sexta-feira, 15 de junho de 2018

POEMA EM LINHA RETA

POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Nada desejar e nada recear...

"Nada desejar e nada recear...Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo...Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades... Jamais avançar senão com lentidão e desdém".
 
Eça de Queiroz - um dos mais importantes escritores portugueses da história

terça-feira, 12 de junho de 2018

Meios de informação :verdade e consequencia



Falta transparência aos comandos das televisões, rádios e jornais do Brasil. A exemplo do que exigem dos políticos, os meios de informação deveriam prestar contas de suas ações e decisões. Os políticos, pelo menos, prestam contas através de eleições regulares. É quem vota que decide a continuidade deste ou daquele grupo no poder. 
 
No caso da mídia, apesar da sua enorme relevância na nossa vida coletiva, os mecanismos de accountability são totalmente opacos. Temos televisões, rádios e jornais que se mantêm com recursos públicos. Outros vendem espaços para igrejas e existe canal de igreja para exercer poder político. É constitucional? Acho que não. 
 
Aliás, político pode explorar rádio e tevê? Se a resposta for sim, como fica o conceito da igualdade na disputa eleitoral democrática?  E por qual razão o Legislativo, Executivo e Judiciário não fiscalizam nada neste ramo? A resposta parece clara: mais de 300 parlamentares dispõem de concessões. Não quero fazer pré-julgamentos, mas acho que isso devia ser auditado e fiscalizado.
 
Naturalmente, não estou em campanha por controle da mídia ou fazendo crítica aos excelentes profissionais do jornalismo que têm resultados para apresentar. Estou dizendo, porquê é verdade, que falta transparência aos meios de informação. Ao longo dos anos, coube aos próprios meios de informação a tarefa de fiscalizar e exercer controle sobre seus excessos. Não estou dizendo que isso é certo ou errado. Estou dizendo que é assim.
 
Também não estou dizendo porque quero leis para mexer nisso. Não quero lei, quero debate, fiscalização, ajuste às determinações constitucionais e transparência. Sei que a defesa de leis neste campo pode atingir no peito o direito de opinião e a liberdade de expressão. Sou jornalista, dou valor à boa Constituição que temos com seus direitos e garantias individuais modernas e justas. E estou careca de saber que opiniões contrárias às minhas não são criminalizáveis. Ainda que o teor das críticas possa ser visto por mim como injusto ou de má fé.
 
Sim, sou radicalmente contra qualquer medida para limitar a liberdade de expressão, mas não posso deixar de dizer que acho insuportável a arrogância de alguns meios de informação. Quase todos os dias, vejo que os noticiários olham o mundo de cima para baixo e despejam críticas a granel, como se por trás dos textos existissem deuses, moral e intelectualmente superiores aos demais humanos.   

É isso:  a verdade é que o país permitiu que a própria mídia definisse as regras pelas quais a comunicação social se deveria governar. E estabelecesse o que é aceitável e reprovável eticamente. O que é bom e mau jornalismo, por exemplo. Verdade e consequência: os maiores prejudicados são os cidadãos, que recebem uma cobertura infantil, benigna, inexpressiva e sem dimensão humana da história que vivemos. 
 
E tome novela entre um intervalo comercial e outro. Não gosta? Então veja no outro canal o culto de um pastor que vende indulgências no Paraíso em troca da sua senha do cartão de débito. Ou, quem sabe, você prefere o pastor que tira -  ou será que põe? - demônios na mente dos crentes e dos inocentes. Pobre gente...Parece até que voltamos à Idade Média, no período anterior a Lutero.  











segunda-feira, 11 de junho de 2018

Amor em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que
não é nada comigo.
Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
[Manuel António Pina]

Ter ou não ter opinião

Ao contrário da maioria das pessoas, não tenho opinião uma vez por ano, mas também não tenho todos os dias. O mais frequente é não ter opinião. Ou ter preguiça de ficar pensando nos problemas para encaixar um ponto de vista decente e coerente. Acontece que isso acaba sendo um potencial problema quando se tem um blog onde é suposto ter opinião... Há assuntos sobre os quais me sinto um pouco como um animal em vias de extinção, um dos últimos espécimes que ainda não tem opinião, pasme-se, sobre um determinado tema.
Eu com tão pouca opinião e outros com opinião tão frequente e segura. E que sabem expressá-la com estilo, charme e clareza. Fico com muita raiva e alguma inveja. A verdade é que a opinião está muito mal distribuída, é o que é.  

