terça-feira, 29 de setembro de 2015

"Tudo é vaidade, tudo é poeira e vento que passa"...




Livro do Eclesiastes

Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?
Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.
Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.
Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.
Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.
Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois.

(Eclsiastes 1, 2-11)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Escreva uma carta meu amor...


Viciada em correspondência desde jovem, eu, particularmente, não consigo entender como sinal de civilização o fim das cartas manuscritas. A última carta que recebi foi em setembro passado. Uma prima distante queria notícias. Peguei caneta e papel e fiz questão de escrever palavras de cortesia e amizade. A carta saiu decente, com prosa legível.  Só minha letra é que saiu esquisita em razão do desuso.

Nos Estados Unidos esse tipo de escrita foi extinto. Na Europa não é diferente. Uma fração de seis em cada dez espanhóis não lembra a última vez que recebeu uma carta ou um cartão postal. Com os novos recursos de e-mail e a modernização dos serviços de telefonia ninguém mais quer saber dos Correios batendo em sua porta. 

Nesse nosso tempo de pressa e instantaneidade, quem tem nteresse em escrever ou ler textos em letra cursiva, não passa de "dinossauro", analfabeto digital ou coisa pior. 

Não me importo. A verdade é que tenho me lembrado com nostalgia e saudade do prazer que é receber e responder uma carta. Sei que com a idade e a indiferença geral que nos rodeia, talvez eu esteja a ficar piegas...Talvez, mas não posso negar que tenho muita saudade da excitação de abrir o envelope, desdobrar a folha e ler frases carinhosas.

Acontece que não há mais cartas a ler ou escrever e nada me faz esquecer da percepção desse fim.

sábado, 5 de setembro de 2015

Você participaria de uma associação dos admiradores de Nietzsche?


Além de curiosidade, atenção e interesse, sempre tive verdadeira admiração por tudo que Nietzsche* escreveu por meio de metáforas, ironias e aforismos a respeito de religião, moral, cultura contemporânea, filosofia e ciência.
Mesmo sendo parte do lado cristão, misericordioso, compassivo, fraco, derrotado ou, como ele dizia, «feminino», o lado que Nietzsche condena e despreza, aprecio cada frase, cada linha do seu pensamento.
Gostaria até de fundar uma associação dos admiradores de Nietzsche na internet para discutir sua obra com outros leitores. Acredito que seu brilhante legado filosófico não perdeu o poder de inquietar, polemizar e, sobretudo, inspirar.
Ganhei de presente o “Nietzsche para Estressados”, um pequeno manual publicado no Brasil pela editora Sextante, que reúne 99 máximas do gênio alemão e sua aplicação a várias situações do dia a dia. No livro, cada capítulo é iniciado por um aforismo de Nietzsche, seguido de uma interpretação atual feita por Allan Percy, o autor da síntese.

Abaixo, os 99 aforismos compilados por Allan Percy.

1 — Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa.

2 — O destino dos seres humano é feito de momentos felizes e não de épocas felizes.

3 — Nós nos sentimos bem em meio à natureza porque ela não nos julga.

4 — Precisamos pagar pela imortalidade e morrer várias vezes enquanto estamos vivos.

5 — O valor que damos ao infortúnio é tão grande que, se dizemos a alguém “Como você é feliz!”, em geral somos contestados.

6 — Nossos tesouro está na colmeia de nosso conhecimento. Estamos sempre voltados a essa direção, pois somos insetos alados da natureza, coletores do mel da mente.

7 — A palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio.

8 — Nossa honra não é construída por nossa origem, mas por nosso fim.

9 — O homem que imagina ser completamente bom é um idiota.

10 — As pessoas que nos fazem confidências se acham automaticamente no direito de ouvir as nossas

11 — Precisamos amar a nós mesmos para sermos capazes de nos tolerar e não levar uma vida errante.

12 — Só quem constrói o futuro tem o direito de julgar o passado.

13 — Alegrando-se por nossa alegria, sofrendo por nosso sofrimento — assim se faz um amigo.

14 — Não devemos ter mais inimigos que as pessoas dignas de ódio, mas tampouco devemos ter inimigos dignos de desprezo. É importante nos orgulharmos de nossos inimigos.

15 — O sucesso sempre foi um grande mentiroso.

16 — O homem é algo a ser superado. Ele é uma ponte, não um objetivo final.

17 — Falar muito de si mesmo pode ser uma forma de se ocultar.

