sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Democracia sempre...

No momento em que todos os olhares se voltam para o Supremo Tribunal Federal, STF, com posições apaixonadas de dois lados, gostaria de assinalar que a divergência, em questões essenciais, entre diferentes partidos, diferentes políticos e diferentes cidadãos, não é apenas normal em democracia. Não é apenas saudável. Não é apenas importante. É a justificação para considerarmos a democracia a melhor forma de organizarmos a nossa convivência política.
 
A democracia só é necessária porque as coisas são assim. E as coisas são assim porque o ser humano é dotado de inteligência e liberdade de pensamento.
 
A democracia resolve estas divergências com a liberdade de expressão, organização e reunião, com a organização do conflito social e com eleições. Fora dela, estas divergências resolvem-se com armas e prisões. Quem olha para estas divergências como um problema, e não como uma enorme vantagem, não se limita a não compreender a democracia. É, no essencial, antidemocrático. Porque é nesta incompreensão que se baseiam todas as ditaduras.
 
Dão-se nomes diferentes ao que deve prevalecer à divergência: os nacionalistas chamam-lhe Pátria, os teocratas chamam-lhe Deus, os comunistas chamam-lhe vanguarda, alguns outros chamam-lhe "salvação nacional". Mas todos acreditam no mesmo: que a sua posição é indiscutível. E que quem dela discorda apenas se pode mover por interesses mesquinhos, sejam eles pessoais ou partidários.
 
Sim, a política é, como a vida, o território do conflito. A democracia apenas cria as condições para que ele seja resolvido. Por meio de concessões, claro. Com diálogo, muitas vezes. Com negociações, sempre que necessário. Mas aceitando sempre, no fim, que a ausência de acordo, quando os pontos de vista são mais distantes, é natural. E que a democracia tem, para resolver a impossibilidade de compromisso, os instrumentos necessários. Prevalece, no respeito por regras instituídas, por patrimonio comum e pela tolerância e pluralismo, a posição da maioria.
 
A expressão democrática do conflito, mesmo quando vem de uma minoria, não pode, em nenhuma circunstância, ser tratada como "ruído". E muito menos se pode exigir "silêncio" a quem cumpre a obrigação democrática de expressar as suas discordâncias.
 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Um dia sem ano...



Como todas as datas que mudaram o mundo, o 11 de Setembro não tem ano. É o 11 de Setembro,  dia que se assinala por ser conhecido, estar incluído na nossa história, na nossa linha do tempo. É um marco e todo o mundo entende que naquele dia a contagem do tempo mudou. . Vi a cena toda ao vivo e lembro direitinho. Eu havia chegado cedo ao Senado e olhava o noticiário na tevê  quando apareceram as primeiras imagens de um dos edifícios com aquela fumaça negra. O locutor não sabia dizer com exatidão o que tinha ocorrido, parecia acreditar em um incêndio e repetia que aguardava mais unformações. De repente, um avião de grande porte entrou no cenário voando rápido. O locutor parecia espantado e só conseguiu dar um grito quando o avião atingiu em cheio o segundo edifício das torres gêmeas.  Não podia acreditar no que via e tive certeza que o mundo estava entrando em guerra. Uma guerra sem fim que causa danos a todos nós. Não é por acaso que nossos e-mails podem ser lidos por bisbilhoteiros. Tudo virou pretexto para combate ao terrorismo. Um terror....Pois é, aquele 11 de setembro está marcado para sempre na nossa história, na nossa linha do tempo. Um dia terrível. Um dia sem ano. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Uma vida sem memória não seria vida...



Meus amigos me conhecem como sendo uma pessoa que tem boa memória. É verdade. Me apego a detalhes incríveis e consigo mostrar a todos que conservo lembranças detalhadas do passado mais remoto. Tento me lembrar de tudo que posso. Uma vida sem memória não seria vida.

A nossa memória é a nossa coerência, a nossa razão, a nossa ação, o nosso sentimento. Sem ela, não somos nada. Mas o que é mesmo a memória? Em “O Meu Último Suspiro”, livro semibiográfico, Luis Buñuel, logo de ínicio, antes de começar a evocar o passado, adverte o leitor: ele pode se deparar com falsas recordações nas páginas seguintes. O cineasta tem razão.

