sábado, 21 de março de 2015

T. S. ELIOT no Dia Mundial da Poesia

A CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK – T. S. ELIOT

Um dos mais belos poemas produzidos na literatura inglesa do século XX, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, com as suas imagens floridas em uma densa agonia destilada em versos livres, a traduzir um angustiante estado da alma, complexa, com palavras sopradas como uma canção simbolista, rumando ao vazio.
T. S. Eliot escreveu o poema em 1912, numa época de marasmo que se seguiu aos novos costumes trazidos pela Revolução Industrial, e o período de conturbações que culminaria com o início da Primeira Guerra Mundial. “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” só seria publicado pela primeira vez em 1915, na revista “Poetry”, e lançado no livro “Prufrock e Outras Observações”, em 1917, que trazia uma recolha de poemas do autor. Uma vez publicado, o poema deu uma outra visão à poesia inglesa que se espalhou pelo mundo.
Longo, angustiado e angustiante, T. S. Eliot mostra o medo de existir no tédio, a luta entre o desejo e a impotência, a existência e o envelhecer, a ansiedade de transitar em um novo mundo urbano e a necessidade de alienar-se a ele. Numa concepção metafísica, sentimentos e idéias interligam-se aos objetos em volta.
Na seqüência da epígrafe de Dante, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” abre-se em um monólogo misterioso, quase familiar, nos antípodas da dicção vitoriana. Prufrock deambula entre imagens claras e sombrias, desenha-se o homem sensível, burguês, blasé, que oscila entre a erudição sublime dos sentimentos, traduzida por cantos de sereias e alusões a Michelangelo; e ao grotesco do cotidiano, revelado em imagens de hotéis baratos, de homens em mangas de camisa. Se ao início Prufrock conduz o desejo e a intenção de levar a amada para o quarto de hotel, por fim ele revela-se estéril diante do mundo.
O poema não deixa de ser uma canção de amor, bela e inquietante, que sopra sobre uma hesitação perene, os sentimentos parecem petrificados pela existência, oscilando entre o desejo e a estabilidade do tédio. As máscaras de Prufrock revelam-lhes os sentimentos e também o próprio T.S. Eliot.
A tradução do poema aqui apresentada é do português João Almeida Flor, que a designou como “uma ordem de construção musical”. Na transposição para a língua portuguesa, os versos ficaram maiores do que os do poema original. O tradutor preferiu estar atento aos ritmos sonoros e à musicalidade do poema.

T. S. Eliot

Thomas Stearns Eliot nasceu em St. Louis, Estados Unidos, a 26 de setembro de 1888. Mudou-se para a Inglaterra aos 25 anos, em 1914. Em 1927, aos 39 anos, tornou-se cidadão britânico, e como tal, tornou-se um dos maiores representantes do modernismo britânico, sendo um dos seus principais poeta e dramaturgo.
A poesia de T. S. Eliot revela uma originalidade profunda e singular, repleta de muitas influências, entre elas a dos simbolistas franceses. Ao ler o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons, revelou-se-lhe uma grande influência, que culminaria com a poesia de Laforgue. Os estudos de filosofia auxiliaram o escritor a ter uma sensível concepção metafísica, ligando assim as palavras e idéias a objetos singulares, traduzindo-as em linguagem falada.
T. S. Eliot rompeu com a tradição poética do século XIX. Os temas da sua obra eram o vazio, a penitência, a redenção, a futilidade da existência, a angústia, a incerteza do tédio e a morte.
O escritor recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1948. Era um homem angustiado com o tédio, um denso propagador da desolação vincada pelas palavras livres, límpidas em seus símbolos. Morreu em Londres, em janeiro de 1965.


A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (tradução)

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.

(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)


Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.

Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.

Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.

Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti.

Haverá por certo um tempo
De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
Tempo de virar costas e descer as escadas
Com esta clareira calva no meio do cabelo –
(Hão-de dizer: “Este já tem pouco cabelo!”)
Com a casaca, colarinho hirto subido até ao queixo,
Gravata distinta e discreta mas ornada de um sóbrio alfinete –
(Hão-de dizer: “Que magro está, nos braços e nas pernas!”)
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.

Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?

E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres,
E quando eu for apenas fórmula, esticado em alfinete,
Quando estiver na parede, trespassado, contorcido,
Como haverei então de começar
A cuspir as pontas de cigarro dos meus dias e jeitos?

