domingo, 8 de julho de 2018

Reservado ao veneno

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
...
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
...
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte (Uma Faca nos Dentes)

sábado, 7 de julho de 2018

Políticos



"Um político deve ser capaz de prever o que acontecerá no dia seguinte, na semana seguinte, no mês seguinte e ano seguinte, e ter depois habilidade de explicar porque não aconteceu" [Churchill]

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Queen, sempre eterno

BOHEMIAN RAPSODY

 Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality
Open your eyes
Look up to the skies and see
I'm just a poor boy, I need no sympathy
Because I'm easy come, easy go
A little high, little low
Anyway the wind blows,
doesn't really matter to me, to me
Mama, just killed a man
Put a gun against his head
Pulled my trigger, now he's dead
Mama, life had just begun
But now I've gone and thrown it all away
Mama, ooo
Didn't mean to make you cry
If I'm not back again this time tomorrow
Carry on, carry on, as if nothing really matters
Sends shivers down my spine
Body's aching all the time
Goodbye everybody - I've got to go
Gotta leave you all behind and face the truth
Mama, ooo - (anyway the wind blows)
I don't want to die
I sometimes wish I'd never been born at all
I see a little silhouetto of a man
Scaramouch, scaramouch
will you do the fandango
Thunderbolt and lightning - very very frightening me
Gallileo, Gallileo,
Gallileo, Gallileo,
Gallileo Figaro - magnifico
But I'm just a poor boy and nobody loves me
He's just a poor boy from a poor family
Spare him his life from this monstrosity
Easy come easy go - will you let me go
Bismillah! No - we will not let you go - let him go
Bismillah! We will not let you go - let him go
Bismillah! We will not let you go - let me go
Will not let you go - let me go (never)
Never let you go - let me go
Never let me go- ooo
No, no, no, no, no, no, no -
Oh mama mia, mama mia, mama mia
let me go Beelzebub has a devil put aside for me
for me
for me
So you think you can stone me and spit in my eye
So you think you can love me and leave me to die
Oh baby - can't do this to me baby
Just gotta get out - just gotta get right outta here
Ooh yeah, ooh yeah
Nothing really matters
Anyone can see
Nothing really matters - nothing really matters to me
Anyway the wind blows...


 

terça-feira, 19 de junho de 2018

Gore Vidal - o árbitro

Pergunta: É sensível às críticas? 
Gore Vidal: Não. Decidi cedo que aquilo que penso dos outros é mais importante do que aquilo que eles pensam sobre mim. Qualquer jogo tem de ter um árbitro e, então, decidi que eu seria o árbitro. »

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Vamos falar de política a sério?


Nunca vou pertencer a essa direita radical que é tão retrógada que faz de todo ser humano com compaixão e amor ao próximo quase um socialista. Sim, para a nossa direita radical até o Papa é de esquerda, certamente um comunista.

Não me converti e nem vou me converter ao socialismo porque acredito no liberalismo, em mais liberdade econômica e mais espírito empresarial. Infelizmente, nunca tivemos governos liberais de verdade no Brasil ou na América do Sul.

O que temos é a continuidade cada vez mais  agressiva de regimes onde os latinos não são cidadãos. No Brasil, por exemplo, nenhuma reforma estrutural foi feita, a não ser o perigoso desequilíbrio de poder no mundo do trabalho com uma reforma trabalhista indefensável.

Sim, a reforma trabalhista foi o acordo da espingarda com a rolinha. Não acho metáfora melhor que esta. Uma “reforma” do jeito que nossos "liberais" gostam por desobrigá-los da convivência com a presença dos sindicatos nos conselhos de administração das empresas como na Alemanha.

Aqui vivemos um arremedo de mundo onde chamam de "espírito empresarial" um jovem desempregado que tenta, sem quase nenhuma chance de êxito, abrir caminho no mundo dando golpes e mais golpes nos impostos e pagando salários abaixo do mercado. É bizarro.  

O sucesso empresarial não pode se assentar na sonegação e em salários precários. Não pode ser confundido com combater os sindicatos e o  direito de greve. Ninguém faz sucesso no resto do mundo chamando seus trabalhadores de preguiçosos.

