovial, amável, conversador, sem afetações. Achava o "campo do é visível muito pequeno". E não tinha muitas ilusões sobre a vida. Em 2013, numa entrevista ao jornal Expresso, deixou claro seu pessimismo: "Tudo o que gente faz é um prenúncio de derrota. A vida é uma derrota. A gente vive na derrota. Nasce contra vontade, e não é senhor do seu destino. O mundo é complexo, incompreensível, talvez não tanto para quem tem uma crença nalguma coisa firme, mas para aqueles onde a dúvida prevalece. E o que proponho é a dúvida. A dúvida é uma maneira de ser.» Também gosto muito de outra frase dele: "Não tenho medo de morrer. Tenho medo é da vida" - Manoel de Oliveira (1908-2015)
sábado, 21 de março de 2015
T. S. ELIOT no Dia Mundial da Poesia
A CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK – T. S. ELIOT

Um dos mais belos poemas produzidos na literatura inglesa do século XX, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, com as suas imagens floridas em uma densa agonia destilada em versos livres, a traduzir um angustiante estado da alma, complexa, com palavras sopradas como uma canção simbolista, rumando ao vazio.
T. S. Eliot escreveu o poema em 1912, numa época de marasmo que se seguiu aos novos costumes trazidos pela Revolução Industrial, e o período de conturbações que culminaria com o início da Primeira Guerra Mundial. “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” só seria publicado pela primeira vez em 1915, na revista “Poetry”, e lançado no livro “Prufrock e Outras Observações”, em 1917, que trazia uma recolha de poemas do autor. Uma vez publicado, o poema deu uma outra visão à poesia inglesa que se espalhou pelo mundo.
Longo, angustiado e angustiante, T. S. Eliot mostra o medo de existir no tédio, a luta entre o desejo e a impotência, a existência e o envelhecer, a ansiedade de transitar em um novo mundo urbano e a necessidade de alienar-se a ele. Numa concepção metafísica, sentimentos e idéias interligam-se aos objetos em volta.
Na seqüência da epígrafe de Dante, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” abre-se em um monólogo misterioso, quase familiar, nos antípodas da dicção vitoriana. Prufrock deambula entre imagens claras e sombrias, desenha-se o homem sensível, burguês, blasé, que oscila entre a erudição sublime dos sentimentos, traduzida por cantos de sereias e alusões a Michelangelo; e ao grotesco do cotidiano, revelado em imagens de hotéis baratos, de homens em mangas de camisa. Se ao início Prufrock conduz o desejo e a intenção de levar a amada para o quarto de hotel, por fim ele revela-se estéril diante do mundo.
O poema não deixa de ser uma canção de amor, bela e inquietante, que sopra sobre uma hesitação perene, os sentimentos parecem petrificados pela existência, oscilando entre o desejo e a estabilidade do tédio. As máscaras de Prufrock revelam-lhes os sentimentos e também o próprio T.S. Eliot.
A tradução do poema aqui apresentada é do português João Almeida Flor, que a designou como “uma ordem de construção musical”. Na transposição para a língua portuguesa, os versos ficaram maiores do que os do poema original. O tradutor preferiu estar atento aos ritmos sonoros e à musicalidade do poema.
T. S. Eliot
Thomas Stearns Eliot nasceu em St. Louis, Estados Unidos, a 26 de setembro de 1888. Mudou-se para a Inglaterra aos 25 anos, em 1914. Em 1927, aos 39 anos, tornou-se cidadão britânico, e como tal, tornou-se um dos maiores representantes do modernismo britânico, sendo um dos seus principais poeta e dramaturgo.
A poesia de T. S. Eliot revela uma originalidade profunda e singular, repleta de muitas influências, entre elas a dos simbolistas franceses. Ao ler o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons, revelou-se-lhe uma grande influência, que culminaria com a poesia de Laforgue. Os estudos de filosofia auxiliaram o escritor a ter uma sensível concepção metafísica, ligando assim as palavras e idéias a objetos singulares, traduzindo-as em linguagem falada.