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Como sou

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Tento ter alguma clareza sobre mim. Não é fácil. Quando estou vaidosa, penso que sou pessoa razoável, que tem compaixão pelos semelhantes, trabalha muito e luta para ser melhor a cada dia tentando não repetir seus erros. Quando estou de mal com o mundo, acho que sou nada. Mas como sou nos dias normais? 
 
1. Sou silenciosa de manhã e falante à noite. 
 
2. Gosto muito de ler, mas leio menos do que gosto. A leitura nos qualifica e nos leva a mundos que não são nossos. São minhas viagens favoritas e mais proveitosas. 
 
3. Adoro conversar com estranhos, com amigos, com qualquer pessoa. Estou sempre  disposta a ouvir os problemas dos outros. Dizem que tenho um quê de psicóloga. Pode ser. 
 
4. Minha filha, Júlia, meu marido Alberto, e meus netos, deram sentido à vida. Depois deles, passei a odiar a ideia da morte.
 
5. Minha formação e eventuais êxitos que tive no mundo do trabalho resultam do do meu esforço, mas devo tudo aos chefes e amigos do jornalismo. Sou grata a todos e a todas.
 
6. Gosto muito de café. Tomo mais de um litro ao longo do dia. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Descrença

Nunca foi tão ostensiva a ideia de que não podemos confiar nos gestores, nos trabalhadores; nos empresários e nos bancos. Também não podemos confiar nos jornais, nas televisões, na justiça, no fisco, nas escolas, nas prisões e no Congresso. Não podemos confiar porque, estranhamente, cresce a impressão que nenhum destes poderes, instituições ou pessoas funcionam como deveriam funcionar; nenhum age sem uma qualquer obscura motivação ou interesse. Não é por acaso que os institutos de pesquisas estão prevendo um índice recorde de abstenções, votos brancos e votos nulos. A propósito: será que podemos acreditar no que dizem esses levantamentos?

domingo, 29 de abril de 2018

Os partidos - linha ideológica


Considero que o PSDB é um partido de direita, francamente mais à direita do que PSB, PDT, PSOL e Rede. Basta olhar as votações no Congresso sobre Finanças, Defesa ou Trabalho.  Basta pensar no PT, claramente de centro-esquerda, para enxergar a diferença.
Além disso, a quase totalidade de eleitores do tucanato é conservadora ou liberal ou de centro-direita. Pesa nesta avaliação a parcela significativa do eleitorado dos Estados de São Paulo, Minas e do Paraná, que se mantém fiel ao PSDB há décadas.   
A história interna do partido é complexa, uma vez que a sigla tradicionalmente contou com alguns setores sociais-democratas - caso de Mário Covas e Franco Montoro. Não se pode esquecer ainda de FHC e José Serra, nomes de centro-esquerda que fogem do termo «direita» como o diabo da cruz.
Se fosse possível, num exercício de imaginação, uma eventual fusão do PT com o PSDB isso traria benefícios ideológicos ao País, até porque a recente deriva esquerdista do PT não lhe permite mais aspirar a uma luta séria pelo eleitorado do centro.
E o aparecimento de um partido à direita (mesmo se residual), criará um bode expiatório de todas as piores tentações direitistas, a que o PSDB nem sempre foi imune, como bem sabemos.
Se queremos um sistema político moderno, só faz sentido haver três partidos: um partido conservador-liberal, um partido socialista, e um partido radical de esquerda –  liderado por Guilherme Boulos e que, certamente, incluirá o PSOL.
quem cogite outro partido radical, à direita, capitaneado por Bolsonaro, embora esse interesse pareça residual. De todo modo, é possível. Afinal, em 2004, quando Sergio Moro escreveu artigo comparando a Lava-Jato à Operação Mãos Limpas, ele lembrou que dela resultou a destruição do sistema partidário italiano.
Por essa linha de raciocínio, a prazo, todos os outros partidos parecem condenados e tendem a ser cada vez menos importantes, apesar do sistema partidário brasileiro viver um período fragmentado.