Precisamos de boa gestão na área pública e na área privada. O "espírito empresarial" que faz falta no Brasil não passa por Brasília. Até aqui, no entanto, o poder político vem mantendo as "empresas" como sujeito da política e isso é o menos liberal que existe.

Isso não serve a Economia nem as pessoas. O que se vê: os fracos permanecem na insegurança e correm risco total e imediato. Os ricos estão a salvo com todos os seus subsídios, suas vantagens históricas sempre renovadas. 

Isso não tem nada a ver com modernidade. Uma sociedade moderna usa a liberdade, toda a liberdade, para dar poder às pessoas, empowerment no sentido anglo-saxónico, e não para as fixar numa vida sem esperança nem perspectivas.

Podemos sair disso? Só falando de política a sério. Sem fazer valer a história de tudo ser a preto ou a branco. "Liberalismo econômico" não é lei da selva. Para um verdadeiro liberal a liberdade nasce da política e não da economia, e a subordinação do poder econômico ao poder político é vital.
 
Todos sabemos que o  poder político se renova de forma contínua. É como nuvem. Hoje, para quem ama a liberdade, a democracia implica o voto e o primado da lei. E ser liberal, no  sentido exato da palavra, é sobretudo combater o fato de que nossos países foram transformados em máquinas ao serviço de interesses dos países ricos.
 
Temos de corrigir distorções internas em razão das gestões desastrosas que tivemos, mas o poder do dinheiro de nenhum outro País pode atingir nossa liberdade e nosso futuro.  Vale dizer: Temos de resgatar nossa soberania. Do contrário, a democracia não faz, e tampouco fará, sentido.

domingo, 17 de junho de 2018

OS JURISTAS...

A verdade é que a história que estamos escrevendo põe os "juristas", de uma maneira geral, na vanguarda do nosso atraso. Poucas "esferas" da vida pública escapam ao seu controle. Obter um diploma de bacharel sempre foi importante para nossa elite. Levar um filho à  faculdade, na maioria das vezes, significava, e significa, matriculá-lo em um curso de direito. Daí a irresponsável reprodução do curso e de licenciados por todo o lado.
Se a sociedade brasileira é o que é, muito o deve aos seus gloriosos licenciados em direito, muitas vezes senhores de vasta e profunda ignorância, incapazes de enxergar para além do reduzido e mesquinho "mundo da lei". Sim, podem julgar-me. Acho essa gente perigosa, ainda mais lembrando que estão em expansão. A pobreza cívica de que padecemos, o raquitismo da nossa "vida democrática" e a arrogância  das "corporações", são realidades forjadas com a participação ativa dos nossos homens do direito.
Não há ambiente mais forte e influente no país do que o mundo da toga e da data vênia. Pena que em vez de preparar homens e cidadãos, o "direito" brasileiro tem gerado vaidosos, raivosos e prepotentes. As transmissões ao vivo dos julgamentos do STF não são motivo de orgulho para ninguém. O que se vê ali, em 99% do tempo, são manifestações de vaidades ocas. Ocas...profundamente ocas. 

 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

POEMA EM LINHA RETA

POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Nada desejar e nada recear...

"Nada desejar e nada recear...Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo...Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades... Jamais avançar senão com lentidão e desdém".
 
Eça de Queiroz - um dos mais importantes escritores portugueses da história

terça-feira, 12 de junho de 2018

Meios de informação :verdade e consequencia



Falta transparência aos comandos das televisões, rádios e jornais do Brasil. A exemplo do que exigem dos políticos, os meios de informação deveriam prestar contas de suas ações e decisões. Os políticos, pelo menos, prestam contas através de eleições regulares. É quem vota que decide a continuidade deste ou daquele grupo no poder. 
 
No caso da mídia, apesar da sua enorme relevância na nossa vida coletiva, os mecanismos de accountability são totalmente opacos. Temos televisões, rádios e jornais que se mantêm com recursos públicos. Outros vendem espaços para igrejas e existe canal de igreja para exercer poder político. É constitucional? Acho que não. 
 
Aliás, político pode explorar rádio e tevê? Se a resposta for sim, como fica o conceito da igualdade na disputa eleitoral democrática?  E por qual razão o Legislativo, Executivo e Judiciário não fiscalizam nada neste ramo? A resposta parece clara: mais de 300 parlamentares dispõem de concessões. Não quero fazer pré-julgamentos, mas acho que isso devia ser auditado e fiscalizado.
 