T. S. Eliot rompeu com a tradição poética do século XIX. Os temas da sua obra eram o vazio, a penitência, a redenção, a futilidade da existência, a angústia, a incerteza do tédio e a morte.
O escritor recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1948. Era um homem angustiado com o tédio, um denso propagador da desolação vincada pelas palavras livres, límpidas em seus símbolos. Morreu em Londres, em janeiro de 1965.
A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (tradução)
S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)
Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.
Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.
Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.
Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti.
Haverá por certo um tempo
De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
Tempo de virar costas e descer as escadas
Com esta clareira calva no meio do cabelo –
(Hão-de dizer: “Este já tem pouco cabelo!”)
Com a casaca, colarinho hirto subido até ao queixo,
Gravata distinta e discreta mas ornada de um sóbrio alfinete –
(Hão-de dizer: “Que magro está, nos braços e nas pernas!”)
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.
Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres,
E quando eu for apenas fórmula, esticado em alfinete,
Quando estiver na parede, trespassado, contorcido,
Como haverei então de começar
A cuspir as pontas de cigarro dos meus dias e jeitos?
E como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os braços, conheço todos –
Braceletes nos braços brancos e nus
(Mas com uma penugem loira à luz do candeeiro)
Será pelo perfume de um vestido
Que sou levado assim a divagar?
Braços estendidos na mesa ou envoltos num xaile.
E havia eu de ousar assim?
Por onde havia eu de começar?
E se eu disser que dou passeios por becos quando anoitece,
E vou fitando o fumo que sobe do cachimbo
De homens em mangas de camisa, à janela, solitários?...
Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio.
E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir... exausta... ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já) ser entreguenuma salva,
Não sou nenhum profeta – e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.
E tinha valido a pena, depois de tudo isto,
Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: “Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo” –
Se alguém, ajeitando a cabeça dela numa almofada,
Dissesse: “Não era nada disso que eu queria dizer
Não é isso, nada disso.”
E tinha valido a pena, depois de tudo,
Tinha mesmo valido a pena,
Depois dos pátios, dos poentes, das ruas chuviscadas,
Dos romances, das xícaras de chá, das saias arrastando pelo chão –
E depois disto e tantas coisas mais? –
Não é possível dizer mesmo o que quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse na tela a imagem dos nervos:
Tinha valido a pena
Se alguém, compondo a almofada ou tirando um xaile,
Dissesse, ao voltar-se para a janela:
“Não é isso, nada disso,
Não era nada disso que eu queria dizer.”
Não! Não sou o príncipe Hamlet e nem tinha que ser;
Sou um fidalgo da corte, desses que servem
Para aumentar a comitiva, abrir uma ou duas cenas,
Dar conselhos ao príncipe; instrumento dócil, é claro,
Reverente, satisfeito por ser prestável,
Político, meticuloso e avisado;
Cheio de sentenças doutas, um tanto obtuso todavia;
Às vezes, por sinal, quase ridículo –
Quase o bobo, às vezes.
Estou a ficar velho... Estou a ficar velho...
Hei-de andar com a dobra da calça revirada.
E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar
um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.
Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.
Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.
Tradução: João Almeida Flor
The Love Song of J. Alfred Prufrock (original)
S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,Sanza tema d’infamia ti rispondo.
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question. . .
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions
And for a hundred visions and revisions
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair -
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin -
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all;
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all -
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all -
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet–and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all"
If one, settling a pillow by her head,
Should say, "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor -
And this, and so much more? -
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous -
Almost, at times, the Fool.
I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.
Cronologia
1888 – Nasce a 26 de setembro, em St. Louis, Missouri, EUA, Thomas Stearns Eliot.
1898 – Torna-se estudante da Smith Academy, em St. Louis.
1905 – Freqüenta a Milton Academy, em Massachusetts.
1906 – Entra para Harvard. Lê o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons. Conhece a poesia de Laforgue.
1910 – Termina licenciatura em Harvard.
1912 – Termina o poema “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”.
1914 – Muda-se para a Inglaterra. Reúne-se com Ezra Pound.
1915 – Casa-se com Vivien Haigh-Wood. Publica “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” pela primeira vez, na revista “Poetry”.
