quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

VELHICE


A VIDA COMO ELA DEVIA SER
" É proba aquela velhice capaz de defender-se ela mesma, que mantém os seus direitos, não se submete a ninguém, que se auto-governa até ao último sopro de vida. "

( Cícero sobre a senectude de Catão-o-Velho; trad. de Humberto Gomes, Cotovia 1998 )
 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Os meus amigos queridos...

Os amigos são para todas as ocasiões? Não, não são. É absolutamente errado o entendimento da amizade como uma reserva de alimento no depósito (ou como um estojo de primeiros socorros) pronto para ser usado em caso de necessidade. O valor de um amigo não se mede pela quantidade, ou pela prestação de atendimento em caso de eventual necessidade (nossa). O valor de um amigo é precisamente o da eternidade: está lá sempre, mesmo quando não precisamos dele. E um amigo sempre tem o direito de nos abandonar e isso pode acontecer numa situação difícil (para nós). Um bem precioso e único reflete uma obrigatória incerteza. É este o preço. Saber que o amigo foi embora. Escolheu ir embora. E continuar gostando dele mesmo assim.  

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sempre tive medo de desperdiçar a vida...

Sempre tive medo de desperdiçar a vida. Então fiz tudo furiosamente: estudei, casei, criei a filha, trabalhei, comprei a casa, economizei, busquei algum prestígio profissional, conheci o Brasil, viajei à Europa, aos Estados Unidos, aos países vizinhos, tive algumas doenças, fiz cirurgias, fui a médicos caros no Rio, Brasília e em São Paulo. Envelheci aos poucos, amaldiçoando os tempos dissolutos, escrevendo bem em algumas ocasiões, em outras mais ou menos e em algumas muito mal, mas sempre arruinando minhas sinapses com a maldita sensação de que estava desperdiçando a vida.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Corrupção




MONTESQUIEU
"Aqueles que a princípio tinham sido corrompidos pelas suas riquezas, foram-no a seguir pela sua pobreza. Com bens acima do que convém à condição privada, tornara-se difícil serem bons cidadãos; com os desejos e os desgostos provocados por uma fortuna arruinada, tornaram-se capazes de todos os atentados; e, como diz Salústio, viu-se surgir uma geração de pessoas que nem podiam ter património nem podiam suportar que os outros o tivessem"

( Da Corrupção nos Romanos, trad. de Ruy Belo )
 
 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Capitu: fruta dentro da casca


"O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum acaso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu capítulo IX, versículo 1: « Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti»: Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás-de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca".
Machado de Assis, Dom Casmurro

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Desde quando você faz ideia do que é o sofrimento?


"Franz tinha mais ou menos doze anos quando a mãe ficara sozinha com ele, porque um dia, inesperadamente, o pai tinha-se ido embora. Franz suspeitou que estava a passar-se qualquer coisa de grave, mas a mãe disfarçou o drama com uma conversa neutra e ponderada para não traumatizar o filho. Foi nesse dia que, ao saírem de casa para dar uma volta pela cidade, Franz percebeu que a mãe tinha dois sapatos desemparceirados. Ficou aflito e quis preveni-la, mas teve medo de magoá-la. Passou duas horas com ela na rua sem conseguir despregar os olhos dos seus pés. Foi então que começou a fazer uma ideia do que devia ser o sofrimento".
Milan Kundera, A insustentável leveza do ser

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O homem foi criado para a felicidade


"Na barraca da sua prisão, Pierre ficou ciente, não só com a inteligência mas com todo o seu ser, com a sua vida, de que o homem foi criado para a felicidade, que a felicidade residia no próprio homem, na satisfação das suas necessidades humanas naturais, e que toda a desgraça não provinha da carência mas do excesso; mas agora, nas três últimas semanas de marcha, ficou ciente de mais uma nova verdade consoladora: no mundo nada havia de assustador. Ficou a saber que, do mesmo modo que não existia uma situação em que o homem fosse totalmente feliz e livre, também não existia para o homem uma situação de infelicidade absoluta e de privação total da liberdade. Ficou a saber que havia um limite para o sofrimento e um limite para a liberdade, e que estes limites estavam muito próximos; que o homem que dormia num leito de rosas, ao ver uma pétala enrolada, sofria tanto como Pierre ao adormecer agora na terra fria e húmida, com um lado do corpo gelado e outro quente; ficou a saber que, quando dantes ele calçava os seus sapatos estreitos de baile, sofria tanto como agora que andava descalço (o calçado dele há muito que se desfizera), com os pés cheios de feridas. Ficou a saber que, ao casar-se com a sua mulher de livre vontade (como lhe parecia naquela altura), não era mais livre do que agora em que o fechavam de noite na cavalariça"...
Leon Tolstói, Guerra e Paz

