segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O homem foi criado para a felicidade


"Na barraca da sua prisão, Pierre ficou ciente, não só com a inteligência mas com todo o seu ser, com a sua vida, de que o homem foi criado para a felicidade, que a felicidade residia no próprio homem, na satisfação das suas necessidades humanas naturais, e que toda a desgraça não provinha da carência mas do excesso; mas agora, nas três últimas semanas de marcha, ficou ciente de mais uma nova verdade consoladora: no mundo nada havia de assustador. Ficou a saber que, do mesmo modo que não existia uma situação em que o homem fosse totalmente feliz e livre, também não existia para o homem uma situação de infelicidade absoluta e de privação total da liberdade. Ficou a saber que havia um limite para o sofrimento e um limite para a liberdade, e que estes limites estavam muito próximos; que o homem que dormia num leito de rosas, ao ver uma pétala enrolada, sofria tanto como Pierre ao adormecer agora na terra fria e húmida, com um lado do corpo gelado e outro quente; ficou a saber que, quando dantes ele calçava os seus sapatos estreitos de baile, sofria tanto como agora que andava descalço (o calçado dele há muito que se desfizera), com os pés cheios de feridas. Ficou a saber que, ao casar-se com a sua mulher de livre vontade (como lhe parecia naquela altura), não era mais livre do que agora em que o fechavam de noite na cavalariça"...
Leon Tolstói, Guerra e Paz

Genesis


De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

Jorge de Sena

domingo, 17 de janeiro de 2016

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
 
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

ALÔ ALÔ LEONARDO DiCAPRIO



1) As terras indígenas no Brasil ocupam cerca de 120 milhões de hectares, o equivalente a 13% do território do Brasil. Isso é quase o dobro de toda a área de lavoura (milho, soja, feijão, arroz, etc.). Esta comparação comprova o compromisso do Estado brasileiro com os índios, um compromisso consagrado na Constituição.

2) As demarcações no Brasil não representaram qualquer favor aos índios, mas o cumprimento de um compromisso com a história que está sendo cumprido. É uma hipoteca histórica que temos a obrigação de quitar e que estamos quitando.  Nos últimos 20 anos, o Brasil demarcou uma área maior que a Bélgica.  

3) A maior parte dos territórios que ainda está em discussão não pode ser demarcada imediatamente. São  áreas em litígio judicial, terras que os índios reclamam, mas que, em sua maioria, estão ocupadas por agricultores. É fundamental entender isso: litígio judicial, ou seja, uma decisão que precisa aguardar a deliberação da Justiça.

4) A responsabilidade sobre o destino dessas áreas em litígio não é apenas de uma instância do Poder, mas cabe ao Estado, ou seja, deve resultar de consenso dos representantes do Judiciário que buscam diálogo entre as todas as partes envolvidas - índios, fazendeiros, pequenos agricultores, etc.

5) O Brasil é formado por brasileiros: brancos, negros, índios, descendentes de europeus e  orientais.  


PS: Ao receber o Globo de Ouro como Melhor Ator, Leonardo DiCaprio defendeu os índios e pediu ao mundo proteção para eles. O Brasil é o país com a maior população de índios "aldeados" no mundo, e não estamos parados nesta questão. Claro que devemos fazer mais, mas estamos demarcando terras e temos garantido alguns avanços a eles, tanto que eles voltaram a crescer demograficamente, sinal de que estão readquirindo a esperança no futuro. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Amizade


“Aquilo a que chamamos vulgarmente amizade não passa de conhecimentos e relações tecidos por qualquer ocasião ou vantagem em que as nossas almas se cruzam. Na verdadeira amizade, elas fundem-se uma e outra em tão universal confusão que se misturam e já não distinguem a linha que as cerziu. Se me perguntam porque o amava, só posso responder: porque era ele, porque era eu.”
Michel de Montaigne, Ensaios , Livro I, cap. XXVIII (tradução livre).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Adeus David Bowie!


