domingo, 15 de novembro de 2015
sábado, 14 de novembro de 2015
Estado Islâmico: Matar, matar, matar!
Você sabe o que é o Estado Islâmico?
É a face mais cruel do fanatismo islamita, o terrorismo que surgiu das cinzas das duas últimas guerras declaradas pelo mundo ocidental "contra o terror". A primeira contra os talibãs afegãos, que tinham transformado o Afeganistão em campo de treino da al-Qaeda, e a segunda contra Saddam Hussein.
A destruição da estrutura sunita do Iraque teve como um dos efeitos a emergência do Irã xiita como a principal potência regional. A destruição da estrutura sunita iraquiana teve outras consequências: a maioria xiita, que tinha sido subjugada por Saddam, resolveu vingar-se dos sunitas.
Não havia segurança para os sunitas. Não havia segurança para quem quer que seja. Governos sectários e corruptos instalaram-se no Iraque. Com isso, explodiu a violência entre curdos, sunitas, xiitas, etc. Enquanto isso, no país ao lado do Iraque, a Síria, começa a guerra civil contra Bashar al-Assad. Isso atrai o jihadismo sunita que tinha estado preso, ou escondido, durante a ocupação americana.
Patrick Cockburn, experiente jornalista do ‘The Independent’, diz que o Estado Islâmico formou-se embaixo dos olhos complacentes do Ocidente na fronteira entre a Síria e o Iraque. Segundo ele, ninguém prestou atenção quando a Arábia Saudita, mesmo depois do 11 de Setembro e da invasão do Afeganistão e do Iraque, continuou a patrocinar o jihadismo sunita de inspiração wahabbista (uma versão radical do Islã.
Diz também que o Ocidente devia ter acordado quando a oposição a Bashar al-Assad deixou de ser capitaneada por movimentos "moderados" – e foi tomada de assalto por um grupo terrorista mais feroz do que a al-Qaeda. E que o Ocidente devia ter visto quando o ISIS, liderado por Abu al-Baghdadi (um prisioneiro do exército americano entre 2005 e 2009) começou a destroçar o Iraque: rebentando com as prisões do país (incluindo a fortemente simbólica Abu Ghraib); ou tomando cidades como Fallujah e Mosul.
É a face mais cruel do fanatismo islamita, o terrorismo que surgiu das cinzas das duas últimas guerras declaradas pelo mundo ocidental "contra o terror". A primeira contra os talibãs afegãos, que tinham transformado o Afeganistão em campo de treino da al-Qaeda, e a segunda contra Saddam Hussein.
A destruição da estrutura sunita do Iraque teve como um dos efeitos a emergência do Irã xiita como a principal potência regional. A destruição da estrutura sunita iraquiana teve outras consequências: a maioria xiita, que tinha sido subjugada por Saddam, resolveu vingar-se dos sunitas.
Não havia segurança para os sunitas. Não havia segurança para quem quer que seja. Governos sectários e corruptos instalaram-se no Iraque. Com isso, explodiu a violência entre curdos, sunitas, xiitas, etc. Enquanto isso, no país ao lado do Iraque, a Síria, começa a guerra civil contra Bashar al-Assad. Isso atrai o jihadismo sunita que tinha estado preso, ou escondido, durante a ocupação americana.
Patrick Cockburn, experiente jornalista do ‘The Independent’, diz que o Estado Islâmico formou-se embaixo dos olhos complacentes do Ocidente na fronteira entre a Síria e o Iraque. Segundo ele, ninguém prestou atenção quando a Arábia Saudita, mesmo depois do 11 de Setembro e da invasão do Afeganistão e do Iraque, continuou a patrocinar o jihadismo sunita de inspiração wahabbista (uma versão radical do Islã.
Diz também que o Ocidente devia ter acordado quando a oposição a Bashar al-Assad deixou de ser capitaneada por movimentos "moderados" – e foi tomada de assalto por um grupo terrorista mais feroz do que a al-Qaeda. E que o Ocidente devia ter visto quando o ISIS, liderado por Abu al-Baghdadi (um prisioneiro do exército americano entre 2005 e 2009) começou a destroçar o Iraque: rebentando com as prisões do país (incluindo a fortemente simbólica Abu Ghraib); ou tomando cidades como Fallujah e Mosul.
Com uma
tácica que, segundo Patrick Cockburn, faz lembrar "uma serpente que se
move entre rochedos", o Estado Islâmico agora passou a percorrer estradas e campos europeus onde forma ninhos e pôe ovos. Por que não foram barrados? Por que ninguém viu? Ninguém podia ver pela seguinte razão: isso iria desacreditar a história de que a guerra contra o terror
tinha sido um sucesso, sustenta o jornalista do ‘The Independent’.
É isso. Enquanto o Ocidente festejava o "sucesso" da guerra contra o terror, o ISIS controlava um "califado" no Iraque e na Síria do tamanho da Grã-Bretanha. E agora? Os cenários possíveis, segundo o autor: uma longa guerra civil no Iraque e na Síria; ou a divisão dos países de acordo com fronteiras étnicas e religiosas (como sucedeu na Índia em 1947).