E como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os braços, conheço todos –
Braceletes nos braços brancos e nus
(Mas com uma penugem loira à luz do candeeiro)
Será pelo perfume de um vestido
Que sou levado assim a divagar?
Braços estendidos na mesa ou envoltos num xaile.
E havia eu de ousar assim?
Por onde havia eu de começar?

E se eu disser que dou passeios por becos quando anoitece,
E vou fitando o fumo que sobe do cachimbo
De homens em mangas de camisa, à janela, solitários?...

Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio.

E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir... exausta... ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já) ser entreguenuma salva,
Não sou nenhum profeta – e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.

E tinha valido a pena, depois de tudo isto,
Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: “Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo” –
Se alguém, ajeitando a cabeça dela numa almofada,
Dissesse: “Não era nada disso que eu queria dizer
Não é isso, nada disso.”

E tinha valido a pena, depois de tudo,
Tinha mesmo valido a pena,
Depois dos pátios, dos poentes, das ruas chuviscadas,
Dos romances, das xícaras de chá, das saias arrastando pelo chão –
E depois disto e tantas coisas mais? –
Não é possível dizer mesmo o que quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse na tela a imagem dos nervos:
Tinha valido a pena
Se alguém, compondo a almofada ou tirando um xaile,
Dissesse, ao voltar-se para a janela:
“Não é isso, nada disso,
Não era nada disso que eu queria dizer.”

Não! Não sou o príncipe Hamlet e nem tinha que ser;
Sou um fidalgo da corte, desses que servem
Para aumentar a comitiva, abrir uma ou duas cenas,
Dar conselhos ao príncipe; instrumento dócil, é claro,
Reverente, satisfeito por ser prestável,
Político, meticuloso e avisado;
Cheio de sentenças doutas, um tanto obtuso todavia;
Às vezes, por sinal, quase ridículo –
Quase o bobo, às vezes.

Estou a ficar velho... Estou a ficar velho...
Hei-de andar com a dobra da calça revirada.

E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar
um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.

Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.

Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.

Tradução: João Almeida Flor

The Love Song of J. Alfred Prufrock (original)

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)
Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question. . .
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions
And for a hundred visions and revisions
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair -
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin -
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all;
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all -
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all -
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet–and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all"
If one, settling a pillow by her head,
Should say, "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor -
And this, and so much more? -
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous -
Almost, at times, the Fool.

I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.

We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

Cronologia
1888 – Nasce a 26 de setembro, em St. Louis, Missouri, EUA, Thomas Stearns Eliot.
1898 – Torna-se estudante da Smith Academy, em St. Louis.
1905 – Freqüenta a Milton Academy, em Massachusetts.
1906 – Entra para Harvard. Lê o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons. Conhece a poesia de Laforgue.
1910 – Termina licenciatura em Harvard.
1912 – Termina o poema “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”.
1914 – Muda-se para a Inglaterra. Reúne-se com Ezra Pound.
1915 – Casa-se com Vivien Haigh-Wood. Publica “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” pela primeira vez, na revista “Poetry”.
1916 – Trabalha como professor em Highgate Junior School.
1917 – Publica “Prufrock e Outras Observações”.
1922 – Publicado “A Waste Land”.
1927 – Torna-se cidadão britânico.
1928 – Publica “Lancelot Andrewes”.
1933 – Separa-se judicialmente de Vivien Haigh-Wood.
1940 – Publicado “East Coker”.
1941 – Publicado “A Dry Salvages”.
1947 – Morre Vivien Eliot.
1948 – Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.
1957 – Casa-se com Valerie Fletcher.
1965 – Morre em 4 de janeiro. Suas cinzas são levadas para East Coker.

21 de março: Dia Mundial da Poesia

«CARTA A MEUS FILHOS Sobre os fuzilamentos de Goya»




Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Jorge de Sena, Poesia

quarta-feira, 18 de março de 2015

A vida, às vezes, me parece amarga e feroz...