Morreu David Bowie, um dos ídolos mais desconcertantes do meu tempo.”Freud ia adorar conhecer-me”, dizia. Leia abaixo, algumas declarações de David Bowie:
1. “Há muita gente que parece querer ser imortal… Andamos atrás de quê, exatamente? Quem é que quer arrastar-se, velho e decadente, até ter 90 anos? Só por uma questão de ego? Eu seguramente não quero.”
2. “É verdade — sou bisexual. Foi a melhor coisa que me aconteceu. E é muito divertido, também.”
3. As pessoas poderiam pensar que uma estrela rock casar-se com uma supermodelo seria uma das melhores coisas do mundo. E, de fato, é.” [Sobre o seu casamento com Iman]
4. “O melhor conselho que me podiam ter dado aos 18 anos? Não te metas em drogas.”
5. “Hoje em dia, mais do que nunca, sinto-me um animal social, coisa que a dada altura não era… Às vezes estou tão feliz que deprimo as pessoas.”
6. “À medida que envelhecemos, as perguntas resumem-se a duas ou três. Quanto tempo mais? E o que é que eu vou fazer com o tempo que me resta?”
7. “Sigmund Freud ia adorar conhecer-me.”
8. “Fiz alguns álbuns fabulosos. Tenho que ser honesto. Adoro-os. Adoro as coisas que fiz.”
9. “Falar sobre arte é como dançar sobre arquitetura.”
10. “Sou uma estrela instantânea; basta adicionar água.”
11. “Aquilo que mais adoro na música são as coisas que começam nas franjas.”
12. “Já nem sei quantas vezes é que alguém veio ter comigo e disse: ‘Hey, vamos dançar!’ Eu odeio dançar. Meu Deus, é tão estúpido.” [Sobre o sucesso da música “Let’s Dance”]
13. “Uma vez perguntei ao John Lennon o que é que ele achava do meu trabalho e ele respondeu: ‘É ótimo, mas é apenas rock’n’roll com batom’.”
14. “O rock sempre foi a música do diabo.”
15. “Não sei o que é que vou fazer a seguir, mas prometo que não vai ser chato.”

Fonte: O Observador

sábado, 9 de janeiro de 2016

Só não é natural que seja sanguinário, fanático ou submisso


A jovem ou o jovem tem atenção e interesse pela política? A política é um dos campos mais atraentes da atividade humana porque lida com o poder. Daqui do meu canto fico torcendo pelo ingresso em massa de jovens nos partidos políticos. Jovens de todas as tendências e correntes. Que venham aqueles que se dizem anarquistas, marxistas, leninistas, troskystas, budistas, centristas, direitistas, democratas, liberais, socialistas, capitalistas etc, etc, etc.

Escolhas partidárias de hoje podem mudar amanhã. Como se dizia antigamente quem não é revolucionário aos vinte, dificilmente será democrata aos quarenta. Além disso, só pedras não mudam. Felizmente, as pessoas não são cortadas em mármore. Pessoas mudam. E ainda bem que mudam. Agora, os jovens só precisam definir o ingresso na vida pública, outras decisões podem esperar.

Seria bom que muitos jovens entrassem rápido na vida partidária. De preferência a tempo de participar da corrida eleitoral deste ano. Dos jovens dependem todas as mudanças que o Brasil precisa. A democracia só avançará com eles. E o que um jovem precisa para entrar na política? Ser ele mesmo. A juventude é insubstituível. O jovem renova, reanima e estimula o ambiente onde pisa.

E o que o jovem precisa fazer na política? O que achar certo, o que julgar verdadeiro. Tudo é permitido? Sim. Só não é recomendável repetir erros de ninguém. Que cometam erros novos. E tem alguma coisa que um jovem político não pode ser? Tem. Tem sim. Não é natural que um jovem interessado pela política seja sanguinário, fanático ou submisso. O resto ele pode ser como quiser.   

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PRECE


Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz Ano Novo

 
Ao dar meia-noite que ninguém entristeça, nem se sinta abandonado ou só. Que todos os meus amigos virem a folha do calendário em meio a brindes, risos, abraços e beijos. Todos temos direito a um novo amanhã repleto de alegrias.