E se nada for feito? Neste caso eles seguirão a utopia de exportar o jihadismo para o Ocidente, a começar pela Europa. E poderão repetir em Londres, Madri, Barcelona, ou em qualquer outra cidade do planeta, o que acabaram de fazer em Paris para punir os "infiéis": matar, matar, matar. É isso. Enquanto o Ocidente festejava o "sucesso" da guerra contra o terror, o ISIS controlava um "califado" no Iraque e na Síria do tamanho da Grã-Bretanha. E agora? Os cenários possíveis, segundo o autor: uma longa guerra civil no Iraque e na Síria; ou a divisão dos países de acordo com fronteiras étnicas e religiosas (como sucedeu na Índia em 1947).
O rumo do desengano...
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
O segredo é não se resignar...
O segredo
é não se resignar, não se considerar vítima, não mostrar aos outros tristeza ou
desespero. O verdadeiro herói não se rende porque aprende
que aquilo que o distingue dos outros não é a altivez com que
enfrenta a morte, mas sim a paciência com que
suporta diariamente os problemas e os esfrega de volta na cara
de quem lhe provoca injustiças e sofrimentos. Não desanimar, nunca desistir.
Não perder a esperança mesmo quando tudo parece mudar para ficar no mesmo lugar.
Todos os seres humanos tem fragilidades e dúvidas, mas tem, igualmente,
capacidade para manter a coragem, a perseverança e determinação. O segredo
é manter a dignidade. Até quando a gente está no chão. Lembro a cantiga dos
tempos da faculdade:
um
jornalista não deve sair no sábado à noite/a não ser prá trabalhar, mas se vier a sair prá se divertir
não deve exagerar, mas se exagerar/não deve se embriagar,
mas se vier a se embriagar/não deve desequilibrar,
mas se desequilibrar/ que tente não cambalear,
mas se vier a cambalear/que não vá se esborrachar,
mas se vier a se esborrachar/que se esborrache de bruços
e enterre a cara no chão/para que seus leitores não possam
reconhecê-lo nesta humilhação. Não, isso não!
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Coisas necessárias para mudar o mundo...
"Muitas coisas são necessárias para mudar o mundo:
raiva e tenacidade. ciência e indignação.
a iniciativa rápida, a reflexão longa,
a paciência fria e a infinita perseverança,
a compreensão do caso particular e a compreensão do conjunto,
apenas as lições da realidade podem nos ensinar como transformar a realidade"...
Bertold Brecht
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Feliz Ano Novo Rubem Fonseca
"Vi na televisão que as
lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem
no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham
vendido todo o estoque.
Pereba, vou ter que esperar o dia
raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros. Pereba entrou no banheiro e disse, que fedor.
Vai mijar noutro lugar, tô sem água.
Pereba saiu e foi mijar na escada.
Onde você afanou a TV, Pereba perguntou.
Afanei, porra nenhuma. Comprei. O recibo está bem em cima dela. Ô Pereba! você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?
Tô morrendo de fome, disse Pereba.
De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.
Não conte comigo, disse Pereba. Lembra-se do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andando de muleta.
Pereba sempre foi supersticioso.
Eu não. Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba
que quiser.
Acendemos uns baseados e ficamos
vendo a novela. Merda. Mudamos de canal, prum bang-bang, Outra bosta.As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto, já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?
Pena que não tão dando pra gente, disse Pereba. Ele falava devagar, gozador, cansado, doente.
Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa.
Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.
Zequinha entrou na sala, viu Pereba tocando punheta e disse, que é isso Pereba?
Michou, michou, assim não é possível, disse Pereba.
Por que você não foi para o banheiro descascar sua bronha?, disse Zequinha.
No banheiro tá um fedor danado, disse Pereba. Tô sem água.
As mulheres aqui do conjunto não estão mais dando?, perguntou Zequinha.
Ele tava homenageando uma loura bacana, de vestido de baile e cheia de jóias.
Ela tava nua, disse Pereba.
Já vi que vocês tão na merda, disse Zequinha.
Ele tá querendo comer restos de Iemanjá, disse Pereba.
Brincadeira, eu disse. Afinal, eu
e Zequinha tínhamos assaltado um supermercado no Leblon, não tinha dado muita
grana, mas passamos um tempão em São Paulo na boca do lixo, bebendo e comendo
as mulheres. A gente se respeitava.
Pra falar a verdade a maré também
não tá boa pro meu lado, disse Zequinha. A barra tá pesada. Os homens não tão
brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo.
Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos
em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era
meio gago - pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado.Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo. Os homens não tão dando sopa, disse Pereba. E frango de macumba eu não como.
Depois de amanhã vocês vão ver. Vão ver o que?, perguntou Zequinha.
Só tô esperando o Lambreta chegar de São Paulo.
Porra, tu tá transando com o Lambreta?, disse Zequinha.
As ferramentas dele tão todas aqui.
Aqui!?, disse Zequinha. Você tá louco.
Eu ri.
Quais são os ferros que você
tem?, perguntou Zequinha. Uma Thompson lata de goiabada, uma carabina doze, de
cano serrado, e duas magnum.Puta que pariu, disse Zequinha. E vocês montados nessa baba tão aqui tocando punheta?
Esperando o dia raiar para comer farofa de macumba, disse Pereba. Ele faria sucesso falando daquele jeito na TV, ia matar as pessoas de rir.
Fumamos. Esvaziamos uma pitu.
