quinta-feira, 17 de maio de 2018

Descrença

Nunca foi tão ostensiva a ideia de que não podemos confiar nos gestores, nos trabalhadores; nos empresários e nos bancos. Também não podemos confiar nos jornais, nas televisões, na justiça, no fisco, nas escolas, nas prisões e no Congresso. Não podemos confiar porque, estranhamente, cresce a impressão que nenhum destes poderes, instituições ou pessoas funcionam como deveriam funcionar; nenhum age sem uma qualquer obscura motivação ou interesse. Não é por acaso que os institutos de pesquisas estão prevendo um índice recorde de abstenções, votos brancos e votos nulos. A propósito: será que podemos acreditar no que dizem esses levantamentos?

domingo, 29 de abril de 2018

Os partidos - linha ideológica


Considero que o PSDB é um partido de direita, francamente mais à direita do que PSB, PDT, PSOL e Rede. Basta olhar as votações no Congresso sobre Finanças, Defesa ou Trabalho.  Basta pensar no PT, claramente de centro-esquerda, para enxergar a diferença.
Além disso, a quase totalidade de eleitores do tucanato é conservadora ou liberal ou de centro-direita. Pesa nesta avaliação a parcela significativa do eleitorado dos Estados de São Paulo, Minas e do Paraná, que se mantém fiel ao PSDB há décadas.   
A história interna do partido é complexa, uma vez que a sigla tradicionalmente contou com alguns setores sociais-democratas - caso de Mário Covas e Franco Montoro. Não se pode esquecer ainda de FHC e José Serra, nomes de centro-esquerda que fogem do termo «direita» como o diabo da cruz.
Se fosse possível, num exercício de imaginação, uma eventual fusão do PT com o PSDB isso traria benefícios ideológicos ao País, até porque a recente deriva esquerdista do PT não lhe permite mais aspirar a uma luta séria pelo eleitorado do centro.
E o aparecimento de um partido à direita (mesmo se residual), criará um bode expiatório de todas as piores tentações direitistas, a que o PSDB nem sempre foi imune, como bem sabemos.
Se queremos um sistema político moderno, só faz sentido haver três partidos: um partido conservador-liberal, um partido socialista, e um partido radical de esquerda –  liderado por Guilherme Boulos e que, certamente, incluirá o PSOL.
quem cogite outro partido radical, à direita, capitaneado por Bolsonaro, embora esse interesse pareça residual. De todo modo, é possível. Afinal, em 2004, quando Sergio Moro escreveu artigo comparando a Lava-Jato à Operação Mãos Limpas, ele lembrou que dela resultou a destruição do sistema partidário italiano.
Por essa linha de raciocínio, a prazo, todos os outros partidos parecem condenados e tendem a ser cada vez menos importantes, apesar do sistema partidário brasileiro viver um período fragmentado.

PS: Quero assinalar que esta é uma posição pessoal, e que a maioria das pessoas, mesmo sem se pronunciar, pode achar que erro no julgamento. Não nego essa possibilidade.  No Brasil, além de difícil de avaliar, a política, em questões ideológicas, quase não faz sentido.  

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O Sujeito da Esquina completa 9 anos


Este blog completa hoje nove anos. Lembro quando escolhi o título "O Sujeito da Esquina".
Queria dizer que  não julgava minhas opiniões especiais ou importantes, mas uma perspectiva comum, como a de qualquer pessoa.
Na verdade, o objetivo era o de escrever  frases de circunstância, sobre fatos da minha rotina e da vida no Brasil.  Visto à distância julgo não me ter afastado do propósito inicial.
Agradeço a todos que passam os olhos no que venho deixando aqui, nem sempre com a assiduidade necessária. Nove anos passam depressa. Há muitas outras coisas que não.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Eu e a pesquisa


Não há cão nem gato que não tenha escrito qualquer coisa sobre a pesquisa Datafolha. Não faço outra coisa a não ser ler sobre isso desde domingo. Pelo que indicam os números ,o país, pelo visto, será entregue a qualquer um dos seguintes candidatos: Lula ou seu clone, Bolsonaro, Marina, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin ou quem sabe Joaquim Barbosa. Nada pessoal contra ninguém, mas são cenários que causam arrepios. Pela inexperiência de uns, o temperamento explosivo ou a vaidade oca de outros.  