Final de 2015

Peste Emocional
Foi o ano da peste,
das colheitas perdidas.
Andei ao pé coxinho
de pedra para pedra,
a côdeas de futuro,
de janeiro a janeiro.
Ainda trago marcas
nos braços e nas testa.
Nunca a minha alma
levou tanta porrada.
Nem livros me sofriam
na fustiga do olhar.
Dormia desamor,
acordava mal estar,
corria sem café
para a forca do emprego.
Ficou-me desse giro
desses fundos da geena
a tola convicção
de que, pronto, já passou.


(José Miguel Silva, "Vista Para Um Pátio seguido de Desordem" (2003), Relógio D'Água)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"Tropeço de ternura por ti"

UM ADEUS PORTUGUÊS



Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti



Alexandre O'Neill

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

Sem jeremíadas, por favor!

Não contem comigo. Não estou especialmente disponível para um discurso contra o Brasil. Não tenho ressentimentos geográficos. Nunca desejei ser filha da Europa ou de qualquer outro Continente. Estou bem aqui. Sempre reconheço no discurso de "só no Brasil" uma variante um pouco mais educada do "não está vendo com quem está falando?" Coisa de quem deseja dizer que é melhor que os outros, que viajou, que conhece outros países, enfim, que não é como todo o mundo...Também viajei um pouco e quero declarar que  não sou dada a "patriotadas", mas considero as queixas sem sentido, essas verdadeiras jeremíadas do tipo "só neste país", sempre acompanhadas de um olhar artificial de desprezo, uma chatice. É saudável e desejável condenar a mania de grandeza, aquela história patética do “maior do mundo”. Nada disso. E nada também de sair por aí, para parecer descolado, ou “cool”, fazendo provocações gratuitas e dizendo que “não existe cultura brasileira ou idioma português”. Quando escuto isso lembro-me do esforço que tantos professores fazem para repassar o legado de Camões, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Castello Branco, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Tom Jobim, Tarsila do Amaral e tantos outros. E acho, sinceramente, que gente que diz essas coisas pode até ser e parecer engraçada, mas não foi grande coisa na escola.    

domingo, 6 de dezembro de 2015

Isso é tudo que tenho...

Faça chuva ou faça sol, em qualquer dia da semana há brasileiros discutindo sobre o impeachment, sobre o PMDB, o PT, a crise e Eduardo Cunha. Pessoas que se interessam por política. E que dizem coisas interessantes como este pensamento que li (não lembro onde) hoje: o pressuposto da democracia é a legitimidade daquele que discorda de mim.

 
Se estou sendo investigado por ilegalidades no trato da coisa pública, como posso exigir ética dos outros? Como posso apontar o dedo em direção a alguém? Se não tenho princípios, se acredito que o fim justifica os meios, como posso alegar padrões éticos para tentar condenar alguém? Posso ser moralista se recebi dinheiro de caixa dois?   
O pressuposto da democracia é a legitimidade daquele que discorda de mim. E a credibilidade de quem se acha no direito de discordar, contestar e exigir honestidade dos outros. Isso é o que ensinam as pessoas que se interessam pela política com espírito público e consciência. Eu conheço muitas pessoas assim.
São pessoas que nos fazem pensar porque participam, procuram ler e analisar as notícias e prestam muita atenção nos discursos transmitidos pela TV Câmara, TV Senado e pela TV Justiça. Elas acreditam, têm plano, ideias e certezas. Têm uma «consciência política», uma «visão do mundo».
Eu não possuo um plano, uma ideia ou sequer uma certeza. E, muito menos, uma «visão». Sou míope desde pequena, vejo tudo embaçado. Na verdade não possuo quase nada. E meu estilo de vida levou muito da minha fé. Além disso, sei muito menos do que gostaria.
As pessoas do mundo do poder de Brasília, onde moro há três décadas e meia, sabem quase tudo do poder. Argumentam que precisamos mudar a política porque a política se converteu num pântano de irregularidades, distorções, intrigas e desvios do dinheiro público.
Estas pessoas sabem tanto que enxergam a política quase como uma entidade que existe fora do coração dos homens. Isso me espanta. Elas acreditam que podem mudar a política porque seguem acreditando nos homens, confiam na espécie, no esforço humano e sonham com um futuro melhor para seus filhos e os filhos dos seus filhos.
Para elas, há sempre alguma coisa por trás do erro ou do fracasso, uma explicação última para a falha ou para o insucesso, uma verdade essencial que tudo explica e tudo redime. Eu invejo esta firmeza e decisão. Sou tão insegura e confusa que chego a pensar que há remédios piores do que algumas doenças, mas não queria ser assim.
Queria ter fé, confiança e certezas. E queria muito uma “consciência política”. Quem sabe assim eu conquistaria o direito de viver sem tantas indecisões, dores e tantos tormentos. Quem sabe assim eu deixaria de ser esta apática e apolítica criatura em que me transformei. Acreditem em mim. Não quero mais ser como sou.
Não quero mais suspeitar de Rosseau. Não posso continuar achando que o homem não é uma criatura em que se possa confiar. Vou mudar. Sei que careço de otimismo, fé e esperança, mas tenho o resoluto desejo de seguir carregando o estandarte das pessoas de boa vontade. Além do desejo de seguir navegando. É só isso que tenho.
 

