Como dizia Mitterrand, a política, para além de representar a tentativa permanente da solução dos problemas de pessoas concretas que vivem em sociedade, também é um ato humano carregado de significado. Exige caráter, coragem, dedicação e amor ao próximo. Exige gente capaz de grandes gestos e de rupturas indispensáveis. Gente que não aceita o anonimato, a linearidade e a insignificância.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
sábado, 17 de fevereiro de 2018
A morte absoluta
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança duma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.
A lembrança duma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”
Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.
— Sem deixar sequer esse nome.
Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos (1940)
domingo, 11 de fevereiro de 2018
A verdade...
Advertência: A linguagem pode ser a forma principal das pessoas se esconderem. Sobre isso Fernando Pessoa disse: "quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo".
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Carnaval e Futebol
Numa sociedade em que as emoções são cada vez
mais controladas em nome da civilização e dos deveres de convivência, Carnaval
e Copa são fantásticos momentos de excitação, transgressão e de certo
descontrole de algumas manifestações reprimidas.
São instantes com todos os ingredientes de que
se compõe o melhor da vida: a competição, a sorte e o azar, o talento, a
superação, o riso, o choro, o risco e o suposto elemento neutro: o árbitro —
que nos permite justificar qualquer revés.
Aquele senhor de preto correndo pelo campo e os
juízes invisíveis das notas na quarta-feira nos permitem considerar que nem
toda a derrota é total. Nada mais humano que justificar os 7 x1 que temos de
enfrentar nas derrapagens da vida.
A explosão de alegria do Carnaval — com o
inacreditável pit stop das mazelas rotineiras — causa espanto e admiração. Já a paixão pelo futebol, normal aqui e em
todos os países do mundo, é um fenômeno que devia ser melhor apurado por estudiosos.
No Brasil, o futebol é tudo e o resto é quase
nada. Não é por acaso que a elite dirigente tenta usar o esporte como
instrumento legitimador. Tem muita coisa em jogo aí. É por meio desse esporte que indivíduos
excluídos chegam à condição de heróis.
É por meio das competições entre clubes e países
que os pobres conseguem ter a sensação de “pertencer” a uma torcida, a um time
e, principalmente, ao Brasil. É um dos
únicos momentos em que os pobres “pertencem”, fazem parte de algo.
Os jogadores são elevados à condição de heróis
por várias razões. Uma delas: são a afirmação de um sentimento raro: o orgulho
de ser brasileiro. Outra: dão a entender que existe mobilidade e que
somos um país de avanços sociais, o que nem é verdade.
Para alguns críticos, o futebol induz ao
conformismo. E daí, pergunto eu. Em um país marcado pela desigualdade só o
futebol ainda pode nos fazer acreditar, pelo menos em raros momentos, que somos
todos iguais, todos brasileiros e que estamos todos juntos.
O futebol cumpre funções muito além do que seria
racional porque o Estado é incapaz de promover políticas públicas de educação.
Sem escola, o brasileiro destaca-se pelo futebol (Pelé etc) pela música (Tom
Jobim etc) e pela beleza (Gisele etc).
Como dizia Darcy Ribeiro, os dons do brasileiro
não chegam pela escola, mas pela natureza, pela genética ou pelas mãos de Deus.
Em 2018 temos uma Copa e, mais uma vez, devemos nos consagrar na Rússia pelo
nosso maior esporte.
A autoestima do país dependerá do resultado da
competição. É sofrido saber disso – afinal o jogo é dominado pela
arbitrariedade: a sorte e o azar, ou o mau momento de um jogador. Não há nada a
fazer. Paciência...vamos todos compartilhar uma festa fantástica.
É Carnaval, não leve a mal, mas não posso
encerrar sem dizer uma coisa: levando em conta a descrença geral, só fico
preocupada com uma coisa: o que é que vai acontecer num eventual cenário de
derrota? Bate na madeira, mangalô três vezes.
sábado, 3 de fevereiro de 2018
A qualidade da democracia
Tão
importante como a democracia em si mesma é a sua qualidade. A democracia qualifica-se,
entre outros fatores, pela transparência no exercício da função política e
pelas medidas adotadas para prevenir os conflitos de interesses e a corrupção,
o que influencia enormemente a credibilidade e a confiança que as instituições
inspiram nos cidadãos.
