segunda-feira, 26 de março de 2018

É possível acordar e sorrir...

Não sou das que esquece. E também não sou daquelas sem lado. Estou ativamente contra os projetos totalitários. E disposta a virar as costas a toda e qualquer tentativa de asfixia democrática. Venha de onde vier.
 
Agora mesmo, continuarei na Netflix. É muito exagero discordar de uma produção e sair pregando o dilúvio. Não gostou, não vê. Desliga. Ou não liga. E manifesta a discordância por meio de nota, entrevistas, ou o que desejar.
 
Campanhas contra uma janela importante da cultura conspira contra o direito dos outros. Leio opiniões fortes e não vomito. Eu também já tive a minha dose de revolta contra tudo e contra todos. Expressei minha raiva nos meus votos, não tenho esqueletos no armário. 
 
Nada do que um político já condenado fez difere muito do que outros políticos que aguardam julgamento fizeram, mas é preciso dar nome a todos os "bois". É preciso incluir outros setores institucionais na Lava-Jato e não apenas os políticos e empresariais. Cadê o Judiciário, as polícias?
 
Estou me preparando para o meu ajuste de contas nas próximas eleições. No fundo, é tudo farinha do mesmo saco, zunem os jornais, as rádios e as tevês. Pode existir pouca diferença entre os mecanismos, mas há pessoas com imenso brilho. Pessoas bacanas e bem intencionadas.

 
Este País é uma kizomba, já disse Martinho da Vila daquele jeito sorridente, devagar, devagarinho. Mas, de todo modo, apesar de tudo, ou por isso mesmo, é possível acordar e sorrir, mesmo quando dormimos mal. Ou quando temos pesadelos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Brasil


Jornalista por vocação, cedo comecei a ter pena do meu País. Aprendi que em outros lugares havia pessoas sem medo nem miséria, existia menos desigualdade e menos desespero. Vale dizer: existiam lugares onde as leis eram justas e estavam em vigor para todos. 

Não, eu não acreditava em paraísos, mas em sociedades onde a esperança de melhoria era um fato, a desigualdade menos gritante e a liberdade um direito. Fui vendo, estudando, viajando, comparando, e continuei a ter ainda mais pena da terra onde nasci. Me entusiasmei com a volta da democracia e as eleições diretas.  Houve alguns poucos avanços. 

Passaram os anos. E nada mudou de forma substancial. Fui sentindo mais funda a pena, mesmo tendo conquistado o conforto de viver na parte mais rica e bem organizada do país. Sim, materialmente não sofro com as mazelas, mas nem por isso me dói menos ver e conviver com a desigualdade e a falta de futuro para a maioria.  

Na minha idade é quase nula a esperança que tenho de ver o Brasil sair do atoleiro e da miséria. Resta-me a certeza de que o novo sempre vem. E o sonho de que os que agora são jovens, e os que vierem, possam construir um país de que se possam orgulhar e não lhes doa como este a mim dói.
 

terça-feira, 20 de março de 2018

Não aceitem o habitual...


"Não aceitem o habitual como coisa natural, pois em tempos de desordem, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar"


Bertold Brecht

quarta-feira, 14 de março de 2018

Tive amigos...


“Tive amigos que morriam, outros que partiam/

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo/

Odiei o que era fácil/

Procurei-me na luz, no ar, no vento”.

Sophia de Mello Breyner

Mulheres

As mulheres são mais inteligentes emocionalmente do que os homens?

A empatia, traço de inteligência emocional que nos permite compreender como outras pessoas se sentem e ajuda a forjar conexões mais próximas com elas, pode ser determinada geneticamente, pelo menos em parte, e é mais comum nas mulheres do que nos homens, segundo um novo estudo.
Este estudo com 46 mil pessoas, feito pela Universidade de Cambridge, em Inglaterra, é o primeiro a encontrar evidências de que os genes têm um papel no nível de empatia dos seres humanos.
Até hoje, a empatia era considerada um traço de personalidade que pode ser desenvolvido durante a infância e através das experiências de vida. Esta característica ajuda a reconhecer as emoções de outras pessoas e a responder de maneira apropriada, por exemplo, para saber quando alguém está triste e precisa de ser consolado. Mas na nova pesquisa, divulgada no periódico científico Translational Psychiatry, cientistas debruçaram-se sobre a hipótese de esta característica também poder estar nos nossos genes.