Indispensável e onipotente, a memória é também frágil e ameaçada. Ameaçada não só pelo esquecimento, o seu eterno inimigo, mas também pelas falsas recordações que a invadem dia após dia. A memória é constantemente invadida pela imaginação e pelo devaneio.

Temos a tentação de acreditar na realidade do imaginário, tanto que podemos fazer da nossa mentira uma verdade. O que é, aliás, de uma importância relativa, já que uma e outra são igualmente vividas e pessoais.

Quem não faz uma seleção do que deseja realmente lembrar e do que deseja esquecer? Quantas vezes a gente não assume, no passado, uma coragem que nunca teve e que nunca vai ter?

Como diz, lindamente por sinal, o cineasta e escritor Luiz Buñuel na abertura do seu magnífico livro: (…) "Sou composto pelos meus erros e dúvidas, a par das minhas certezas. Não sendo historiador, não recorro a quaisquer apontamentos ou a qualquer livro. O retrato que aqui proponho será sempre o meu, com as minhas afirmações, hesitações, repetições a lacunas, com as minhas verdades e as minhas mentiras, numa palavra: a minha memória.”

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Eu e o Beto





O casamento é um contrato de amor, de convivência, de construção conjunta de projetos de vida. É uma aposta de vida em constante reajuste.
PS: Este post foi feito para comemorar hoje, 31 de julho, mais um aniversário de casamento com o Beto, amor da minha vida.

sábado, 20 de julho de 2013

Crítica não é raiva. É crítica.


Paulo Francis lamentava a falta de roteiristas no Brasil. Achava que poderiam escrever com clareza a nossa história, valendo-se da vida de alguns personagens. Segundo ele, através do cinema e da tevê, com os recursos disponíveis, teríamos consciência do nosso legado histórico de forma leve e acessível. Como exemplo da nossa trágica impunidade, e ponto de partida para um bom roteiro, ele citava Filinto Müller, personagem sinistro do Estado Novo que morreu livre e foi coberto de homenagens póstumas, a despeito da fieira de crimes que teria cometido.

Acredito que o jornalista Paulo Francis, odiado pela franqueza e pelo estilo duro de expor fragilidades alheias, deveria ser mais lido pelos jovens. Além de ter paixão pela polêmica, e de manifestar convicções com coragem, ele escrevia bem. Acreditava que bons textos são como roteiros de cinema, decifrados por pessoas de qualquer idade e compreendidos em todas as culturas.

Quando era criticado por ser rude, Francis reagia: "Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que quem ofende os outros e os leitores é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado."

Francis pertenceu a um tempo de ouro do jornalismo impresso, quando os jornais publicavam análises políticas escritas por nomes de grande cultura literária. Análises criativas e saborosas. Para escrever em jornal não bastava só assumir uma posição, ou lavrar sentença como juiz e ditar regras. Era preciso honrar o idioma como fazem hoje João Pereira Coutinho, Dora Kramer, Elio Gaspari, Ricardo Noblat e Eliane Cantanhêde.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A bandeira está de volta...


A bandeira do Brasil está de volta às primeiras páginas dos jornais e das revistas e, com ela, todo o patriotismo que nos une. É bonito de ver essas coisas porque nessas horas os brasileiros esquecem tudo de ruim que existe e passam a achar que o Brasil está onde o seu futebol o coloca. E o ego da galera fica gigantesto. Tão gigantesco que ninguém mais consegue ver a desigualdade e o atraso do País na saúde, na educação, na segurança, na cultura e na tecnologia. Pois é, falta muito para a construção de um Brasil mais justo e mais decente, mas vamos chegar lá. Temos muitas vantagens e uma das maiores é o patriotismo que nos une, e que sempre ajudou o Brasil a superar todas as crises ao longo de sua história. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eu me rendo...




A Igreja Católica (a que pertenço) está a favor das manifestações. O Sindicato dos Jornalistas (a que pertenço) está a favor das manifestações. Os «intelectuais e artistas» (aos quais vagamente conheço, mas admiro) estão a favor das manifestações. Os políticos que receberam meu voto estão a favor das manifestações. Meus amigos, minhas amigas, minha filha e meu genro estão a favor das manifestações. Estou mantendo a calma, mas espero que o Vasco da Gama não se pronuncie.



quarta-feira, 19 de junho de 2013

Para que serve a política?