A
fiscalização da atividade de representação e a transparência na defesa de
interesses (lobbying) nos três poderes significa instrumento fundamental de
integridade e lisura no exercício das atividades públicas.
Na
Europa há quem defenda, em nome da separação dos poderes, a incompatibilidade de advogados na função
parlamentar. Alegam que advogados participam na função judicial de aplicação
das leis e podem ter interesses em alterar ou manter determinada legislação em
função das causas dos seus clientes em lugar das causas da cidadania.
Argumentam
que os fundadores da teoria da separação de poderes (Locke e Montesquieu, principalmente)
consideram essencial um ponto: quem faz as leis não deve participar na sua
execução, e vice-versa. Nessa perspectiva, advogados-deputados e juízes com participação em escritórios de advocacia estariam infringindo
as regras.
sábado, 27 de janeiro de 2018
Crônica da vida que passa

Por Fernando Pessoa
“Às vezes, quando penso nos homens
célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um
plebeismo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeismo porque estar
em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação
de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que
gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida
íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se
fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente
humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade
para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se
enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.
Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá
valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de
génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua
obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse,
medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele-próprio. Mas, uma vez
conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é
irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz. E é por isto
que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre
sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma
concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e
nos ouvidos. Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que
"homem de génio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos,
torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos
destinos. Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista,
descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida-eterna, o elixir da
vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das
civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da cousa
transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana.
Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua
presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da
nossa pequenez. Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas - e quem
sabe a que ponto reais? - que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do
homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por
certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e
longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da
humanidade.”
(in Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)
(in Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)
Texto reproduzido do Blog Portugal dos Pequeninos de João
Gonçalves
domingo, 21 de janeiro de 2018
Fogo e Fúria

Terminei de ler “Fogo e Fúria:
Por Dentro da Casa Branca de Trump”, do jornalista Michael Wolff — livro que
relata ao mundo um perfil sombrio de Donald Trump. Não há uma só palavra que realmente
o ajude.
Da vitória inesperada, à
obsessão por Putin, o presidente dos Estados Unidos — narcisista e distraído
demais para ser capaz de governar — não teria a menor “noção” do lugar que
ocupa na história.
Além disso, seu alto escalão estaria rachado, se digladiando. No centro
desta guerra, esteve o hoje ex-conselheiro Steve Bannon e a família de Trump,
mais especificamente, a filha Ivanka e o cunhado Jared Kushner.
Todos disputavam força e influência sobre o presidente e certamente uma das fontes de Wolff foi Steve Bannon. Ele é citado várias vezes ao longo do texto – bem escrito e uma leitura agradável.
Exemplo: “No Salão Oval, na frente do pai dela, Bannon atacou
abertamente [Ivanka]. ‘Você’, ele disse, apontando para ela enquanto o presidente
assistia, ‘é uma mentirosa do caralho’.
O retrato de Trump é demolidor. Ele é descrito como avoado, um indivíduo
com capacidade de concentração curta, incapaz de ler resumos de planos
políticos, analisar problemas e tomar decisões bem embasadas.
Trump seria alguém que vê TV frequentemente e que segue frustrado e
confuso com o fato de não ter obtido aprovação generalizada dos americanos.
Seus assessores aparecem cientes de seus defeitos e, segundo o livro, se
perguntam por quanto tempo podem manter a ilusão de que Donald Trump é capaz de
governar.
“Somos todos perdedores”,
teria dito Trump ao longo da campanha. ‘Todo o nosso pessoal é terrível,
ninguém sabe o que está fazendo'”.
Em conversa com doador eleitoral,
ele teria sido mais específico: “Esta coisa’ – disse sobre a campanha – ‘está
fodida'”.
– O choque da vitória –
“Ao longo da campanha, quando
o inesperado parecia se confirmar – surgiu um Donald Trump que achava ser totalmente
capacitado a ocupar a Presidência dos Estados Unidos”.
Tudo combinado com os russos?
“Os três caras mais
importantes da campanha’ (Donald Trump Jr, o genro de Trump, Jared Kushner, e o
chefe de campanha, Paul Manafort), tiveram reunião explosiva com um governo
estrangeiro na sala de conferências, no 25º andar da Trump Tower, e sem
advogados.
Diz trecho do livro: “Eles não
tinham advogados. Mesmo que você pensasse que isto não era traição,
antipatriótico ou uma merda ruim – o FBI deveria ter sido chamado imediatamente'”.