Naturalmente, não estou em campanha por controle da mídia ou fazendo crítica aos excelentes profissionais do jornalismo que têm resultados para apresentar. Estou dizendo, porquê é verdade, que falta transparência aos meios de informação. Ao longo dos anos, coube aos próprios meios de informação a tarefa de fiscalizar e exercer controle sobre seus excessos. Não estou dizendo que isso é certo ou errado. Estou dizendo que é assim.
 
Também não estou dizendo porque quero leis para mexer nisso. Não quero lei, quero debate, fiscalização, ajuste às determinações constitucionais e transparência. Sei que a defesa de leis neste campo pode atingir no peito o direito de opinião e a liberdade de expressão. Sou jornalista, dou valor à boa Constituição que temos com seus direitos e garantias individuais modernas e justas. E estou careca de saber que opiniões contrárias às minhas não são criminalizáveis. Ainda que o teor das críticas possa ser visto por mim como injusto ou de má fé.
 
Sim, sou radicalmente contra qualquer medida para limitar a liberdade de expressão, mas não posso deixar de dizer que acho insuportável a arrogância de alguns meios de informação. Quase todos os dias, vejo que os noticiários olham o mundo de cima para baixo e despejam críticas a granel, como se por trás dos textos existissem deuses, moral e intelectualmente superiores aos demais humanos.   

É isso:  a verdade é que o país permitiu que a própria mídia definisse as regras pelas quais a comunicação social se deveria governar. E estabelecesse o que é aceitável e reprovável eticamente. O que é bom e mau jornalismo, por exemplo. Verdade e consequência: os maiores prejudicados são os cidadãos, que recebem uma cobertura infantil, benigna, inexpressiva e sem dimensão humana da história que vivemos. 
 
E tome novela entre um intervalo comercial e outro. Não gosta? Então veja no outro canal o culto de um pastor que vende indulgências no Paraíso em troca da sua senha do cartão de débito. Ou, quem sabe, você prefere o pastor que tira -  ou será que põe? - demônios na mente dos crentes e dos inocentes. Pobre gente...Parece até que voltamos à Idade Média, no período anterior a Lutero.  











segunda-feira, 11 de junho de 2018

Amor em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que
não é nada comigo.
Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
[Manuel António Pina]

Ter ou não ter opinião

Ao contrário da maioria das pessoas, não tenho opinião uma vez por ano, mas também não tenho todos os dias. O mais frequente é não ter opinião. Ou ter preguiça de ficar pensando nos problemas para encaixar um ponto de vista decente e coerente. Acontece que isso acaba sendo um potencial problema quando se tem um blog onde é suposto ter opinião... Há assuntos sobre os quais me sinto um pouco como um animal em vias de extinção, um dos últimos espécimes que ainda não tem opinião, pasme-se, sobre um determinado tema.
Eu com tão pouca opinião e outros com opinião tão frequente e segura. E que sabem expressá-la com estilo, charme e clareza. Fico com muita raiva e alguma inveja. A verdade é que a opinião está muito mal distribuída, é o que é.  

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Como sou

Adicionar legenda
Tento ter alguma clareza sobre mim. Não é fácil. Quando estou vaidosa, penso que sou pessoa razoável, que tem compaixão pelos semelhantes, trabalha muito e luta para ser melhor a cada dia tentando não repetir seus erros. Quando estou de mal com o mundo, acho que sou nada. Mas como sou nos dias normais? 
 
1. Sou silenciosa de manhã e falante à noite. 
 
2. Gosto muito de ler, mas leio menos do que gosto. A leitura nos qualifica e nos leva a mundos que não são nossos. São minhas viagens favoritas e mais proveitosas. 
 
3. Adoro conversar com estranhos, com amigos, com qualquer pessoa. Estou sempre  disposta a ouvir os problemas dos outros. Dizem que tenho um quê de psicóloga. Pode ser. 
 
4. Minha filha, Júlia, meu marido Alberto, e meus netos, deram sentido à vida. Depois deles, passei a odiar a ideia da morte.
 