domingo, 15 de novembro de 2015

Dia da República

Eis a História da República do Brasil abreviada: não podíamos falhar e falhamos.

sábado, 14 de novembro de 2015

Estado Islâmico: Matar, matar, matar!

Você sabe o que é o Estado Islâmico?
 
É a face mais cruel do fanatismo islamita, o terrorismo que surgiu das cinzas das duas últimas guerras declaradas pelo mundo ocidental "contra o terror". A primeira contra os talibãs afegãos, que tinham transformado o Afeganistão em campo de treino da al-Qaeda, e a segunda contra Saddam Hussein. 

A destruição da estrutura sunita do Iraque teve como um dos efeitos a emergência do Irã xiita como a principal potência regional. A destruição da estrutura sunita iraquiana teve outras consequências: a maioria xiita, que tinha sido subjugada por Saddam, resolveu vingar-se dos sunitas.

Não havia segurança para os sunitas. Não havia segurança para quem quer que seja. Governos  sectários e corruptos instalaram-se no Iraque. Com isso, explodiu a violência entre curdos, sunitas, xiitas, etc. Enquanto isso, no país ao lado do Iraque, a Síria, começa a guerra civil contra Bashar al-Assad. Isso atrai o jihadismo sunita que tinha estado preso, ou escondido, durante a ocupação americana. 

Patrick Cockburn,  experiente jornalista do ‘The Independent’, diz que o Estado Islâmico formou-se embaixo dos olhos complacentes do Ocidente na fronteira entre a Síria e o Iraque. Segundo ele, ninguém prestou atenção quando a Arábia Saudita, mesmo depois do 11 de Setembro e da invasão do Afeganistão e do Iraque, continuou a patrocinar o jihadismo sunita de inspiração wahabbista (uma versão radical do Islã.

Diz também que o Ocidente devia ter acordado quando a oposição a Bashar al-Assad deixou de ser capitaneada por movimentos "moderados" – e foi tomada de assalto por um grupo terrorista mais feroz do que a al-Qaeda. E que o Ocidente devia ter visto quando o ISIS, liderado por Abu al-Baghdadi (um prisioneiro do exército americano entre 2005 e 2009) começou a destroçar o Iraque: rebentando com as prisões do país (incluindo a fortemente simbólica Abu Ghraib); ou tomando cidades como Fallujah e Mosul. 
Com uma tácica que, segundo Patrick Cockburn, faz lembrar "uma serpente que se move entre rochedos", o Estado Islâmico agora passou a percorrer estradas e campos europeus onde forma ninhos e pôe ovos. Por que não foram barrados? Por que ninguém viu? Ninguém podia ver pela seguinte razão: isso iria desacreditar a história de que a guerra contra o terror tinha sido um sucesso, sustenta o jornalista do ‘The Independent’.

É isso. Enquanto o Ocidente festejava o "sucesso" da guerra contra o terror, o ISIS controlava um "califado" no Iraque e na Síria do tamanho da Grã-Bretanha. E agora? Os cenários possíveis, segundo o autor: uma longa guerra civil no Iraque e na Síria; ou a divisão dos países de acordo com fronteiras étnicas e religiosas (como sucedeu na Índia em 1947).
E se nada for feito? Neste caso eles seguirão a utopia de exportar o jihadismo para o Ocidente, a começar pela Europa. E poderão repetir em Londres, Madri, Barcelona, ou em qualquer outra cidade do planeta, o que acabaram de fazer em Paris para punir os "infiéis": matar, matar, matar. 
 

