quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Para saber a verdade é preciso ter coragem...


O filósofo Michel Foucault, em "Fearless Speech", uma compilação de seis conferências que ele fez na Universidade de Berkeley, analisa a importância da verdade desde a Grécia Antiga e assegura: a capacidade de acreditar, e de agir de acordo com os princípios da verdade e da sinceridade, pertence a um pequeno grupo de pessoas: as corajosas.

Segundo Foucault, acreditar no que é a verdade significa saber o que é a verdade. E, para saber o que é verdade, é preciso coragem para não aceitar certezas e crenças estabelecidas. De fato. Tomás de Aquino definiu a verdade como expressão da realidade. Chegar à verdade, contudo, é complexo, talvez mesmo impossível dentro da limitada capacidade humana de racionalização.

Em grego, a verdade (aletheia) significa aquilo que não está oculto, o não escondido, manifestando-se aos olhos e ao espírito, tal como é, ficando evidente à razão. Em latim, a verdade (veritas) é aquilo que pode ser demonstrado com precisão, referindo-se ao rigor e a exatidão. Assim, a verdade depende da veracidade, da memória e dos detalhes. Em hebraico, a verdade (emunah) significa confiança, é a esperança de que aquilo que é será revelado, irá aparecer por intervenção divina.




domingo, 25 de novembro de 2012

O que é importante?




Natal é a celebração do nascimento de Jesus. Celebrar Cristo é celebrar o amor, a generosidade e a bondade entre os homens. É importante reforçar a mensagem de Cristo, para que se faça chegar a ternura aos corações. Feliz Natal!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Não é esta a cidade dos meus sonhos...



Como se não bastasse estar encalhada na vida, comecei a ficar encalhada no trânsito. Não, não é brincadeira. Brasília vive dias estranhos com apagões, alagamentos, sensação de abandono e lentidão. A comprovada rapidez nos deslocamentos é coisa do passado. Agora, o normal é ficar dez, vinte, até quarenta minutos esperando para atravessar uma asa ou sair da Esplanada. Com a chuva e o temporal dos últimos dias a coisa ficou mais complicada. 

Sem contar que tudo isso acontece em Novembro, o mês mais azedo do calendário. É, novembro é terrível,  trata-se do único mês sem personalidade: ainda não é Natal, mas já temos de conviver com os cartazes que nos fazem lembrar as incontornáveis compras, os incontornáveis “amigos-ocultos”, os incontornáveis cartões de boas festas, os shopping lotados, os jantares de comemoração, etc, etc.

É difícil não ficar tenso.  Ainda por cima tenho outro motivo para queixas: meu aniversário coincide com o final do ano, então sou obrigada a conviver com os dissabores do envelhecimento, os dissabores do trânsito e os dissabores das chuvas tudo ao mesmo tempo. E a casa? Ai, ai, ai, ia me esquecendo que neste ano tenho de fazer árvore de Natal para a Giovana, minha neta. É, a bebezinha já tem dois anos e vai sentir falta se não puder contar com o presentinho dos avós.

Só me faltava esta agora, voltar a fazer árvore de Natal e ir escolher enfeites com esta chuva e nesta cidade estranha. Será que alguém pode me dizer se fora da natureza existe alguma árvore de bom gosto? Deus do Céu, é Natal, vou ter de me afundar no Frontal! É, definitivamente, não é esta a festa dos meus sonhos, não é esta a cidade dos meus sonhos e não é esta a vida dos meus sonhos.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Sentimento




Viver de um modo seguro - não dizer o que a gente pensa e falar sempre de coisas leves e  agradáveis -  é realmente um tédio.

domingo, 11 de novembro de 2012

Carga Genética




Choveu e fiquei deprimida no meu canto, pensando que minha vida daria uma história que Kafka poderia ter escrito. Exagero? Certamente. Sou dramática e exagerada, mas já tenho linha de defesa: deve ser defeito genético. Ninguém acredita? Posso provar. Certa vez, ao ver que minha irmã havia quebrado a unha do mindinho, abri a bolsa e lhe ofereci uma lixa. Mais derretida que manteiga esquecida no sol, ela disse:

 - Você acaba de salvar a minha vida, muito obrigada!