Genesis


De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

Jorge de Sena

domingo, 17 de janeiro de 2016

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
 
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos

ALÔ ALÔ LEONARDO DiCAPRIO



1) As terras indígenas no Brasil ocupam cerca de 120 milhões de hectares, o equivalente a 13% do território do Brasil. Isso é quase o dobro de toda a área de lavoura (milho, soja, feijão, arroz, etc.). Esta comparação comprova o compromisso do Estado brasileiro com os índios, um compromisso consagrado na Constituição.

2) As demarcações no Brasil não representaram qualquer favor aos índios, mas o cumprimento de um compromisso com a história que está sendo cumprido. É uma hipoteca histórica que temos a obrigação de quitar e que estamos quitando.  Nos últimos 20 anos, o Brasil demarcou uma área maior que a Bélgica.  

3) A maior parte dos territórios que ainda está em discussão não pode ser demarcada imediatamente. São  áreas em litígio judicial, terras que os índios reclamam, mas que, em sua maioria, estão ocupadas por agricultores. É fundamental entender isso: litígio judicial, ou seja, uma decisão que precisa aguardar a deliberação da Justiça.

4) A responsabilidade sobre o destino dessas áreas em litígio não é apenas de uma instância do Poder, mas cabe ao Estado, ou seja, deve resultar de consenso dos representantes do Judiciário que buscam diálogo entre as todas as partes envolvidas - índios, fazendeiros, pequenos agricultores, etc.

5) O Brasil é formado por brasileiros: brancos, negros, índios, descendentes de europeus e  orientais.  


PS: Ao receber o Globo de Ouro como Melhor Ator, Leonardo DiCaprio defendeu os índios e pediu ao mundo proteção para eles. O Brasil é o país com a maior população de índios "aldeados" no mundo, e não estamos parados nesta questão. Claro que devemos fazer mais, mas estamos demarcando terras e temos garantido alguns avanços a eles, tanto que eles voltaram a crescer demograficamente, sinal de que estão readquirindo a esperança no futuro. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Amizade


“Aquilo a que chamamos vulgarmente amizade não passa de conhecimentos e relações tecidos por qualquer ocasião ou vantagem em que as nossas almas se cruzam. Na verdadeira amizade, elas fundem-se uma e outra em tão universal confusão que se misturam e já não distinguem a linha que as cerziu. Se me perguntam porque o amava, só posso responder: porque era ele, porque era eu.”
Michel de Montaigne, Ensaios , Livro I, cap. XXVIII (tradução livre).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Adeus David Bowie!


Morreu David Bowie, um dos ídolos mais desconcertantes do meu tempo.”Freud ia adorar conhecer-me”, dizia. Leia abaixo, algumas declarações de David Bowie:
1. “Há muita gente que parece querer ser imortal… Andamos atrás de quê, exatamente? Quem é que quer arrastar-se, velho e decadente, até ter 90 anos? Só por uma questão de ego? Eu seguramente não quero.”
2. “É verdade — sou bisexual. Foi a melhor coisa que me aconteceu. E é muito divertido, também.”
3. As pessoas poderiam pensar que uma estrela rock casar-se com uma supermodelo seria uma das melhores coisas do mundo. E, de fato, é.” [Sobre o seu casamento com Iman]
4. “O melhor conselho que me podiam ter dado aos 18 anos? Não te metas em drogas.”
5. “Hoje em dia, mais do que nunca, sinto-me um animal social, coisa que a dada altura não era… Às vezes estou tão feliz que deprimo as pessoas.”
6. “À medida que envelhecemos, as perguntas resumem-se a duas ou três. Quanto tempo mais? E o que é que eu vou fazer com o tempo que me resta?”
7. “Sigmund Freud ia adorar conhecer-me.”
8. “Fiz alguns álbuns fabulosos. Tenho que ser honesto. Adoro-os. Adoro as coisas que fiz.”
9. “Falar sobre arte é como dançar sobre arquitetura.”
10. “Sou uma estrela instantânea; basta adicionar água.”
11. “Aquilo que mais adoro na música são as coisas que começam nas franjas.”
12. “Já nem sei quantas vezes é que alguém veio ter comigo e disse: ‘Hey, vamos dançar!’ Eu odeio dançar. Meu Deus, é tão estúpido.” [Sobre o sucesso da música “Let’s Dance”]
13. “Uma vez perguntei ao John Lennon o que é que ele achava do meu trabalho e ele respondeu: ‘É ótimo, mas é apenas rock’n’roll com batom’.”
14. “O rock sempre foi a música do diabo.”
15. “Não sei o que é que vou fazer a seguir, mas prometo que não vai ser chato.”