“Quociente de empatia”

Os participantes do estudo tiveram o seu “quociente de empatia” medido através de um questionário e forneceram amostras de saliva para testes de ADN.
A partir daí, os cientistas procuraram diferenças nos seus genes que pudessem explicar porque é que algumas pessoas são mais empáticas do que outras.
Descobriram que, pelo menos, 10% das diferenças no grau de empatia das pessoas podem ser creditadas à genética. E determinaram também que as diferenças genéticas associadas a um menor grau de empatia estão ligadas a um risco maior de autismo.
As mulheres tiveram pontuação média maior do que os homens no questionário. Do máximo de 80 pontos, as voluntárias conseguiram, em média, 50, contra 41 deles.
Mas os investigadores afirmam que ainda não conseguiram identificar que traços genéticos são os responsáveis pela diferença de género.
“É um passo muito importante para entender o papel que a genética tem nesta capacidade”, refere o líder do estudo, Varun Warrier, citado pela BBC.
“Mas como só um décimo da variação de empatia entre os indivíduos é causado pela genética, continua a ser muito importante entender os factores não genéticos”, destaca.

É preciso estudar mais pessoas

No entanto, os cientistas reconhecem que a pesquisa tem limitações. O facto de o quociente de empatia ser determinado por um questionário, por exemplo, poderá enviesar os resultados.
Além disso, ainda não conseguiram encontrar os “genes da empatia”, especificamente responsáveis pela característica, apesar de terem percebido diferenças entre pessoas mais ou menos empáticas.
Os autores do estudo afirmam que é preciso um número ainda maior de pessoas para encontrar possíveis genes que afectem o grau de empatia.
O professor Gil McVean, que lecciona genética estatística na Universidade de Oxford, no Reino Unido, refere à BBC que o papel dos genes na empatia ainda é “menor”, quando comparado com outros factores relacionados com o ambiente em que a pessoa cresce.
“Sabemos que qualquer coisa que se pode medir nos humanos tem uma componente genética. Isso já estabelece que a empatia também pode ter uma componente hereditária”, afirma.
Edward Baker, do departamento de psicologia da King’s College London, refere que o estudo é um “primeiro passo” para explorar o elo de ligação entre a genética e a personalidade. O investigador concorda, no entanto, que é necessário investir numa pesquisa ainda maior.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Carta a uma amiga da juventude que reencontrei no Facebook


Maria das Graças,

Estou feliz e comovida com este reencontro virtual, depois de tantos e tantos e anos.

Não tenho facebook, mas o Beto - meu marido desde o século passado - acessou o dele no meu computador e vi algumas propostas de amizade. Fiz uma dancinha ao te reconhecer na foto. E senti uma grande saudade.

Ninguém esquece o período em que tinha vinte anos, em que tudo parecia possível.  

Passaram trinta anos. O tempo produziu um conjunto de novos laços nas nossas vidas, mas, no meu caso, alguns antigos não se desfizeram.

Quero dizer do muito que é a sua pessoa que conheci, amei e ainda amo: a professora competente, a amiga de coração doce, a mãe do Humberto, a fã das músicas norte-americanas, a filha que sabia perdoar.

A vida aconteceu e demonstrou-me que, afinal, "nem tudo era possível". Nem que fosse por isto, a sua imagem feliz sempre esteve na minha memória, me lembrando o ritual que eu decididamente aprendi com você. O da amizade.

Muitas voltas foram dadas, desde a última vez que te vi. Fiz carreira proveitosa no jornalismo, mas agora estou trabalhando menos. Tenho uma filha, Julia, de 34 anos, que me deu três netos: Giovana, de sete anos e os gêmeos Arthur e Victor de oito meses.

E Humberto, como vai? E você?

Gostaria de vê-la. Se achar isso possível, se quiser me visitar, ou se achar viável marcar um almoço, ou mesmo um café aí em Belo Horizonte, dou um jeito de ir.

É isso: a história da minha vida teria um vácuo desagradável, se eu não pudesse contar com as doces lembranças do tempo em que tive a alegria de conviver com você.

Um forte e saudoso abraço

Vanda Célia     

 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O que é um bom líder político?

Como dizia Mitterrand, a política, para além de representar a tentativa permanente da solução dos problemas de pessoas concretas que vivem em sociedade, também é um ato humano carregado de significado. Exige caráter, coragem, dedicação e amor ao próximo. Exige gente capaz de grandes gestos e de rupturas indispensáveis. Gente que não aceita o anonimato, a linearidade e a insignificância.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança duma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”
Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.

Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos (1940)

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A verdade...

Advertência: A linguagem pode ser a forma principal das pessoas se esconderem. Sobre isso Fernando Pessoa disse: "quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo".

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Carnaval e Futebol

 
Numa sociedade em que as emoções são cada vez mais controladas em nome da civilização e dos deveres de convivência, Carnaval e Copa são fantásticos momentos de excitação, transgressão e de certo descontrole de algumas manifestações reprimidas. 
 
São instantes com todos os ingredientes de que se compõe o melhor da vida: a competição, a sorte e o azar, o talento, a superação, o riso, o choro, o risco e o suposto elemento neutro: o árbitro — que nos permite justificar qualquer revés.
 
Aquele senhor de preto correndo pelo campo e os juízes invisíveis das notas na quarta-feira nos permitem considerar que nem toda a derrota é total. Nada mais humano que justificar os 7 x1 que temos de enfrentar nas derrapagens da vida.
 
A explosão de alegria do Carnaval — com o inacreditável pit stop das mazelas rotineiras — causa espanto e admiração.   Já a paixão pelo futebol, normal aqui e em todos os países do mundo, é um fenômeno que devia ser melhor apurado  por estudiosos.
 
No Brasil, o futebol é tudo e o resto é quase nada. Não é por acaso que a elite dirigente tenta usar o esporte como instrumento legitimador. Tem muita coisa em jogo aí. É  por meio desse esporte que indivíduos excluídos chegam à condição de heróis. 
 
É por meio das competições entre clubes e países que os pobres conseguem ter a sensação de “pertencer” a uma torcida, a um time e, principalmente,  ao Brasil. É um dos únicos momentos em que os pobres “pertencem”, fazem parte de algo.
 
Os jogadores são elevados à condição de heróis por várias razões. Uma delas: são a afirmação de um sentimento raro: o orgulho de ser brasileiro. Outra: dão a entender que existe mobilidade e que somos um país de avanços sociais, o que nem é verdade.
 
Para alguns críticos, o futebol induz ao conformismo. E daí, pergunto eu. Em um país marcado pela desigualdade só o futebol ainda pode nos fazer acreditar, pelo menos em raros momentos, que somos todos iguais, todos brasileiros e que estamos todos juntos.
 
O futebol cumpre funções muito além do que seria racional porque o Estado é incapaz de promover políticas públicas de educação. Sem escola, o brasileiro destaca-se pelo futebol (Pelé etc) pela música (Tom Jobim etc) e pela beleza (Gisele etc).
 
Como dizia Darcy Ribeiro, os dons do brasileiro não chegam pela escola, mas pela natureza, pela genética ou pelas mãos de Deus. Em 2018 temos uma Copa e, mais uma vez, devemos nos consagrar na Rússia pelo nosso maior esporte. 
 
A autoestima do país dependerá do resultado da competição. É sofrido saber disso – afinal o jogo é dominado pela arbitrariedade: a sorte e o azar, ou o mau momento de um jogador. Não há nada a fazer. Paciência...vamos todos compartilhar uma festa fantástica.
 
É Carnaval, não leve a mal, mas não posso encerrar sem dizer uma coisa: levando em conta a descrença geral, só fico preocupada com uma coisa: o que é que vai acontecer num eventual cenário de derrota? Bate na madeira, mangalô três vezes.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A qualidade da democracia


Tão importante como a democracia em si mesma é a sua qualidade. A democracia qualifica-se, entre outros fatores, pela transparência no exercício da função política e pelas medidas adotadas para prevenir os conflitos de interesses e a corrupção, o que influencia enormemente a credibilidade e a confiança que as instituições inspiram nos cidadãos.
A fiscalização da atividade de representação e a transparência na defesa de interesses (lobbying) nos três poderes significa instrumento fundamental de integridade e lisura no exercício das atividades públicas.
Na Europa há quem defenda, em nome da separação dos poderes, a incompatibilidade de advogados na função parlamentar. Alegam que advogados participam na função judicial de aplicação das leis e podem ter interesses em alterar ou manter determinada legislação em função das causas dos seus clientes em lugar das causas da cidadania.
 