Olhei em volta buscando alguma testemunha porque não podia acreditar no que estava ouvindo, enquanto minha irmã começava a operação de lixar a unha, muito séria e concentrada. Pensei: exagero neste volume e nesta intensidade é doença e, como também sou exagerada, isso é carga genética. E carga genética sempre merece desculpa. Vencer, superar, procurar ajuda psicológica e mudar são coisas que, neste momento, eu não gostaria de discutir.  

  

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

E se você tivesse o anel de Giges?



A moral não existe para punir, para reprimir, para condenar. Para isso há tribunais e prisões. A moral se manifesta dentro de cada um de nós, onde nós somos livres. Se uma pessoa quer roubar algo numa loja, mas há um guarda observando, ou uma câmera filmando, a pessoa recua com medo de ser apanhado, de ser punido, de ser condenado? Ok, ela não recuou por honestidade, recuou por cálculo. Então, isso não é moral; é precaução. O medo da autoridade é o contrário da virtude, ou é apenas a virtude da prudência. Imagina, pelo contrário, que aquela pessoa, ou mesmo você, tem o anel de que fala Platão, o anel de Giges. É um anel mágico que torna você invisível. Giges, que era um homem honesto, encontrou o anel mas não soube resistir às tentações: aproveitou os poderes mágicos para entrar no Palácio, seduzir a rainha, assassinar o rei, tomar o poder e exercê-lo em seu exclusivo benefício...

Quem conta a história n'A República [uma das obras de Platão] conclui que o bom e o mau não se distinguem senão pela prudência ou pela hipocrisia. O que isto sugere? Que a moral pode ser apenas uma ilusão, um engano, um medo disfarçado de virtude. Bastaria ter a posse do anel para que qualquer interdição desaparecesse, e não houvesse senão a procura, por parte de cada um, do seu prazer ou do seus interesses egoístas. Será isto verdade? Claro que Platão está convencido do contrário. Mas ninguém é obrigado a ser adepto de Platão. O que pensar, então? Que a única resposta válida está em cada um de nós. E você, o que faria se tivesse o anel de Giges? Qual seria a sua moral? Aquilo que você exige de você, não em função do olhar dos outros ou desta ou daquela ameaça exterior, mas em nome do seu entendimento do bem e do mal, do admissível e do inadmissível.

Concretamente: sua moral é o conjunto das regras que você obedece de forma livre, mesmo que fosse invisível e invencível. Você não tem o anel? Isso não dispensa ninguém da necessidade de refletir, de julgar, de agir. Se há uma diferença mais do que aparente entre um homem mau e um homem bom é porque o olhar dos outros não é tudo, porque a prudência não é tudo. Tal é a aposta da moral e a sua solidão derradeira: toda a moral é em relação ao outro, mas é pessoal e intransferível. Claro que agir moralmente é tomar em consideração os interesses do outro, mas «às ocultas dos deuses e dos homens», como diz Platão, ou, dito de outro modo, sem recompensa nem castigo possíveis e sem ter necessidade, para isso, de outro olhar que não o próprio.

E não é a religião que fundamenta a moral; pelo contrário, é a moral que fundamenta ou justifica a religião. Não é porque Deus existe que devo agir bem; é por agir bem que posso ter esperança — não para ser virtuoso, mas para escapar ao desespero — de crer em Deus. Não é porque Deus me ordena qualquer coisa que isso é bom; é por um mandamento ser moralmente bom que posso acreditar que vem de Deus. Deste modo, a moral não impede a crença, até conduz, segundo Kant, à religião. Mas não depende desta nem pode ser reduzida a ela. Mesmo que Deus não exista, mesmo que não haja nada depois da morte, isso não dispensa você, ou ninguém, de agir de forma humana. 


sábado, 3 de novembro de 2012

Política na imprensa

Todos os projetos de comunicação social são projetos políticos. Desde sempre: na origem da imprensa não estão fofocas da corte, matérias educativas ou de prestação de serviço. Na origem da imprensa está a propaganda jacobina dos panfletos contra Luis XVI. Não há nada errado com projetos políticos. Errado é negar a política. Sem intermediação política não há vida em sociedade, tampouco vida civilizada. Aliás, é à política que devemos recorrer para construir, de forma democrática, as regras que temos de obedecer.  