Fonte: O Observador

sábado, 9 de janeiro de 2016

Só não é natural que seja sanguinário, fanático ou submisso


A jovem ou o jovem tem atenção e interesse pela política? A política é um dos campos mais atraentes da atividade humana porque lida com o poder. Daqui do meu canto fico torcendo pelo ingresso em massa de jovens nos partidos políticos. Jovens de todas as tendências e correntes. Que venham aqueles que se dizem anarquistas, marxistas, leninistas, troskystas, budistas, centristas, direitistas, democratas, liberais, socialistas, capitalistas etc, etc, etc.

Escolhas partidárias de hoje podem mudar amanhã. Como se dizia antigamente quem não é revolucionário aos vinte, dificilmente será democrata aos quarenta. Além disso, só pedras não mudam. Felizmente, as pessoas não são cortadas em mármore. Pessoas mudam. E ainda bem que mudam. Agora, os jovens só precisam definir o ingresso na vida pública, outras decisões podem esperar.

Seria bom que muitos jovens entrassem rápido na vida partidária. De preferência a tempo de participar da corrida eleitoral deste ano. Dos jovens dependem todas as mudanças que o Brasil precisa. A democracia só avançará com eles. E o que um jovem precisa para entrar na política? Ser ele mesmo. A juventude é insubstituível. O jovem renova, reanima e estimula o ambiente onde pisa.

E o que o jovem precisa fazer na política? O que achar certo, o que julgar verdadeiro. Tudo é permitido? Sim. Só não é recomendável repetir erros de ninguém. Que cometam erros novos. E tem alguma coisa que um jovem político não pode ser? Tem. Tem sim. Não é natural que um jovem interessado pela política seja sanguinário, fanático ou submisso. O resto ele pode ser como quiser.   

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PRECE


Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz Ano Novo

 
Ao dar meia-noite que ninguém entristeça, nem se sinta abandonado ou só. Que todos os meus amigos virem a folha do calendário em meio a brindes, risos, abraços e beijos. Todos temos direito a um novo amanhã repleto de alegrias.

Final de 2015

Peste Emocional
Foi o ano da peste,
das colheitas perdidas.
Andei ao pé coxinho
de pedra para pedra,
a côdeas de futuro,
de janeiro a janeiro.
Ainda trago marcas
nos braços e nas testa.
Nunca a minha alma
levou tanta porrada.
Nem livros me sofriam
na fustiga do olhar.
Dormia desamor,
acordava mal estar,
corria sem café
para a forca do emprego.
Ficou-me desse giro
desses fundos da geena
a tola convicção
de que, pronto, já passou.


(José Miguel Silva, "Vista Para Um Pátio seguido de Desordem" (2003), Relógio D'Água)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"Tropeço de ternura por ti"

UM ADEUS PORTUGUÊS



Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti



Alexandre O'Neill

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

Sem jeremíadas, por favor!