Posso ver o material?, disse Zequinha.
Descemos pelas escadas, o elevador não funcionava e fomos no apartamento de Dona Candinha. Batemos. A velha abriu a porta.
Dona Candinha, boa noite, vim apanhar aquele pacote.
O Lambreta já chegou?, disse a preta velha.
Já, eu disse, está lá em cima.
A velha trouxe o pacote, caminhando com esforço. O peso era demais para ela. Cuidado, meus filhos, ela disse.
Subimos pelas escadas e voltamos para o meu apartamento. Abri o pacote. Armei primeiro a lata de goiabada e dei pro Zequinha segurar. Me amarro nessa máquina, tarratátátátá!, disse Zequinha.
É antiga mas não falha, eu disse.
Zequinha pegou a magnum. Jóia,
jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse:
ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe
como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá.
Botamos tudo em cima da mesa e
ficamos olhando. Fumamos mais um pouco.Quando é que vocês vão usar o material?, disse Zequinha.
Dia 2. Vamos estourar um banco na Penha. O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano.
Ele é um cara vaidoso, disse Zequinha.
É vaidoso mas merece. Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, pra não falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos.
É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha.
Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras.
Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha.
Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa?
Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha.
Cara importante faz o que quer, eu disse.
É verdade, disse Zequinha.
Ficamos calados, fumando.
Os ferros na mão e a gente nada, disse Zequinha.
O material é do Lambreta. E aonde é que a gente ia usar ele numa hora destas?
Zequinha chupou ar fingindo que tinha coisas entre os dentes. Acho que ele também estava com fome.
Eu tava pensando a gente invadir uma casa bacana que tá dando festa. O mulherio tá cheio de jóia e eu tenho um cara que compra tudo que eu levar. E os barbados tão cheios de grana na carteira. Você sabe que tem anel que vale cinco milhas e colar de quinze, nesse intruja que eu conheço? Ele paga na hora.
O fumo acabou. A cachaça também. Começou a chover. Lá se foi a tua farofa, disse Pereba.
Que casa? Você tem alguma em vista?
Não, mas tá cheio de casa de rico por aí. A gente puxa um carro e sai procurando.
Coloquei a lata de goiabada numa saca ele feira, junto com a munição. Dei uma magnum pro Pereba, outra pro Zequinha. Prendi a carabina no cinto, o cano para baixo e vesti uma capa. Apanhei três meias de mulher e uma tesoura. Vamos, eu disse.
Puxamos um Opala. Seguimos para
os lados de São Conrado. Passamos várias casas que não davam pé, ou tavam muito
perto da rua ou tinham gente demais. Até que achamos o lugar perfeito. Tinha na
frente um jardim grande e a casa ficava lá no fundo, isolada. A gente ouvia
barulho de música de carnaval, mas poucas vozes cantando. Botamos as meias na
cara. Cortei com a tesoura os buracos dos olhos. Entramos pela porta principal.
Eles estavam bebendo e dançando
num salão quando viram a gente.
É um assalto, gritei bem alto,
para abafar o som da vitrola. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você
aí, apaga essa porra dessa vitrola!Pereba e Zequinha foram procurar os empregados e vieram com três garções e duas cozinheiras. Deita todo mundo, eu disse.
Contei. Eram vinte e cinco pessoas. Todos deitados em silêncio, quietos, como se não estivessem sendo vistos nem vendo nada.
Tem mais alguém em casa?, eu perguntei.
Minha mãe. Ela está lá em cima no quarto. É uma senhora doente, disse uma mulher toda enfeitada, de vestido longo vermelho. Devia ser a dona da casa.
Crianças?
Estão em Cabo Frio, com os tios.
Gonçalves, vai lá em cima com a gordinha e traz a mãe dela.
Gonçalves?, disse Pereba.
É você mesmo. Tu não sabe mais o teu nome, ô burro? Pereba pegou a mulher e subiu as escadas.
Inocêncio, amarra os barbados.
Zequinha amarrou os caras usando cintos, fios de cortinas, fios de telefones, tudo que encontrou.
Revistamos os sujeitos. Muito
pouca grana. Os putos estavam cheios de cartões de crédito e talões de cheques.
Os relógios eram bons, de ouro e platina. Arrancamos as jóias das mulheres. Um
bocado de ouro e brilhante. Botamos tudo na saca.
Pereba desceu as escadas sozinho.Cadê as mulheres?, eu disse.
Engrossaram e eu tive que botar respeito.
Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.
Vamos comer, eu disse, botando a
fronha dentro da saca. Os homens e mulheres no chão estavam todos quietos e
encagaçados, como carneirinhos. Para assustar ainda mais eu disse, o puto que
se mexer eu estouro os miolos.
Então, de repente, um deles
disse, calmamente, não se irritem, levem o que quiserem não faremos nada.Fiquei olhando para ele. Usava um lenço de seda colorida em volta do pescoço.
Podem também comer e beber à vontade, ele disse.
Filha da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.
Como é seu nome?
Maurício, ele disse.Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?
Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.
Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.
Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.
Seu Maurício, quer fazer o favor
de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns
dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele,
esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com
força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão.
No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.
Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse.
Os caras deitados no chão estavam
de olhos fechados, nem se mexiam. Não se ouvia nada, a não ser os arrotos do
Pereba.