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Aos vencedores, as batatas... quentes!


Prezados prefeitos eleitos,
Prezadas prefeitas eleitas,

Não se esqueçam que o Brasil tem carência de engenheiros, cientistas e pesquisadores. Não gera tecnologia própria em quase nenhum setor. Na verdade, o trabalhador brasileiro tem a escolaridade média dos países mais pobres do planeta. Parcela significativa de adolescentes brasileiros de 15 anos não consegue escrever um bilhete nem fazer um cálculo que não seja adição.

A vida das pessoas não está nada fácil. O trânsito anda infernal e a espera  exaspera. Melhoramos em muitos aspectos sim, mas há muito a fazer. Metade dos domicílios está sem acesso a esgoto e a violência cresceu demais nos últimos anos. Prefeitos devem participar sim, por meio da organização e do treinamento de guardas municipais, da luta contra o aumento da criminalidade e no combate às drogas.

Acredito que ninguém está dispensado de participar da guerra contra a violência. O caminho é investir em Educação e fazer reformas para combater o desperdício e a corrupção? Certamente. Máquina pública pode e deve prestar bons serviços de Saúde e Educação, além de investir em programas que gerem emprego e renda. Um bom ambiente nas cidades pode melhorar o futuro de todos no país.

Muita coisa vem sendo feita, conforme atestam os resultados das pesquisas do IBGE, mas há muito trabalho a fazer. Coisa boa de comemorar, por exemplo, é a queda da desigualdade. O índice de Gini vem continuamente caindo no Brasil, mas o ritmo é muito lento. Tomara que prefeitos e prefeitas  acelerem esta queda com força e perseverança.

É isso. Uma pessoa pode mover para melhor o mundo de outras pessoas, se souber mover direito. E, por fim, uma palavra sobre a imprensa: informem as pessoas.  O exercício da vida pública exige transparência e implica tolerância com a liberdade de imprensa, uma das condições da vida democrática. 


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Os livros são tudo, o resto é nada



Estava certo o poeta Jorge Luis Borges ao imaginar o Paraíso como uma espécie de biblioteca. Os livros são tudo. Só os livros alcançam a eternidade. Nas sociedades, tudo passa, – até mesmo as coisas que pensamos ser importantes. Quem mandava no tempo de Gustave Flaubert? Não importa, importa saber que Madame Bovary, com seu tédio e sua cadelinha, sobreviveu e segue conosco.

E quem foram as celebridades e os magnatas do tempo de Shakespeare? Ninguém sabe. Só Shakespeare está vivo até hoje. Julieta é eterna e sempre será assim. No Brasil, temos Capitu, com seus "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" ou "olhos de ressaca". A seu lado, o inseguro Bentinho. Será que ele também amava Escobar? Sempre penso nessa possibilidade. Afinal, são insondáveis os mistérios da alma humana.

Dizem que Machado de Assis desejava formar parte da alta sociedade do Rio de Janeiro. Hoje, ninguém sabe o nome de um só banqueiro ou de um grande comerciante daquele tempo. Só Machado está entre nós com Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Também seguem conosco Guimarães Rosa, Lima Barreto, Autran Dourado, Graciliano Ramos, Érico Verissimo e tantos outros autores de livros notáveis.

Quem, neste século, e no século passado, não deve alguma coisa ao romance russo Os Irmãos Karamazov? Paulo Francis dizia que Dostoievski inaugurou a psicanálise antes de Freud, não como método terapêutico, mas como investigação da psique. Ele seria o equivalente russo de Shakespeare, "reinventando" o humano. Cabe tudo nos seus livros: o real e o transcendente.

Não há quem não fique maravilhado com Os Miseráveis, de Victor Hugo. Também são pontos máximos da literatura obras como Cem Anos de Solidão, O Apanhador no Campo de Centeio e A Sangue Frio. E Dom Quixote, um dos livros mais extraordinários de todos os tempos? Como esquecer um herói que navega entre a perplexidade e a desorientação em sua quase infinita aventura?