Argumentam que os fundadores da teoria da separação de poderes (Locke e Montesquieu, principalmente) consideram essencial um ponto: quem faz as leis não deve participar na sua execução, e vice-versa. Nessa perspectiva, advogados-deputados e juízes com participação em escritórios de advocacia estariam infringindo as regras.
 

sábado, 27 de janeiro de 2018

Crônica da vida que passa


Por Fernando Pessoa

“Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeismo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeismo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade. Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele-próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz. E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de génio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos. Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida-eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da cousa transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez. Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas - e quem sabe a que ponto reais? - que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.”

(in Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)


Texto reproduzido do Blog Portugal dos Pequeninos de João Gonçalves

domingo, 21 de janeiro de 2018

Fogo e Fúria


Terminei de ler “Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca de Trump”, do jornalista Michael Wolff — livro que relata ao mundo um perfil sombrio de Donald Trump. Não há uma só palavra que realmente o ajude.
Da vitória inesperada, à obsessão por Putin, o presidente dos Estados Unidos — narcisista e distraído demais para ser capaz de governar — não teria a menor “noção” do lugar que ocupa na história.
Além disso, seu alto escalão estaria rachado, se digladiando. No centro desta guerra, esteve o hoje ex-conselheiro Steve Bannon e a família de Trump, mais especificamente, a filha Ivanka e o cunhado Jared Kushner.
Todos disputavam força e influência sobre o presidente e certamente uma das fontes de Wolff foi Steve Bannon. Ele é citado várias vezes ao longo do texto – bem escrito e uma leitura agradável.
 
Exemplo: “No Salão Oval, na frente do pai dela, Bannon atacou abertamente [Ivanka]. ‘Você’, ele disse, apontando para ela enquanto o presidente assistia, ‘é uma mentirosa do caralho’.
O retrato de Trump é demolidor. Ele é descrito como avoado, um indivíduo com capacidade de concentração curta, incapaz de ler resumos de planos políticos, analisar problemas e tomar decisões bem embasadas.
Trump seria alguém que vê TV frequentemente e que segue frustrado e confuso com o fato de não ter obtido aprovação generalizada dos americanos.
Seus assessores aparecem cientes de seus defeitos e, segundo o livro, se perguntam por quanto tempo podem manter a ilusão de que Donald Trump é capaz de governar.
“Somos todos perdedores”, teria dito Trump ao longo da campanha. ‘Todo o nosso pessoal é terrível, ninguém sabe o que está fazendo'”.
Em conversa com doador eleitoral, ele teria sido mais específico: “Esta coisa’ – disse sobre a campanha – ‘está fodida'”.
– O choque da vitória –
“Ao longo da campanha, quando o inesperado parecia se confirmar – surgiu um Donald Trump que achava ser totalmente capacitado a ocupar a Presidência dos Estados Unidos”.
Tudo combinado com os russos?
“Os três caras mais importantes da campanha’ (Donald Trump Jr, o genro de Trump, Jared Kushner, e o chefe de campanha, Paul Manafort), tiveram reunião explosiva com um governo estrangeiro na sala de conferências, no 25º andar da Trump Tower, e sem advogados.
Diz trecho do livro: “Eles não tinham advogados. Mesmo que você pensasse que isto não era traição, antipatriótico ou uma merda ruim – o FBI deveria ter sido chamado imediatamente'”.
Trump não sabe nada da Constituição?
Sam Nunberg foi enviado para explicar a Constituição para o então candidato, mas não passou da Quarta Emenda
Trump teme ser envenenado – “Ele tem um medo antigo de ser envenenado, razão pela qual gosta de comer no McDonald’s – ninguém sabia que ele estava chegando e a comida estava seguramente pré-preparada”.
– As pretensões presidenciais de Ivanka – A primeira mulher presidente nos Estados Unidos, considera Ivanka, não seria Hillary Clinton, seria Ivanka Trump.”
– Uday e Qusay Trump – “Seus filhos, Don Jr. e Eric, são chamados pelas costas por pessoas próximas de Trump de Uday e Qusay, nomes dos filhos de Saddam Hussein”.
– Rupert Murdoch sobre Trump
“Que idiota da porra”, teria exclamado o magnata dos meios de comunicação, depois de conversar sobre imigração com Trump.
Ivanka revela o segredo do topete – Ivanka “trata o pai com certo distanciamento, inclusive com ironia, a ponto de fazer brincadeiras com os outros sobre seu penteado.
Ela explicou aos amigos: Trump tem uma parte totalmente calva no topo da cabeça – depois de uma cirurgia de redução da pele do crânio – rodeada por um círculo de cabelo dos lados e à frente; as extremidades são penteadas para se encontrarem no centro e, depois, jogadas para trás, e fixadas com spray.
A cor, ela observa com tom cômico, é de um produto chamado ‘Just for Men’. Quanto mais tempo fica aplicado, mais escuro o cabelo fica. A impaciência resultou no louro-alaranjado de Trump”.
Retórica tosca...
É isso, este é o homem que manda na Casa Branca.  O livro despreza e desmonta a retórica tosca e semi-primária de Trump, o homem que está dando aos Estados Unidos (e ao mundo) o que dele se esperava.