18 — As pessoas nos castigam por nossas virtudes. Só perdoam sinceramente nossos erros.

19 — O reino dos céus é uma condição do coração e não algo que cai na terra ou que surge depois da morte.

20 — O homem é, antes de tudo, um animal que julga.

21 — A melhor arma contra o inimigo é outro inimigo.

22 — Os maiores êxitos não são os que fazem mais ruído e sim nossas horas mais silenciosas.

23 — O indivíduo sempre lutou para não ser absorvido por sua tribo. Se fizer isso, você se verá sozinho com frequência e, às vezes, assustado. Mas o privilégio de ser você mesmo não tem preço.

24 — Quem é ativo aprende sozinho.

25 — Nossas opiniões são a pele na qual queremos ser vistos.

26 — Não há razão para buscar o sofrimento, mas, se ele surgir em sua vida, não tenha medo: encare-o de frente e com a cabeça erguida.

27 — A razão começa na cozinha.

28 — O futuro influi no presente da mesma maneira que o passado.

29 — Não deveríamos tentar deter a pedra que já começou a rolar morro abaixo; o melhor é dar-lhe impulso.

30 — A maneira mais eficaz de corromper o jovem é ensiná-lo a admirar aqueles que pensam como ele e não os que pensam de forma diferente.

31 — Toda queixa contém em si uma agressão.

32 — No amor sempre existe algo de loucura e na loucura sempre existe algo de razão.

33 — Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende a voar voando.

34 — Quem luta contra monstros deve ter cuidado para não se transformar em um deles.

35 — São muitas as verdades e, por esse motivo, não existe verdade alguma.

36 — A mentira mais comum é a que o homem usa para enganar a si mesmo.

37 — Deveríamos considerar perdido o dia em que não dançamos nenhuma vez.

38 — Há mais sabedoria no seu corpo do que na sua filosofia mais profunda.

39 — Se ficar olhando muito tempo para o abismo olhará para você.

40 — As posições extremas não são seguidas de posições moderadas, e sim de posições contrárias.

41 — Preciso de companheiros, mas de companheiros vivos, não de cadáveres que eu tenha que levar nas costas por toda parte.

42 — Eis a tarefa mais difícil: fechar a mão aberta do amor e ser modesto como doador.

43 — A arrogância por parte de quem tem mérito nos parece mais ofensiva que a arrogância de quem não o tem: o próprio mérito é ofensivo

44 — Todos os grandes pensamentos são concebidos ao se caminhar

45 — Quem não sabe guardar suas opiniões no gelo não deveria entrar em debates acalorados.

46 — Dois grandes espetáculos são muitas vezes suficientes para curar uma pessoa apaixonada.

47 — Quem declara que o outro é idiota fica chateado quando, no final, descobre que isso não é verdade.

48 — Amigos deveriam ser mestres em adivinhar e calar: não se deve querer saber tudo.

49 — Usar as mesmas palavras não é garantia de entendimento. É preciso ter experiências em comum com alguém.

50 — Estava só e não fazia outra coisa além de encontrar-se consigo mesmo. Então, aproveitou sua solidão e pensou em coisas muito boas por várias horas.

51 — A potência intelectual de um homem se mede pelo humor que ele é capaz de manifestar.

52 — Gosto dos valentes, mas não basta ser um espadachim: também é preciso saber a quem ferir. E, muitas vezes, abster-se demonstra mais bravura, reservando-se para um inimigo mais digno.

53 — De que vale o ronronar de alguém que não sabe amar, como um gato?

54 — Para chegar a ser sábio, é preciso querer experimentar certas vivências. Mas isso é muito perigoso. Mais de um sábio foi devorado nessa tentativa.

55 — O cérebro verdadeiramente original não é o que enxerga algo novo antes de todo mundo, mas o que olha para coisas velhas e conhecidas, já vistas e revistas por todos, como se fossem novas. Quem descobre algo é normalmente este ser sem originalidade e sem cérebro chamado sorte.

56 — Quem não dispõe de dois terços do dia é um escravo.

57 — O melhor meio de ajudar pessoas muito confusas e deixá-las mais tranquilas é elogiá-las de forma veemente.

58 — O homem amadurece quando reencontra a seriedade que demonstrava em suas brincadeiras de criança.

59 — Ninguém é tão louco que não possa encontrar outro louco que o entenda.

60 — Na maior parte das vezes que não aceitamos uma opinião, isso acontece por causa do tom em que ela foi manifestada.