Trump não sabe nada da Constituição?
Sam Nunberg foi enviado para
explicar a Constituição para o então candidato, mas não passou da Quarta Emenda
Trump teme ser envenenado – “Ele tem um medo antigo de
ser envenenado, razão pela qual gosta de comer no McDonald’s – ninguém sabia
que ele estava chegando e a comida estava seguramente pré-preparada”.
– As pretensões presidenciais de Ivanka – A
primeira mulher presidente nos Estados Unidos, considera Ivanka, não seria
Hillary Clinton, seria Ivanka Trump.”
– Uday e Qusay Trump – “Seus filhos, Don Jr. e Eric,
são chamados pelas costas por pessoas próximas de Trump de Uday e Qusay, nomes
dos filhos de Saddam Hussein”.
– Rupert Murdoch sobre Trump
“Que idiota da porra”, teria exclamado
o magnata dos meios de comunicação, depois de conversar sobre imigração com
Trump.
– Ivanka revela o segredo do topete – Ivanka
“trata o pai com certo distanciamento, inclusive com ironia, a ponto de fazer
brincadeiras com os outros sobre seu penteado.
Ela explicou aos amigos: Trump tem uma parte totalmente calva no topo da cabeça – depois de uma cirurgia de
redução da pele do crânio – rodeada por um círculo de cabelo dos lados e à
frente; as extremidades são penteadas para se encontrarem no centro e, depois,
jogadas para trás, e fixadas com spray.
A cor, ela observa com tom
cômico, é de um produto chamado ‘Just for Men’. Quanto mais tempo fica
aplicado, mais escuro o cabelo fica. A impaciência resultou no louro-alaranjado
de Trump”.
Retórica tosca...
É isso, este é o homem que manda
na Casa Branca. O livro despreza e
desmonta a retórica tosca e semi-primária de Trump, o homem que está dando aos
Estados Unidos (e ao mundo) o que dele se esperava.
sábado, 13 de janeiro de 2018
Escrever com o vigor de uma mulher...

«Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem.»
LYA LUFTsexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Dinheiro público
Porquê falar tanto de punição a quem desvia dinheiro público?
Porque tudo que é sustentado pelo Estado é pago por mim e por uma enorme quantidade de gente que nem sequer consegue ser bem atendida em um hospital público e, mesmo assim, segue pagando salários absurdos a inúmeras pessoas que nem sequer merecem um pontapé no traseiro se forem despedidas por justa causa. Tenho mais do que o direito de falar sobre esses assuntos, tenho a obrigação. Sinto esse dever moral.
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Tens de inverter o sentido de marcha... KAFKA
KAFKA
«Ah», disse o rato, «o mundo cada dia fica mais apertado. A princípio era tão grande que até me metia medo, depois continuei a andar e ao longe já se viam os muros à esquerda e à direita, e agora - e não passou assim tanto tempo desde que eu comecei a andar - estou no quarto que me foi destinado e naquele canto está já a armadilha em que vou cair.»
«Tens de inverter o sentido de marcha - disse o gato, e comeu-o».
Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
Dever moral
Por que é preciso defender o interesse público? Porque toda e qualquer instituição que recebe dinheiro do estado tem de ser auditada, fiscalizada e prestar contas. Sim, é preciso cobrar responsabilidade de tudo que é pago por mim e por uma enormidade de pessoas que nem sequer consegue ser bem atendida num hospital público e que vai pagando salários astronômicos a gente que nem sequer merecia um pontapé no traseiro, além de demissão por justa causa. Sim, é isso. Todos nós temos o direito de falar com indignação e revolta sobre esse assunto. Mais que isso: temos a obrigação. Sinto esse dever moral.
domingo, 31 de dezembro de 2017
Cadê os outros?
No
Brasil de hoje temos dezenas de pessoas investigadas (muitas condenadas
e algumas presas) por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, formação de
quadrilha e todos os tipos de desvios dos fundos públicos.
Além
de dizer que neste álbum histórico estão muitos nomes e fotos da "elite"
nacional, lamento assinalar a estranha exceção do Judiciário, da polícia e dos
altos funcionários públicos que foram omissos na fiscalização, prevenção ou denúncia da roubalheira.
