terça-feira, 21 de outubro de 2014

Querida Miriam Leitão



Querida Miriam Leitão!

Por que lhe escrever uma carta? Para lhe dizer que graças a pessoas corajosas como você, que lutam por democracia e liberdade, ninguém ainda se tornou dono do Brasil. Você faz da análise e da divulgação dos fatos a sua ação política. Uma ação realizada com grandeza, sentido público e sem ressentimentos. O trabalho é político porque se dirige ao público e onde há um coletivo há política.
Sua forma de ação, no entanto, vai muito além de qualquer militância partidária. Como disse Fernando Pessoa, “só há uma coisa que faz sentir ao governante que não pode abusar: é a presença sensível, quase corpórea, de uma opinião pública direta, imediata, espontânea (...), que todos os povos sãos possuem”.

Além de errada e ridícula, a ilusão de dominar um país é autoritária, antes de se tornar progressivamente criminosa. O discurso de um político, seja de que partido for, não pode ameaçar, intimidar ou sufocar as antenas sociais e humanas de um país. E você sempre será uma das nossas antenas mais sensíveis e mais brilhantes.

Por meio do jornalismo, você luta diariamente contra a falta de informação e de discernimento. Faz isso com firmeza. Nunca lhe interessou a fuga, interessa-lhe o confronto, o embate e a clareza, ainda que no escuro mais ameaçador.
Um político no poder pode achar que pode muito, mas não pode achar que o trabalho dele não é ouvir o que um cidadão, ou uma cidadã, tem a lhe dizer. É para ouvir o que as pessoas têm a dizer que os políticos são eleitos. 
Nossa história está em um momento penoso de dramatização populista, de insinuação. Por detrás disso está o medo. O medo da própria democracia e do jogo claro que ela devia impor e tornar necessário. O medo é sempre perigoso e reacionário.

Costumo dizer aos seus filhos queridos, e tão amados, os jornalistas Vladimir e Matheus, que pessoas como você vieram de outro planeta para nos mostrar que é possível viver com força, disposição e coragem.  Dá gosto dizer seu nome na frente deles e verificar, quase no mesmo instante, o brilho que surge nos olhos dos seus meninos.
Um grande e afetuoso abraço,

Vanda Célia

 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Eu e a aposentadoria



Fazer alguma coisa é mesmo melhor que não fazer nada? De repente, fiquei com vontade de tirar um ano de folga, ou ano sabático, como uma espécie de treinamento para a aposentadoria. Isso vai obrigar-me a repensar o modo de vida e a forma como lido com as coisas mais banais: o preço do remédio da pressão, as compras na feira, as compras de Natal, a mania de ter novos sapatos e as idas a restaurantes.

Sou muito desligada da vida prática. Não fico fazendo contas e nem pechinchando. Com a aposentadoria, no entanto, dificilmente poderei encarar o futuro com a mesma leviandade da minha vida de antes, quando os bons ganhos sustentavam quase todos os desejos de consumo.

Se abrir mão do salário que tenho, vou ganhar bem menos. Isso significa ficar mais pobre. É ruim? Bom não é, mas acredito, sinceramente, que não será de todo mau. Penso que posso até enxergar alguma vantagem, se tiver algum tempo para ficar de pernas para o ar.

Não gosto de queixar-me, mas, a prosperidade sempre me custou muito em energia e em desgaste emocional. Como a maioria da minha geração, trabalhei duro. Nunca tirei férias de 30 dias (no máximo 20). Depois de tantos anos no batente. acho que faço jus a alguns períodos de folga.

Voltarei a ser uma pessoa de gastos mais simples e, provavelmente, com um estoque menor de ilusões. O poder de compra garante muitas alegrias e ilusões. Ok, tudo bem, ninguém morre de tristeza se é obrigado a andar por aí usando um casaco com cotoveleiras.

O que realmente importa é a vida que conseguimos construir, os livros que temos de ler e de reler, as músicas que vamos cantarolar, os amigos com quem queremos conversar e as nossas doces lembranças. Assim serão os anos que vêm.

domingo, 5 de outubro de 2014

Um Salve à Cidadania!


5 de outubro 2014 - Eleições e Cidadania
Celebrar o Brasil hoje e sempre para prestar a justa homenagem aos que baniram a ditadura,  resgataram a democracia e, com sua ação, restituíram aos brasileiros a liberdade individual e a liberdade enquanto povo soberano.

Celebrar o Brasil para nos lembrarmos todos, mas, em especial, para lembrar aos mais novos que a liberdade é resultado da vontade e da ação paciente e persistente do homem e das instituições.

Celebrar o Brasil para refletir sobre o momento que vivemos. Só as sociedades capazes de uma reflexão sistemática sobre sua realidade, histórica e presente, realizam as reformas necessárias ao avanço de sua gente.
Celebrar o Brasil para assinalar que a Democracia não é aquisição definitiva, mas fruto do nosso esforço e do nosso compromisso diário com a liberdade e os valores da cidadania.

E, finalmente, celebrar o Brasil para não esquecer as personalidades e as organizações civis que, ao longo de décadas, se bateram pela Justiça e a equidade. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Querida Giovana!

 
Desde o dia especial em que você rasgou o ventre de sua Mãe e chegou ao mundo não canso de pensar que, mesmo sendo um bebê, você renovou a esperança e a confiança no futuro de todos da família. Seus gritinhos insistentes (ou seriam  exigentes?) mudaram nossa vida e fizeram com que nossos corações passassem a bater com mais força e mais coragem.

Seus olhos são azuis, seu cabelo cai em cachos por sua testa. É como se Deus nos tivesse enviado um anjo de rara beleza. Tanto a vida, como o tempo, são atravessados pelos ciclos, uns de sombra, outros de luz e muitos de escuridão. Ao chegar na família, você inaugurou um ciclo de luz.