 
Em geral é cada um por si. Escolhemos aquilo que é bom para nós, e os outros que aguentem. A nossa decisão muitas vezes não tem mal nenhum, o mundo continua como era antes, fica tudo esquecido num instante. Por que será que acho o momento da decisão um momento de impiedade? Por que será que não esqueço que minhas decisões podem afetar a vida de terceiros, de alto e baixo, e durante anos? Por que será que, mesmo estando no meu legítimo direito, fico imaginando uma saída, um jeito de evitar uma decisão cruel para o outro? Covardia? Medo do ressentimento? Li uma vez e nunca esqueci: se você dá uma navalhada em alguém precisa lembrar que poderá ser obrigado a conviver com a cicatriz de quem você esfaqueou. A vida, às vezes, me parece amarga e feroz. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Somos marionetes na vida...

Minha pressão, incrivelmente alta, marcou 20 por 12. Lembrei a 
frase aterrorizante do Evangelho: «vigiai pois,
porque não sabeis o dia nem a hora».
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

As crises são sempre políticas


Comportamentos gananciosos e socialmente irresponsáveis existirão sempre, qualquer que seja o sistema socioeconómico. O problema, portanto, não é apenas esse, mas o da ausência de um rigoroso regime de regras (e instituições sólidas) que inibam tais comportamentos. A corrupção avança quando líderes políticos falham na elaboração de leis rigorosas e adequadas ao controle dos recursos públicos. No Brasil, infelizmente, sempre foram incentivados os comportamentos mais nocivos e condenáveis na  gestão do dinheiro que pertence a todos nós, contribuintes. 

O resultado está à vista de todos: a impunidade corre solta hoje, como correu ontem e, se tudo seguir do mesmo jeito, continuará correndo no futuro mesmo com todos nós sabemos que esse regime de regras é, no essencial, o resultado de decisões políticas. Se a moral fosse suficiente para garantir a civilidade dos comportamentos humanos, a política e o direito seriam socialmente desnecessários. Precisamos olhar as coisas de forma adulta, reconhecendo vantagens no lado do mundo onde as pessoas vivem melhor. Ali, Estados e iniciativa privada buscam conviver de forma civilizada.   

Quando se vê bondade no Estado e maldade no mercado, ou vice-versa, abre-se caminho à concentração progressiva do poder num único campo, com o consequente risco de totalitarismo que sempre emergiu quando apenas um dos dois caminhos foi percorrido até ao fim. Regulação política dos mercados não é o mesmo que controle estatal da economia, e só é possível introduzir justiça na economia quando essa confusão é evitada. Até hoje ninguém conseguiu revogar a lei da gravidade e as leis do mercado.

Uma das (muitas) vantagens da invenção do mercado foi a diferenciação entre poder político e poder econômico e, consequentemente, uma menor concentração de todos os poderes numa única instituição. Foi esta diferenciação que abriu a possibilidade de constituir tanto a esfera política como a esfera econômica em campos de luta institucionalizados com pesos e contra-pesos específicos. No primeiro caso, através da invenção da democracia liberal; no segundo com a criação de um regime pluralista de relações industriais que incluiu todos os parceiros sociais.
 
Desde que me conheço por gente escuto desculpas esfarrapadas para adiar a solução dos nossos problemas políticos. Uma das mais irritantes é que o  Brasil país está sempre endividado. Dívidas não são problemas. Não há crescimento sem endividamento. Qualquer empresário, pequeno, médio ou grande, sabe disso. Agitar o fantasma do endividamento é o mesmo que recusar a utilidade econômica do sistema financeiro, em geral, e dos bancos, em particular. O endividamento é virtuoso quando seu objetivo é o investimento.

Vejo com apreensão a descrença atual. A verdade é que podemos solucionar nossos problemas com decisões políticas sérias e responsáveis. Podemos reformar e melhorar nosso Estado usando bons exemplos de países que avançaram, que controlaram a corrupção. O Brasil pode deixar de ser um Estado que privilégios de algumas minorias para transformar-se em máquina de bons serviços para a maioria.  Eu acredito.   