Já
que aparentemente houve tanto cuidado em juntar o maior número possível de figuras
públicas de diversas áreas, por que foram incluídas fotos de mais setores
institucionais do que de outros? Não estou criticando, estou lamentando as
ausências que são muitas e injustificáveis.
Sei
que a Lava-Jato é uma benção no país da impunidade, mas acredito que neste
caso, e logo desde o início, criou-se e deixou-se alastrar pela opinião pública
a ideia de que por trás dos crimes de corrupção estavam apenas os "políticos
poderosos".
E, sendo
"poderosos", convinha que tivessem rostos conhecidos. Assim, o álbum foi aparentemente limitado às
figuras e os rostos que as televisões, as revistas e os jornais mostram.
O mundo
da magistratura, onde alguns sempre olharam para a política com um misto de inveja
e de ressentimento, passou a exercer o poder de arruinar, com gosto e naturalidade,
a reputação de algumas das figuras públicas mais conhecidas do Legislativo e do
Executivo.
Ao consentir
na orientação da investigação neste sentido, viram aqui mais uma oportunidade
para "limpar" um "sistema" que intimamente desprezam.
Não
quero dizer que muitos políticos não dão motivo para a maldição pública. O que
quero dizer é que no meio disto tudo, porém, existem seguramente vítimas de um
crime concreto.
E não sabemos se os criminosos, os verdadeiros, vão ter o seu castigo ou se os inocentes vão ser absolvidos. O que acho é que a legítima indignação de muitos se confundiu demasiadas vezes com a demagogia sensacionalista de alguns.
Acho ainda que falta credibilidade e "serenidade" em alguns líderes da investigação. Ver um procurador de dedo em riste no Jornal Nacional investindo contra todos os poderes da República não pode ser sinal de avanço. É, no mínimo, excesso de parcialidade.
E não sabemos se os criminosos, os verdadeiros, vão ter o seu castigo ou se os inocentes vão ser absolvidos. O que acho é que a legítima indignação de muitos se confundiu demasiadas vezes com a demagogia sensacionalista de alguns.
Acho ainda que falta credibilidade e "serenidade" em alguns líderes da investigação. Ver um procurador de dedo em riste no Jornal Nacional investindo contra todos os poderes da República não pode ser sinal de avanço. É, no mínimo, excesso de parcialidade.
Tudo
visto e ponderado, estou certa de que uma justiça "justa" jamais
poderá ser aquela que se apoia, seja de forma ingênua ou mesmo de maneira
convicta, no triunfo do recalcado.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
UTOPIAS ANTIPOLÍTICAS!
Por Angela Alonso - Iustríssima- FSP, 17
1. Versão notável desse tipo de utopia é a da empresa Seasteading Institute, fundada em 2008 por um empreendedor de tecnologia e um engenheiro de softwares. O segundo é neto de Milton Friedman, assegurando o DNA liberal.
2. A organização abandonou os "sistemas políticos obsoletos" em favor de "cidades flutuantes que permitirão à próxima geração de pioneiros testar pacificamente novas ideias de como viver em comunidade." Bem-sucedidas, disseminarão a "mudança", abolindo os Estados.
3. Este novo utopismo tem geografia móvel: ilhas artificiais ancoradas em alto-mar. Assim, se insatisfeitas com a vizinhança, levantariam âncora em vez de guerrear. O residente também se livraria do Estado, cabendo a gestão a especialistas. Escaparia do aborrecimento com políticos, tornando-se cliente de um serviço.
4. Essa utopia antipolítica concretiza o que pensam muitos: que políticos são parasitas ineficientes e dispensáveis, assim como tudo que os cerca —as Constituições, as instituições políticas, as candidaturas e os votos.
5. Tal negação extrema da política tem correspondentes no debate brasileiro. A opinião, as redes e as mídias entronizaram o mercado, com seu princípio de eficiência. Ao mesmo tempo, subiu na consideração popular um Poder não eleito: o Judiciário, único guardião da coisa pública, mais capaz e confiável que os políticos. Produziu-se verdadeira glamorização de juízes e promotores, com livros, eventos, filmes, séries, homenagens e prêmios aos "heróis" da Lava Jato.
6. O prestígio se estendeu para a Polícia Federal. O empoderamento público da corporação começou jocoso, com o "japonês" que conduzia políticos acusados de corrupção e o culto a policiais-musos. E se assentou na equação "justiça igual a prisão" —apesar de nossa população carcerária ser a terceira no ranking mundial.