1916 – Trabalha como professor em Highgate Junior School.
1917 – Publica “Prufrock e Outras Observações”.
1922 – Publicado “A Waste Land”.
1927 – Torna-se cidadão britânico.
1928 – Publica “Lancelot Andrewes”.
1933 – Separa-se judicialmente de Vivien Haigh-Wood.
1940 – Publicado “East Coker”.
1941 – Publicado “A Dry Salvages”.
1947 – Morre Vivien Eliot.
1948 – Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.
1957 – Casa-se com Valerie Fletcher.
1965 – Morre em 4 de janeiro. Suas cinzas são levadas para East Coker.

Um dos mais belos poemas produzidos na literatura inglesa do século XX, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, com as suas imagens floridas em uma densa agonia destilada em versos livres, a traduzir um angustiante estado da alma, complexa, com palavras sopradas como uma canção simbolista, rumando ao vazio.
T. S. Eliot escreveu o poema em 1912, numa época de marasmo que se seguiu aos novos costumes trazidos pela Revolução Industrial, e o período de conturbações que culminaria com o início da Primeira Guerra Mundial. “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” só seria publicado pela primeira vez em 1915, na revista “Poetry”, e lançado no livro “Prufrock e Outras Observações”, em 1917, que trazia uma recolha de poemas do autor. Uma vez publicado, o poema deu uma outra visão à poesia inglesa que se espalhou pelo mundo.
Longo, angustiado e angustiante, T. S. Eliot mostra o medo de existir no tédio, a luta entre o desejo e a impotência, a existência e o envelhecer, a ansiedade de transitar em um novo mundo urbano e a necessidade de alienar-se a ele. Numa concepção metafísica, sentimentos e idéias interligam-se aos objetos em volta.
Na seqüência da epígrafe de Dante, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” abre-se em um monólogo misterioso, quase familiar, nos antípodas da dicção vitoriana. Prufrock deambula entre imagens claras e sombrias, desenha-se o homem sensível, burguês, blasé, que oscila entre a erudição sublime dos sentimentos, traduzida por cantos de sereias e alusões a Michelangelo; e ao grotesco do cotidiano, revelado em imagens de hotéis baratos, de homens em mangas de camisa. Se ao início Prufrock conduz o desejo e a intenção de levar a amada para o quarto de hotel, por fim ele revela-se estéril diante do mundo.
O poema não deixa de ser uma canção de amor, bela e inquietante, que sopra sobre uma hesitação perene, os sentimentos parecem petrificados pela existência, oscilando entre o desejo e a estabilidade do tédio. As máscaras de Prufrock revelam-lhes os sentimentos e também o próprio T.S. Eliot.
A tradução do poema aqui apresentada é do português João Almeida Flor, que a designou como “uma ordem de construção musical”. Na transposição para a língua portuguesa, os versos ficaram maiores do que os do poema original. O tradutor preferiu estar atento aos ritmos sonoros e à musicalidade do poema.
T. S. Eliot
Thomas Stearns Eliot nasceu em St. Louis, Estados Unidos, a 26 de setembro de 1888. Mudou-se para a Inglaterra aos 25 anos, em 1914. Em 1927, aos 39 anos, tornou-se cidadão britânico, e como tal, tornou-se um dos maiores representantes do modernismo britânico, sendo um dos seus principais poeta e dramaturgo.A poesia de T. S. Eliot revela uma originalidade profunda e singular, repleta de muitas influências, entre elas a dos simbolistas franceses. Ao ler o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons, revelou-se-lhe uma grande influência, que culminaria com a poesia de Laforgue. Os estudos de filosofia auxiliaram o escritor a ter uma sensível concepção metafísica, ligando assim as palavras e idéias a objetos singulares, traduzindo-as em linguagem falada.
T. S. Eliot rompeu com a tradição poética do século XIX. Os temas da sua obra eram o vazio, a penitência, a redenção, a futilidade da existência, a angústia, a incerteza do tédio e a morte.
O escritor recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1948. Era um homem angustiado com o tédio, um denso propagador da desolação vincada pelas palavras livres, límpidas em seus símbolos. Morreu em Londres, em janeiro de 1965.