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Preferências

 
Considero a liberdade absolutamente inalienável e o respeito pelas diferenças uma das principais bases da convivência. Tenho responsabilidade e, antes de proceder a juízos de valor sobre atos dos outros, preocupo-me mais com meus próprios atos. Em resumo: aproveito as oportunidades que surgem no meu caminho e acredito mais no Hobbes, que no Rosseau. E  prefiro Toqueville ao Montesquieu.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Brasília: memória vida

 A cidade é uma ilha em que a atividade industrial não existe, mas criou-se uma vida artificial ao redor do Poder para manter  a população no meio do cerrado. Programas culturais são raros, mas, em compensação vive-se em um ponto nevrálgico do Brasil, onde tudo é muito claro. E caro. Em outros lugares as tensões e conflitos podem ser dissimulados, mas na capital do país são visíveis e estão concretizados nas linhas do arquiteto. Aqui, não é possível fechar os olhos. Brasília é memória viva.

Diário de Kafka

23 de Setembro
 
"Esta história O Processo, escrevi-a eu de um jato durante a noite de 22 para 23, das dez da noite às seis da manhã. Quase não conseguia tirar as pernas de debaixo da secretária, tão rígidas elas estavam de estar tanto tempo sentado. A terrível tensão e alegria, a maneira como a história se desenvolveu perante mim, como se eu estivesse a andar sobre as águas. Várias vezes durante a noite senti o peso às costas. Como tudo pode dito, como há para tudo, para as mais estranhas fantasias, um grande fogo à espera em que elas perecem e renascem outra vez. Como ficou azul do lado de fora da janela. Rolou por ali uma carruagem. Dois homens atravessaram a ponte. Às duas horas olhei para o relógio pela última vez. Quando a criada atravessou a antecâmara pela primeira vez eu escrevi a última frase. Fechar a luz e a luz do dia. As dores leves em redor do coração. O cansaço que desapareceu a meio da noite. A trémula entrada no quarto das minhas irmãs. Leitura em voz alta. Antes disso, espreguiçar em frente da criada e dizer: “Estive a escrever até agora”. O aspecto da cama intacta, como se tivesse acabado de ser posta ali. A convicção confirmada de que com o escrever este romance me encontro nas planuras vergonhosas da escrita. Só desta maneira é que se pode escrever, só com uma coerência destas, com esta abertura total do corpo e da alma."
 
Trecho do Diário de Kafka


 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Quadro de aviso

 
A todos que frequentam esta página: sou forçada a advertir que os defeitos passíveis de se encontrar neste blog são, certamente, maiores que as aparentes virtudes.

A juventude é um retrato na parede

 

 
Esta foto foi tirada há muitos anos. Eu estava me achando bonita com os cabelos presos no coque e sem os óculos a encobrir o rosto. Revendo o retrato hoje, pude confirmar, mais uma vez, o tanto que sou parecida com a minha mãe. Além do sorriso meio sem graça, da tendência a ganhar peso, da cor esverdeada dos olhos e do formato do rosto, também herdei dela a pele de boa qualidade que tenho. Hoje, gastei bem umas duas horas do meu dia olhando fotos antigas. Minhas e dos meus amigos. Dou conta dos anos a passar não só em mim, mas nos outros que também são o meu espelho. Envelheço. Envelhecemos...  

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Petrobras

 
 
 
Por dever de ofício, força de hábito e um prazer intransferível, leio os principais jornais do país todos os dias. Com muito gosto. Sei que sou bem informada, mas acho dificílimo dizer qual a pior notícia sobre a Petrobras nos últimos seis meses. Quando penso que nada pode ser mais grave do que a notícia que li no dia anterior, vaza mais um depoimento de uma nova delação premiada. A sucessão de malfeitorias parece não ter fim.  Cresci aprendendo que a Petrobras era um orgulho nacional, uma companhia tecnicamente superior, forte, estratégica e lucrativa. Agora, no entanto, a nódoa da corrupção parece tão impregnada na empresa que, como dizia Eça de Queiróz, "nem com benzina se limpa". Aqui no meu canto, fico torcendo para que a indústria já tenha desenvolvido produtos mais eficientes que a benzina do tempo de Eça. 
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Meus óculos, minha vida!



Dr. Leonardo, o oftalmologista que está me atendendo há um ano, disse que pretende submeter-me a uma cirurgia para que eu possa dispensar os óculos. Falou com a boca toda, alegre, como se estivesse me fazendo um favor. Como assim? Fiquei calada, mas perdi completamente a graça. É que discordo completamente dele. Não passa pela minha cabeça a ideia de deixar meus óculos. Nem de brincadeira. Óculos me escondem e protegem, ou criam a ilusão de que me escondem e me protegem. Por detrás dos óculos, o mundo sempre vai me parecer mais seguro. Mesmo quando sei que não está. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Salve a Mocidade!