Meu lívro favorito, Antígona, de Sófocles (496–406 a.C.), descreve uma das guerreiras heróicas mais fortes de todos os tempos. Ousada e indomovável, ela foi capaz de assumir os valores éticos mais elevados, mesmo sabendo que perderia a vida. Seu legado: nenhum poder é absoluto. É isso, Borges tem razão. Se há paraíso ele é uma espécie de biblioteca. Os livros são tudo. O resto é lágrima na chuva...

domingo, 21 de outubro de 2012

Dois poetas geniais e dois poemas fantásicos...




















Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

que correm atrás das mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meus Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade



Com Licença Poética

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado para mulher,

essa espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

- dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição para homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Estratégia...

Os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem. É errado jogar no ataque o tempo todo. Não dá para ganhar só com paus e espadas. Nem no baralho e nem na vida.

sábado, 6 de outubro de 2012

Sobre acreditar...



Hemingway, um dia, inquirido sobre se acreditava em Deus, respondeu: «À noite, às vezes».


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Machado de Assis, um brasileiro genial


Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis,  é uma obra-prima. Se Machado tivesse nascido na Europa ou nos Estados Unidos seria incluído, sem favor algum, na lista dos dez escritores mais geniais de todos os tempos. Abaixo, o primeiro capítulo deste livro escrito com aquele desencanto atemporal que parece ser caracteristica de todos os genios da literatura:  

Capítulo Primeiro

Óbito do Autor

"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos!

Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava — uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferi. à beira de minha cova: — «Vós, que o conhecestes, meus senhores vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.»

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, ; minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, a filha — um lírio do vale, — e. . . Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era cousa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.

«Morto! morto!» dizia consigo.

E a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilisso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, — a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando e me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranqüilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaíase-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra e lodo, e cousa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo".


domingo, 30 de setembro de 2012

Ser brasileiro é ...


Ando pensando na responsabilidade que devíamos ter com a construção da autoestima do nosso povo. Ser brasileiro é gostar de samba, de futebol e de dança, mas não é só isso. Temos um destino especial em razão do nosso compromisso com a leveza, a liberdade e a alegria de viver? Acredito que sim. Não é fácil superar a dor da morte e levar a vida de forma alegre. No Brasil, porém, mesmo com todas as dificuldades, somos fortes e capazes de agir dessa maneira como povo. Esse é o nosso jeito.  

Somos assim porque contamos com a qualidade dos nossos músicos e dos nossos poetas. Além do Carnaval, que nos associou para sempre ao destino de povo feliz, temos dívida com músicos como Tom Jobim, João Gilberto, os baianos do tropicalismo e, claro, Dodô e Osmar. Foram eles que criaram na Bahia os trios elétricos que espalham música e dança pelas ruas de nossas cidades. O resultado dessa mobilização popular é visível: a alegria tornou-se  marca da nossa gente.

Ser alegre combina com a alma brasileira. Afinal, que mulher pode ser triste quando é herdeira direta de Leila Diniz? E que menino resiste a um sorriso se lhe dizem que é herdeiro de Zumbi dos Palmares? É isso, ser brasileiro é ter essa grande herança e saber carregá-la com estilo, beleza e charme. Como disse Vinicius de Moraes, "é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe; é assim como a luz no coração"...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A festa da minha vida

Rápido e rasteiro


Vai ter uma festa,

que eu vou dançar

até o sapato pedir pra parar...

Aí eu paro,

tiro o sapato

e danço o resto da vida...
 
Chacal

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Poesia é...

"Poesia é voar fora da asa"

Manoel de Barros

Embriague-se, texto de Charles Baudelaire

"Embriague-se. É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão. Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: "É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser". 
Charles Baudelaire

domingo, 23 de setembro de 2012

Morre Freud a 23 de Setembro de 1939

Freud é um dos seres humanos mais geniais que existiram. Abaixo, alguns dos seus textos.