sábado, 7 de abril de 2018

Lula no seu labirinto


Não, não é sinal do bom funcionamento da democracia que um ex-presidente tenha sido preso condenado por corrupção. Pensar que alguém pode chegar ao mais alto cargo da nação e utilizá-lo para benefício próprio, pressupõe que o escrutínio necessário a quem se candidatou ao cargo não foi feito e sobretudo que o poder soberano numa democracia, o povo que votou maioritariamente nele, foi enganado da pior forma.
O que pode ser pior do que isso? A tese do condenado de que temos uma justiça que encarcera um ex-presidente da República sem indícios ou provas fortes., com o objetivo de atender um conluio das elites. 
 
 

LULA PRESO


Lula é uma das duas ou três figuras que explicam a história recente do Brasil. Há outras pessoas importantes para se perceber o Brasil, como Getúlio, Juscelino, Fernando Henrique e Ulysses Guimarães. Mas Lula  é sem dúvida a mais reluzente delas. Muitas coisas que marcam nosso dia-a-dia têm a ver com o pensamento dele. Exemplo: a ideia de que país rico é país onde os pobres não passam fome.

Uma vez, quando ainda estava no jornalismo, chamei-lhe o idealista pragmático, ou o revolucionário pragmático. Ninguém pode negar sua atitude revolucionária. Dizem que Lula não é e nunca foi de esquerda. Balela. Sempre foi sindicalista e nunca abandonou a necessidade da violência, da luta armada, nunca defendeu que a transição no Brasil pudesse ser pacífica.  Submeteu-se para chegar ao poder, mas no peito carregava e carrega o ideal socialista.  

De todas as pessoas públicas que conheci no jornalismo, Lula é das mais vaidosas que é possível imaginar. É uma vaidade explícita. Além de dizer “eu sou o melhor”, ele parece acreditar na imagem que ele faz de si próprio na ficção. É um homem que se descreve a si próprio como a encarnação viva de um ideal que lhe apaga a personalidade, que lhe tira a pulsão pelos defeitos, que lhe apaga os pecados. Na verdade ele os nega.

Lula, mais do que ninguém, tem consciência de que sua prisão é o maior dano que poderia lhe acontecer. Não é por acaso que ele decidiu negar a realidade para ser uma memória presente e calorosa. Não dá para ignorar sua resiliência. 

segunda-feira, 26 de março de 2018

É possível acordar e sorrir...

Não sou das que esquece. E também não sou daquelas sem lado. Estou ativamente contra os projetos totalitários. E disposta a virar as costas a toda e qualquer tentativa de asfixia democrática. Venha de onde vier.
 
Agora mesmo, continuarei na Netflix. É muito exagero discordar de uma produção e sair pregando o dilúvio. Não gostou, não vê. Desliga. Ou não liga. E manifesta a discordância por meio de nota, entrevistas, ou o que desejar.
 
Campanhas contra uma janela importante da cultura conspira contra o direito dos outros. Leio opiniões fortes e não vomito. Eu também já tive a minha dose de revolta contra tudo e contra todos. Expressei minha raiva nos meus votos, não tenho esqueletos no armário. 
 
Nada do que um político já condenado fez difere muito do que outros políticos que aguardam julgamento fizeram, mas é preciso dar nome a todos os "bois". É preciso incluir outros setores institucionais na Lava-Jato e não apenas os políticos e empresariais. Cadê o Judiciário, as polícias?
 
Estou me preparando para o meu ajuste de contas nas próximas eleições. No fundo, é tudo farinha do mesmo saco, zunem os jornais, as rádios e as tevês. Pode existir pouca diferença entre os mecanismos, mas há pessoas com imenso brilho. Pessoas bacanas e bem intencionadas.