Você aí, levante-se, disse
Zequinha. O sacana tinha escolhido um cara magrinho, de cabelos compridos.Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha.
Carreguei os dois canos da doze. Atira você, o coice dela machucou o meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula.
Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Foi pouco tempo, mas o corpo do cara ficou preso pelo chumbo grosso na madeira.
Eu não disse? Zequinha esfregou ó ombro dolorido. Esse canhão é foda.
Não vais comer uma bacana destas?, perguntou Pereba.
Não estou a fim. Tenho nojo dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto.
E você... Inocêncio?
Acho que vou papar aquela moreninha.
A garota tentou atrapalhar, mas Zequinha deu uns murros nos cornos dela, ela sossegou e ficou quieta, de olhos abertos, olhando para o teto, enquanto era executada no sofá.
Vamos embora, eu disse. Enchemos toalhas e fronhas com comidas e objetos.
Muito obrigado pela cooperação de todos, eu disse. Ninguém respondeu.
Saímos. Entramos no Opala e voltamos para casa.
Disse para o Pereba, larga o rodante numa rua deserta de Botafogo, pega um táxi e volta. Eu e Zequinha saltamos.
Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas.
Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Vilópolis?
Chegamos lá em cima cansados. Botei as ferramentas no pacote, as jóias e o dinheiro na saca e levei para o apartamento da preta velha.
Dona Candinha, eu disse, mostrando a saca, é coisa quente.
Pode deixar, meus filhos. Os homens aqui não vêm.
Subimos. Coloquei as garrafas e as comidas em cima de uma toalha no chão. Zequinha quis beber e eu não deixei. Vamos esperar o Pereba.
Quando o Pereba chegou, eu enchi os copos e disse, que o próximo ano seja melhor. Feliz Ano Novo."
Rubem Fonseca
Texto extraído do livro
"Feliz Ano Novo", Editora Artenova – Rio de Janeiro, 1975.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
"Tudo é vaidade, tudo é poeira e vento que passa"...
Livro do Eclesiastes
Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?
Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.
Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.
Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.
Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.
Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois.
(Eclsiastes 1, 2-11)
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Escreva uma carta meu amor...
Viciada em correspondência desde
jovem, eu, particularmente, não consigo entender como sinal de
civilização o fim das cartas manuscritas. A última carta que recebi foi em
setembro passado. Uma prima distante queria notícias. Peguei caneta e papel e
fiz questão de escrever palavras de cortesia e amizade. A carta saiu decente,
com prosa legível. Só minha letra é que
saiu esquisita em razão do desuso.
Nos Estados Unidos esse tipo de
escrita foi extinto. Na Europa não é diferente. Uma fração de seis em cada dez espanhóis
não lembra a última vez que recebeu uma carta ou um cartão postal. Com os novos
recursos de e-mail e a modernização dos serviços de telefonia ninguém mais quer
saber dos Correios batendo em sua porta.
Nesse nosso tempo de pressa e instantaneidade, quem tem nteresse em escrever ou ler textos em letra cursiva, não passa de "dinossauro", analfabeto digital ou coisa pior.
Nesse nosso tempo de pressa e instantaneidade, quem tem nteresse em escrever ou ler textos em letra cursiva, não passa de "dinossauro", analfabeto digital ou coisa pior.
Não me importo. A verdade é que tenho me lembrado com
nostalgia e saudade do prazer que é receber e responder uma carta. Sei que com
a idade e a indiferença geral que nos rodeia, talvez eu esteja a ficar piegas...Talvez,
mas não posso negar que tenho muita saudade da excitação de abrir o envelope,
desdobrar a folha e ler frases carinhosas.
Acontece que não há mais cartas a ler ou escrever e nada me faz esquecer da percepção desse fim.
Acontece que não há mais cartas a ler ou escrever e nada me faz esquecer da percepção desse fim.
sábado, 5 de setembro de 2015
Você participaria de uma associação dos admiradores de Nietzsche?
Além de curiosidade,
atenção e interesse, sempre tive verdadeira admiração por tudo que Nietzsche* escreveu
por meio de metáforas, ironias e aforismos a respeito de religião, moral,
cultura contemporânea, filosofia e ciência.
Mesmo sendo parte do lado cristão,
misericordioso, compassivo, fraco, derrotado ou, como ele dizia, «feminino», o lado que Nietzsche condena e despreza,
aprecio cada frase, cada linha do seu pensamento.
Gostaria até de fundar uma
associação dos admiradores de Nietzsche na internet para discutir sua obra com outros leitores. Acredito que seu brilhante legado filosófico não
perdeu o poder de inquietar, polemizar e, sobretudo, inspirar.
Ganhei de
presente o “Nietzsche para Estressados”, um pequeno manual publicado no Brasil
pela editora Sextante, que reúne 99 máximas do gênio alemão e sua aplicação a
várias situações do dia a dia. No livro, cada capítulo é iniciado por um
aforismo de Nietzsche, seguido de uma interpretação atual feita por Allan
Percy, o autor da síntese.
Abaixo, os 99 aforismos compilados por Allan Percy.
1 — Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer
coisa.
2 — O destino dos seres humano é feito de momentos felizes e não
de épocas felizes.
3 — Nós nos sentimos bem em meio à natureza porque ela não nos
julga.