Lembro o momento que te vi pela primeira vez. Sua mãe estava na maca, saindo da sala de cirurgia. Ela segurava você nos braços e, com todo o cuidado, cobria seus olhos com uma das mãos para impedir que a claridade te assustasse. Ao lado da maca, protegendo você e sua mãe, vinha seu pai, com um sorriso enorme espalhado pelo rosto.

Você nasceu no dia do aniversário do seu avô, Alberto. Desde então, ele mudou. De ateu degenerado, seu avô passou a acreditar em astrologia, numerologia, ligações interplanetárias e até em vidas passadas, mesmo sabendo que elas não contam tempo para a aposentadoria.

“Minha neta e eu nascemos em um mesmo dia, somos de um mesmo signo e isso é um sinal”, ele disse. “Sinal de que você, seu tolinho, nunca mais terá festa de aniversário”, pensei. Ainda bem que seu avô não lê pensamento. Digo “ainda” porque desde o teu nascimento ele está cada vez mais animado,  confiando que pode mais. E sorridente, muito sorridente. A pessoa ficou insuportavelmente feliz...

Nunca vi seu avô tão metido, como se o tempo não tivesse passado e ele ainda fosse o jovem que conheci há 35 anos. Nessa batida, ele acabará acreditando que pode até ler pensamentos. Deus me livre! E guarde! Isso não pode acontecer. É que sua avó tem alguns segredos. Sim, é verdade e não  há mal nisso.

Um adulto tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia, não tem problema guardar uma parte deles só para a gente. Seríamos todos loucos se nosso cérebro tivesse de processar todos os pensamentos conscientemente. Por essa razão, a maior parte deles funciona automaticamente e nem aparece no índice de eventos do nosso dia. Esse assunto, porém, exige muitos cuidados....

Não é bom deixar qualquer um conhecer seus pensamentos. As coisas que a gente pensa, ou mesmo as que a gente pensou um dia, não devem ser assunto de conversa com ninguém. O processo de pensar e de proteger o nosso pensamento, faz parte do que chamamos de nossa personalidade, nosso ser interior.

Daqui a pouco você entenderá um pouco mais sobre a dádiva divina de ser uma pessoa única em todo o universo. Entenderá, igualmente, que é sábio ser justo e tolo mentir. Não precisa sair por aí contando tudo a todos, apenas cuide para que só palavras verdadeiras possam sair de sua boca.

Vamos voltar a falar disso um dia. Agora, dorme e brinca. Você inda nem fez quatro anos. Haverá tempo para tudo. Sei que seu futuro será brilhante, como o da sua Mãe e do seu Pai, de quem, certamente, você receberá os traços de caráter, a teimosia, a lucidez e a força de vontade.

De sua mãe desejo que você receba o senso de justiça e o compromisso com a verdade. De seu pai, o legado da bondade, da capacidade de perdoar, de amar e de acreditar. Eu e seu avô esperamos deixar boas lembranças em sua memória.

Acredito que estamos cumprindo bem nosso papel como seres humanos. Tivemos o privilégio de ter sua mãe como nossa filha. Foi ela que nos ensinou a viver com mais amor e mais generosidade. Não há como quitar uma dádiva dessas. 

Então é isso minha neta, vendo sua mãe te educar  com tanto afeto penso que ninguém precisa de nada, além do que você já tem, para ser feliz.

Um grande beijo da sua avó.

 

domingo, 28 de setembro de 2014

"Ninguém sabe o que sou quando rumino"

          
Hoje, 28 de setembro, faz 106 anos que morreu Machado de Assis, um dos maiores escritores de todos os tempos. Inquieto, lúcido, irônico, Machado escrevia como  filósofo, mas tinha humor e estilo, principalmente quando empenhava-se  em fazer uma digressão, definir com precisão um gesto, ou um detalhe qualquer, como se escrever também pudesse ser brincadeira leve e descontraída.
 
"Ninguém sabe o que sou quando rumino", costumava dizer este gênio brasileiro que nasceu na pobreza, tinha pele mestiça e que teve de batalhar cada milímetro dos avanços que conquistou na vida.  Fundador da Academia Brasileira de Letras, deixou uma obra literária monumental.
Quem não se pergunta de vez em quando se Capitu (Dom Casmurro) foi mesmo uma adúltera? E quem não se lembra do anárquico Brás Cubas e da dedicatória de suas memórias, em louvor "ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu cadáver"?
É famosa a passagem do livro Esaú e Jacó em que o dono da Confeitaria do Império tem o azar de mandar pintar uma nova tabuleta para seu estabelecimento justamente às vésperas da proclamação da República. E agora, que fazer? Trocar o nome para Confeitaria da República? Mas... e se sobreviesse nova reviravolta política? Uma idéia foi adotar o nome "Confeitaria do Governo". Mas, nesse caso, as oposições não poderiam vir a apedrejá-la? O jeito foi rebatizar a casa com o nome do proprietário. Virou a "Confeitaria do Custódio". É isso, Machado é uma maravilha...
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Evangelho segundo São Mateus






Evangelho segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um pro­prie­tário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizen­do: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primei­ros e os primeiros serão os últimos».
 
Da Bíblia Sagrada

domingo, 21 de setembro de 2014

Os Dez Cantos d'Os Lusíadas



É sério: um ser humano pode ser considerado "inculto" em Portugal por não saber o número de cantos dos Lusíadas. É suposto que será avaliado como "culto" se tiver lido o poema épico de Luís de Camões, publicado em 1572 . Mesmo não concordando com essa medida ilusória de conhecimento, estou postando o resumo de cada um dos dez cantos deste texto monumental. Para ler na íntegra, ou baixar o conteúdo grátis: http://bit.ly/1ylwDfl

Os Dez Cantos d'Os Lusíadas
 
O poeta indica o assunto global da obra, pede inspiração às ninfas do Tejo e dedica o poema ao Rei D. Sebastião. Na estrofe 19 inicia a narração de viagem de Vasco da Gama, referindo brevemente que a Armada já se encontra no Oceano Índico, no momento em que os deuses do Olimpo se reúnem em Concílio convocado por Júpiter, para decidirem se os Portugueses deverão chegar à Índia.
Com o apoio de Vénus e Marte e apesar da oposição de Baco, a decisão é favorável aos Portugueses que, entretanto, chegam à Ilha de Moçambique. Aí Baco prepara-lhes várias ciladas que culminam com o fornecimento de um piloto por ele instruído para os conduzir ao perigoso porto de Quíloa. Vénus intervém, afastando a armada do perigo e fazendo-a retomar o caminho certo até Mombaça. No final do Canto, o poeta reflete acerca dos perigos que em toda a parte espreitam o Homem.
 