PS: Quero assinalar que esta é uma posição pessoal, e que a maioria das pessoas, mesmo sem se pronunciar, pode achar que erro no julgamento. Não nego essa possibilidade.  No Brasil, além de difícil de avaliar, a política, em questões ideológicas, quase não faz sentido.  

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O Sujeito da Esquina completa 9 anos


Este blog completa hoje nove anos. Lembro quando escolhi o título "O Sujeito da Esquina".
Queria dizer que  não julgava minhas opiniões especiais ou importantes, mas uma perspectiva comum, como a de qualquer pessoa.
Na verdade, o objetivo era o de escrever  frases de circunstância, sobre fatos da minha rotina e da vida no Brasil.  Visto à distância julgo não me ter afastado do propósito inicial.
Agradeço a todos que passam os olhos no que venho deixando aqui, nem sempre com a assiduidade necessária. Nove anos passam depressa. Há muitas outras coisas que não.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Eu e a pesquisa


Não há cão nem gato que não tenha escrito qualquer coisa sobre a pesquisa Datafolha. Não faço outra coisa a não ser ler sobre isso desde domingo. Pelo que indicam os números ,o país, pelo visto, será entregue a qualquer um dos seguintes candidatos: Lula ou seu clone, Bolsonaro, Marina, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin ou quem sabe Joaquim Barbosa. Nada pessoal contra ninguém, mas são cenários que causam arrepios. Pela inexperiência de uns, o temperamento explosivo ou a vaidade oca de outros.  

sábado, 7 de abril de 2018

Lula no seu labirinto


Não, não é sinal do bom funcionamento da democracia que um ex-presidente tenha sido preso condenado por corrupção. Pensar que alguém pode chegar ao mais alto cargo da nação e utilizá-lo para benefício próprio, pressupõe que o escrutínio necessário a quem se candidatou ao cargo não foi feito e sobretudo que o poder soberano numa democracia, o povo que votou maioritariamente nele, foi enganado da pior forma.
O que pode ser pior do que isso? A tese do condenado de que temos uma justiça que encarcera um ex-presidente da República sem indícios ou provas fortes., com o objetivo de atender um conluio das elites. 
 
 

LULA PRESO


Lula é uma das duas ou três figuras que explicam a história recente do Brasil. Há outras pessoas importantes para se perceber o Brasil, como Getúlio, Juscelino, Fernando Henrique e Ulysses Guimarães. Mas Lula  é sem dúvida a mais reluzente delas. Muitas coisas que marcam nosso dia-a-dia têm a ver com o pensamento dele. Exemplo: a ideia de que país rico é país onde os pobres não passam fome.

Uma vez, quando ainda estava no jornalismo, chamei-lhe o idealista pragmático, ou o revolucionário pragmático. Ninguém pode negar sua atitude revolucionária. Dizem que Lula não é e nunca foi de esquerda. Balela. Sempre foi sindicalista e nunca abandonou a necessidade da violência, da luta armada, nunca defendeu que a transição no Brasil pudesse ser pacífica.  Submeteu-se para chegar ao poder, mas no peito carregava e carrega o ideal socialista.  

De todas as pessoas públicas que conheci no jornalismo, Lula é das mais vaidosas que é possível imaginar. É uma vaidade explícita. Além de dizer “eu sou o melhor”, ele parece acreditar na imagem que ele faz de si próprio na ficção. É um homem que se descreve a si próprio como a encarnação viva de um ideal que lhe apaga a personalidade, que lhe tira a pulsão pelos defeitos, que lhe apaga os pecados. Na verdade ele os nega.

Lula, mais do que ninguém, tem consciência de que sua prisão é o maior dano que poderia lhe acontecer. Não é por acaso que ele decidiu negar a realidade para ser uma memória presente e calorosa. Não dá para ignorar sua resiliência. 

segunda-feira, 26 de março de 2018

É possível acordar e sorrir...