 
Ainda menina, quando saí de Governador Valadares e fui morar em Juiz de Fora, passei a sonhar com a vida no Rio. Como seria andar pela praia e como seriam os desfiles das escolas de samba do primeiro grupo? Ao longo de dez anos ininterruptos, na década de 80, passei minhas férias em praias do Rio. E sei que não há litoral mais bonito, nem povo mais cheio de charme e alegria. Os desfiles das escolas de samba, ao vivo, só vi pela primeira vez muitos anos depois, em 2010, justamente quando Paulo Barros ganhou o primeiro título de campeão na Unidos da Tijuca com o enredo "É Segredo". É inegável que o Carnaval brasileiro inovou com Paulo Barros, depois de anos repetindo os mesmos feitiços.

Agora em 2015, no desfile da Mocidade, Paulo Barros voltou a mostrar a força de sua magia com o enredo "O que você faria se só lhe restasse um dia? Além da ótima abordagem sobre vida/morte, pegou muito bem a divertida provocação em cima da fragilidade humana. Muito bom, principalmente os dois carros sobre sexo: um com homens e mulheres pelados e molhados pela chuva e o outro com casais simulando cenas de motel. Na verdade, mais um belíssimo momento, entre  tantos que felizmente temos, da cultura popular brasileira na avenida. 

Só hoje, quando li nos sites de notícia a grande quantidade de comentários negativos sobre os dois carros, é que me dei conta do atraso e da danação de uma parcela da população. Será que não passou da hora de tanta hipocrisia e tanto moralismo? Vergonhoso é ver, em pleno século XXI, gente sendo decapitada em nome de uma religião, uma crença, ou sei lá o quê. Sexo faz parte da vida, aliás, é a melhor parte da vida, e o desfile da Mocidade foi lindo e criativo. Paulo Barros merece nota dez. Com louvor!

 

A verdade como metal

O filósofo e pensador Nietzsche - em um texto de 1873, que recebeu o título "Sobre a Verdade e a Mentira em Sentido Extra-Moral", -  afirma que a verdade está tão gasta que é como se fosse uma moeda que perdeu a efígie e já não vale como moeda, mas apenas como metal. Como vil metal.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Solidão geográfica


Acordo cedo e percorro rapidamente a minha quadra olhando o bico circular do tênis, mas prestando atenção ao meu redor.  Não encontro nada mais do que o silêncio e uma calmaria resoluta, como se  todos os moradores tivessem decidido sair  da cidade neste fim-de-semana prolongado.

Passo pela comercial, olho a padaria, a barbearia e a farmácia: tudo deserto. Nenhuma alma viva vem na minha direção. Nem passa ninguém por mim. Será que partiram de verdade ou estão brincando de pique-esconde para acentuar minha solidão geográfica? 

Não posso deixar de comparar, e de perceber, o estranho contraste entre os dias comuns e o dia de hoje, mas, aos poucos, com a chegada do sol da manhã, revejo outros solitários que, como eu, passam discretos sem se anunciar. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Lágrimas na chuva...


Gosto de escrever neste blog. Acredito que a internet concedeu a todos nós, acima de tudo, um espaço de liberdade onde podemos divulgar uma espécie de diário inconsequente sobre os mais diversos temas: política, amor, literatura, futebol, cinema, amizade, arte, cultura, culinária, vaidade (muita vaidade!), discordâncias, desacertos, conflitos e até ódios.
 
Trata-se de uma forma de comunicação efêmera, uma vez que não é palpável como o são as folhas de um livro, jornal ou revista. Na internet nenhum recorte se guarda. Na verdade, como diz uma das frases mais brilhantes do filme Blade Runner: "Um dia,  só nos restarão lágrimas na chuva".   
 
Na internet vai tudo ficando para trás, por entre links e links de arquivos, que nunca mais se lerão. É o passado ficando no passado. E viva o presente e  o seu melhor que é a liberdade de expressão e de opinião que temos na internet. Acho que é mais fácil a gente se queixar da falta de responsabilidade dos que escrevem na internet do que da falta de liberdade. Melhor assim.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O que a sociedade nos reserva?