7. Em princípio, como diz o nome do filme —"Polícia Federal: A Lei é para Todos"—, a regra independe de a quem se aplique. Mas como tudo se interpreta, uns são inocentados e outros aprisionados, conforme as conveniências.
8. Essa moralidade antipolítica incita uma lógica da exclusão e anima o milhão de pessoas que foi ao cinema prestigiar a PF e aqueles que aderem à candidatura presidencial de um militar. E é o que legitima as idas da polícia aos campi de universidades públicas, onde muitos discordam dos partidários da utopia antipolítica.
9. As operações da PF se baseiam na crença sincera de que o combate à corrupção lhe confere um mandato tácito da opinião pública para vigiar e punir. A UFMG foi o caso mais recente de uma série de seis operações em universidades federais. Feriu direitos individuais. Não houve intimação para depor que, desobedecida, justificaria a condução coercitiva.
10. Essa ação e suas congêneres se amparam na tese de que o serviço público é ineficaz e corrupto, ao contrário do mundo privado de Seasteading Institute, Odebrecht, Friboi e similares, onde só existiriam pessoas eficientes e de bem. Mas não é bem assim. Em toda parte há joio e trigo, no Estado e no mercado, na universidade e na PF.
11. A utopia antipolítica produz um antiestatismo às cegas, que evita a política como esfera de debate entre os divergentes. Ancorados em uma superioridade moral que julgam autoevidente, os novos utopistas excluem, discriminam, impõem. Seus fins justificam seus meios. O apelo à ética respalda a prática da violência.
12. Pode parecer distopia, mas, como a ilha do neto de Friedman denota, o pesadelo de uns é justamente a utopia de outros.
2. A organização abandonou os "sistemas políticos obsoletos" em favor de "cidades flutuantes que permitirão à próxima geração de pioneiros testar pacificamente novas ideias de como viver em comunidade." Bem-sucedidas, disseminarão a "mudança", abolindo os Estados.
3. Este novo utopismo tem geografia móvel: ilhas artificiais ancoradas em alto-mar. Assim, se insatisfeitas com a vizinhança, levantariam âncora em vez de guerrear. O residente também se livraria do Estado, cabendo a gestão a especialistas. Escaparia do aborrecimento com políticos, tornando-se cliente de um serviço.
4. Essa utopia antipolítica concretiza o que pensam muitos: que políticos são parasitas ineficientes e dispensáveis, assim como tudo que os cerca —as Constituições, as instituições políticas, as candidaturas e os votos.
5. Tal negação extrema da política tem correspondentes no debate brasileiro. A opinião, as redes e as mídias entronizaram o mercado, com seu princípio de eficiência. Ao mesmo tempo, subiu na consideração popular um Poder não eleito: o Judiciário, único guardião da coisa pública, mais capaz e confiável que os políticos. Produziu-se verdadeira glamorização de juízes e promotores, com livros, eventos, filmes, séries, homenagens e prêmios aos "heróis" da Lava Jato.
6. O prestígio se estendeu para a Polícia Federal. O empoderamento público da corporação começou jocoso, com o "japonês" que conduzia políticos acusados de corrupção e o culto a policiais-musos. E se assentou na equação "justiça igual a prisão" —apesar de nossa população carcerária ser a terceira no ranking mundial.
7. Em princípio, como diz o nome do filme —"Polícia Federal: A Lei é para Todos"—, a regra independe de a quem se aplique. Mas como tudo se interpreta, uns são inocentados e outros aprisionados, conforme as conveniências.
8. Essa moralidade antipolítica incita uma lógica da exclusão e anima o milhão de pessoas que foi ao cinema prestigiar a PF e aqueles que aderem à candidatura presidencial de um militar. E é o que legitima as idas da polícia aos campi de universidades públicas, onde muitos discordam dos partidários da utopia antipolítica.
9. As operações da PF se baseiam na crença sincera de que o combate à corrupção lhe confere um mandato tácito da opinião pública para vigiar e punir. A UFMG foi o caso mais recente de uma série de seis operações em universidades federais. Feriu direitos individuais. Não houve intimação para depor que, desobedecida, justificaria a condução coercitiva.