Não sou das que esquece. E também não sou daquelas sem lado. Estou ativamente contra os projetos totalitários. E disposta a virar as costas a toda e qualquer tentativa de asfixia democrática. Venha de onde vier.
 
Agora mesmo, continuarei na Netflix. É muito exagero discordar de uma produção e sair pregando o dilúvio. Não gostou, não vê. Desliga. Ou não liga. E manifesta a discordância por meio de nota, entrevistas, ou o que desejar.
 
Campanhas contra uma janela importante da cultura conspira contra o direito dos outros. Leio opiniões fortes e não vomito. Eu também já tive a minha dose de revolta contra tudo e contra todos. Expressei minha raiva nos meus votos, não tenho esqueletos no armário. 
 
Nada do que um político já condenado fez difere muito do que outros políticos que aguardam julgamento fizeram, mas é preciso dar nome a todos os "bois". É preciso incluir outros setores institucionais na Lava-Jato e não apenas os políticos e empresariais. Cadê o Judiciário, as polícias?
 
Estou me preparando para o meu ajuste de contas nas próximas eleições. No fundo, é tudo farinha do mesmo saco, zunem os jornais, as rádios e as tevês. Pode existir pouca diferença entre os mecanismos, mas há pessoas com imenso brilho. Pessoas bacanas e bem intencionadas.

 
Este País é uma kizomba, já disse Martinho da Vila daquele jeito sorridente, devagar, devagarinho. Mas, de todo modo, apesar de tudo, ou por isso mesmo, é possível acordar e sorrir, mesmo quando dormimos mal. Ou quando temos pesadelos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Brasil


Jornalista por vocação, cedo comecei a ter pena do meu País. Aprendi que em outros lugares havia pessoas sem medo nem miséria, existia menos desigualdade e menos desespero. Vale dizer: existiam lugares onde as leis eram justas e estavam em vigor para todos. 

Não, eu não acreditava em paraísos, mas em sociedades onde a esperança de melhoria era um fato, a desigualdade menos gritante e a liberdade um direito. Fui vendo, estudando, viajando, comparando, e continuei a ter ainda mais pena da terra onde nasci. Me entusiasmei com a volta da democracia e as eleições diretas.  Houve alguns poucos avanços. 

Passaram os anos. E nada mudou de forma substancial. Fui sentindo mais funda a pena, mesmo tendo conquistado o conforto de viver na parte mais rica e bem organizada do país. Sim, materialmente não sofro com as mazelas, mas nem por isso me dói menos ver e conviver com a desigualdade e a falta de futuro para a maioria.  

Na minha idade é quase nula a esperança que tenho de ver o Brasil sair do atoleiro e da miséria. Resta-me a certeza de que o novo sempre vem. E o sonho de que os que agora são jovens, e os que vierem, possam construir um país de que se possam orgulhar e não lhes doa como este a mim dói.
 

terça-feira, 20 de março de 2018

Não aceitem o habitual...


"Não aceitem o habitual como coisa natural, pois em tempos de desordem, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar"


Bertold Brecht

quarta-feira, 14 de março de 2018

Tive amigos...


“Tive amigos que morriam, outros que partiam/

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo/

Odiei o que era fácil/

Procurei-me na luz, no ar, no vento”.

Sophia de Mello Breyner

Mulheres

As mulheres são mais inteligentes emocionalmente do que os homens?

A empatia, traço de inteligência emocional que nos permite compreender como outras pessoas se sentem e ajuda a forjar conexões mais próximas com elas, pode ser determinada geneticamente, pelo menos em parte, e é mais comum nas mulheres do que nos homens, segundo um novo estudo.
Este estudo com 46 mil pessoas, feito pela Universidade de Cambridge, em Inglaterra, é o primeiro a encontrar evidências de que os genes têm um papel no nível de empatia dos seres humanos.
Até hoje, a empatia era considerada um traço de personalidade que pode ser desenvolvido durante a infância e através das experiências de vida. Esta característica ajuda a reconhecer as emoções de outras pessoas e a responder de maneira apropriada, por exemplo, para saber quando alguém está triste e precisa de ser consolado. Mas na nova pesquisa, divulgada no periódico científico Translational Psychiatry, cientistas debruçaram-se sobre a hipótese de esta característica também poder estar nos nossos genes.