O rei de Mombaça, influenciado por Baco, convida os Portugueses a entrar no porto para os destruir. Vasco da Gama, ignorando as intenções, aceita o convite, pois os dois condenados que mandara a terra colher informações tinham regressado com uma boa notícia de ser aquela uma terra de cristãos. Na verdade, tinham sido enganados por Baco, disfarçado de sacerdote. Vénus, ajudada pelas Nereidas, afasta a Armada, da qual se põem em fuga os emissários do Rei de Mombaça e o falso piloto.
Vasco da Gama, apercebendo-se do perigo que corria, dirige uma prece a Deus. Vénus comove-se e vai pedir a Júpiter que proteja os Portugueses, ao que ele acede e, para a consolar, profetiza futuras glórias aos Lusitanos. Na sequência do pedido, Mercúrio é enviado a terra e, em sonhos, indica a Vasco da Gama o caminho até Melinde onde, entretanto, lhe prepara uma calorosa recepção. A chegada dos Portugueses a Melinde é efectivamente saudada com festejos e o Rei desta cidade visita a Armada, pedindo a Vasco da Gama que lhe conte a história do seu país.
 
Após uma invocação do poeta a Calíope, Vasco da Gama inicia a narrativa da História de Portugal. Começa por referir a situação de Portugal na Europa e a lendária história de Luso a Viriato. Segue-se a formação da nacionalidade e depois a enumeração dos feitos guerreiros dos Reis da 1.ª Dinastia, de D. Afonso Henriques a D. Fernando.
Destacam-se os episódios de Egas Moniz e da Batalha de Ourique, no reinado de D. Afonso Henriques, e o da Formosíssima Maria, da Batalha do Salado e de Inês de Castro, no reinado de D. Afonso IV.
 
Vasco da Gama prossegue a narrativa da História de Portugal. Conta agora a história da 2.ª Dinastia, desde a revolução de 1383-85, até ao momento, do reinado de D. Manuel, em que a Armada de Vasco da Gama parte para a Índia.
Após a narrativa da Revolução de 1383-85 que incide fundamentalmente na figura de Nuno Álvares Pereira e na Batalha de Aljubarrota, seguem-se os acontecimentos dos reinados de D. João II, sobretudo os relacionados com a expansão para África.
É assim que surge a narração dos preparativos da viagem à Índia, desejo que D. João II não conseguiu concretizar antes de morrer e que iria ser realizado por D. Manuel, a quem os rios Indo e Ganges apareceram em sonhos, profetizando as futuras glórias do Oriente. Este canto termina com a partida da Armada, cujos navegantes são surpreendidos pelas palavras profeticamente pessimistas de um velho que estava na praia, entre a multidão. É o episódio do Velho do Restelo.
 
Vasco da Gama prossegue a sua narrativa ao Rei de Melinde, contando agora a viagem da Armada, de Lisboa a Melinde.
É a narrativa da grande aventura marítima, em que os marinheiros observaram maravilhados ou inquietos o Cruzeiro do Sul, o Fogo de Santelmo ou a Tromba Marítima e enfrentaram perigos e obstáculos enormes como a hostilidade dos nativos, no episódio de Fernão Veloso, a fúria de um monstro, no episódio do Gigante Adamastor, a doença e a morte provocadas pelo escorbuto. O canto termina com a censura do poeta aos seus contemporâneos que desprezam a poesia.
 
Finda a narrativa de Vasco da Gama, a Armada sai de Melinde guiada por um piloto que deverá ensinar-lhe o caminho até Calecut.
 
Baco, vendo que os portugueses estão prestes a chegar à Índia, resolve pedir ajuda a Neptuno, que convoca um Concílio dos Deuses Marinhos cuja decisão é apoiar Baco e soltar os ventos para fazer afundar a Armada. É então que, enquanto os marinheiros matam despreocupadamente o tempo ouvindo Fernão Veloso contar o episódio lendário e cavaleiresco de Os Doze de Inglaterra, surge uma violenta tempestade.
Vasco da Gama vendo as suas caravelas quase perdidas, dirige uma prece a Deus e, mais uma vez, é Vénus que ajuda os Portugueses, mandando as Ninfas seduzir os ventos para os acalmar.
Dissipada a tempestade, a Armada avista Calecut e Vasco da Gama agradece a Deus. O canto termina com considerações do Poeta sobre o valor da fama e da glória conseguidas através dos grandes feitos.
 
A Armada chega a Calecut. O poeta elogia a expansão portuguesa como cruzada, criticando as nações europeias que não seguem o exemplo português. Após a descrição da Índia, conta os primeiros contactos entre os portugueses e os indianos, através de um mensageiro enviado por Vasco da Gama a anunciar a sua chegada.
O mouro Monçaíde visita a nau de Vasco da Gama e descreve Malabar, após o que o Capitão e outros nobres portugueses desembarcam e são recebidos pelo Catual e depois pelo Samorim. O Catual visita a Armada e pede a Paulo da Gama que lhe explique o significado das figuras das bandeiras portuguesas. O poeta invoca as Ninfas do Tejo e do Mondego, ao mesmo tempo que critica duramente os opressores e exploradores do povo.
 
Paulo da Gama explica ao Catual o significado dos símbolos das bandeiras portuguesas, contando-lhe episódios da História de Portugal nelas representados. Baco intervém de novo contra os portugueses, aparecendo em sonhos a um sacerdote brâmane e instigando-o através da informação de que vêm com o intuito da pilhagem.
O Samorim interroga Vasco da Gama, que acaba por regressar às naus, mas é retido no caminho pelo Catual subornado, que apenas deixa partir os portugueses depois destes lhes entregarem as fazendas que traziam. O poeta tece considerações sobre o vil poder do ouro.
 