A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (tradução)
S’i credesse che mia risposta fosse

A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)
Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.
Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.
Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.
Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti.
Haverá por certo um tempo

De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
Tempo de virar costas e descer as escadas
Com esta clareira calva no meio do cabelo –
(Hão-de dizer: “Este já tem pouco cabelo!”)
Com a casaca, colarinho hirto subido até ao queixo,
Gravata distinta e discreta mas ornada de um sóbrio alfinete –
(Hão-de dizer: “Que magro está, nos braços e nas pernas!”)
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.
Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres,
E quando eu for apenas fórmula, esticado em alfinete,
Quando estiver na parede, trespassado, contorcido,
Como haverei então de começar
A cuspir as pontas de cigarro dos meus dias e jeitos?
E como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os braços, conheço todos –
Braceletes nos braços brancos e nus
(Mas com uma penugem loira à luz do candeeiro)
Será pelo perfume de um vestido
Que sou levado assim a divagar?
Braços estendidos na mesa ou envoltos num xaile.
E havia eu de ousar assim?
Por onde havia eu de começar?
E se eu disser que dou passeios por becos quando anoitece,
E vou fitando o fumo que sobe do cachimbo
De homens em mangas de camisa, à janela, solitários?...
Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio.
E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir... exausta... ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já) ser entreguenuma salva,
Não sou nenhum profeta – e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.
E tinha valido a pena, depois de tudo isto,

Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: “Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo” –
Se alguém, ajeitando a cabeça dela numa almofada,
Dissesse: “Não era nada disso que eu queria dizer
Não é isso, nada disso.”
E tinha valido a pena, depois de tudo,
Tinha mesmo valido a pena,
Depois dos pátios, dos poentes, das ruas chuviscadas,
Dos romances, das xícaras de chá, das saias arrastando pelo chão –
E depois disto e tantas coisas mais? –
Não é possível dizer mesmo o que quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse na tela a imagem dos nervos:
Tinha valido a pena
Se alguém, compondo a almofada ou tirando um xaile,
Dissesse, ao voltar-se para a janela:
“Não é isso, nada disso,
Não era nada disso que eu queria dizer.”
Não! Não sou o príncipe Hamlet e nem tinha que ser;
Sou um fidalgo da corte, desses que servem
Para aumentar a comitiva, abrir uma ou duas cenas,
Dar conselhos ao príncipe; instrumento dócil, é claro,
Reverente, satisfeito por ser prestável,
Político, meticuloso e avisado;
Cheio de sentenças doutas, um tanto obtuso todavia;
Às vezes, por sinal, quase ridículo –
Quase o bobo, às vezes.
Estou a ficar velho... Estou a ficar velho...

Hei-de andar com a dobra da calça revirada.
E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar
um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.
Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.
Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.
Tradução: João Almeida Flor
The Love Song of J. Alfred Prufrock (original)
S’i credesse che mia risposta fosse

A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,Sanza tema d’infamia ti rispondo.
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question. . .
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions
And for a hundred visions and revisions
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time

To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair -
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin -
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all;
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all -
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all -
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet–and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all"
If one, settling a pillow by her head,
Should say, "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor -
And this, and so much more? -
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do

To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous -
Almost, at times, the Fool.
I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.
Cronologia
1888 – Nasce a 26 de setembro, em St. Louis, Missouri, EUA, Thomas Stearns Eliot.1898 – Torna-se estudante da Smith Academy, em St. Louis.
1905 – Freqüenta a Milton Academy, em Massachusetts.
1906 – Entra para Harvard. Lê o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons. Conhece a poesia de Laforgue.
1910 – Termina licenciatura em Harvard.
1912 – Termina o poema “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”.
1914 – Muda-se para a Inglaterra. Reúne-se com Ezra Pound.
1915 – Casa-se com Vivien Haigh-Wood. Publica “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” pela primeira vez, na revista “Poetry”.
1916 – Trabalha como professor em Highgate Junior School.
1917 – Publica “Prufrock e Outras Observações”.
1922 – Publicado “A Waste Land”.
1927 – Torna-se cidadão britânico.