“Quociente de empatia”

Os participantes do estudo tiveram o seu “quociente de empatia” medido através de um questionário e forneceram amostras de saliva para testes de ADN.
A partir daí, os cientistas procuraram diferenças nos seus genes que pudessem explicar porque é que algumas pessoas são mais empáticas do que outras.
Descobriram que, pelo menos, 10% das diferenças no grau de empatia das pessoas podem ser creditadas à genética. E determinaram também que as diferenças genéticas associadas a um menor grau de empatia estão ligadas a um risco maior de autismo.
As mulheres tiveram pontuação média maior do que os homens no questionário. Do máximo de 80 pontos, as voluntárias conseguiram, em média, 50, contra 41 deles.
Mas os investigadores afirmam que ainda não conseguiram identificar que traços genéticos são os responsáveis pela diferença de género.
“É um passo muito importante para entender o papel que a genética tem nesta capacidade”, refere o líder do estudo, Varun Warrier, citado pela BBC.
“Mas como só um décimo da variação de empatia entre os indivíduos é causado pela genética, continua a ser muito importante entender os factores não genéticos”, destaca.

É preciso estudar mais pessoas

No entanto, os cientistas reconhecem que a pesquisa tem limitações. O facto de o quociente de empatia ser determinado por um questionário, por exemplo, poderá enviesar os resultados.
Além disso, ainda não conseguiram encontrar os “genes da empatia”, especificamente responsáveis pela característica, apesar de terem percebido diferenças entre pessoas mais ou menos empáticas.
Os autores do estudo afirmam que é preciso um número ainda maior de pessoas para encontrar possíveis genes que afectem o grau de empatia.
O professor Gil McVean, que lecciona genética estatística na Universidade de Oxford, no Reino Unido, refere à BBC que o papel dos genes na empatia ainda é “menor”, quando comparado com outros factores relacionados com o ambiente em que a pessoa cresce.
“Sabemos que qualquer coisa que se pode medir nos humanos tem uma componente genética. Isso já estabelece que a empatia também pode ter uma componente hereditária”, afirma.
Edward Baker, do departamento de psicologia da King’s College London, refere que o estudo é um “primeiro passo” para explorar o elo de ligação entre a genética e a personalidade. O investigador concorda, no entanto, que é necessário investir numa pesquisa ainda maior.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Carta a uma amiga da juventude que reencontrei no Facebook


Maria das Graças,

Estou feliz e comovida com este reencontro virtual, depois de tantos e tantos e anos.

Não tenho facebook, mas o Beto - meu marido desde o século passado - acessou o dele no meu computador e vi algumas propostas de amizade. Fiz uma dancinha ao te reconhecer na foto. E senti uma grande saudade.

Ninguém esquece o período em que tinha vinte anos, em que tudo parecia possível.  

Passaram trinta anos. O tempo produziu um conjunto de novos laços nas nossas vidas, mas, no meu caso, alguns antigos não se desfizeram.

Quero dizer do muito que é a sua pessoa que conheci, amei e ainda amo: a professora competente, a amiga de coração doce, a mãe do Humberto, a fã das músicas norte-americanas, a filha que sabia perdoar.

A vida aconteceu e demonstrou-me que, afinal, "nem tudo era possível". Nem que fosse por isto, a sua imagem feliz sempre esteve na minha memória, me lembrando o ritual que eu decididamente aprendi com você. O da amizade.

Muitas voltas foram dadas, desde a última vez que te vi. Fiz carreira proveitosa no jornalismo, mas agora estou trabalhando menos. Tenho uma filha, Julia, de 34 anos, que me deu três netos: Giovana, de sete anos e os gêmeos Arthur e Victor de oito meses.

E Humberto, como vai? E você?

Gostaria de vê-la. Se achar isso possível, se quiser me visitar, ou se achar viável marcar um almoço, ou mesmo um café aí em Belo Horizonte, dou um jeito de ir.

É isso: a história da minha vida teria um vácuo desagradável, se eu não pudesse contar com as doces lembranças do tempo em que tive a alegria de conviver com você.

Um forte e saudoso abraço

Vanda Célia