Após vencerem algumas dificuldades, os portugueses saem de Calecut, iniciando a viagem de regresso à Pátria. Vénus decide preparar uma recompensa para os marinheiros, fazendo-os chegar à Ilha dos Amores. Para isso, manda o seu filho cúpido desfechar setas sobre as Ninfas que, feridas de Amor e pela Deusa instruídas, receberão apaixonadas os Portugueses.
A Armada avista a Ilha dos Amores e, quando os marinheiros desembarcam para caçar, vêem as ninfas que se deixam perseguir e depois seduzir. Tétis explica a Vasco da Gama a razão daquele encontro(prémio merecido pelos “longos trabalhos”), referindo as futuras glórias que lhe serão dadas a conhecer. Após a explicação da simbologia da Ilha, o poeta termina, tecendo considerações sobre a forma de alcançar a Fama.
 
As Ninfas oferecem um banquete aos portugueses. Após uma invocação do poeta a Calíope, uma ninfa faz profecias sobre as futuras vitórias dos portugueses no Oriente. Tétis conduz Vasco da Gama ao cume de um monte para lhe mostrar a Máquina do Mundo e indicar nela os lugares onde chegará o império português. Os portugueses despedem-se e regressam a Portugal.
O poeta termina, lamentando-se pelo seu destino infeliz de poeta incompreendido por aqueles a quem canta e exortando o Rei D. Sebastião a continuar a glória dos Portugueses.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O que seria um ataque pessoal na política?

 
No calor de uma campanha eleitoral é possível definir insulto, desconstrução de imagem, campanha negativa ou assassinato de reputação? Um político criticar duramente o outro não é "ataque pessoal". É uma opinião política susceptível de contraditório que deve ser feito igualmente no campo político.
 
É livre a liberdade de opinião, de expressão e de crítica no país. E o debate é o "sal" da política. Ainda bem que há conflitos, ainda bem que há notícias deles, ainda bem que as redes sociais permitem que a sociedade possa dialogar sobre eles. A isto se chama democracia e liberdade. 
 
Se um candidato se sentiu ofendido, que procure dar resposta à altura, em lugar de apresentar lamúrias romanescas ou chorar a cântaros. Ataque pessoal seria acusar alguém sem provas de ter praticado um crime. Ou caluniá-lo sobre ato que efetivamente não praticou. 
 
Confrontar um político por ter alianças, por ter votado desta ou daquela maneira, ou dizer que ele foi filiado a este ou aquele partido, nada disso é ofensa. Biografias e declarações de renda de quem pleiteia mandatos devem ser de conhecimento público. E ascensão política exige que homens públicos aceitem, conscientemente, os riscos da exposição.
 
Não se pode exigir "silêncio" a quem cumpre a obrigação democrática de expressar suas discordâncias. Entre outras coisas, a democracia vive, essencialmente, de debate e decisões. Nada se faz, em política, sem debate e as eleições são o corolário do debate. Uma sociedade democrática vive desta dinâmica.
 
Campanha eleitoral implica troca de opiniões divergentes. O que não falta é dedo em riste. Nos políticos, e nos seres humanos de modo geral, infelizmente, os defeitos são mais frequentes que as virtudes. E acredito que haverá sempre, nesta ou naquela encruzilhada, eventuais erros e omissões deste ou daquele candidato. Ninguém é infalível.
 
Podemos aguentar algumas verdades. Somos adultos. Em todas as democracias, a maioria costuma escolher, depois de acompanhar debates e entrevistas, quem é mais autêntico, quem inspira mais confiança. Ninguém é perfeito. Contudo, é difícil tolerar candidato simulando raiva irrefletida, ou simulando indignação com crítica, para tentar esconder o que importa: ter ou não ter algo de substantivo para dizer e fazer.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A propósito da demagogia

 
 
 
SOBRE A DEMAGOGIA DOS QUE SE PENSAM ANTI-DEMAGOGOS

Dizem os manuais que o demagogo, na sua expressão grega primitiva, era apenas o chefe ou “condutor do povo”, sem qualquer sentido pejorativo, e, como tal, se qualificavam Sólon ou Demóstenes, intimamente ligados à defesa da democracia.

Contudo, a expressão sofreu uma evolução semântica, deixando de ser uma arte neutral, principalmente depois da morte de Péricles, em 429 a.C., quando surgiram novos líderes, não ligados às antigas famílias, os quais, a partir do século seguinte, começaram a ser fortemente criticados pelos adversários dos modelos democráticos.

Por causa disso é que a expressão ganhou a atual conotação: aquele que procura dar voz aos medos e aos preconceitos do povo. Ou, para seguir as palavras de Bertrand de Jouvenel: a arte de conduzir habilmente as pessoas ao objetivo desejado, utilizando os seus conceitos de bem, mesmo quando lhe são contrários.

Aliás, já em Platão (Politeia, livro V) o nome serviu para designar o animal que chama boa às coisas que lhe agradam e más às coisas que ele detesta. Do mesmo modo, em Aristóteles (Política, livro V), onde se acentuou que o demagogo utilizava a lisonja e os artifícios oratórios.

Já no século XIX, Lincoln chegou mesmo a assinalar que é sempre possível enganar uma pessoa; que é também possível enganar todos, mas de uma só vez; mas que é impossível enganar sempre todos.

Neste contexto, Max Weber, utilizando um conceito amplo de demagogo, incluiu em tal categoria o jornalista, referindo que o mesmo substituiu o púlpito. Porque, desde que foi instaurada a democracia, o demagogo é a figura típica do chefe político no Ocidente. Uma demagogia que, depois de se transmitir pela palavra impressa e através dos jornalistas, passou para a rádio e para a televisão.