61 — Acredito que os animais veem o homem como um ser igual a eles que perdeu, de forma extraordinariamente perigosa, a sanidade intelectual animal. Ou seja: veem o homem como um animal irracional, um animal que sorri, que chora, um animal infeliz.

62 — Antes de se casar, pergunte a si mesmo: serei capaz de manter uma boa conversa com essa pessoa até a velhice? Todo o resto é passageiro num matrimônio.

63 — É muito difícil os homens entenderem sua ignorância no que diz respeito a eles mesmos.

64 — Pobre do pensador que não é o jardineiro, mas apenas o canteiro de suas plantas.

65 — Um poeta escreveu em sua porta: “Quem entrar aqui me honrará. Quem não entrar me proporcionará um prazer”.

66 — A verdade é que amamos a vida não porque estamos acostumados a ela, mas porque estamos acostumados com o amor.

67 — O homem é a causa criativa de tudo o que acontece.

68 — Seus maiores bens são seus sonhos.

69 — Quem não sabe dar nada não sabe sentir nada.

70 — As ilusões são certamente prazeres dispendiosos, mas a destruição delas é mais dispendiosa ainda.

71 — A essência de toda arte bela, de arte grandiosa, é a gratidão.

72 — Não é raro encontrar cópias de grandes homens. E, como acontece com os quadros, a maior parte das pessoas parece mais interessada nas cópias do que nos originais.

73 — Quem não teve um bom pai deve procurar um.

74 — Os poços mais profundos vivem suas experiências lentamente: esperam um bom tempo até saberem o que caiu em suas profundezas.

75 — Quando temos muitas coisas para guardar nele, o dia tem 100 bolsos.

76 — Uma alma delicada se sente mal quando sabe que receberá agradecimentos. Uma alma grosseira se sente mal quando sabe que precisa agradecer a alguém.

77 — Não se pode odiar enquanto se menospreza. Não se pode odiar mais intensamente um indivíduo desprezado do que um igual ou superior.

78 — Quantos homens sabem observar? E, desses poucos que sabem, quantos observam a si próprios? “Cada pessoa é o ser mais distante de si mesmo.”

79 — A guerra emburrece o vencedor e deixa o vencido rancoroso.

80 — Cada mestre não tem mais que um aluno e esse aluno lhe será infiel, pois está predestinado a ser mestre também.

81 — O mundo real é muito menor que o mundo da imaginação.

82 — Se você for magoado por um amigo, diga a ele: “Eu o perdoo pelo que me fez, mas como poderia perdoá-lo pelo que fez a si mesmo?”

83 — A esperança é muito mais estimulante que a sorte.

84 — O que não nos mata nos fortalece.

85 — Quem vê mal sempre vê pouco. Quem escuta mal sempre escuta demais.

86 — Toda vez que me elevo, sou perseguido por um cachorro chamado Ego.

87 — Todo idealismo perante a necessidade é um engano.

88 — Você tem o seu caminho. Eu tenho o meu. O caminho correto e único não existe.

89 — Toda convicção é uma prisão.

90 — Nossa vida nos parece muito mais bonita quando deixamos de compará-la com as dos outros.

91 — As pessoas esquecem de seus erros depois de confessá-los ao outro, mas o outro normalmente não se esquece.

92 — Eis a fórmula da felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta.

93 — A melhor maneira de começar o dia é se comprometer a fazer feliz ao menos uma pessoa antes de o sol se pôr.

94 — A simplicidade e a naturalidade são o objetivo supremo e último da cultura.

95 — A vida não é muito curta para que fiquemos entediados?

96 — Não atacamos apenas para machucar o outro, para vencê-lo, mas, algumas vezes, pelo simples desejo de adquirir consciência de nossa força.

97 — Nossas carências são os melhores professores, mas nunca mostramos gratidão diante dos bons mestres.

98 — Quem fica remoendo alguma coisa se comporta de maneira tão tola quanto o cachorro que morde a pedra.

99 — O amor não é consolo — é luz.

*Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, na cidade alemã de Röcken. Aos 25 anos, já era professor de filologia clássica. No entanto, sua atividade docente foi interrompida em 1870, quanto estourou a Guerra Franco-Prussiana. Nietzsche participou do conflito como enfermeiro, mas foi obrigado a abandonar Guerra por causa de uma disenteria, da qual nunca se recuperou totalmente. Obrigado a se aposentar prematuramente por conta de sequelas da doença, Nietzsche viveu na Riviera francesa e no norte da Itália, lugares que considerava ideais para pensar e escrever. Sozinho e frustrado por suas obras não alcançarem o sucesso desejado, foi vítima de seus primeiros acessos de loucura em 1889, quando morava em Turim e estava praticamente cego. Morreu em 1900, depois de longas temporadas em clínicas psiquiátricas.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Quem é o escritor nacional? E o nosso livro favorito?



Será que Machado de Assis é o nosso escritor nacional? O cara? Sinceramente não sei. E tenho quase certeza que ninguém perguntou isso aos brasileiros.

Eu votaria em Machado e faria campanha, mas sei que há outros grandes autores no páreo, caso de Aluisio Azevedo, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Dyonélio Machado,  Jorge Amado, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Mário Quintana e tantos outros...  Esta seria uma grande eleição.

A maioria dos outros países tem seu escritor nacional. Na Alemanha, o lugar é de Goethe; na Espanha, de Miguel de Cervantes; na Itália, de Dante; na Inglaterra, de Shakespeare. Na França realizou-se uma sondagem recentemente que deu o primeiro lugar a Victor Hugo. Há alguns anos, também por meio de pesquisa, a escolha  europeia foi Shakespeare em primeiro e Cervantes no segundo lugar. Em Portugal, o pódio ficou assim: Camões, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco e Fernando Pessoa. 

No Brasil, poderíamos escolher o escritor e o  livro da preferência nacional. Eu votaria fechado: Machado como o escritor e "Dom Casmurro" como livro favorito. Acho, no entanto, que a disputa, nas duas corridas, seria acirradíssima, tamanho o número de obras-primas que temos: Vidas Secas,  Grande Sertão:Veredas, O Cortiço, Capitães de Areia, Macunaíma, Alguma Poesia, Olhai os Lírios no Campo, Os Sertões, etc etc etc. 

sábado, 15 de agosto de 2015

Vamos fazer uma "selfie"?


 
Tenho muitos amigos e coisa mais preciosa não há. Alguns são celebridades — Ricardo Noblat, Gerson Camarotti, Eliane Cantanhêde, Miriam Leitão, Heraldo Pereira e Cristina Lemos... Fico pensando se conseguem ir a algum lugar sem que ninguém possa reconhecê-los. Acho que não. Quando somos reconhecidos temos o dever de falar, ouvir, aconselhar, partilhar e sorrir felizes como perdizes. E quando várias pessoas, ao mesmo tempo, fazem fila para tirar “selfies”?Essa história da “selfie” deve tirar qualquer um do sério. Pois é. Será que o verdadeiro bálsamo é ser anônimo, ficar sossegado em um canto, sem sorrir; sem chorar e sem se fazer notar? E quem saberá?  

sábado, 8 de agosto de 2015

Coração duro, homem maduro

    
Coração duro, homem maduro
 
1. Começo te dizendo que não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado; ser instrumento da vontade de terceiros é condição da existência, ninguém escapa a isso, e acho que as coisas, quando se passam desse jeito, se passam como não poderiam deixar de passar (a falta de recato não é minha, é da vida). Mas te advirto, Paula: a partir de agora, não conte mais comigo como tua ferramenta.

2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (...). Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.

3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.

4. (...) É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.

5. (...) Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir pessoas maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "pessoas maravilhosas", não gosto de pessoas, para abreviar minhas preferências. (...)

6. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro. (...)


(«O ventre seco», de Raduan Nassar, do livro de contos Menina a Caminho, 1997/Estado Civil

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Hoje, 31 de julho, completamos 34 anos de casamento



"O amor é uma luz que não deixa escurecer a vida". Camilo Castelo Branco.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Dignidade




No filme "Coisas que perdemos pelo caminho" o ator Benício Del Toro diz, em determinado momento, que só podemos recuperar a dignidade onde a perdemos. É uma frase linda que pode ser aplicada ao campo da política. O Brasil precisa recuperar, com urgência, sua dignidade onde a perdeu. Na democracia. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Qual é o seu segredo?