1928 – Publica “Lancelot Andrewes”.
1933 – Separa-se judicialmente de Vivien Haigh-Wood.
1940 – Publicado “East Coker”.
1941 – Publicado “A Dry Salvages”.
1947 – Morre Vivien Eliot.
1948 – Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.
1957 – Casa-se com Valerie Fletcher.
1965 – Morre em 4 de janeiro. Suas cinzas são levadas para East Coker.
21 de março: Dia Mundial da Poesia
«CARTA A MEUS FILHOS Sobre os fuzilamentos de Goya»
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Jorge de Sena, Poesia
quarta-feira, 18 de março de 2015
A vida, às vezes, me parece amarga e feroz...
Em geral é cada um por si. Escolhemos aquilo que é bom para nós, e os outros que aguentem. A nossa decisão muitas vezes não tem mal nenhum, o mundo continua como era antes, fica tudo esquecido num instante. Por que será que acho o momento da decisão um momento de impiedade? Por que será que não esqueço que minhas decisões podem afetar a vida de terceiros, de alto e baixo, e durante anos? Por que será que, mesmo estando no meu legítimo direito, fico imaginando uma saída, um jeito de evitar uma decisão cruel para o outro? Covardia? Medo do ressentimento? Li uma vez e nunca esqueci: se você dá uma navalhada em alguém precisa lembrar que poderá ser obrigado a conviver com a cicatriz de quem você esfaqueou. A vida, às vezes, me parece amarga e feroz.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Somos marionetes na vida...
Minha pressão, incrivelmente alta, marcou 20 por 12. Lembrei a
frase aterrorizante do Evangelho: «vigiai pois,
porque não sabeis o dia nem a hora».
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
As crises são sempre políticas
Comportamentos gananciosos e socialmente irresponsáveis existirão sempre, qualquer que seja o sistema socioeconómico. O problema, portanto, não é apenas esse, mas o da ausência de um rigoroso regime de regras (e instituições sólidas) que inibam tais comportamentos. A corrupção avança quando líderes políticos falham na elaboração de leis rigorosas e adequadas ao controle dos recursos públicos. No Brasil, infelizmente, sempre foram incentivados os comportamentos mais nocivos e condenáveis na gestão do dinheiro que pertence a todos nós, contribuintes.
O resultado está à vista de todos: a impunidade corre solta hoje, como correu ontem e, se tudo seguir do mesmo jeito, continuará correndo no futuro mesmo com todos nós sabemos que esse regime de regras é, no essencial, o resultado de decisões políticas. Se a moral fosse suficiente para garantir a civilidade dos comportamentos humanos, a política e o direito seriam socialmente desnecessários. Precisamos olhar as coisas de forma adulta, reconhecendo vantagens no lado do mundo onde as pessoas vivem melhor. Ali, Estados e iniciativa privada buscam conviver de forma civilizada.
O resultado está à vista de todos: a impunidade corre solta hoje, como correu ontem e, se tudo seguir do mesmo jeito, continuará correndo no futuro mesmo com todos nós sabemos que esse regime de regras é, no essencial, o resultado de decisões políticas. Se a moral fosse suficiente para garantir a civilidade dos comportamentos humanos, a política e o direito seriam socialmente desnecessários. Precisamos olhar as coisas de forma adulta, reconhecendo vantagens no lado do mundo onde as pessoas vivem melhor. Ali, Estados e iniciativa privada buscam conviver de forma civilizada.
Quando se vê bondade no Estado e maldade no mercado, ou vice-versa, abre-se caminho à concentração progressiva do poder num único campo, com o consequente risco de totalitarismo que sempre emergiu quando apenas um dos dois caminhos foi percorrido até ao fim. Regulação política dos mercados não é o mesmo que controle estatal da economia, e só é possível introduzir justiça na economia quando essa confusão é evitada. Até hoje ninguém conseguiu revogar a lei da gravidade e as leis do mercado.