Fiquei assim estupefato quando um dos mais brilhantes artistas da demagogia moderna, o político Dr. José Pacheco Pereira, vestindo o seu hábito de jornalista de ideias, quis assumir-se como um monge da anti-demagogia, utilizando os métodos da mais caricatural escolástica. O brilhante comentarista, que tão weberianamente se desmarxizou, se for fiel à sua matriz de amigo da sabedoria, tem que meter a frase solta no contexto, a letra do texto no espírito do discurso, a parte no todo, a emoção na razão, a honra na inteligência e o sentimento na ideia.

Muito weberianamente dissertando, acrescentarei que a racionalidade tanto é a razão da ação racional referente a fins (Zweckrational), como ação racional referente a valores (Wertrational), a racionalidade em valor.

Na primeira, o indivíduo tanto é capaz de definir objetivos como de avaliar os meios mais adequados para a realização desses objetivos, numa ação social marcada pela moral de responsabilidade, onde o valor predominante é a competência. E aqui já nos situamos no campo do Estado racional-normativo ou do Estado-razão, onde domina a ação burocrática, aquela que faz nascer o poder burocrático, o poder especializado na elaboração do formalismo legal e na conservação da lei escrita e dos seus regulamentos, onde dominam a publicização, a legalização e a burocracia.

Na segunda, os indivíduos inspiram-se na convicção e não encaram as consequências previsíveis dos seus atos. É uma forma de atividade política inspirada por sistemas de valores universalistas, onde o agente atua de acordo com a moral de convicção, vivendo como pensa, sem pensar como vive, em nome da honra, isto é, sem ter em conta as consequências previsíveis dos seus atos, à maneira do que é comandado pelo dever, pela dignidade, pela beleza ou pelas diretivas religiosas.

Poderei assim concluir que o jornalista dos púlpitos dominicais corre o risco de ser duplamente demagogo, mesmo que rejeite o lume da profecia e fique apenas com metade do conceito de razão.

Logo, apenas desejarei que, de regresso em regresso, não regresse em demasia, passando para o estreito conceito de púlpito da santificada inquisição.

Pior ainda quando trata de usar os métodos dos seminaristas georgianos e dos jornais de parede da revolução cultural, esses que, retirando frases do contexto, condenaram os adversários à fogueira da diabolização adjetiva.

Os efetivos amigos da sabedoria, como o Dr. José Pacheco Pereira, porque só sabem que nada sabem, não podem parecer que têm o monopólio da inteligência, do caminho, da verdade e da democracia. Se meterem a frase no texto, o texto no contexto e a letra no espírito, certamente confessarão que se enganaram. Homens livres, livram-se dos ódios e têm a coragem de vencer o preconceito.
Texto extraído do blog Jornalismo de Ideias. Autoria: José Adelino Maltez

domingo, 31 de agosto de 2014

Grandeza:Thomas Mann


 
«Digam o que disserem, o cristianismo, essa flor do judaísmo, continua a ser um dos dois pilares principais em que assenta a civilização ocidental, sendo o outro a Antiguidade mediterrânica. A negação de um destes pressupostos fundamentais da nossa moralidade e erudição, ou até de ambos, por qualquer grupo da comunidade ocidental, significaria a sua exclusão da mesma, e uma inimaginável, de resto, louvado seja Deus, nem sequer exequível redução do seu estatuto humano. (…) Tempos exaltados, como o nosso, que sempre tendem a confundir meras manifestações da época com o eterno (por exemplo, liberalismo e liberdade) e a despejar a criança com a água do banho, exortam toda a pessoa mais séria e livre a que não se limite a flutuar ao vento da época, a regressar às bases, a voltar a ganhar consciência das mesmas, e a insistir nelas sem transigir. A crítica que o século faz dos assuntos morais cristãos, as correções (…), permanecem, por muito fundo que cheguem, por muito transformadores que sejam os seus efeitos, movimento de superfície. Elas nem sequer tocam naquilo que condiciona, define e vincula (…) o cristianismo cultural do homem ocidental (…) uma vez conquistado e nunca alienável.»
Thomas Mann em Viagem marítima com Dom Quixote (1934)

sábado, 30 de agosto de 2014

Não: não quero nada.



Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!,,,
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.

Álvaro de Campos, Lisbon Revisited, 1923

domingo, 24 de agosto de 2014

FEIOS E BONITOS







Qual o papel da boa aparência em política? O que constitui a boa aparência? Sexy é um adjetivo normalmente problemático para mulheres que buscam se eleger?  Há perguntas interessantes a respeito do tema.  Alguns políticos de grande expressão do passado, como Getulio Vargas, que era baixinho e sempre se manteve fora do peso, teriam a mesma popularidade hoje? E Jânio Quadros com aquela aparência de Napoleão de hospício? Os cabelos ajudam? "Cabelos ajudam", diz o ex-governador de Nova York Hugh Carey, que tingia os seus. No Brasil, quase todo o mundo tinge, faz implante ou usa peruca, mas quase ninguém pesquisa, a sério, a questão da aparência. 
 
Nos Estados Unidos, muitos especialistas consultados sobre o tema concordam que aparência suave ajuda em política, mas admitem que podem surgir dúvidas quanto à acuidade intelectual de quem acha que apenas a beleza põe a mesa. Marilyn Quayle disse em 1981, logo depois de seu marido Dan Quayle ser eleito ao Senado (poucos anos depois ele viria a ser vice-presidente dos EUA): "Alguns durante a campanha diziam `não vou votar nele porque ele usa a boa aparência para concorrer'. Bem, o que ele devia fazer? Enfiar um saco no rosto?" A verdade é que muita coisa mudou na política dos EUA desde os debates Kennedy-Nixon em 1960. Com o predomínio da televisão, assessores de campanha passaram a exigir boa aparência ou, pelo menos, a dizer que os candidatos não podem repelir fisicamente os eleitores.