4 — Precisamos pagar pela imortalidade e morrer várias vezes
enquanto estamos vivos.
5 — O valor que damos ao infortúnio é tão grande que, se dizemos a alguém “Como você é feliz!”, em geral somos contestados.
6 — Nossos tesouro está na colmeia de nosso conhecimento. Estamos sempre voltados a essa direção, pois somos insetos alados da natureza, coletores do mel da mente.
7 — A palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio.
8 — Nossa honra não é construída por nossa origem, mas por nosso fim.
9 — O homem que imagina ser completamente bom é um idiota.
10 — As pessoas que nos fazem confidências se acham automaticamente no direito de ouvir as nossas
11 — Precisamos amar a nós mesmos para sermos capazes de nos tolerar e não levar uma vida errante.
12 — Só quem constrói o futuro tem o direito de julgar o passado.
13 — Alegrando-se por nossa alegria, sofrendo por nosso sofrimento — assim se faz um amigo.
14 — Não devemos ter mais inimigos que as pessoas dignas de ódio, mas tampouco devemos ter inimigos dignos de desprezo. É importante nos orgulharmos de nossos inimigos.
15 — O sucesso sempre foi um grande mentiroso.
16 — O homem é algo a ser superado. Ele é uma ponte, não um objetivo final.
17 — Falar muito de si mesmo pode ser uma forma de se ocultar.
18 — As pessoas nos castigam por nossas virtudes. Só perdoam sinceramente nossos erros.
19 — O reino dos céus é uma condição do coração e não algo que cai na terra ou que surge depois da morte.
20 — O homem é, antes de tudo, um animal que julga.
21 — A melhor arma contra o inimigo é outro inimigo.
22 — Os maiores êxitos não são os que fazem mais ruído e sim nossas horas mais silenciosas.
23 — O indivíduo sempre lutou para não ser absorvido por sua tribo. Se fizer isso, você se verá sozinho com frequência e, às vezes, assustado. Mas o privilégio de ser você mesmo não tem preço.
24 — Quem é ativo aprende sozinho.
25 — Nossas opiniões são a pele na qual queremos ser vistos.
26 — Não há razão para buscar o sofrimento, mas, se ele surgir em sua vida, não tenha medo: encare-o de frente e com a cabeça erguida.
27 — A razão começa na cozinha.
28 — O futuro influi no presente da mesma maneira que o passado.
29 — Não deveríamos tentar deter a pedra que já começou a rolar morro abaixo; o melhor é dar-lhe impulso.
30 — A maneira mais eficaz de corromper o jovem é ensiná-lo a admirar aqueles que pensam como ele e não os que pensam de forma diferente.
31 — Toda queixa contém em si uma agressão.
32 — No amor sempre existe algo de loucura e na loucura sempre existe algo de razão.
33 — Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende a voar voando.
34 — Quem luta contra monstros deve ter cuidado para não se transformar em um deles.
35 — São muitas as verdades e, por esse motivo, não existe verdade alguma.
36 — A mentira mais comum é a que o homem usa para enganar a si mesmo.
37 — Deveríamos considerar perdido o dia em que não dançamos nenhuma vez.
38 — Há mais sabedoria no seu corpo do que na sua filosofia mais profunda.
39 — Se ficar olhando muito tempo para o abismo olhará para você.
40 — As posições extremas não são seguidas de posições moderadas, e sim de posições contrárias.
41 — Preciso de companheiros, mas de companheiros vivos, não de cadáveres que eu tenha que levar nas costas por toda parte.
42 — Eis a tarefa mais difícil: fechar a mão aberta do amor e ser modesto como doador.
43 — A arrogância por parte de quem tem mérito nos parece mais ofensiva que a arrogância de quem não o tem: o próprio mérito é ofensivo
44 — Todos os grandes pensamentos são concebidos ao se caminhar
45 — Quem não sabe guardar suas opiniões no gelo não deveria entrar em debates acalorados.
46 — Dois grandes espetáculos são muitas vezes suficientes para curar uma pessoa apaixonada.
47 — Quem declara que o outro é idiota fica chateado quando, no final, descobre que isso não é verdade.
48 — Amigos deveriam ser mestres em adivinhar e calar: não se deve querer saber tudo.
49 — Usar as mesmas palavras não é garantia de entendimento. É preciso ter experiências em comum com alguém.
50 — Estava só e não fazia outra coisa além de encontrar-se consigo mesmo. Então, aproveitou sua solidão e pensou em coisas muito boas por várias horas.
51 — A potência intelectual de um homem se mede pelo humor que ele é capaz de manifestar.
52 — Gosto dos valentes, mas não basta ser um espadachim: também é preciso saber a quem ferir. E, muitas vezes, abster-se demonstra mais bravura, reservando-se para um inimigo mais digno.
53 — De que vale o ronronar de alguém que não sabe amar, como um gato?
54 — Para chegar a ser sábio, é preciso querer experimentar certas vivências. Mas isso é muito perigoso. Mais de um sábio foi devorado nessa tentativa.
55 — O cérebro verdadeiramente original não é o que enxerga algo novo antes de todo mundo, mas o que olha para coisas velhas e conhecidas, já vistas e revistas por todos, como se fossem novas. Quem descobre algo é normalmente este ser sem originalidade e sem cérebro chamado sorte.