10. Essa ação e suas congêneres se amparam na tese de que o serviço público é ineficaz e corrupto, ao contrário do mundo privado de Seasteading Institute, Odebrecht, Friboi e similares, onde só existiriam pessoas eficientes e de bem. Mas não é bem assim. Em toda parte há joio e trigo, no Estado e no mercado, na universidade e na PF.
11. A utopia antipolítica produz um antiestatismo às cegas, que evita a política como esfera de debate entre os divergentes. Ancorados em uma superioridade moral que julgam autoevidente, os novos utopistas excluem, discriminam, impõem. Seus fins justificam seus meios. O apelo à ética respalda a prática da violência.
12. Pode parecer distopia, mas, como a ilha do neto de Friedman denota, o pesadelo de uns é justamente a utopia de outros.
Texto da Folha extraído do Ex-blog de Cesar Maia em 19/12/2017
sábado, 16 de dezembro de 2017
A pobreza extrema de um país rico nos números do IBGE
Deve saber-se com quem
se está e contra quem é preciso travar combate.
Neste momento, qualquer
tentativa de consenso político que ignore os dados do IBGE sobre a pobreza no
Brasil, seja em que setor for, é um puro equívoco.
De acordo
com o Instituto, um quarto da população, ou 52,2 milhões de brasileiros, estava
abaixo da linha da pobreza em 2016, conforme parâmetros estabelecidos pelo Banco
Mundial no mês passado. Um contingente que corresponde a cinco vezes e pouco a
população de Portugal ou a da Grécia, perto de nove vezes a da Dinamarca, ou
tanta gente quanto tem a África do Sul.
Desses 52,2
milhões — que viviam com renda domiciliar per capita diária inferior a US$ 5,50
(R$ 387,07 por mês) —, quase 18 milhões eram crianças de zero a 14 anos.
43,1% dos
habitantes do Norte e 43,5% dos moradores do Nordeste vivem com renda igual ou
inferior a R$400 reais por mês, contra 25,4% da média nacional. Ou seja, quase
metade da população das duas regiões.
É difícil fazer brilhar
nos olhos dos meus netos alguma esperança no futuro do País com uma realidade dessas.
Uma vez mais, sei que alguma coisa tem de acontecer, qualquer coisa, mesmo eu
não sabendo o quê, quando ou como...
Pior é lembrar que nada do
que vai acontecer sairá da política tendo em vista a barafunda institucionalizada... E pior ainda é constatar essa necessidade de consenso
que muitos defendem.
O objetivo é manter tudo
como está? Discordo completamente! Há momentos na vida em que é preciso
mudar de lugar, curvar noutra direção e passar a estar num "outro
lado" qualquer. Sem consensos.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
"Tenta e fracassa, tenta outra vez e fracassa melhor".

"Uma
mulher aborda-me na rua e pergunta-me se sou seu filho. Olho-a por uns segundos
e sigo em frente. Já de costas, ouço-a repetir a pergunta. Continuo. Perplexo.
Toda a cidade tem os seus loucos, os seus disturbados, os seus perdedores. Eu
não quero fantasiar: a loucura é caso clínico e não traz glória. Mas o
fracasso, amigos, o fracasso, a derrota humana têm um esplendor profundo e
imaterial que eu admiro. Admiro intensamente os que fracassam, os que perdem. O
fracasso é infinitamente preferível à vitória. Quem perde, ganha uma angústia
metafísica, uma compaixão existencial. Merece respeito. E merece ainda mais
respeito se perde de propósito, se é um perdedor nato e intencional. Os
vencedores aborrecem-me, escandalizam-me, oprimem-me. Não exalam uma única
vergonha, um único constrangimento, uma única incerteza. E são cinicamente
inverosímeis no seu brilho estudado e elefantino. Meias da cor dos sapatos,
sapatos da cor das calças, cuecas da cor da gravata. Uma voz segura, um perfil
de estátua. Os vencedores sabem o que dizer, o que fazer, o que esperar. E
permanecem sempre os mesmos, aconteça o que acontecer. Se tivesse coragem,
digo-vos que fracassaria com afinco todos os dias. É muito mais saudável perder
do que ganhar. Ganhar é um luxo, uma embriaguez fácil, uma descaracterização.
Fracassar não é nada disso. Fracassar é muito mais difícil, muito mais exigente
e muito mais conservador do que ganhar. É a única utopia conservadora em que eu
acredito: a utopia do fracasso. Tenho há muito tempo esta certeza e não me
peçam para explicar: o mundo será melhor no dia em que for universalmente feito
de fracassados".