Acordei no meio da noite - passa das duas da manhã - sentindo uma certa urgência para dizer que  a presunção da inocência é um princípio inatacável, irrevogável e absolutamente correto. Talvez a única coisa certa diante de tanta asneira, tanta poeira, tanta coisa mal dita, tanto exagero e tanta tinta nas letras que andamos lendo. Não devemos, contudo, esquecer as verdades essenciais que justificam a presunção da inocência. Todos temos direito a defesa. E todos erramos. Declarações de absoluta inocência merecem-nos todo o respeito mas valem o que valem. Noves fora zero. Afinal, as pessoas escondem coisas. A propósito, todos podemos esconder coisas. Coisas que nos desarrumam, que nos embaraçam, que nos comprometem, que anulam virtudes, que deixam à mostra os pelos encravados, os dentes implantados. Aliás, nunca pense que se pode conhecer absolutamente uma pessoa. Ninguém pode. Como disse Machado de Assis, "ninguém sabe o que eu sou quando rumino".   

terça-feira, 14 de julho de 2015

Viver não é fácil não...

Hillary Clinton ontem e Hillary Clinton hoje

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sempre desejei saber desenhar...


Sempre desejei saber desenhar, mas nunca pude ir além de rabiscos iguais, ou piores, aos das crianças que ainda nem frequentam escola. Tenho grande vergonha dos desenhos que faço. No decurso dos anos espantei-me com a quantidade de habilidades que não tenho e que não consigo ter: não sei nadar, não sei dirigir, não sei jogar vôlei, muito menos tênis ou golfe. Nunca me arrisquei na sinuca. Na verdade, não jogo coisa nenhuma. Fora sentar no computador para escrever, ou me calar em um canto para ler,  não consigo fazer quase nada. A forte miopia, que encobriu parcialmente meus olhos desde a infância, me fez ver de óculos, e apenas de longe, muito longe, as quadras de esportes dos colégios que frequentei. Enxergar direito? Não enxergo. Voz é moeda? Não tenho. Parei de cantar (até no chuveiro) quando percebi que sou tão desafinada que não consigo entrar em compasso no Parabéns. Sim, eu desafino no Parabéns o que, convenhamos, é um pouco humilhante e me leva a ficar de boca fechada, mesmo correndo o risco de passar por alguém que não aprendeu a letra do hino nacional. Bom, se a pessoa não canta nada, vai ver toca alguma coisa, não é? Não. No piano nunca consegui tirar o "bife". Pense no violão, na flauta, na guitarra, e comece imediatamente a abanar a cabeça em descrença. Ok, moça bonita não precisa fazer nada. Beleza é um tipo de poder, cero? Certo, certo, mas vamos passar, este assunto dói um pouco. A verdade é que faltam-me talento e habilidades. Ainda bem que sobra em mim, ainda hoje, o desejo insistente de tentar aprender aquele tipo de talento com que não se nasceu. Como escreveu Clarice Lispector lindamente: "Eu sei muito pouco, mas tenho a meu favor tudo aquilo que não sei"... 

domingo, 5 de julho de 2015

PIEDADE, AMOR AO PRÓXIMO, CONVIVÊNCIA...

 
  
"A piedade é um sentimento natural, que, moderando em cada indivíduo a atividade do amor de si próprio, concorre para a conservação mútua de toda a espécie. É ela que nos leva sem reflexão em socorro daqueles que vemos sofrer; é ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer à sua doce voz; é ela que impede todo o selvagem robusto de arrebatar a uma criança fraca ou a um velho enfermo a sua subsistência adquirida com sacrifício, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; é ela que, em vez desta máxima sublime de justiça raciocinada, faz a outrem o que queres que te façam, inspira a todos os homens esta outra máxima de bondade natural, bem menos perfeita, porém mais útil, talvez, do que a precedente: faz o teu bem com o menor mal possível a outrem. Em uma palavra, é nesse sentimento natural, mais do que em argumentos subtis, que é preciso buscar a causa da repugnância que todo o homem experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das máximas da educação. Embora possa competir a Sócrates e aos espíritos da sua têmpera adquirir a virtude pela razão, há muito tempo que o gênero humano não mais existiria se a sua conservação tivesse dependido exclusivamente dos raciocínios dos que o compõem".

Jean-Jacques Rousseau, in "Discurso Sobre a Origem da Desigualdade

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O DRAMA

 
 
Depois de cumprir tanto tempo de vida, sabendo que, com sorte restam duas, no máximo três, décadas a vencer, nossos sentimentos manifestam-se de forma mais viva e mais intensa. Na verdade, tudo passa a ser sentimento.