56 — Quem não dispõe de dois terços do dia é um escravo.
57 — O melhor meio de ajudar pessoas muito confusas e deixá-las mais tranquilas é elogiá-las de forma veemente.
58 — O homem amadurece quando reencontra a seriedade que demonstrava em suas brincadeiras de criança.
59 — Ninguém é tão louco que não possa encontrar outro louco que o entenda.
60 — Na maior parte das vezes que não aceitamos uma opinião, isso acontece por causa do tom em que ela foi manifestada.
61 — Acredito que os animais veem o homem como um ser igual a eles que perdeu, de forma extraordinariamente perigosa, a sanidade intelectual animal. Ou seja: veem o homem como um animal irracional, um animal que sorri, que chora, um animal infeliz.
62 — Antes de se casar, pergunte a si mesmo: serei capaz de manter uma boa conversa com essa pessoa até a velhice? Todo o resto é passageiro num matrimônio.
63 — É muito difícil os homens entenderem sua ignorância no que diz respeito a eles mesmos.
64 — Pobre do pensador que não é o jardineiro, mas apenas o canteiro de suas plantas.
65 — Um poeta escreveu em sua porta: “Quem entrar aqui me honrará. Quem não entrar me proporcionará um prazer”.
66 — A verdade é que amamos a vida não porque estamos acostumados a ela, mas porque estamos acostumados com o amor.
67 — O homem é a causa criativa de tudo o que acontece.
68 — Seus maiores bens são seus sonhos.
69 — Quem não sabe dar nada não sabe sentir nada.
70 — As ilusões são certamente prazeres dispendiosos, mas a destruição delas é mais dispendiosa ainda.
71 — A essência de toda arte bela, de arte grandiosa, é a gratidão.
72 — Não é raro encontrar cópias de grandes homens. E, como acontece com os quadros, a maior parte das pessoas parece mais interessada nas cópias do que nos originais.
73 — Quem não teve um bom pai deve procurar um.
74 — Os poços mais profundos vivem suas experiências lentamente: esperam um bom tempo até saberem o que caiu em suas profundezas.
75 — Quando temos muitas coisas para guardar nele, o dia tem 100 bolsos.
76 — Uma alma delicada se sente mal quando sabe que receberá agradecimentos. Uma alma grosseira se sente mal quando sabe que precisa agradecer a alguém.
77 — Não se pode odiar enquanto se menospreza. Não se pode odiar mais intensamente um indivíduo desprezado do que um igual ou superior.
78 — Quantos homens sabem observar? E, desses poucos que sabem, quantos observam a si próprios? “Cada pessoa é o ser mais distante de si mesmo.”
79 — A guerra emburrece o vencedor e deixa o vencido rancoroso.
80 — Cada mestre não tem mais que um aluno e esse aluno lhe será infiel, pois está predestinado a ser mestre também.
81 — O mundo real é muito menor que o mundo da imaginação.
82 — Se você for magoado por um amigo, diga a ele: “Eu o perdoo pelo que me fez, mas como poderia perdoá-lo pelo que fez a si mesmo?”
83 — A esperança é muito mais estimulante que a sorte.
84 — O que não nos mata nos fortalece.
85 — Quem vê mal sempre vê pouco. Quem escuta mal sempre escuta demais.
86 — Toda vez que me elevo, sou perseguido por um cachorro chamado Ego.
87 — Todo idealismo perante a necessidade é um engano.
88 — Você tem o seu caminho. Eu tenho o meu. O caminho correto e único não existe.
89 — Toda convicção é uma prisão.
90 — Nossa vida nos parece muito mais bonita quando deixamos de compará-la com as dos outros.
91 — As pessoas esquecem de seus erros depois de confessá-los ao outro, mas o outro normalmente não se esquece.
92 — Eis a fórmula da felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta.
93 — A melhor maneira de começar o dia é se comprometer a fazer feliz ao menos uma pessoa antes de o sol se pôr.
94 — A simplicidade e a naturalidade são o objetivo supremo e último da cultura.
95 — A vida não é muito curta para que fiquemos entediados?
96 — Não atacamos apenas para machucar o outro, para vencê-lo, mas, algumas vezes, pelo simples desejo de adquirir consciência de nossa força.
97 — Nossas carências são os melhores professores, mas nunca mostramos gratidão diante dos bons mestres.
98 — Quem fica remoendo alguma coisa se comporta de maneira tão tola quanto o cachorro que morde a pedra.
99 — O amor não é consolo — é luz.
*Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, na cidade alemã
de Röcken. Aos 25 anos, já era professor de filologia clássica. No entanto, sua
atividade docente foi interrompida em 1870, quanto estourou a Guerra
Franco-Prussiana. Nietzsche participou do conflito como enfermeiro, mas foi
obrigado a abandonar Guerra por causa de uma disenteria, da qual nunca se
recuperou totalmente. Obrigado a se aposentar prematuramente por conta de
sequelas da doença, Nietzsche viveu na Riviera francesa e no norte da Itália,
lugares que considerava ideais para pensar e escrever. Sozinho e frustrado por
suas obras não alcançarem o sucesso desejado, foi vítima de seus primeiros
acessos de loucura em 1889, quando morava em Turim e estava praticamente
cego. Morreu em 1900, depois de longas temporadas em clínicas psiquiátricas.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Quem é o escritor nacional? E o nosso livro favorito?