 
«A palavra senior vem do latim senex, que quer dizer idoso, velho, que passou de moda. O que nos acontece, atrizes dos 60, 70 e 80 anos, é que passámos de moda, causamos enfado. O tempo destrói tudo e também a beleza, a sagacidade, a agilidade e, como em todas as outras mulheres, a pele fica sem viço, a cintura aumenta, os lábios murcham. Mesmo que permaneçamos atentas, argutas, capazes, somos rejeitadas e as oportunidades são menores porque, obviamente, os contratadores não nos consideram lucrativas e, como é sabido, o valor maior do sistema vigente é o do negócio. O que nos acontece não difere em nada do que sucede aos outros cidadãos, homens e mulheres, com mais alguma idade: nada se lhes reserva, não somos respeitados e a vida é, por vezes, indigna. Nas peças de teatro, nos trabalhos televisivos, no cinema, as intervenções que nos são atribuídas servem de um modo geral para compor ou enquadrar enredos que sempre pertencem aos jovens, cada vez mais jovens, cada vez mais belos, cada vez mais concorrenciais e comerciais. Não penso que haja propriamente discriminação em relação ao gênero. O que sei é que nós, mulheres em especial, não fomos informadas de que para ser artista também era preciso saber gerir a vida e que isso era o mais difícil, porque era um território de sobrevivência atribulada. E assim ficamos vulneráveis e inseguras porque o nosso trabalho é, no fundo, considerado irrelevante e sem préstimo para esta sociedade».
 
O testemunho, que considero notável e verdadeiro, foi escrito pela atriz portuguesa Maria Emília Correia (que aparece na foto) para um jornal de Portugal. Acredito que está aí a principal explicação para a busca insana que muitas mulheres fazem pela juventude, mesmo ao custo de dietas doentias e de processos cirúrgicos de altíssimo risco e efeito duvidoso. Sinto na própria pele que a rejeição social a tudo que é velho tem sido inevitável, injusta e incompreensível.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Homenagem a Picasso




"O esquadro disfarça o eclipse
que os homens não querem ver.
Não há música aparentemente
nos violinos fechados.
Apenas os recortes dos jornais diários
acenam para mim como o juízo final."

João Cabral Melo Neto

Deve-se escrever...

 
 
"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer." (Graciliano Ramos)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Você é um bom vendedor ?

Um garoto inteligente, vindo da roça, candidatou-se a um emprego numa grande
 loja de departamentos da capital dos Estados Unidos. Na verdade, era uma das maiores lojas de departamentos  do mundo, quase tudo podia ser comprado ali.
  

O gerente perguntou ao rapaz:
 - Você já trabalhou alguma vez?
 - Sim, eu fazia negócios na roça.

 O gerente gostou do jeitão simples do moço e disse: Pode começar amanhã, no fim
 da tarde venho ver como se saiu.


 O dia foi longo e árduo para o rapaz.

 Às 17h30 o gerente se acercou do novo empregado para verificar sua
 produtividade e perguntou:

 - Quantas vendas você fez hoje?

 - Uma!

 - Só uma? A maioria dos meus vendedores faz de 30 a 40 vendas por dia.

 - De quanto foi a sua venda?

 - Dois milhões e meio de reais.

 - Como conseguiu isso?

 - Bem, o cliente entrou na loja e eu lhe vendi um anzol pequeno, depois um
 anzol médio e finalmente um anzol bem grande.
 Depois vendi uma linha fina de pescar, uma de resistência média e uma bem
 grossa. Para pescaria pesada, sabe. Perguntei onde ele ia pescar e ele me disse
 que ia fazer pesca oceânica. Eu sugeri que talvez fosse precisar de um barco,
 então o acompanhei até a seção de náutica e lhe vendi uma lancha importada, de
 primeira linha.
 Aí eu disse a ele que talvez um carro pequeno não fosse capaz de puxar a lancha
 e o levei à seção de carros e lhe vendi uma caminhonete com tração nas quatro
 rodas.


 Perplexo, o gerente perguntou:

 -Você vendeu tudo isso a um cliente que veio aqui para comprar um pequeno
 anzol?

 -Não senhor. Ele entrou aqui para comprar um pacote de
 absorventes para a mulher, e eu disse: ‘já que o seu fim de semana está perdido,
 por que o senhor não vai pescar?’