 
Este País é uma kizomba, já disse Martinho da Vila daquele jeito sorridente, devagar, devagarinho. Mas, de todo modo, apesar de tudo, ou por isso mesmo, é possível acordar e sorrir, mesmo quando dormimos mal. Ou quando temos pesadelos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Brasil


Jornalista por vocação, cedo comecei a ter pena do meu País. Aprendi que em outros lugares havia pessoas sem medo nem miséria, existia menos desigualdade e menos desespero. Vale dizer: existiam lugares onde as leis eram justas e estavam em vigor para todos. 

Não, eu não acreditava em paraísos, mas em sociedades onde a esperança de melhoria era um fato, a desigualdade menos gritante e a liberdade um direito. Fui vendo, estudando, viajando, comparando, e continuei a ter ainda mais pena da terra onde nasci. Me entusiasmei com a volta da democracia e as eleições diretas.  Houve alguns poucos avanços. 

Passaram os anos. E nada mudou de forma substancial. Fui sentindo mais funda a pena, mesmo tendo conquistado o conforto de viver na parte mais rica e bem organizada do país. Sim, materialmente não sofro com as mazelas, mas nem por isso me dói menos ver e conviver com a desigualdade e a falta de futuro para a maioria.  

Na minha idade é quase nula a esperança que tenho de ver o Brasil sair do atoleiro e da miséria. Resta-me a certeza de que o novo sempre vem. E o sonho de que os que agora são jovens, e os que vierem, possam construir um país de que se possam orgulhar e não lhes doa como este a mim dói.
 

terça-feira, 20 de março de 2018

Não aceitem o habitual...


"Não aceitem o habitual como coisa natural, pois em tempos de desordem, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar"


Bertold Brecht

quarta-feira, 14 de março de 2018

Tive amigos...


“Tive amigos que morriam, outros que partiam/

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo/

Odiei o que era fácil/

Procurei-me na luz, no ar, no vento”.

Sophia de Mello Breyner

Mulheres

As mulheres são mais inteligentes emocionalmente do que os homens?

A empatia, traço de inteligência emocional que nos permite compreender como outras pessoas se sentem e ajuda a forjar conexões mais próximas com elas, pode ser determinada geneticamente, pelo menos em parte, e é mais comum nas mulheres do que nos homens, segundo um novo estudo.
Este estudo com 46 mil pessoas, feito pela Universidade de Cambridge, em Inglaterra, é o primeiro a encontrar evidências de que os genes têm um papel no nível de empatia dos seres humanos.
Até hoje, a empatia era considerada um traço de personalidade que pode ser desenvolvido durante a infância e através das experiências de vida. Esta característica ajuda a reconhecer as emoções de outras pessoas e a responder de maneira apropriada, por exemplo, para saber quando alguém está triste e precisa de ser consolado. Mas na nova pesquisa, divulgada no periódico científico Translational Psychiatry, cientistas debruçaram-se sobre a hipótese de esta característica também poder estar nos nossos genes.

“Quociente de empatia”

Os participantes do estudo tiveram o seu “quociente de empatia” medido através de um questionário e forneceram amostras de saliva para testes de ADN.
A partir daí, os cientistas procuraram diferenças nos seus genes que pudessem explicar porque é que algumas pessoas são mais empáticas do que outras.
Descobriram que, pelo menos, 10% das diferenças no grau de empatia das pessoas podem ser creditadas à genética. E determinaram também que as diferenças genéticas associadas a um menor grau de empatia estão ligadas a um risco maior de autismo.
As mulheres tiveram pontuação média maior do que os homens no questionário. Do máximo de 80 pontos, as voluntárias conseguiram, em média, 50, contra 41 deles.
Mas os investigadores afirmam que ainda não conseguiram identificar que traços genéticos são os responsáveis pela diferença de género.
“É um passo muito importante para entender o papel que a genética tem nesta capacidade”, refere o líder do estudo, Varun Warrier, citado pela BBC.
“Mas como só um décimo da variação de empatia entre os indivíduos é causado pela genética, continua a ser muito importante entender os factores não genéticos”, destaca.