A confiança nas instituições do poder – e não apenas do poder político – se encontra, certamente, ao rés do chão. Essa confiança nunca foi extraordinária, mas agora tornou-se ostensiva a ideia de que não podemos confiar – nos líderes políticos, nos gestores, nos líderes dos trabalhadores; nos jornais, nas televisões, na Justiça, nas igrejas ou nas escolas.

Não podemos confiar porque, estranhamente, cresce a impressão que nenhum destes poderes, instituições ou pessoas, funciona como deveria funcionar; nenhum destes poderes age sem uma qualquer obscura motivação ou interesse. Por isso, chegamos neste estado de coisas.

E agora, o que fazer? Temos de mudar. Creio que precisamos refletir, voltar à política e buscar soluções com maturudade. Não adianta exigir rupturas e revoluções. O Brasil não é uma ilha e não se mudam as leis da economia e da concorrência.

A mudança deve vir, mas penso que terá de ser sensata e eficaz, levando em conta que não podemos perder conquistas porque a vida dos mais pobres no Brasil melhorou bastante nos últimos 20 anos. E tudo isso custou muito a todos nós que fazemos parte da sociedade brasileira.  

Depois de tudo que ocorreu nas últimas horas, vamos ver o que vai acontecer, mas torço para que governadores, deputados, senadores, empresários e a presidente da República, enfim, todos os líderes, busquem propósitos grandes, realistas e firmes. Não devemos ser um país de fins intermédios, interesses particulares e promessas próximas.

A política deve tratar da paz e da prosperidade das pessoas, mas deve também servir para traçar grandes propósitos. Afinal, nada nessa vida tem muito sentido sem algum ingrediente de sonho e de grandeza épica.  



terça-feira, 18 de junho de 2013

Tenho medo de multidões...



Tenho medo de multidões. As verdadeiras barbaridades costumam emergir no meio de multidões. Na nossa solidão, ou na companhia dos amigos e da família, somos agradáveis e toleráveis; mas experimentem juntar um punhado de pessoas e vejam o vandalismo de imediato.

Nos protestos, observem a minoria que espuma um imenso ódio e que sai na frente quebrando e incendiando tudo. Não faz sentido. Como disse Jean Paul Sartre, “a violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”.

É preciso tentar entender a insatisfação das pessoas sim, mas, é preciso, igualmente, pôr a cabeça em ordem. A democracia não é nenhum regime de multidões, nenhum regime da rua, nenhum regime em que os vândalos andam à solta a praticar insanidades.

A democracia, queridos amigos e queridas amigas, é apenas uma forma de convivência pacífica, regrada, decente, que nos permite conduzir livremente a nossa vida, jantar de garfo e faca, tomar banho morno e ter certeza que o lixo da rua será recolhido.

Costumo assustar-me com algumas coisas, mas nada me irrita mais que aqueles que acham possível construir uma sociedade decente sem ordem, sem regras e sem uma noção digna e relevante da função das forças policiais e de segurança.


sábado, 15 de junho de 2013

Eu protesto...



Em Brasília, certa vez, queimaram um índio e a popularidade do então presidente Fernando Henrique Cardoso desabou oito pontos em um mês. Quem contou a história à revista Época, onde eu trabalhava na ocasião, foi o próprio Fernando Henrique durante entrevista no Alvorada. O que ele queria dizer? 1) que um Presidente da República, mesmo não tendo nada a ver com alguns fatos, acaba pagando o pato por quase tudo de ruim que acontece e 2) que coisas ruins, às vezes, acontecem porque os países passam por momentos imprevisíveis e injustificáveis de grande impaciência social, com as pessoas exaustas e os jovens quebrando o que encontram pela frente. Será que chegou a nossa vez?
 