 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Escrever com o vigor de uma mulher...



«Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem.» 
LYA LUFT

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Dinheiro público

Porquê falar tanto de punição a quem desvia dinheiro público?
 
Porque tudo que é sustentado pelo Estado é pago por mim e por uma enorme quantidade de gente que nem sequer consegue ser bem atendida em um hospital público e, mesmo assim, segue pagando salários absurdos a inúmeras pessoas que nem sequer merecem um pontapé no traseiro se forem despedidas por justa causa. Tenho mais do que o direito de falar sobre esses assuntos, tenho a obrigação. Sinto esse dever moral.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Tens de inverter o sentido de marcha... KAFKA

KAFKA

«Ah», disse o rato, «o mundo cada dia fica mais apertado. A princípio era tão grande que até me metia medo, depois continuei a andar e ao longe já se viam os muros à esquerda e à direita, e agora - e não passou assim tanto tempo desde que eu comecei a andar - estou no quarto que me foi destinado e naquele canto está já a armadilha em que vou cair.»
«Tens de inverter o sentido de marcha - disse o gato, e comeu-o».
Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Dever moral

Por que é preciso defender o interesse público? Porque toda e qualquer instituição que recebe dinheiro do estado tem de ser auditada, fiscalizada e prestar contas. Sim, é preciso cobrar responsabilidade de tudo que é pago por mim e por uma enormidade de pessoas que nem sequer consegue ser bem atendida num hospital público e que vai pagando salários astronômicos a gente que nem sequer merecia um pontapé no traseiro, além de demissão por justa causa. Sim, é isso. Todos nós temos o direito de falar com indignação e revolta sobre esse assunto. Mais que isso: temos a obrigação. Sinto esse dever moral.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Cadê os outros?


No Brasil de hoje temos dezenas de pessoas investigadas (muitas condenadas e algumas presas) por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e todos os tipos de desvios dos fundos públicos.

Além de dizer que neste álbum histórico estão muitos nomes e fotos da "elite" nacional, lamento assinalar a estranha exceção do Judiciário, da polícia e dos altos funcionários públicos que foram omissos na fiscalização, prevenção ou denúncia da roubalheira.

Já que aparentemente houve tanto cuidado em juntar o maior número possível de figuras públicas de diversas áreas, por que foram incluídas fotos de mais setores institucionais do que de outros? Não estou criticando, estou lamentando as ausências que são muitas e injustificáveis.

Sei que a Lava-Jato é uma benção no país da impunidade, mas acredito que neste caso, e logo desde o início, criou-se e deixou-se alastrar pela opinião pública a ideia de que por trás dos crimes de corrupção estavam apenas os "políticos poderosos".

E, sendo "poderosos", convinha que tivessem rostos conhecidos.  Assim, o álbum foi aparentemente limitado às figuras e os rostos que as televisões, as revistas e os jornais mostram.

O mundo da magistratura, onde alguns sempre olharam para a política com um misto de inveja e de ressentimento, passou a exercer o poder de arruinar, com gosto e naturalidade, a reputação de algumas das figuras públicas mais conhecidas do Legislativo e do Executivo.  

Ao consentir na orientação da investigação neste sentido, viram aqui mais uma oportunidade para "limpar" um "sistema" que intimamente desprezam.    

Não quero dizer que muitos políticos não dão motivo para a maldição pública. O que quero dizer é que no meio disto tudo, porém, existem seguramente vítimas de um crime concreto.

E não sabemos se os criminosos, os verdadeiros, vão ter o seu castigo ou se os inocentes vão ser absolvidos. O que acho é que a legítima indignação de muitos se confundiu demasiadas vezes com a demagogia sensacionalista de alguns.