Uma das (muitas) vantagens da invenção do mercado foi a diferenciação entre poder político e poder econômico e, consequentemente, uma menor concentração de todos os poderes numa única instituição. Foi esta diferenciação que abriu a possibilidade de constituir tanto a esfera política como a esfera econômica em campos de luta institucionalizados com pesos e contra-pesos específicos. No primeiro caso, através da invenção da democracia liberal; no segundo com a criação de um regime pluralista de relações industriais que incluiu todos os parceiros sociais.
Uma das (muitas) vantagens da invenção do mercado foi a diferenciação entre poder político e poder econômico e, consequentemente, uma menor concentração de todos os poderes numa única instituição. Foi esta diferenciação que abriu a possibilidade de constituir tanto a esfera política como a esfera econômica em campos de luta institucionalizados com pesos e contra-pesos específicos. No primeiro caso, através da invenção da democracia liberal; no segundo com a criação de um regime pluralista de relações industriais que incluiu todos os parceiros sociais.
Desde que me conheço por gente escuto desculpas esfarrapadas para adiar a solução dos nossos problemas políticos. Uma das mais irritantes é que o Brasil país está sempre endividado. Dívidas não são problemas. Não há crescimento sem endividamento. Qualquer empresário, pequeno, médio ou grande, sabe disso. Agitar o fantasma do endividamento é o mesmo que recusar a utilidade econômica do sistema financeiro, em geral, e dos bancos, em particular. O endividamento é virtuoso quando seu objetivo é o investimento.
Vejo com apreensão a descrença atual. A verdade é que podemos solucionar nossos problemas com decisões políticas sérias e responsáveis. Podemos reformar e melhorar nosso Estado usando bons exemplos de países que avançaram, que controlaram a corrupção. O Brasil pode deixar de ser um Estado que privilégios de algumas minorias para transformar-se em máquina de bons serviços para a maioria. Eu acredito.
Vejo com apreensão a descrença atual. A verdade é que podemos solucionar nossos problemas com decisões políticas sérias e responsáveis. Podemos reformar e melhorar nosso Estado usando bons exemplos de países que avançaram, que controlaram a corrupção. O Brasil pode deixar de ser um Estado que privilégios de algumas minorias para transformar-se em máquina de bons serviços para a maioria. Eu acredito.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Preferências
Considero a liberdade absolutamente inalienável e o respeito pelas diferenças uma das principais bases da convivência. Tenho responsabilidade e, antes de proceder a juízos de valor sobre atos dos outros, preocupo-me mais com meus próprios atos. Em resumo: aproveito as oportunidades que surgem no meu caminho e acredito mais no Hobbes, que no Rosseau. E prefiro Toqueville ao Montesquieu.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Brasília: memória vida
A cidade é uma ilha em que a atividade industrial não existe, mas criou-se uma vida artificial ao redor do Poder para manter a população no meio do cerrado. Programas culturais são raros, mas, em compensação vive-se em um ponto nevrálgico do Brasil, onde tudo é muito claro. E caro. Em outros lugares as tensões e conflitos podem ser dissimulados, mas na capital do país são visíveis e estão concretizados nas linhas do arquiteto. Aqui, não é possível fechar os olhos. Brasília é memória viva.
Diário de Kafka
23 de Setembro
"Esta história O Processo, escrevi-a eu de um jato durante a noite de 22 para 23, das dez da noite às seis da manhã. Quase não conseguia tirar as pernas de debaixo da secretária, tão rígidas elas estavam de estar tanto tempo sentado. A terrível tensão e alegria, a maneira como a história se desenvolveu perante mim, como se eu estivesse a andar sobre as águas. Várias vezes durante a noite senti o peso às costas. Como tudo pode dito, como há para tudo, para as mais estranhas fantasias, um grande fogo à espera em que elas perecem e renascem outra vez. Como ficou azul do lado de fora da janela. Rolou por ali uma carruagem. Dois homens atravessaram a ponte. Às duas horas olhei para o relógio pela última vez. Quando a criada atravessou a antecâmara pela primeira vez eu escrevi a última frase. Fechar a luz e a luz do dia. As dores leves em redor do coração. O cansaço que desapareceu a meio da noite. A trémula entrada no quarto das minhas irmãs. Leitura em voz alta. Antes disso, espreguiçar em frente da criada e dizer: “Estive a escrever até agora”. O aspecto da cama intacta, como se tivesse acabado de ser posta ali. A convicção confirmada de que com o escrever este romance me encontro nas planuras vergonhosas da escrita. Só desta maneira é que se pode escrever, só com uma coerência destas, com esta abertura total do corpo e da alma."