"Depois de 1960, se você for horroroso será muito prejudicado na política", diz Beschloss. "Cem anos atrás, não era bem esse o caso." Até Abraham Lincoln, cujo carisma e presença são inesquecíveis, era geralmente considerado feio - ele próprio o admitia. Morris, o biógrafo de Theodore Roosevelt e Ronald Reagan, disse duvidar que Roosevelt se saísse bem na televisão, por causa de sua "voz muito alta, áspera" e "dentes brancos, rangentes". Mas Reagan, acrescentou Morris, tinha uma "beleza física" que era "uma grande parte de seu poder". 

Traços simétricos, maxilares bem-talhados e ombros largos: John F. Kennedy é geralmente reconhecido como o responsável pelo estabelecimento do padrão perfeito em matéria de atrativos para um presidente. Além da estética quase perfeita, sua grande beleza tornou-se lenda por refletir juventude, energia e entusiasmo.  Gore Vidal conta que, uma vez, numa festa onde estava com Tennessee Williams passou por eles o jovem senador Kennedy. Perderam o fôlego e a visão inspirou ao dramaturgo o seguinte comentário: "Deus do Céu, que belo traseiro!".
 
Nas mulheres, atrativo é coisa mais complicada. Aparência melosa decididamente não ajuda; nenhum dos especialistas conseguiu citar bonecas eleitas, exceto Jeanine Pirro, promotora federal no Condado Westchester (Estado de Nova York). Na opinião de David Garth, “é mais difícil para as mulheres". Mulheres devem parecer atraentes e maduras como Ségolène Royal e Hillary Clinton. Patrick McCarthy dá a Hillary notas bem altas por fixar-se num visual, um conjunto escuro e um penteado. Como consequência, as pessoas pararam de falar de seu cabelo - objetivo de qualquer mulher na política. 
 
McCarthy tem a firme opinião de que a aparência sexy é "desastrosa" para políticos, pois "indica que ele ou ela tem na mente coisas que não se referem à melhor legislação". Atitudes provocantes e sensualidade explícita contrariam em tudo a imagem de eficiência e dever cívico que se espera, ou se deveria esperar, dos políticos. Granger, da revista Esquire, também elogia Hillary por sua aparência bela e austera. "É uma combinação de força e inteligência e também a disposição de juntar firmemente essas armas", diz Granger.
 
Estudos mostram que, quanto mais bonita é uma pessoa, maior é seu salário e maiores são as chances de ser absolvida por um júri. A verdade é que fazemos julgamentos o tempo todo e, hoje, usamos a beleza como um indicador de competência. Pessoas com rosto simétrico ou feições mais definidas seriam vistas como mais dignas de confiança. Além disso, contam pontos também cabelos bem cuidados e roupas alinhadas. Não é por acaso que na época das campanhas, todos eles se cuidam mais. 

A opinião final e unânime dos especialistas é a de que a aparência, em política, nunca importa tanto quanto as posições assumidas ou o firme trabalho nas campanhas. Vale dizer: num mundo em que todos querem ser belos, a política atrai os esteticamente privilegiados e lhes dá um bom empurrão inicial. Depois, seu desempenho tende a ser julgado por padrões mais comuns.


Fontes: historiador Michael Beschloss, especialista em candidatos a Presidência dos EUA, o consultor político David Garth, o ex-governador Mario Cuomo, o ex-prefeito Ed Koch, a ex-candidata à vice-presidência dos EUA Geraldine Ferraro, o consultor-chefe do governador George Pataki para política, o biógrafo de presidentes Edmund Morris, o pesquisador de opinião pública Mark Penn; o chefe de redação da Esquire, David Granger, e Patrick McCarthy, diretor da Crown Books.

sábado, 23 de agosto de 2014

ALEGRIA E TRISTEZA

"Em nenhuma época da história da humanidade esteve o mundo tão cheio de sofrimento e de angústia. Contudo, aqui e além, encontramos indivíduos que não estão contaminados, manchados pela dor comum. Não são criaturas sem coração, longe disso! São indivíduos emancipados. Para eles, o mundo não é que nos parece. Vêem-no com outros olhos, dizemos que morreram para o mundo. Vivem na luz do sol, na harmonia da forma e do ritmo que é melodia pura. Vivem, no momento que passa, com toda a plenitude, e a radiação que deles emana é um perpétuo hino de alegria (...). Morremos a lutar para nascer. Nunca fomos, nunca somos. Estamos sempre na contingência de vir a ser, separados, desligados sempre. Sempre do lado de fora"...
 
Henry Miller, 1948

sábado, 16 de agosto de 2014

EDUARDO CAMPOS




A exemplo de tantos brasileiros, acompanhei com atenção e interesse as noticias sobre o velório e o enterro de Eduardo Campos. Achei impressionante a dor sincera exposta por milhares de pessoas naquele ambiente de comoção, tristeza e inconformismo com a tragédia, sentimentos raros e quase inexistentes no mundo da política.

Acredito que Eduardo Campos representava muito do que a maioria de pernambucanos, nordestinos e brasileiros gostaria de ser. Além de jovem, bonito e inteligente, era feliz e bem sucedido. Tanto que levou para o Palácio das Princesas, onde despachou por oito anos, a alegria de viver ao lado de uma jovem e bela primeira-dama, com uma fieira de filhos lindos e fotogênicos.

Em três décadas de jornalismo, sempre ouvi falar que os políticos pernambucanos divergiam em quase tudo e apenas um ponto os unia: eram fechados, turrões, não falavam com facilidade, não sorriam e não tinham senso de humor. Marco Maciel, Jarbas Vasconcelos, Roberto Freire, Roberto Magalhães e Joaquim Francisco parecem ser assim. Eduardo Campos parecia o contrário.

Com o sorriso sempre aberto, partilhou a imagem de família feliz com seu estado e com o Brasil. Além disso, defendia com clareza, como a maioria de nós, a visão de um mundo melhor e mais desejável. Não foi por acaso que o trágico acidente em Santos causou em Pernambuco uma sensação de orfandade objetiva, exposta nas cenas comoventes do velório e do enterro.