Acho ainda que falta  credibilidade e "serenidade"  em alguns líderes da investigação. Ver um procurador de dedo em riste no Jornal Nacional investindo contra todos os poderes da República não pode ser sinal de avanço. É, no mínimo, excesso de parcialidade.

Tudo visto e ponderado, estou certa de que uma justiça "justa" jamais poderá ser aquela que se apoia, seja de forma ingênua ou mesmo de maneira convicta, no triunfo do recalcado.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Natal



Estrela de Belém e dos pastores
Lava da alma humana as suas dores...

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

UTOPIAS ANTIPOLÍTICAS!

 
 
Por Angela Alonso - Iustríssima- FSP, 17 
 
1.  Versão notável desse tipo de utopia é a da empresa Seasteading Institute, fundada em 2008 por um empreendedor de tecnologia e um engenheiro de softwares. O segundo é neto de Milton Friedman, assegurando o DNA liberal.
 
2. A organização abandonou os "sistemas políticos obsoletos" em favor de "cidades flutuantes que permitirão à próxima geração de pioneiros testar pacificamente novas ideias de como viver em comunidade." Bem-sucedidas, disseminarão a "mudança", abolindo os Estados.
  
3. Este novo utopismo tem geografia móvel: ilhas artificiais ancoradas em alto-mar. Assim, se insatisfeitas com a vizinhança, levantariam âncora em vez de guerrear. O residente também se livraria do Estado, cabendo a gestão a especialistas. Escaparia do aborrecimento com políticos, tornando-se cliente de um serviço.
  
4. Essa utopia antipolítica concretiza o que pensam muitos: que políticos são parasitas ineficientes e dispensáveis, assim como tudo que os cerca —as Constituições, as instituições políticas, as candidaturas e os votos.
  
5. Tal negação extrema da política tem correspondentes no debate brasileiro. A opinião, as redes e as mídias entronizaram o mercado, com seu princípio de eficiência. Ao mesmo tempo, subiu na consideração popular um Poder não eleito: o Judiciário, único guardião da coisa pública, mais capaz e confiável que os políticos. Produziu-se verdadeira glamorização de juízes e promotores, com livros, eventos, filmes, séries, homenagens e prêmios aos "heróis" da Lava Jato.
   
6. O prestígio se estendeu para a Polícia Federal. O empoderamento público da corporação começou jocoso, com o "japonês" que conduzia políticos acusados de corrupção e o culto a policiais-musos. E se assentou na equação "justiça igual a prisão" —apesar de nossa população carcerária ser a terceira no ranking mundial.
   
7. Em princípio, como diz o nome do filme —"Polícia Federal: A Lei é para Todos"—, a regra independe de a quem se aplique. Mas como tudo se interpreta, uns são inocentados e outros aprisionados, conforme as conveniências.
   
8. Essa moralidade antipolítica incita uma lógica da exclusão e anima o milhão de pessoas que foi ao cinema prestigiar a PF e aqueles que aderem à candidatura presidencial de um militar.  E é o que legitima as idas da polícia aos campi de universidades públicas, onde muitos discordam dos partidários da utopia antipolítica.
   
9. As operações da PF se baseiam na crença sincera de que o combate à corrupção lhe confere um mandato tácito da opinião pública para vigiar e punir. A UFMG foi o caso mais recente de uma série de seis operações em universidades federais. Feriu direitos individuais. Não houve intimação para depor que, desobedecida, justificaria a condução coercitiva.
   
10. Essa ação e suas congêneres se amparam na tese de que o serviço público é ineficaz e corrupto, ao contrário do mundo privado de Seasteading Institute, Odebrecht, Friboi e similares, onde só existiriam pessoas eficientes e de bem. Mas não é bem assim. Em toda parte há joio e trigo, no Estado e no mercado, na universidade e na PF.
   
11. A utopia antipolítica produz um antiestatismo às cegas, que evita a política como esfera de debate entre os divergentes. Ancorados em uma superioridade moral que julgam autoevidente, os novos utopistas excluem, discriminam, impõem. Seus fins justificam seus meios. O apelo à ética respalda a prática da violência.
   
12. Pode parecer distopia, mas, como a ilha do neto de Friedman denota, o pesadelo de uns é justamente a utopia de outros.
 
 

Texto da Folha extraído do Ex-blog de Cesar Maia em 19/12/2017