"Fracassar é preciso", de Pedro Lomba
Título: Frase de Samuel Beckett
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Um novo ano está chegando...

Em 2018, como todos os otimistas,
espero mais sensatez e normalidade. E torço por um projeto coletivo que seja
razoável, mobilizador e equilibrado.
O desânimo de alguns é
profundo, mas os lamentos sobre a nossa desigualdade não ajudam. Não adianta
insistir em diagnósticos sobre a nossa
cultura de maus tratos aos mais pobres, que dependem do Estado.
Convém trabalhar pela responsabilidade
social e defender líderes políticos com sensibilidade, capazes de enxergar
a dor do outro.
A confiança no poder e nas
instituições é básica, se quisermos ter um mínimo de respeito pelo Estado.
Confiança se conquista com decência, capacidade e racionalidade.
Vamos tentar fazer com
que a política nos ajude a tornar-nos mais donos da nossa vida, mais
responsáveis pelo nosso País. Nesse sentido, convém que cada um de nós
faça mais do que tem feito.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Lula
Lula faz política há mais de 50 anos. Tornou-se mestre na arte
do paradoxo político: consegue dizer sempre mais do que realmente diz e tem
sido dono de uma rara capacidade de fazer dos seus defeitos “extraordinárias
virtudes”, como ele costuma dizer.
Lula também pode ser definido pela resiliência – está em campanha
pela Presidência da República pela sexta vez, apesar de condenado na Lava-jato
em primeira instância e de enfrentar uma fieira de outros processos na Justiça.
Não se pode negar que ele se alimenta e se realimenta de algumas
características do caráter nacional: a capacidade de reverter adversidades; a
complacência com o erro, a recusa ao mérito e o silêncio sobre toda e qualquer
qualidade dos adversários.
Se Getúlio Vargas foi nosso político mais protetor e autoritário;
JK o mais solar e avançado; Tancredo o mais conciliador e FHC o mais diplomático, Lula é irrecusavelmente o mais brasileiro. Para o bem e para o mal. Com tudo que isso significa.
domingo, 3 de dezembro de 2017
Questão democrática
Li e reli a pesquisa Datafolha que aponta Lula na ponta e
Jair Bolsonaro isolado em segundo lugar. Fiquei pensando: o que une Lula e
Bolsonaro?
Resposta mais plausível: os dois são produtos da democracia que construímos.
Sim, somos nós, todos nós, os responsáveis pelos resultados políticos que estamos colhendo.
Não
há inocentes na política brasileira ou na política de qualquer lugar do mundo.
Esta verdade, contudo, parece incomodar profundamente alguns democratas que, ultimamente, estão assinalando a natureza
maléfica destas duas candidaturas.
Posso até concordar com as advertências sobre isso, mas não posso deixar de lembrar que as pesquisas indicam, até aqui, que a
maioria do povo está com eles. E, parece se inclinar para garantir que os dois
passem para um duelo direto, em caso de uma segunda volta da corrida presidencial
de 2018.
Se os demais candidatos não parecem capazes de reunir forças e argumentos para mudar o cenário, das duas; uma: mudamos de povo ou continuamos acreditando
na democracia?
PS: Não se ofenda, por favor, é só uma pergunta...
sábado, 2 de dezembro de 2017
Nada me espanta
O sorteio da copa não me
espanta. Brasil x Alemanha não me espanta. Bolsonaro no topo das pesquisas não
me espanta. Nada me espanta. Estou me
tornando descrente até aos ossos.
Hoje, reli Nelson Rodrigues. Passo a
citá-lo:
(...) “no passado, eram os
"melhores" que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os
sentimentos etc…etc…
(...) “E, de repente, tudo
mudou. No presente mundo, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos
cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito não existe, simplesmente
não existe”…
(...) “E, para sobreviver, o
intelectual, o santo ou herói, precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou
de ser uma seleção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino.»
Por questão de príncipio, discordo de Nelson Rodrigues quando ele se refere a outras pessoas como "idiotas" e/ou "cretinos". Essas são palavras que ninguém devia usar para se referir a outros seres humanos.
De todo modo, devo reconhecer que seu texto forte continua ecoando. E, para alguns, com verdade e atualidade, apesar do estilo duro e indigesto.
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