É preciso estudar mais pessoas

No entanto, os cientistas reconhecem que a pesquisa tem limitações. O facto de o quociente de empatia ser determinado por um questionário, por exemplo, poderá enviesar os resultados.
Além disso, ainda não conseguiram encontrar os “genes da empatia”, especificamente responsáveis pela característica, apesar de terem percebido diferenças entre pessoas mais ou menos empáticas.
Os autores do estudo afirmam que é preciso um número ainda maior de pessoas para encontrar possíveis genes que afectem o grau de empatia.
O professor Gil McVean, que lecciona genética estatística na Universidade de Oxford, no Reino Unido, refere à BBC que o papel dos genes na empatia ainda é “menor”, quando comparado com outros factores relacionados com o ambiente em que a pessoa cresce.
“Sabemos que qualquer coisa que se pode medir nos humanos tem uma componente genética. Isso já estabelece que a empatia também pode ter uma componente hereditária”, afirma.
Edward Baker, do departamento de psicologia da King’s College London, refere que o estudo é um “primeiro passo” para explorar o elo de ligação entre a genética e a personalidade. O investigador concorda, no entanto, que é necessário investir numa pesquisa ainda maior.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Carta a uma amiga da juventude que reencontrei no Facebook


Maria das Graças,

Estou feliz e comovida com este reencontro virtual, depois de tantos e tantos e anos.

Não tenho facebook, mas o Beto - meu marido desde o século passado - acessou o dele no meu computador e vi algumas propostas de amizade. Fiz uma dancinha ao te reconhecer na foto. E senti uma grande saudade.

Ninguém esquece o período em que tinha vinte anos, em que tudo parecia possível.  

Passaram trinta anos. O tempo produziu um conjunto de novos laços nas nossas vidas, mas, no meu caso, alguns antigos não se desfizeram.

Quero dizer do muito que é a sua pessoa que conheci, amei e ainda amo: a professora competente, a amiga de coração doce, a mãe do Humberto, a fã das músicas norte-americanas, a filha que sabia perdoar.

A vida aconteceu e demonstrou-me que, afinal, "nem tudo era possível". Nem que fosse por isto, a sua imagem feliz sempre esteve na minha memória, me lembrando o ritual que eu decididamente aprendi com você. O da amizade.

Muitas voltas foram dadas, desde a última vez que te vi. Fiz carreira proveitosa no jornalismo, mas agora estou trabalhando menos. Tenho uma filha, Julia, de 34 anos, que me deu três netos: Giovana, de sete anos e os gêmeos Arthur e Victor de oito meses.

E Humberto, como vai? E você?

Gostaria de vê-la. Se achar isso possível, se quiser me visitar, ou se achar viável marcar um almoço, ou mesmo um café aí em Belo Horizonte, dou um jeito de ir.

É isso: a história da minha vida teria um vácuo desagradável, se eu não pudesse contar com as doces lembranças do tempo em que tive a alegria de conviver com você.

Um forte e saudoso abraço

Vanda Célia     

 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O que é um bom líder político?

Como dizia Mitterrand, a política, para além de representar a tentativa permanente da solução dos problemas de pessoas concretas que vivem em sociedade, também é um ato humano carregado de significado. Exige caráter, coragem, dedicação e amor ao próximo. Exige gente capaz de grandes gestos e de rupturas indispensáveis. Gente que não aceita o anonimato, a linearidade e a insignificância.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança duma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”
Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.

Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos (1940)

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A verdade...

Advertência: A linguagem pode ser a forma principal das pessoas se esconderem. Sobre isso Fernando Pessoa disse: "quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo".

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Carnaval e Futebol

 
Numa sociedade em que as emoções são cada vez mais controladas em nome da civilização e dos deveres de convivência, Carnaval e Copa são fantásticos momentos de excitação, transgressão e de certo descontrole de algumas manifestações reprimidas. 
 
São instantes com todos os ingredientes de que se compõe o melhor da vida: a competição, a sorte e o azar, o talento, a superação, o riso, o choro, o risco e o suposto elemento neutro: o árbitro — que nos permite justificar qualquer revés.
 
Aquele senhor de preto correndo pelo campo e os juízes invisíveis das notas na quarta-feira nos permitem considerar que nem toda a derrota é total. Nada mais humano que justificar os 7 x1 que temos de enfrentar nas derrapagens da vida.
 