O rumo do desengano...



Em todos os lugares se misturam os anjos e os demônios, os ingênuos com os cínicos, os ladrões com os honrados, os ignorantes e os sabidos. Não adianta apontar o dedo, a maioria dos seres humanos é assim, age em busca de vantagem, sem se amparar em valores, princípios e/ou preocupações sociais/culturais. Por que estou dizendo isso? Porque não é no outro que devemos esperar a salvação, mas de nós próprios, do que temos de consciência pessoal. Sonhar com saídas alheias ou esperar que o outro nos dê conforto é tomar o rumo do desengano. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O segredo é não se resignar...




O segredo é não se resignar, não se considerar vítima, não mostrar aos outros tristeza ou desespero. O verdadeiro herói não se rende porque aprende que aquilo que o distingue dos outros não é a altivez com que enfrenta a morte, mas sim a paciência com que suporta diariamente os problemas e os esfrega de volta na cara de quem lhe provoca injustiças e sofrimentos.  Não desanimar, nunca desistir. Não perder a esperança mesmo quando tudo parece mudar para ficar no mesmo lugar. Todos os seres humanos tem fragilidades e dúvidas, mas tem, igualmente, capacidade para manter a coragem, a perseverança e determinação. O segredo é manter a dignidade. Até quando a gente está no chão. Lembro a cantiga dos tempos da faculdade:
um jornalista não deve sair no sábado à noite/
a não ser prá trabalhar, mas se vier a sair prá se divertir
não deve exagerar, mas se exagerar/não deve se embriagar,
mas se vier a se embriagar/não deve desequilibrar,
mas se desequilibrar/ que tente não cambalear,
mas se vier a cambalear/que não vá se esborrachar,
mas se vier a se esborrachar/que se esborrache de bruços
e enterre a cara no chão/para que seus leitores não possam
reconhecê-lo nesta humilhação. Não, isso não!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Coisas necessárias para mudar o mundo...


"Muitas coisas são necessárias para mudar o mundo:
raiva e tenacidade. ciência e indignação.
a iniciativa rápida, a reflexão longa,
a paciência fria e a infinita perseverança,
a compreensão do caso particular e a compreensão do conjunto,
apenas as lições da realidade podem nos ensinar como transformar a realidade"...

Bertold Brecht 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Feliz Ano Novo Rubem Fonseca


"Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.
Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.
Pereba entrou no banheiro e disse, que fedor.
Vai mijar noutro lugar, tô sem água.
Pereba saiu e foi mijar na escada.
Onde você afanou a TV, Pereba perguntou.
Afanei, porra nenhuma. Comprei. O recibo está bem em cima dela. Ô Pereba! você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?
Tô morrendo de fome, disse Pereba.
De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.
Não conte comigo, disse Pereba. Lembra-se do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andando de muleta.

Pereba sempre foi supersticioso. Eu não. Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba que quiser.
Acendemos uns baseados e ficamos vendo a novela. Merda. Mudamos de canal, prum bang-bang, Outra bosta.
As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto, já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?
Pena que não tão dando pra gente, disse Pereba. Ele falava devagar, gozador, cansado, doente.
Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa.
Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.
Zequinha entrou na sala, viu Pereba tocando punheta e disse, que é isso Pereba?
Michou, michou, assim não é possível, disse Pereba.
Por que você não foi para o banheiro descascar sua bronha?, disse Zequinha.
No banheiro tá um fedor danado, disse Pereba. Tô sem água.
As mulheres aqui do conjunto não estão mais dando?, perguntou Zequinha.
Ele tava homenageando uma loura bacana, de vestido de baile e cheia de jóias.
Ela tava nua, disse Pereba.
Já vi que vocês tão na merda, disse Zequinha.
Ele tá querendo comer restos de Iemanjá, disse Pereba.