"Esta história O Processo, escrevi-a eu de um jato durante a noite de 22 para 23, das dez da noite às seis da manhã. Quase não conseguia tirar as pernas de debaixo da secretária, tão rígidas elas estavam de estar tanto tempo sentado. A terrível tensão e alegria, a maneira como a história se desenvolveu perante mim, como se eu estivesse a andar sobre as águas. Várias vezes durante a noite senti o peso às costas. Como tudo pode dito, como há para tudo, para as mais estranhas fantasias, um grande fogo à espera em que elas perecem e renascem outra vez. Como ficou azul do lado de fora da janela. Rolou por ali uma carruagem. Dois homens atravessaram a ponte. Às duas horas olhei para o relógio pela última vez. Quando a criada atravessou a antecâmara pela primeira vez eu escrevi a última frase. Fechar a luz e a luz do dia. As dores leves em redor do coração. O cansaço que desapareceu a meio da noite. A trémula entrada no quarto das minhas irmãs. Leitura em voz alta. Antes disso, espreguiçar em frente da criada e dizer: “Estive a escrever até agora”. O aspecto da cama intacta, como se tivesse acabado de ser posta ali. A convicção confirmada de que com o escrever este romance me encontro nas planuras vergonhosas da escrita. Só desta maneira é que se pode escrever, só com uma coerência destas, com esta abertura total do corpo e da alma."
Trecho do Diário de Kafka
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Quadro de aviso
A todos que frequentam esta página: sou forçada a advertir que os defeitos passíveis de se encontrar neste blog são, certamente, maiores que as aparentes virtudes.
A juventude é um retrato na parede
Esta foto foi tirada há muitos anos. Eu estava me achando bonita com os cabelos presos no coque e sem os óculos a encobrir o rosto. Revendo o retrato hoje, pude confirmar, mais uma vez, o tanto que sou parecida com a minha mãe. Além do sorriso meio sem graça, da tendência a ganhar peso, da cor esverdeada dos olhos e do formato do rosto, também herdei dela a pele de boa qualidade que tenho. Hoje, gastei bem umas duas horas do meu dia olhando fotos antigas. Minhas e dos meus amigos. Dou conta dos anos a passar não só em mim, mas nos outros que também são o meu espelho. Envelheço. Envelhecemos...
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Petrobras
Por dever de ofício, força de hábito e um prazer intransferível, leio os principais jornais do país todos os dias. Com muito gosto. Sei que sou bem informada, mas acho dificílimo dizer qual a pior notícia sobre a Petrobras nos últimos seis meses. Quando penso que nada pode ser mais grave do que a notícia que li no dia anterior, vaza mais um depoimento de uma nova delação premiada. A sucessão de malfeitorias parece não ter fim. Cresci aprendendo que a Petrobras era um orgulho nacional, uma companhia tecnicamente superior, forte, estratégica e lucrativa. Agora, no entanto, a nódoa da corrupção parece tão impregnada na empresa que, como dizia Eça de Queiróz, "nem com benzina se limpa". Aqui no meu canto, fico torcendo para que a indústria já tenha desenvolvido produtos mais eficientes que a benzina do tempo de Eça.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Meus óculos, minha vida!
Dr. Leonardo, o oftalmologista que está me atendendo há um ano, disse que pretende submeter-me a uma cirurgia para que eu possa dispensar os óculos. Falou com a boca toda, alegre, como se estivesse me fazendo um favor. Como assim? Fiquei calada, mas perdi completamente a graça. É que discordo completamente dele. Não passa pela minha cabeça a ideia de deixar meus óculos. Nem de brincadeira. Óculos me escondem e protegem, ou criam a ilusão de que me escondem e me protegem. Por detrás dos óculos, o mundo sempre vai me parecer mais seguro. Mesmo quando sei que não está.
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