5. Minha formação e eventuais êxitos que tive no mundo do trabalho resultam do do meu esforço, mas devo tudo aos chefes e amigos do jornalismo. Sou grata a todos e a todas.
 
6. Gosto muito de café. Tomo mais de um litro ao longo do dia. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Descrença

Nunca foi tão ostensiva a ideia de que não podemos confiar nos gestores, nos trabalhadores; nos empresários e nos bancos. Também não podemos confiar nos jornais, nas televisões, na justiça, no fisco, nas escolas, nas prisões e no Congresso. Não podemos confiar porque, estranhamente, cresce a impressão que nenhum destes poderes, instituições ou pessoas funcionam como deveriam funcionar; nenhum age sem uma qualquer obscura motivação ou interesse. Não é por acaso que os institutos de pesquisas estão prevendo um índice recorde de abstenções, votos brancos e votos nulos. A propósito: será que podemos acreditar no que dizem esses levantamentos?

domingo, 29 de abril de 2018

Os partidos - linha ideológica


Considero que o PSDB é um partido de direita, francamente mais à direita do que PSB, PDT, PSOL e Rede. Basta olhar as votações no Congresso sobre Finanças, Defesa ou Trabalho.  Basta pensar no PT, claramente de centro-esquerda, para enxergar a diferença.
Além disso, a quase totalidade de eleitores do tucanato é conservadora ou liberal ou de centro-direita. Pesa nesta avaliação a parcela significativa do eleitorado dos Estados de São Paulo, Minas e do Paraná, que se mantém fiel ao PSDB há décadas.   
A história interna do partido é complexa, uma vez que a sigla tradicionalmente contou com alguns setores sociais-democratas - caso de Mário Covas e Franco Montoro. Não se pode esquecer ainda de FHC e José Serra, nomes de centro-esquerda que fogem do termo «direita» como o diabo da cruz.
Se fosse possível, num exercício de imaginação, uma eventual fusão do PT com o PSDB isso traria benefícios ideológicos ao País, até porque a recente deriva esquerdista do PT não lhe permite mais aspirar a uma luta séria pelo eleitorado do centro.
E o aparecimento de um partido à direita (mesmo se residual), criará um bode expiatório de todas as piores tentações direitistas, a que o PSDB nem sempre foi imune, como bem sabemos.
Se queremos um sistema político moderno, só faz sentido haver três partidos: um partido conservador-liberal, um partido socialista, e um partido radical de esquerda –  liderado por Guilherme Boulos e que, certamente, incluirá o PSOL.
quem cogite outro partido radical, à direita, capitaneado por Bolsonaro, embora esse interesse pareça residual. De todo modo, é possível. Afinal, em 2004, quando Sergio Moro escreveu artigo comparando a Lava-Jato à Operação Mãos Limpas, ele lembrou que dela resultou a destruição do sistema partidário italiano.
Por essa linha de raciocínio, a prazo, todos os outros partidos parecem condenados e tendem a ser cada vez menos importantes, apesar do sistema partidário brasileiro viver um período fragmentado.

PS: Quero assinalar que esta é uma posição pessoal, e que a maioria das pessoas, mesmo sem se pronunciar, pode achar que erro no julgamento. Não nego essa possibilidade.  No Brasil, além de difícil de avaliar, a política, em questões ideológicas, quase não faz sentido.  

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O Sujeito da Esquina completa 9 anos


Este blog completa hoje nove anos. Lembro quando escolhi o título "O Sujeito da Esquina".
Queria dizer que  não julgava minhas opiniões especiais ou importantes, mas uma perspectiva comum, como a de qualquer pessoa.
Na verdade, o objetivo era o de escrever  frases de circunstância, sobre fatos da minha rotina e da vida no Brasil.  Visto à distância julgo não me ter afastado do propósito inicial.
Agradeço a todos que passam os olhos no que venho deixando aqui, nem sempre com a assiduidade necessária. Nove anos passam depressa. Há muitas outras coisas que não.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Eu e a pesquisa


Não há cão nem gato que não tenha escrito qualquer coisa sobre a pesquisa Datafolha. Não faço outra coisa a não ser ler sobre isso desde domingo. Pelo que indicam os números ,o país, pelo visto, será entregue a qualquer um dos seguintes candidatos: Lula ou seu clone, Bolsonaro, Marina, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin ou quem sabe Joaquim Barbosa. Nada pessoal contra ninguém, mas são cenários que causam arrepios. Pela inexperiência de uns, o temperamento explosivo ou a vaidade oca de outros.  