A explosão de alegria do Carnaval — com o inacreditável pit stop das mazelas rotineiras — causa espanto e admiração.   Já a paixão pelo futebol, normal aqui e em todos os países do mundo, é um fenômeno que devia ser melhor apurado  por estudiosos.
 
No Brasil, o futebol é tudo e o resto é quase nada. Não é por acaso que a elite dirigente tenta usar o esporte como instrumento legitimador. Tem muita coisa em jogo aí. É  por meio desse esporte que indivíduos excluídos chegam à condição de heróis. 
 
É por meio das competições entre clubes e países que os pobres conseguem ter a sensação de “pertencer” a uma torcida, a um time e, principalmente,  ao Brasil. É um dos únicos momentos em que os pobres “pertencem”, fazem parte de algo.
 
Os jogadores são elevados à condição de heróis por várias razões. Uma delas: são a afirmação de um sentimento raro: o orgulho de ser brasileiro. Outra: dão a entender que existe mobilidade e que somos um país de avanços sociais, o que nem é verdade.
 
Para alguns críticos, o futebol induz ao conformismo. E daí, pergunto eu. Em um país marcado pela desigualdade só o futebol ainda pode nos fazer acreditar, pelo menos em raros momentos, que somos todos iguais, todos brasileiros e que estamos todos juntos.
 
O futebol cumpre funções muito além do que seria racional porque o Estado é incapaz de promover políticas públicas de educação. Sem escola, o brasileiro destaca-se pelo futebol (Pelé etc) pela música (Tom Jobim etc) e pela beleza (Gisele etc).
 
Como dizia Darcy Ribeiro, os dons do brasileiro não chegam pela escola, mas pela natureza, pela genética ou pelas mãos de Deus. Em 2018 temos uma Copa e, mais uma vez, devemos nos consagrar na Rússia pelo nosso maior esporte. 
 
A autoestima do país dependerá do resultado da competição. É sofrido saber disso – afinal o jogo é dominado pela arbitrariedade: a sorte e o azar, ou o mau momento de um jogador. Não há nada a fazer. Paciência...vamos todos compartilhar uma festa fantástica.
 
É Carnaval, não leve a mal, mas não posso encerrar sem dizer uma coisa: levando em conta a descrença geral, só fico preocupada com uma coisa: o que é que vai acontecer num eventual cenário de derrota? Bate na madeira, mangalô três vezes.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A qualidade da democracia


Tão importante como a democracia em si mesma é a sua qualidade. A democracia qualifica-se, entre outros fatores, pela transparência no exercício da função política e pelas medidas adotadas para prevenir os conflitos de interesses e a corrupção, o que influencia enormemente a credibilidade e a confiança que as instituições inspiram nos cidadãos.
A fiscalização da atividade de representação e a transparência na defesa de interesses (lobbying) nos três poderes significa instrumento fundamental de integridade e lisura no exercício das atividades públicas.
Na Europa há quem defenda, em nome da separação dos poderes, a incompatibilidade de advogados na função parlamentar. Alegam que advogados participam na função judicial de aplicação das leis e podem ter interesses em alterar ou manter determinada legislação em função das causas dos seus clientes em lugar das causas da cidadania.
 
Argumentam que os fundadores da teoria da separação de poderes (Locke e Montesquieu, principalmente) consideram essencial um ponto: quem faz as leis não deve participar na sua execução, e vice-versa. Nessa perspectiva, advogados-deputados e juízes com participação em escritórios de advocacia estariam infringindo as regras.
 

sábado, 27 de janeiro de 2018

Crônica da vida que passa


Por Fernando Pessoa

“Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeismo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeismo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade. Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele-próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz. E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de génio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos. Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida-eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da cousa transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez. Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas - e quem sabe a que ponto reais? - que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.”