Nossa juventude está se metendo em formas variadas de protesto. Do Movimento Pelo Passe Livre passando pela Parada Gay, Marcha da Maconha, Marcha das Vadias, Veta Dilma, Existe Amor, Apoio ao Movimento dos Sem Teto e Fora Pastor Feliciano. Muitos usam nas redes sociais o sobrenome Guarany Kayowá em apoio aos índios. "Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar!", gritam em São Paulo. Querem transporte público, mas depredam estações de metrô. Condenam Belo Monte, mas passam dias e noites nas redes sociais gastando energia.

A indignação é um direito, mas adianta pouco. Este pensamento conservador me ocorre desde a juventude. Na verdade, nunca alimentei ambiguidades sobre minha eterna condição de conservadora,  moderada. Sempre fui parte desta minoria. Meus amigos de esquerda,  que formavam, e ainda formam a maioria, é que adoravam a rua e os protestos. A esquerda adora a rua. A rua é animada, ali há música, dança, alegria e cerveja.  

Na rua protesta-se, empunham-se cartazes, bandeiras, berram-se slogans, desfila-se, aplaude-se! Nas manifestações a política é uma sensação, o mundo é belo  e quando vier a revolução, seremos todos felizes. Como perdi a maioria das manifestações da juventude, por não me alinhar à esquerda, estou querendo me redimir na velhice. Afinal, não faltam razões para protestar.

Pensei em queimar alguns pneus porque a idade impôs-me uma série de chatices físicas que me impedem de atingir a metafísica. Aposto que outros amigos que passaram dos 50 iriam aparecer. Não é todo dia que a gente tem chance de balançar o coreto das autoridades. Outro protesto possível seria, finalmente, adotar o tom do anti-americanismo da esquerda. Depois que Obama passou a espionar todo o mundo, a indignação contra esse inacreditável "Big Brother" pode adiantar pouco, mas é um direito. 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Fernando Pessoa



Em 13 de junho, há 125 anos, nascia Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da língua portuguesa. Sempre leio e releio Pessoa. Em meio a seus desencantos não me sinto tão só.

Poemas


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa

“Viver não é necessário; o que é necessário é criar”.

Se achar que precisa voltar, volte!

Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

Fernando Pessoa


Eu amo tudo o que foi
Tud o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência, não pensar...
Fernando Pessoa

"É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!

É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,

Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma

Senão da nossa;
A dos outros são olhares,

São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."
Fernando Pessoa


“Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.”
Fernando Pessoa



Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...

Fernando Pessoa



Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.

Fernando Pessoa

"Segue o teu destino...
Rega as tuas plantas;
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias"

Fernando Pessoa

PRECE


Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa




terça-feira, 28 de maio de 2013

Qual é o critério para avaliar um governo?



«Qual é o critério para avaliar a verdadeira força de um governo? Só este: é forte o governo capaz de fazer prevalecer o interesse geral contra os privilégios particulares que o contrariam; é fraco o governo que, impotente contra tais interesses, se acolhe à sua protecção e acaba, conscientemente ou não, por se tornar o seu instrumento». Dicionário Crítico de Antonio José Saraiva.  

domingo, 26 de maio de 2013

Um dia melhor amanhã



Meus dias estão muito tristes e as noites piores. Para mim e para os meus. Por razões que não interessam para o caso, maio foi o pior mês neste ano. Por mais sorrisos ( forçados e amarelos ), por mais palavras de incentivos (amáveis) que recebo, a tristeza não desaparece. Em junho, porém, espero dias  melhores. Com certeza eles virão.   



Eça de Queirós: ontem, hoje e sempre...

Eça de Queirós (1845 - 1900) foi dos mais importantes escritores da língua de Camões e os seus romances são dos mais reconhecidos e encontram-se traduzidos em 18 línguas, como Os Maias, O Crime do Padre Amaro, A Ilustre Casa de Ramires, A Capital, O Primo Basílio, O Mandarim, etc. Após a conclusão do curso, em Coimbra, foi para Lisboa onde se destacou como advogado e jornalista. Em 1871, estando profissionalmente em Leiria, juntamente com Ramalho Ortigão inicia "As Farpas", crónicas publicadas em fascículos mensais. Em "As Farpas" nenhum sector da vida portuguesa escapou ao seu olhar clínico sobre a sociedade. "As Farpas" são um excelente tratado de sociologia em Portugal. Quem lê "As Farpas" fica com a ideia que são crónicas do nosso quotidiano e parecem que foram escritas na semana passada. Em "As Farpas" há uma crónica de 1872 (já lá vão 141 anos) que está actual. Leiam e façam as ligações com os dias de hoje e com a história deste país.