sábado, 7 de abril de 2018

Lula no seu labirinto


Não, não é sinal do bom funcionamento da democracia que um ex-presidente tenha sido preso condenado por corrupção. Pensar que alguém pode chegar ao mais alto cargo da nação e utilizá-lo para benefício próprio, pressupõe que o escrutínio necessário a quem se candidatou ao cargo não foi feito e sobretudo que o poder soberano numa democracia, o povo que votou maioritariamente nele, foi enganado da pior forma.
O que pode ser pior do que isso? A tese do condenado de que temos uma justiça que encarcera um ex-presidente da República sem indícios ou provas fortes., com o objetivo de atender um conluio das elites. 
 
 

LULA PRESO


Lula é uma das duas ou três figuras que explicam a história recente do Brasil. Há outras pessoas importantes para se perceber o Brasil, como Getúlio, Juscelino, Fernando Henrique e Ulysses Guimarães. Mas Lula  é sem dúvida a mais reluzente delas. Muitas coisas que marcam nosso dia-a-dia têm a ver com o pensamento dele. Exemplo: a ideia de que país rico é país onde os pobres não passam fome.

Uma vez, quando ainda estava no jornalismo, chamei-lhe o idealista pragmático, ou o revolucionário pragmático. Ninguém pode negar sua atitude revolucionária. Dizem que Lula não é e nunca foi de esquerda. Balela. Sempre foi sindicalista e nunca abandonou a necessidade da violência, da luta armada, nunca defendeu que a transição no Brasil pudesse ser pacífica.  Submeteu-se para chegar ao poder, mas no peito carregava e carrega o ideal socialista.  

De todas as pessoas públicas que conheci no jornalismo, Lula é das mais vaidosas que é possível imaginar. É uma vaidade explícita. Além de dizer “eu sou o melhor”, ele parece acreditar na imagem que ele faz de si próprio na ficção. É um homem que se descreve a si próprio como a encarnação viva de um ideal que lhe apaga a personalidade, que lhe tira a pulsão pelos defeitos, que lhe apaga os pecados. Na verdade ele os nega.

Lula, mais do que ninguém, tem consciência de que sua prisão é o maior dano que poderia lhe acontecer. Não é por acaso que ele decidiu negar a realidade para ser uma memória presente e calorosa. Não dá para ignorar sua resiliência. 

segunda-feira, 26 de março de 2018

É possível acordar e sorrir...

Não sou das que esquece. E também não sou daquelas sem lado. Estou ativamente contra os projetos totalitários. E disposta a virar as costas a toda e qualquer tentativa de asfixia democrática. Venha de onde vier.
 
Agora mesmo, continuarei na Netflix. É muito exagero discordar de uma produção e sair pregando o dilúvio. Não gostou, não vê. Desliga. Ou não liga. E manifesta a discordância por meio de nota, entrevistas, ou o que desejar.
 
Campanhas contra uma janela importante da cultura conspira contra o direito dos outros. Leio opiniões fortes e não vomito. Eu também já tive a minha dose de revolta contra tudo e contra todos. Expressei minha raiva nos meus votos, não tenho esqueletos no armário. 
 
Nada do que um político já condenado fez difere muito do que outros políticos que aguardam julgamento fizeram, mas é preciso dar nome a todos os "bois". É preciso incluir outros setores institucionais na Lava-Jato e não apenas os políticos e empresariais. Cadê o Judiciário, as polícias?
 
Estou me preparando para o meu ajuste de contas nas próximas eleições. No fundo, é tudo farinha do mesmo saco, zunem os jornais, as rádios e as tevês. Pode existir pouca diferença entre os mecanismos, mas há pessoas com imenso brilho. Pessoas bacanas e bem intencionadas.

 
Este País é uma kizomba, já disse Martinho da Vila daquele jeito sorridente, devagar, devagarinho. Mas, de todo modo, apesar de tudo, ou por isso mesmo, é possível acordar e sorrir, mesmo quando dormimos mal. Ou quando temos pesadelos.