Será que Machado de Assis é o nosso escritor nacional? O cara? Sinceramente não sei. E tenho quase certeza que ninguém perguntou isso aos brasileiros.
Eu votaria em Machado e faria campanha, mas sei que há outros grandes autores no páreo, caso de Aluisio Azevedo, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Dyonélio Machado, Jorge Amado, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Mário Quintana e tantos outros... Esta seria uma grande eleição.
A maioria dos outros países tem seu escritor nacional. Na Alemanha, o lugar é de Goethe; na Espanha, de Miguel de Cervantes; na Itália, de Dante; na Inglaterra, de Shakespeare. Na França realizou-se uma sondagem recentemente que deu o primeiro lugar a Victor Hugo. Há alguns anos, também por meio de pesquisa, a escolha europeia foi Shakespeare em primeiro e Cervantes no segundo lugar. Em Portugal, o pódio ficou assim: Camões, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco e Fernando Pessoa.
Eu votaria em Machado e faria campanha, mas sei que há outros grandes autores no páreo, caso de Aluisio Azevedo, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Dyonélio Machado, Jorge Amado, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Mário Quintana e tantos outros... Esta seria uma grande eleição.
A maioria dos outros países tem seu escritor nacional. Na Alemanha, o lugar é de Goethe; na Espanha, de Miguel de Cervantes; na Itália, de Dante; na Inglaterra, de Shakespeare. Na França realizou-se uma sondagem recentemente que deu o primeiro lugar a Victor Hugo. Há alguns anos, também por meio de pesquisa, a escolha europeia foi Shakespeare em primeiro e Cervantes no segundo lugar. Em Portugal, o pódio ficou assim: Camões, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco e Fernando Pessoa.
No Brasil, poderíamos escolher o escritor e o livro da preferência nacional. Eu votaria fechado: Machado como o escritor e "Dom Casmurro" como livro favorito. Acho, no entanto, que a disputa, nas duas corridas, seria acirradíssima, tamanho o número de obras-primas que temos: Vidas Secas, Grande Sertão:Veredas, O Cortiço, Capitães de Areia, Macunaíma, Alguma Poesia, Olhai os Lírios no Campo, Os Sertões, etc etc etc.
sábado, 15 de agosto de 2015
Vamos fazer uma "selfie"?
Tenho muitos amigos e coisa mais preciosa não há. Alguns são celebridades —
Ricardo Noblat, Gerson Camarotti, Eliane Cantanhêde, Miriam Leitão, Heraldo Pereira
e Cristina Lemos... Fico pensando se conseguem ir a algum lugar sem que ninguém
possa reconhecê-los. Acho que não. Quando somos reconhecidos temos o dever de
falar, ouvir, aconselhar, partilhar e sorrir felizes como
perdizes. E quando várias pessoas, ao mesmo tempo, fazem fila para tirar “selfies”?Essa
história da “selfie” deve tirar qualquer um do sério. Pois é. Será que o verdadeiro
bálsamo é ser anônimo, ficar sossegado em um canto, sem sorrir; sem chorar e
sem se fazer notar? E quem saberá?
sábado, 8 de agosto de 2015
Coração duro, homem maduro
Coração duro, homem maduro
1. Começo te dizendo que não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado; ser instrumento da vontade de terceiros é condição da existência, ninguém escapa a isso, e acho que as coisas, quando se passam desse jeito, se passam como não poderiam deixar de passar (a falta de recato não é minha, é da vida). Mas te advirto, Paula: a partir de agora, não conte mais comigo como tua ferramenta.
2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (...). Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.
3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.
4. (...) É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.
5. (...) Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir pessoas maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "pessoas maravilhosas", não gosto de pessoas, para abreviar minhas preferências. (...)
6. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro. (...)
(«O ventre seco», de Raduan Nassar, do livro de contos Menina a Caminho, 1997/Estado Civil
2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (...). Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.
3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.
4. (...) É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.
5. (...) Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir pessoas maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "pessoas maravilhosas", não gosto de pessoas, para abreviar minhas preferências. (...)
6. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro. (...)
(«O ventre seco», de Raduan Nassar, do livro de contos Menina a Caminho, 1997/Estado Civil
sexta-feira, 31 de julho de 2015
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Dignidade
No filme "Coisas que perdemos pelo caminho" o ator Benício Del Toro diz, em determinado momento, que só podemos recuperar a dignidade onde a perdemos. É uma frase linda que pode ser aplicada ao campo da política. O Brasil precisa recuperar, com urgência, sua dignidade onde a perdeu. Na democracia.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Qual é o seu segredo?