Não contem comigo. Não estou especialmente disponível para um discurso contra o Brasil. Não tenho ressentimentos geográficos. Nunca desejei ser filha da Europa ou de qualquer outro Continente. Estou bem aqui. Sempre reconheço no discurso de "só no Brasil" uma variante um pouco mais educada do "não está vendo com quem está falando?" Coisa de quem deseja dizer que é melhor que os outros, que viajou, que conhece outros países, enfim, que não é como todo o mundo...Também viajei um pouco e quero declarar que  não sou dada a "patriotadas", mas considero as queixas sem sentido, essas verdadeiras jeremíadas do tipo "só neste país", sempre acompanhadas de um olhar artificial de desprezo, uma chatice. É saudável e desejável condenar a mania de grandeza, aquela história patética do “maior do mundo”. Nada disso. E nada também de sair por aí, para parecer descolado, ou “cool”, fazendo provocações gratuitas e dizendo que “não existe cultura brasileira ou idioma português”. Quando escuto isso lembro-me do esforço que tantos professores fazem para repassar o legado de Camões, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Castello Branco, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Tom Jobim, Tarsila do Amaral e tantos outros. E acho, sinceramente, que gente que diz essas coisas pode até ser e parecer engraçada, mas não foi grande coisa na escola.    

domingo, 6 de dezembro de 2015

Isso é tudo que tenho...

Faça chuva ou faça sol, em qualquer dia da semana há brasileiros discutindo sobre o impeachment, sobre o PMDB, o PT, a crise e Eduardo Cunha. Pessoas que se interessam por política. E que dizem coisas interessantes como este pensamento que li (não lembro onde) hoje: o pressuposto da democracia é a legitimidade daquele que discorda de mim.

 
Se estou sendo investigado por ilegalidades no trato da coisa pública, como posso exigir ética dos outros? Como posso apontar o dedo em direção a alguém? Se não tenho princípios, se acredito que o fim justifica os meios, como posso alegar padrões éticos para tentar condenar alguém? Posso ser moralista se recebi dinheiro de caixa dois?   
O pressuposto da democracia é a legitimidade daquele que discorda de mim. E a credibilidade de quem se acha no direito de discordar, contestar e exigir honestidade dos outros. Isso é o que ensinam as pessoas que se interessam pela política com espírito público e consciência. Eu conheço muitas pessoas assim.
São pessoas que nos fazem pensar porque participam, procuram ler e analisar as notícias e prestam muita atenção nos discursos transmitidos pela TV Câmara, TV Senado e pela TV Justiça. Elas acreditam, têm plano, ideias e certezas. Têm uma «consciência política», uma «visão do mundo».
Eu não possuo um plano, uma ideia ou sequer uma certeza. E, muito menos, uma «visão». Sou míope desde pequena, vejo tudo embaçado. Na verdade não possuo quase nada. E meu estilo de vida levou muito da minha fé. Além disso, sei muito menos do que gostaria.
As pessoas do mundo do poder de Brasília, onde moro há três décadas e meia, sabem quase tudo do poder. Argumentam que precisamos mudar a política porque a política se converteu num pântano de irregularidades, distorções, intrigas e desvios do dinheiro público.
Estas pessoas sabem tanto que enxergam a política quase como uma entidade que existe fora do coração dos homens. Isso me espanta. Elas acreditam que podem mudar a política porque seguem acreditando nos homens, confiam na espécie, no esforço humano e sonham com um futuro melhor para seus filhos e os filhos dos seus filhos.
Para elas, há sempre alguma coisa por trás do erro ou do fracasso, uma explicação última para a falha ou para o insucesso, uma verdade essencial que tudo explica e tudo redime. Eu invejo esta firmeza e decisão. Sou tão insegura e confusa que chego a pensar que há remédios piores do que algumas doenças, mas não queria ser assim.
Queria ter fé, confiança e certezas. E queria muito uma “consciência política”. Quem sabe assim eu conquistaria o direito de viver sem tantas indecisões, dores e tantos tormentos. Quem sabe assim eu deixaria de ser esta apática e apolítica criatura em que me transformei. Acreditem em mim. Não quero mais ser como sou.
Não quero mais suspeitar de Rosseau. Não posso continuar achando que o homem não é uma criatura em que se possa confiar. Vou mudar. Sei que careço de otimismo, fé e esperança, mas tenho o resoluto desejo de seguir carregando o estandarte das pessoas de boa vontade. Além do desejo de seguir navegando. É só isso que tenho.