Essa mesma sensação, de alguma forma, percorreu e ainda percorre o Brasil inteiro, como nunca antes tinha acontecido. Como pode ter morrido alguém assim? Ficamos a dever a ele uma atenção maior? Estamos ainda mais sentidos com sua morte porque não fomos capazes de perceber, antes do acidente trágico, que o ex-governador de Pernambuco era um político que valia a pena?

Só o tempo poderá trazer algum consolo para aqueles que o amaram, admiraram e conviveram com ele, a começar pela sua mulher, seus filhos, sua mãe, irmãos, parentes e amigos. Para nós, que estamos à distância, ficará para sempre, cristalizada na memória, sua imagem jovial e sorridente. Nunca vamos imaginar Eduardo Campos triste, velho, doente ou infeliz.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Seis dicas de Harvard para criar filhos bons





Os psicólogos de Harvard recomendam seis dicas para criar filhos bons, dotados de empatia e consciência social, qualidades que são fundamentais para o sucesso no mundo do trabalho. O estudo, intitulado “As crianças que queremos educar“, começa por afirmar que as crianças não nascem simplesmente boas ou más, e que nunca devemos desistir delas.

“As crianças precisam de adultos que as ajudem, em todas as fases da infância, a tornar-se solidárias e éticas”. É preciso desenvolver nas crianças “a preocupação pelos outros”, não só porque é o correto, mas também porque sentir empatia e assumir a responsabilidade perante outros é uma grande ajuda no caminho para o sucesso e para a felicidade.

Segundo a Making Caring Common, da Harvard Graduate School of Education, os seis princípios gerais para criar os filhos com carinho, respeito e ética são:

1. Seja um mentor e um modelo forte

As crianças aprendem valores e comportamentos através da observação dos adultos que elas mais respeitam: os pais.

Tente isto: Envolva-se em serviço comunitário ou noutras formas de contribuir para a comunidade. Melhor ainda, pense fazer isso com o seu filho. Quando cometer um erro que afete a criança, converse com ela sobre por que acha que o cometeu e como pretende evitar cometer o erro da próxima vez.

2. Faça do cuidado com os outros uma prioridade

Os pais devem explicar que a preocupação com terceiros é de extrema importância, tanta quanto a nossa própria felicidade. “Embora a maioria dos pais diga que o cuidado com os outros é uma prioridade para os seus filhos, eles não estão a receber essa mensagem”.

Tente isto: Em vez de dizer aos seus filhos que “o mais importante é que sejas feliz”, diga que “o mais importante é que sejas gentil e feliz”. Tente também abordar o assunto quando outros adultos importantes para a vida do seu filho estejam presentes, por exemplo, perguntar à professora se o filho é um bom membro da comunidade, em vez de perguntar apenas pelo aproveitamento escolar. E se um dia ele quiser desistir de uma equipe de esporte, de uma banda ou de uma amizade, fale sobre isso. Pergunte se a desistência não vai prejudicar o grupo e encoraje-o a resolver os problemas.

3. Crie oportunidades à criança para que possa praticar atos de carinho e gratidão

Boas pessoas todos podemos ser, mas isso não acontece do nada. As crianças precisam praticar o cuidado com os outros, a gratidão e a apreciação pelas pessoas que as tratam bem. “Estudos mostram que pessoas que têm o hábito de expressar gratidão são mais propensos a ser úteis, generosos, a ter compaixão e a perdoar”, escreve a Making Caring Common. Tudo isto ajudará a criança a crescer mais feliz e saudável.

Tente isto: Espere que as crianças ajudem de forma rotineira, por exemplo, com as tarefas domésticas, e elogie apenas atos menos comuns de bondade. Quando este tipo de ações de rotina são simplesmente esperados e não recompensados, são mais facilmente interiorizados pelos mais novos. Fale também com o seu filho sobre os gestos de cuidado e indiferença, justiça e injustiça que ele vê no dia-a-dia ou na televisão

4. Aumente o círculo de preocupação da criança

É normal que as crianças simpatizem mais com um círculo pequeno de familiares e amigos. O desafio aqui é fazer com que os mais pequenos aprendam a preocupar-se e a dar-se com pessoas fora do círculo, tais como um novo colega da escola ou alguém que não fale a mesma língua

Tente isto: Incentive a criança a considerar os sentimentos daqueles que estão numa situação mais vulnerável. Pode também usar com os seus filhos histórias de jornais ou televisões para iniciar conversas com outras crianças sobre o que se passa no mundo e os problemas que meninos da mesma idade estão a passar, dando-lhes visões muito diferentes da realidade.

5. Ajude a criança a tornar-se numa pensadora e líder ética

As crianças interessam-se naturalmente por questões éticas e por norma gostam de melhorar a sua comunidade.

Tente isto: Aproveitando estes interesses dos mais novos, inicie com eles uma conversa sobre dilemas éticos que surgem, por exemplo, na televisão. Procure causas às quais a criança possa aderir, como a prevenção do bullying ou o apoio à educação nos países em vias de desenvolvimento

6. Ajude a criança a desenvolver o autocontrolo e a gerir os seus sentimentos

Muitas vezes, a capacidade de nos preocuparmos com o outro é suplantada pela raiva, vergonha, inveja ou outro sentimento negativo qualquer.

Tente isto: Uma maneira simples de ajudar os seus filhos a gerirem os seus sentimentos é praticarem juntos estes três passos: parar, respirar fundo pelo nariz e expirar pela boca, e depois contar até cinco. Experimente quando os seus filhos estiverem calmos. Depois, quando estiverem chateados por alguma razão, lembre-os dos passos e pratiquem-nos em conjunto. Não se esqueça também de praticar com eles a resolução de conflitos. Falem sobre um conflito a que tenham assistido e que tenha acabado mal, e peça-lhe para sugerir soluções mais pacíficas e construtivas para resolver o problema.

sábado, 9 de agosto de 2014

Imprensa livre e liberdade de expressão

 
 
Imprensa livre e liberdade de expressão são conquistas máximas da democracia que todos nós construímos. A democracia não sobrevive sem imprensa livre, valor essencial para consolidar a dignidade do ser humano.