" [ ...] Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito.

Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva,poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal [...]"

Eça é um dos grandes de Portugal: ontem, hoje, sempre. Abaixo, mais algumas frases do escritor português:

"Não tenha medo de pensar diferente dos outros, tenha medo de pensar igual e descobrir que todos estão errados!".

"A liberdade vem da conquista, e requer o entusiasmo do saber que está no caminho certo, isso é recompensador."

"O orgulho é uma cerca de arame farpado que machuca quem está de ambos os lados."

"Falta ao ser humano semear a igualdade, perceber as diferenças, mas harmonizar a equação da vida com a dignidade."




domingo, 12 de maio de 2013

Mãe



No grupo das percepções erradas que todos temos há uma para que é preciso estar alerta: a de que as Mães são eternas. Não são. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Leitura diária

Sempre gostei de começar o dia lendo os editoriais do Estadão. É uma paixão antiga. Os textos são ótimos, mesmo que você discorde de tudo. O estilo torna-os imperdíveis. Há ritmo, há movimento, há conspiração, há citações e ironias. Tudo o que é preciso, enfim, para ler um texto do princípio ao fim. Na década de 80, eram tão espetaculares que a gente lia e chorava por mais. Sempre que lembro disso penso: por que que não selecionam e editam os editoriais históricos do Estadão? Há textos maravilhosos como um editorial no qual o Estadão fazia uma severa advertência ao Papa!. Sim, o Estadão discordou do Papa e mandou ver no editorial: “advertimos Sua Santidade" e pá, pá, pá ...”. Não é delicioso?

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Abençoados...



Abençoados os que acreditam em equipas multidisciplinares

nos programas de reinserção social

no sucesso das dietas de emagrecimento

nas aulas noturnas

no multiculturalismo

no reflorestamento

no código deontológico

na igualdade dos sexos

na prevenção da doença

no diálogo norte-sul

em Deus Alá Jeová

na unidade do espí­rito santo

ou no manipanso que ainda não foi revelado

nas energias

na meditação zen

nos cátaros a reincarnar

na ressurreição das almas


No orgasmo simultâneo

na comunhão dos corpos

na verdadeira orientação

no sexo salvífico

no casamento

na lista de prendas

na lua de mel

na união de facto

na guerra preventiva na guerra punitiva

na guerra defensiva

na paz

na guerra

Abençoados os que acreditam

no progresso moral

no amor na amizade


Abençoados os que acreditam

no ensino público ou privado

no ensino gratuito

nas propinas diferenciadas

na escola democrática

tu e eu muito iguais á saí­da

Abençoados

os que acreditam na

Comissão de Luta contra a Aids

na segurança das pontes

na Condição Feminina

no Instituto do Emprego

Abençoados os que acreditam

na emancipação dos explorados

na solidariedade

no salário justo

na revolução social

na revolução

Esses estão a salvar o mundo,

dizia o Borges.

(estavam as mães à procura dos desaparecidos

na Praça de Maio

À procura

e ele já não via).


Estão todos a salvar o mundo

mas eu estou cansado.

Muito cansado, desculpem. 

Luiz Janúario in "A Natureza do Mal"

Razão para amar o inimigo




"Quando a obstinação

dos amigos

me deixa cansada

é a infâmia

dos inimigos

que por vezes ainda

me dá força nova."

Erich Fried





terça-feira, 23 de abril de 2013

O que será mesmo a felicidade?




O que será mesmo a felicidade? Para ser feliz qual será o peso dos hábitos do dia-a-dia, das coisas que nos vão dando alento, como ler um bom livro, ouvir uma boa música, tomar um sorvete, sentir o cheiro do cabelo da filha, ouvir as primeiras palavras da neta e considerar aquele o espetáculo mais grandioso da face da terra?

Felicidade seria apenas isso, a aceitação da vida que conseguimos ter?  Hoje, tenho certeza que a resposta é sim, mas meu pensamento mudou muito ao longo da vida.  Aos 18 anos tudo que eu queria era ser magra e ser livre. Aos 25, queria ser magra, queria ser livre, queria ter uma filha e lutava para firmar minha carreira no jornalismo.