(in Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)


Texto reproduzido do Blog Portugal dos Pequeninos de João Gonçalves

domingo, 21 de janeiro de 2018

Fogo e Fúria


Terminei de ler “Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca de Trump”, do jornalista Michael Wolff — livro que relata ao mundo um perfil sombrio de Donald Trump. Não há uma só palavra que realmente o ajude.
Da vitória inesperada, à obsessão por Putin, o presidente dos Estados Unidos — narcisista e distraído demais para ser capaz de governar — não teria a menor “noção” do lugar que ocupa na história.
Além disso, seu alto escalão estaria rachado, se digladiando. No centro desta guerra, esteve o hoje ex-conselheiro Steve Bannon e a família de Trump, mais especificamente, a filha Ivanka e o cunhado Jared Kushner.
Todos disputavam força e influência sobre o presidente e certamente uma das fontes de Wolff foi Steve Bannon. Ele é citado várias vezes ao longo do texto – bem escrito e uma leitura agradável.
 
Exemplo: “No Salão Oval, na frente do pai dela, Bannon atacou abertamente [Ivanka]. ‘Você’, ele disse, apontando para ela enquanto o presidente assistia, ‘é uma mentirosa do caralho’.
O retrato de Trump é demolidor. Ele é descrito como avoado, um indivíduo com capacidade de concentração curta, incapaz de ler resumos de planos políticos, analisar problemas e tomar decisões bem embasadas.
Trump seria alguém que vê TV frequentemente e que segue frustrado e confuso com o fato de não ter obtido aprovação generalizada dos americanos.
Seus assessores aparecem cientes de seus defeitos e, segundo o livro, se perguntam por quanto tempo podem manter a ilusão de que Donald Trump é capaz de governar.
“Somos todos perdedores”, teria dito Trump ao longo da campanha. ‘Todo o nosso pessoal é terrível, ninguém sabe o que está fazendo'”.
Em conversa com doador eleitoral, ele teria sido mais específico: “Esta coisa’ – disse sobre a campanha – ‘está fodida'”.
– O choque da vitória –
“Ao longo da campanha, quando o inesperado parecia se confirmar – surgiu um Donald Trump que achava ser totalmente capacitado a ocupar a Presidência dos Estados Unidos”.
Tudo combinado com os russos?
“Os três caras mais importantes da campanha’ (Donald Trump Jr, o genro de Trump, Jared Kushner, e o chefe de campanha, Paul Manafort), tiveram reunião explosiva com um governo estrangeiro na sala de conferências, no 25º andar da Trump Tower, e sem advogados.
Diz trecho do livro: “Eles não tinham advogados. Mesmo que você pensasse que isto não era traição, antipatriótico ou uma merda ruim – o FBI deveria ter sido chamado imediatamente'”.
Trump não sabe nada da Constituição?
Sam Nunberg foi enviado para explicar a Constituição para o então candidato, mas não passou da Quarta Emenda
Trump teme ser envenenado – “Ele tem um medo antigo de ser envenenado, razão pela qual gosta de comer no McDonald’s – ninguém sabia que ele estava chegando e a comida estava seguramente pré-preparada”.
– As pretensões presidenciais de Ivanka – A primeira mulher presidente nos Estados Unidos, considera Ivanka, não seria Hillary Clinton, seria Ivanka Trump.”
– Uday e Qusay Trump – “Seus filhos, Don Jr. e Eric, são chamados pelas costas por pessoas próximas de Trump de Uday e Qusay, nomes dos filhos de Saddam Hussein”.
– Rupert Murdoch sobre Trump
“Que idiota da porra”, teria exclamado o magnata dos meios de comunicação, depois de conversar sobre imigração com Trump.
Ivanka revela o segredo do topete – Ivanka “trata o pai com certo distanciamento, inclusive com ironia, a ponto de fazer brincadeiras com os outros sobre seu penteado.
Ela explicou aos amigos: Trump tem uma parte totalmente calva no topo da cabeça – depois de uma cirurgia de redução da pele do crânio – rodeada por um círculo de cabelo dos lados e à frente; as extremidades são penteadas para se encontrarem no centro e, depois, jogadas para trás, e fixadas com spray.
A cor, ela observa com tom cômico, é de um produto chamado ‘Just for Men’. Quanto mais tempo fica aplicado, mais escuro o cabelo fica. A impaciência resultou no louro-alaranjado de Trump”.
Retórica tosca...
É isso, este é o homem que manda na Casa Branca.  O livro despreza e desmonta a retórica tosca e semi-primária de Trump, o homem que está dando aos Estados Unidos (e ao mundo) o que dele se esperava.