Brincadeira, eu disse. Afinal, eu e Zequinha tínhamos assaltado um supermercado no Leblon, não tinha dado muita grana, mas passamos um tempão em São Paulo na boca do lixo, bebendo e comendo as mulheres. A gente se respeitava.
Pra falar a verdade a maré também não tá boa pro meu lado, disse Zequinha. A barra tá pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago - pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado.
Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo. Os homens não tão dando sopa, disse Pereba. E frango de macumba eu não como.
Depois de amanhã vocês vão ver. Vão ver o que?, perguntou Zequinha.
Só tô esperando o Lambreta chegar de São Paulo.
Porra, tu tá transando com o Lambreta?, disse Zequinha.
As ferramentas dele tão todas aqui.
Aqui!?, disse Zequinha. Você tá louco.

Eu ri.
Quais são os ferros que você tem?, perguntou Zequinha. Uma Thompson lata de goiabada, uma carabina doze, de cano serrado, e duas magnum.
Puta que pariu, disse Zequinha. E vocês montados nessa baba tão aqui tocando punheta?
Esperando o dia raiar para comer farofa de macumba, disse Pereba. Ele faria sucesso falando daquele jeito na TV, ia matar as pessoas de rir.
Fumamos. Esvaziamos uma pitu.
Posso ver o material?, disse Zequinha.
Descemos pelas escadas, o elevador não funcionava e fomos no apartamento de Dona Candinha. Batemos. A velha abriu a porta.
Dona Candinha, boa noite, vim apanhar aquele pacote.
O Lambreta já chegou?, disse a preta velha.
Já, eu disse, está lá em cima.
A velha trouxe o pacote, caminhando com esforço. O peso era demais para ela. Cuidado, meus filhos, ela disse.
Subimos pelas escadas e voltamos para o meu apartamento. Abri o pacote. Armei primeiro a lata de goiabada e dei pro Zequinha segurar. Me amarro nessa máquina, tarratátátátá!, disse Zequinha.
É antiga mas não falha, eu disse.

Zequinha pegou a magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá.
Botamos tudo em cima da mesa e ficamos olhando. Fumamos mais um pouco.
Quando é que vocês vão usar o material?, disse Zequinha.
Dia 2. Vamos estourar um banco na Penha. O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano.
Ele é um cara vaidoso, disse Zequinha.
É vaidoso mas merece. Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, pra não falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos.
É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha.
Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras.
Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha.
Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa?
Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha.
Cara importante faz o que quer, eu disse.
É verdade, disse Zequinha.
Ficamos calados, fumando.




Os ferros na mão e a gente nada, disse Zequinha.
O material é do Lambreta. E aonde é que a gente ia usar ele numa hora destas?
Zequinha chupou ar fingindo que tinha coisas entre os dentes. Acho que ele também estava com fome.
Eu tava pensando a gente invadir uma casa bacana que tá dando festa. O mulherio tá cheio de jóia e eu tenho um cara que compra tudo que eu levar. E os barbados tão cheios de grana na carteira. Você sabe que tem anel que vale cinco milhas e colar de quinze, nesse intruja que eu conheço? Ele paga na hora.
O fumo acabou. A cachaça também. Começou a chover. Lá se foi a tua farofa, disse Pereba.
Que casa? Você tem alguma em vista?
Não, mas tá cheio de casa de rico por aí. A gente puxa um carro e sai procurando.
Coloquei a lata de goiabada numa saca ele feira, junto com a munição. Dei uma magnum pro Pereba, outra pro Zequinha. Prendi a carabina no cinto, o cano para baixo e vesti uma capa. Apanhei três meias de mulher e uma tesoura. Vamos, eu disse.