Acordei no meio da noite - passa das duas da manhã - sentindo uma certa urgência para dizer que a presunção da inocência é um princípio inatacável, irrevogável e absolutamente correto. Talvez a única coisa certa diante de tanta asneira, tanta poeira, tanta coisa mal dita, tanto exagero e tanta tinta nas letras que andamos lendo. Não devemos, contudo, esquecer as verdades essenciais que justificam a presunção da inocência. Todos temos direito a defesa. E todos erramos. Declarações de absoluta inocência merecem-nos todo o respeito mas valem o que valem. Noves fora zero. Afinal, as pessoas escondem coisas. A propósito, todos podemos esconder coisas. Coisas que nos desarrumam, que nos embaraçam, que nos comprometem, que anulam virtudes, que deixam à mostra os pelos encravados, os dentes implantados. Aliás, nunca pense que se pode conhecer absolutamente uma pessoa. Ninguém pode. Como disse Machado de Assis, "ninguém sabe o que eu sou quando rumino".
terça-feira, 14 de julho de 2015
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Sempre desejei saber desenhar...
domingo, 5 de julho de 2015
PIEDADE, AMOR AO PRÓXIMO, CONVIVÊNCIA...
"A piedade é um sentimento natural, que, moderando em cada indivíduo a atividade do amor de si próprio, concorre para a conservação mútua de toda a espécie. É ela que nos leva sem reflexão em socorro daqueles que vemos sofrer; é ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer à sua doce voz; é ela que impede todo o selvagem robusto de arrebatar a uma criança fraca ou a um velho enfermo a sua subsistência adquirida com sacrifício, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; é ela que, em vez desta máxima sublime de justiça raciocinada, faz a outrem o que queres que te façam, inspira a todos os homens esta outra máxima de bondade natural, bem menos perfeita, porém mais útil, talvez, do que a precedente: faz o teu bem com o menor mal possível a outrem. Em uma palavra, é nesse sentimento natural, mais do que em argumentos subtis, que é preciso buscar a causa da repugnância que todo o homem experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das máximas da educação. Embora possa competir a Sócrates e aos espíritos da sua têmpera adquirir a virtude pela razão, há muito tempo que o gênero humano não mais existiria se a sua conservação tivesse dependido exclusivamente dos raciocínios dos que o compõem".
Jean-Jacques Rousseau, in "Discurso Sobre a Origem da Desigualdade
quarta-feira, 1 de julho de 2015
O DRAMA
Depois de cumprir tanto tempo de vida, sabendo que, com sorte restam duas, no máximo três, décadas a vencer, nossos
sentimentos manifestam-se de forma mais viva e mais intensa. Na verdade, tudo passa a ser sentimento.
Sei que para ser amado é preciso pedir desculpa sempre - e tenho o horrível hábito de pedir desculpa por tudo e por nada -, mas, hoje, vou falar de sentimentos, assunto inevitável, sem pedir desculpa nenhuma.
Sei que para ser amado é preciso pedir desculpa sempre - e tenho o horrível hábito de pedir desculpa por tudo e por nada -, mas, hoje, vou falar de sentimentos, assunto inevitável, sem pedir desculpa nenhuma.
Tudo fica
dramático e preso aos sentimentos à medida que o tempo avança. Você olha à sua
volta: em vez de árvore, ou de floresta, vê a regra perfeita da
natureza: os abutres estão à espera. Você respira para ganhar tempo.
É preciso esperar a sentença. Sim, tem de seguir o ritual. É necessário que seja, de certa forma, legalizada a sua morte para que os abutres se desloquem e venham cumprir a função que a natureza lhes destina.
Sua vontade é voltar para trás, mas, segue em frente até a derrapagem final. Só são nossas de verdade as memórias que perdemos e a morte que aguarda. Esta é a luta (e o drama) em que todos nós estamos implicados.
É preciso esperar a sentença. Sim, tem de seguir o ritual. É necessário que seja, de certa forma, legalizada a sua morte para que os abutres se desloquem e venham cumprir a função que a natureza lhes destina.
Sua vontade é voltar para trás, mas, segue em frente até a derrapagem final. Só são nossas de verdade as memórias que perdemos e a morte que aguarda. Esta é a luta (e o drama) em que todos nós estamos implicados.
terça-feira, 23 de junho de 2015
SENTENÇA
A raiva subiu, o sangue ferveu. Peguei a bolsa, disse alguns desaforos e saí. Apressei o passo para não sentir o coração doer. Na poeira da vida ficava uma amizade de duas décadas. Ficava também o trabalho de assessoria de imprensa que ocupava meu tempo. Pensei: foi chão que deu uvas. E o tempo não volta para trás. Respirei fundo e me preparei para ficar sem fazer nada durante algum tempo. Fui para casa. Sempre trabalhei desde os 14 anos e, pela primeira vez, interditei minha vida de antes. Queria ser irresponsável, mesmo correndo o risco de entrar no cheque especial e ter o nome no Serasa. Queria não pensar em coisa nenhuma para não constatar obviedades. Exemplo: como umas poucas escolhas infelizes podem mudar a vida de qualquer pessoa. E daí? Vidas devem mudar mesmo... Trinta dias depois, porém, tive vontade de voltar à tona e comecei a me sentir isolada, como quem tem doença contagiosa. Em casa, não acontece nada. Parece que estou numa prisão domiciliar. Não demora e começo a sentir medo, além de muitas dúvidas. Fico me perguntando que crime cometi... A conclusão é elementar: o crime de ter falhado no cumprimento da minha pena. Despeço-me, então, da prisão domiciliar e volto ao trabalho, onde cumpro a sentença submetida ao rigor comum a todos os filhos de Adão: ganharás o pão com o suor do teu rosto. Esta é a sentença. E desta sentença não há recurso.
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