"O meu pai deu-se um dia ao luxo desta brincadeira: abandonou à destruição, confiando-o a mim e à mais velha das minhas irmãs, um livro com estampas a cores (descrição de uma viagem pela Pérsia). No plano pedagógico, era difícil de justificar. Eu tinha então cinco anos, a minha irmã tinha menos três que eu e a imagem de nós os dois, crianças, no cúmulo da alegria, desfolhando esse livro folha a folha (como uma alcachofra) (devo dizer) é quase a única que me ficou como recordação plástica deste período da minha vida. Depois, quando me tornei estudante, desenvolveu-se em mim uma predilecção manifesta por coleccionar e possuir (análoga à inclinação para estudar a partir de monografias, uma paixão favorita, tal como aquela que aparece já nos pensamentos do sonho no que se refere a cíclame e a alcachofra). Tornei-me um rato de biblioteca [Bucherwurm]...

"Desde que reflito sobre mim, sempre reconduzi este primeiro capricho da minha vida a esta impressão de criança, ou antes, reconheci que esta cena infantil é uma «recordação-encobridora» da minha bibliofilia ulterior. Naturalmente, aprendi cedo que as paixões nos arrastam facilmente aos sofrimentos".[Freud, in A Auto análise de Freud e a Descoberta da Psicanálise, vol I, Edições 70, 1990]

Anotações várias:"... fala, o canto, os movimentos da língua e da pena estão investidos de um simbolismo genital: a palavra representa o pénis e o movimento da língua ou da pena, o coito. Este investimento articula-se com o prazer de ouvir, que tem a sua origem numa cena primitiva apercebida segundo o modo sonoro e que estaria na origem do interesse pela música ..." [Didier Anzieu, in Psicanálise e Linguagem, Moraes, 1979.

– "Não concordo quando dizem que sou sábio ou um "iniciado" na sabedoria. Certo dia um homem encheu o chapéu com água tirada de um rio. O que significa isso? Eu não sou esse rio, estou à sua margem, mas não faço parte do rio. Outros homens estão à beira do mesmo rio e em geral pensam que deveriam fazer as coisas por iniciativa própria. Eu nada faço. Nunca imaginei ser «aquele que cuida para que as cerejas tenham haste». Fico lá, de pé, admirando os recursos da natureza...

"Há uma velha lenda, muito bela, de um rabino a quem um aluno, em visita, pergunta: «Rabbi, outrora havia homens que viam Deus face a face; por que não acontece mais isso?» O Rabino respondeu: «Porque ninguém mais, hoje em dia, é capaz de inclinar-se suficientemente». É preciso, com efeito, curvar-se muito para beber no rio”...

"É pela importância que a alquimia teve para mim [Yung diz que o estudo da alquimia o absorveu por mais de 10 anos. Para o efeito seguiu uma metodologia bem curiosa] que percebi minha ligação interior com Goethe. O segredo de Goethe foi o de ter sido tomado pelo lento movimento de elaboração de metamorfoses arquetípicas que se processam através dos séculos; ele sentiu seu Fausto como uma opus magnum ou divinum - uma grande obra ou obra divina. Tinha razão, portanto, quando dizia que Fausto era sua «obra-prima»; por isso sua vida foi enquadrada por esse drama. Percebe-se de modo impressionante que se tratava de uma substância viva que agia e vivia nele, a de um processo supra-pessoal, o grande sonho do mundus archetypus. ][C. G. Yung, Memorias Sonhos Reflexões, Rio de Janeiro, 1975]

sábado, 22 de setembro de 2012

Momento cultural


A preguiça me conduzirá direitinho ao inferno. Nos últimos tempos não li nenhum livro decente, não fui a bons filmes e não assisti a peças de teatro elogiadas pela crítica. Na verdade, sequer ouvi algum disco recente. Dediquei-me a ver televisão aberta e a tentar descobrir, nos canais fechados, alguma produção genial como House ou Lost. Não é fácil, mas estou adorando “Girls”, uma série que aborda, com muita graça e bastante realismo, a caótica rotina de quatro garotas norte-americanas na casa dos vinte, vinte e poucos anos. A autora é uma das garotas e falar dela e do seu tempo com muita sinceridade e alguma genialidade. Não é por acaso que a série foi indicada a prêmios importantes e deve, inclusive, ganhar vários deles.  

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O que é importante?

O mais importante nos tempos que correm é não perder o sentido de humor e ir andando...