Puxamos um Opala. Seguimos para os lados de São Conrado. Passamos várias casas que não davam pé, ou tavam muito perto da rua ou tinham gente demais. Até que achamos o lugar perfeito. Tinha na frente um jardim grande e a casa ficava lá no fundo, isolada. A gente ouvia barulho de música de carnaval, mas poucas vozes cantando. Botamos as meias na cara. Cortei com a tesoura os buracos dos olhos. Entramos pela porta principal.
Eles estavam bebendo e dançando num salão quando viram a gente.
É um assalto, gritei bem alto, para abafar o som da vitrola. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você aí, apaga essa porra dessa vitrola!
Pereba e Zequinha foram procurar os empregados e vieram com três garções e duas cozinheiras. Deita todo mundo, eu disse.
Contei. Eram vinte e cinco pessoas. Todos deitados em silêncio, quietos, como se não estivessem sendo vistos nem vendo nada.
Tem mais alguém em casa?, eu perguntei.
Minha mãe. Ela está lá em cima no quarto. É uma senhora doente, disse uma mulher toda enfeitada, de vestido longo vermelho. Devia ser a dona da casa.
Crianças?
Estão em Cabo Frio, com os tios.
Gonçalves, vai lá em cima com a gordinha e traz a mãe dela.
Gonçalves?, disse Pereba.
É você mesmo. Tu não sabe mais o teu nome, ô burro? Pereba pegou a mulher e subiu as escadas.
Inocêncio, amarra os barbados.
Zequinha amarrou os caras usando cintos, fios de cortinas, fios de telefones, tudo que encontrou.

Revistamos os sujeitos. Muito pouca grana. Os putos estavam cheios de cartões de crédito e talões de cheques. Os relógios eram bons, de ouro e platina. Arrancamos as jóias das mulheres. Um bocado de ouro e brilhante. Botamos tudo na saca.
Pereba desceu as escadas sozinho.
Cadê as mulheres?, eu disse.
Engrossaram e eu tive que botar respeito.
Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.

Vamos comer, eu disse, botando a fronha dentro da saca. Os homens e mulheres no chão estavam todos quietos e encagaçados, como carneirinhos. Para assustar ainda mais eu disse, o puto que se mexer eu estouro os miolos.
Então, de repente, um deles disse, calmamente, não se irritem, levem o que quiserem não faremos nada.
Fiquei olhando para ele. Usava um lenço de seda colorida em volta do pescoço.
Podem também comer e beber à vontade, ele disse.
Filha da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.

Como é seu nome?
Maurício, ele disse.
Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?
Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.
Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.
Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.

Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.
Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.
Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse.

Os caras deitados no chão estavam de olhos fechados, nem se mexiam. Não se ouvia nada, a não ser os arrotos do Pereba.
Você aí, levante-se, disse Zequinha. O sacana tinha escolhido um cara magrinho, de cabelos compridos.
Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha.
Carreguei os dois canos da doze. Atira você, o coice dela machucou o meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula.
Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Foi pouco tempo, mas o corpo do cara ficou preso pelo chumbo grosso na madeira.
Eu não disse? Zequinha esfregou ó ombro dolorido. Esse canhão é foda.




Não vais comer uma bacana destas?, perguntou Pereba.
Não estou a fim. Tenho nojo dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto.
E você... Inocêncio?
Acho que vou papar aquela moreninha.
A garota tentou atrapalhar, mas Zequinha deu uns murros nos cornos dela, ela sossegou e ficou quieta, de olhos abertos, olhando para o teto, enquanto era executada no sofá.
Vamos embora, eu disse. Enchemos toalhas e fronhas com comidas e objetos.
Muito obrigado pela cooperação de todos, eu disse. Ninguém respondeu.
Saímos. Entramos no Opala e voltamos para casa.
Disse para o Pereba, larga o rodante numa rua deserta de Botafogo, pega um táxi e volta. Eu e Zequinha saltamos.
Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas.
Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Vilópolis?
Chegamos lá em cima cansados. Botei as ferramentas no pacote, as jóias e o dinheiro na saca e levei para o apartamento da preta velha.
Dona Candinha, eu disse, mostrando a saca, é coisa quente.
Pode deixar, meus filhos. Os homens aqui não vêm.
Subimos. Coloquei as garrafas e as comidas em cima de uma toalha no chão. Zequinha quis beber e eu não deixei. Vamos esperar o Pereba.
Quando o Pereba chegou, eu enchi os copos e disse, que o próximo ano seja melhor. Feliz Ano Novo."

Rubem Fonseca
Texto extraído do livro "Feliz Ano Novo", Editora Artenova – Rio de Janeiro, 1975.