A Constituição Federal explicita a liberdade de informação no art. 5º, incisos IV (liberdade de pensamento); IX (liberdade de expressão) e XIV (acesso à informação) e no art. 220, § 1º (liberdade de informação propriamente dita).

No art. 220, § 2º, a Constituição veda qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

O referido artigo dispõe que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.

“Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV”, determina o parágrafo 1º.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, no seu art. 19, proclamou em favor de todos o direito à liberdade de opinião e expressão sem constrangimento e o direito correspondente de investigar e receber informações e opiniões e de divulgá-las sem limitação de fronteiras.
A Convenção Europeia dos Direitos do Homem estabeleceu no art. 10, § 1º que “toda a pessoa tem direito à liberdade de expressão”. Esse direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber ou de comunicar informações ou ideias, sem que possa haver a ingerência da autoridade pública e sem consideração de fronteiras. 

Nenhum cidadão pode achar que exerce poderes irrecorríveis, e, portanto, incompatíveis com as garantias, direitos e deveres constitucionais.

A liberdade de expressão, a crítica, a realização das eleições, enfim o respeito às determinações da Constituição, formam o pacote democrático. Ao cidadão ou cidadã que não percebe esta evidência não podem ser dados poderes acrescidos.

domingo, 3 de agosto de 2014

Não sou menos amiga das pessoas de quem discordo...



«É mais justo acentuar que a amizade, mesmo entre iguais, aceita a diferença, a dissenção e a liberdade do outro. Não sou menos amigo das pessoas de quem discordo. E algumas manifestações de amizade mais consistentes que conheço consistem em deixar alguém em paz, deixá-lo ser quem é, às vezes sozinho, em solidão temporária e benéfica. Não ter amigos, não ter amigos nunca, leva ao fechamento, à incivilidade, à insanidade. Mas há amizades que são também formas de solidão. Amizades sem empatia, isto é, sem a tentativa de entendermos aquilo que nunca experimentámos. Amizades sem confidencialidade, que são formas de perfídia. Amizades inclementes como julgamentos sumaríssimos. Ou um amigo que diz mal de nós em público, ou fica calado quando nos ofendem. Um amigo que é um inimigo.»
 
Pedro Mexia, Expresso/ Portugal, 3/8/2014 
 
 PS: Concordo tão completamente com Pedro Mexia que me ocorre aquele verso da música "Caçador Mim" de Milton Nascimento: "Certas canções  que ouço cabem tão dentro de mim que perguntar carece como não fui eu que fiz?". No caso, "certos textos que leio"...
 

Obama: política e religão

 
 
Depois de séculos de desavenças na política entre laicos, por vezes ateus e os religiosos, penso que alguma coisa acabará mudando nesse tipo de debate em razão do comportamento inovador de Obama nas duas corridas vitoriosas que empreendeu nos Estados Unidos. Obama falou sobre religião no calor da primeira disputa e ao final da segunda. Manifestou-se como crente em Deus, mas disse não ser partidário ou representante de nenhuma igreja.

Sem usar politicamente a relação de proximidade com a fé, deixou claro que não era ateu, mas manteve o distanciamento pessoal, ou seja, não virou personagem da religião. Afinal, assinalou, era candidato a presidente dos EUA e não a pastor de almas. Obama, como é hábito nas campanhas eleitorais nos EUA, se declarou cristão, mas protegeu a sua fé de uma dimensão pública. E inovou ao invocar, em pé de igualdade, a mensagem de amor de todas as religiões do mundo. Com isso, recuperou, de alguma maneira, a retórica quase universalista dos filhos de Abraão.

Ele converteu-se já adulto, não pela catequese ou por revelação, mas pelo contato com as obras sociais das Igrejas de Chicago. Esta maneira de chegar à fé facilitou sua teologia política. O seu pós-secularismo ecumênico permite-lhe falar de um Deus de todas as pessoas e não necessariamente naquele em que o cidadão Barack Obama acredita. E isso parece ter sido satisfatório para a maioria dos eleitores norte-americanos, incluindo os que não acreditam em Deus nenhum.

Sem defender a ideia dos laicos e ateus, que almejam separar a religião do Estado, e ao contrário dos religiosos, que buscam fazer uso maniqueísta de Deus, Obama adotou a seguinte linha: o Estado deve assimilar todas as Igrejas. A teologia política de Obama, porque é disso que se trata, busca fazer da religião um instrumento de política do Estado. Não é a fá particular do cidadão Obama que está em jogo.

Claro que ao falar para o Deus de todas as pessoas, Obama busca extrair dividendos eleitorais, mas não custa reconhecer que essa posição é um avanço em relação ao que estamos acostumados a ver por aí com candidatos sendo fotografados rezando, em procissões ou até recebendo o sacramento da comunhão. Obama, pelo menos, não tentou tirar proveito de algo íntimo e pessoal como sua fé religiosa.

Obama não quer invocar nenhuma Igreja que se julgue detentora da verdade sobre Ele, mas aliar-se a todas as Igrejas. Esta política joga muito bem com a estratégia de renascimento religioso ensaiada por grandes Igrejas nos anos 70, quando transferiram o primeiro passo da sua evangelização da catequese para a educação e as obras sociais. A aliança entre esta estratégia de evangelização e a política pós-secular é duradoura e tem sido profícua.

O Estado encontrou parceiros e intermediários fortes. A Igreja encontrou um modo de convivência com a política sem discussão sobre Deus e o Estado. O Estado não pede aos prestadores de serviços sociais que não doutrinem. As Igrejas co-financiam o Estado e chegam aos locais onde ele não consegue ou não tenta chegar. Obama repete assim uma aposta que dá certo na Inglaterra e na grande maioria dos países europeus.

Antes de Obama, apenas o inglês Tony Blair havia encarnado posição semelhante ao deixar claro que era cristão, era crente em Deus, mas não devotava adesão a nenhuma igreja.