Aos 30, trabalhava demais, continuava querendo ser magra e já tinha uma filha para criar. Aos 40, comecei a sonhar com uma conta bancária melhor e passei a ter medo de ficar velha e doente.  É, aos 40 comecei a me aporrinhar com o medo da morte. Não conseguia nem imaginar minha vida depois dos 50 anos. Achava que seria velha, cansada e doente.

Só que os 50 chegaram e não me sinto velha, nem de meia idade; nem infeliz, muito menos cansada. Aliás, nunca estive tão saudável. Até o peso melhorou. E o resultado é que me sinto viva. E muito melhor do que antes. O mais importante é hoje sei o que me faz bem e sei, sobretudo, fugir do que me faz mal. Sim, a gente demora cinco décadas para descobrir a felicidade disponível, gratuita, à solta dentro de nós.

Felicidade pode existir na solidão e pode existir em um casamento pacífico, atravessado pelo companheirismo como a experiência que tenho vivido. Ninguém pode imaginar a felicidade que é saber que algumas coisas não mudam. Principalmente depois dos 50...

Pois é, não, não passei a ganhar mais dinheiro, nem fiz mais amigos, nem nada, mas sou mais feliz agora. Por que? A resposta me parece simples: limitei-me a aceitar que esta é a minha vida, e que é boa, que tive sorte. E acho, sinceramente, que a felicidade resulta dessa aceitação.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Eu e as celebridades...

 
 
 
Há algum tempo li entrevista na revista Caras e a celebridade em questão dizia que seu maior defeito era o “perfeccionismo”. Comecei a rir pensando que tem gente estranha demais nesse mundo. Afinal, de onde alguém tirou a idéia de que perfeccionismo é defeito?

Nem como defesa falar uma coisa desta é boa técnica. Então por que falam? Para ter um tom blasé, expondo aquela espécie de contrariedade típica dos bem nascidos e dos querem parecer mais inteligentes que os outros? Ora, ora, que coisa mais feia, ou melhor, que coisa mais “fake”!

Celebridades são graciosas, respeitáveis, bem arrumadas, nos divertem nas novelas, provocam nossas emoções e parecem ter compromisso sincero com a cidadania mas, a boa verdade é que pouco acrescentam ao debate das ideias e suas opiniões políticas são, como todas as demais opiniões, parciais e pessoais. Nada contra, todas as opiniões são assim, inclusive as minhas.

O que acho curioso, porém, é o que dizem sobre intimidade e privacidade. Sempre que termino de ler as entrevistas fico pensando: para o leitor, que diferença é essa, afinal, entre íntimo e privado, vocábulos sinônimos para designar realidades só nossas, pouco mais ou menos secretas, que não desejamos ver conhecidas? Não é tudo a mesma coisa?

Por sobreviver do que escrevo aprendi depressa que o leitor capta tudo o que acontece a léguas, que ele não é bobo. Portanto, quer a celebridade fale sobre o fungo no seu pé, sobre herpes labial ou sobre o tesouro escondido da rainha da Dinamarca, estará, em última análise, sempre, a descrever-se intimamente. Portanto, nada de justificações. Para quê explicações? Não vale a pena e não interessa ao leitor.

E o que o leitor quer, afinal? Desconfio que as pessoas querem, muito naturalmente, é identificar-se com as experiências alheias para tentar entender melhor o que acontece com elas. "Ah, que bom, eu não sou o único!"... "Ah, olha, a artista tal é tal e qual como eu!" Ela também passa aperto com essas coisas que acontecem na minha vida...É isso, ou, pelo menos, acho que é isso.

De todo modo, fiz esse texto comprido para dizer que fico realmente brava com essas histórias de “perfeccionismo” e as sutis diferenças entre íntimo e privado. O que é verdade e o que é mentira?! Aqui neste blogue é tudo verdade! É tudo íntimo, é tudo privado, é tudo secreto e as referências são todas verdadeiras! Eu me esforço para isso. Sem muito perfeccionismo, mas um esforço real e humano.