Sei que para ser amado é preciso pedir desculpa sempre - e tenho o horrível hábito de pedir desculpa por tudo e por nada -, mas, hoje, vou falar de sentimentos, assunto inevitável, sem pedir desculpa nenhuma.
Tudo fica dramático e preso aos sentimentos à medida que o tempo avança. Você olha à sua volta: em vez de árvore, ou de floresta, vê a regra perfeita da natureza: os abutres estão à espera. Você respira para ganhar tempo. 

É preciso esperar a sentença. Sim, tem de seguir o ritual. É necessário que seja, de certa forma, legalizada a sua morte para que os abutres se desloquem e venham cumprir a função que a natureza lhes destina.

Sua vontade é voltar para trás, mas, segue em frente até a derrapagem final. Só são nossas de verdade as memórias que perdemos e a morte que aguarda. Esta é a luta (e o drama) em que todos nós estamos implicados. 
 
 

 

 
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

SENTENÇA

 
 
A raiva subiu, o sangue ferveu. Peguei a bolsa, disse alguns desaforos e saí. Apressei o passo para não sentir o coração doer.  Na poeira da vida ficava uma amizade de duas décadas. Ficava também o trabalho de assessoria de imprensa que ocupava meu tempo. Pensei: foi chão que deu uvas. E o tempo não volta para trás. Respirei fundo e me preparei para ficar sem fazer nada durante algum tempo. Fui para casa. Sempre trabalhei desde os 14 anos e, pela primeira vez, interditei minha vida de antes. Queria ser irresponsável, mesmo correndo o risco de entrar no cheque especial e ter o nome no Serasa. Queria não pensar em coisa nenhuma para não constatar obviedades. Exemplo: como umas poucas escolhas infelizes podem mudar a vida de qualquer pessoa. E daí? Vidas devem mudar mesmo...   Trinta dias depois, porém, tive vontade de voltar à tona e comecei a me sentir isolada, como quem tem doença contagiosa. Em casa, não acontece nada. Parece que estou numa prisão domiciliar. Não demora e começo a sentir medo, além de muitas dúvidas. Fico me perguntando que crime cometi... A conclusão é elementar: o crime de ter falhado no cumprimento da minha pena. Despeço-me, então, da prisão domiciliar e volto ao trabalho, onde cumpro a sentença  submetida ao rigor comum a todos os filhos de Adão: ganharás o pão com o suor do teu rosto. Esta é a sentença. E desta sentença não há recurso.

sábado, 6 de junho de 2015

De onde vem o mal à nossa volta?

 
 
"Quando o oportunismo imediatista é percebido como a regra do jogo, cada um se defende como pode. Mas ao tentar agarrar aqui e ali a sua vantagem particular e o seu prazer imediato, ao transgredir e ignorar sempre que for conveniente as leis e normas impessoais de uma convivência civilizada, as partes terminam involuntariamente criando um monstro coletivo que não esperavam - um todo social hostil, no qual elas não se reconhecem e que se abate sobre as suas vidas com a fatalidade inocente de uma catástrofe natural. O sentimento sincero e generalizado de cada uma das partes quando olha para si própria e ao redor de si é o de que ela não tem nada a ver com o mal que percebe à sua volta. O mal que ela encontra fora de si, contudo, não passa no fundo do resultado agregado de uma miríade de ações divergentes, cada uma delas minúscula em si mesma diante do todo social, mas conjuntamente e ao longo do tempo poderosas o suficiente para erodir o estoque de confiança interpessoal e configurar um quadro de incerteza, adversidade e violência que, se não chega a arruinar por completo, seguramente prejudica e empobrece de forma sensível o relacionamento humano na vida prática e efetiva."

Eduardo Giannetti (Auto-engano)





 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Amizade!

 

Eliane Cantanhede, amiga constante na minha vida há mais de 30 anos, faz aniversário hoje.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Só o que conta é o futuro

 
 
«O principal para que o Governo tenha êxito é saber persistir. Ter a coragem de não mudar de rumo, independentemente dos acidentes de percurso. Recomeçar, pacientemente, quantas vezes forem necessárias. Tomar decisões. Não se deixar perturbar por agressões verbais, por incompreensões ou por injustiças. Aguentar de pé. Para os homens de convicção e de reta consciência, o que conta é sempre - e só - o futuro.»
 
Mário Soares, 15 de Maio de 1984 (em A Árvore e a Floresta, Perspectivas & Realidades, 1984)

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Está na cara...



Não tenho filiação a esta ou aquela escola de pensamento. Sou a favor da cidadania, defensora da força e do avanço coletivo da sociedade. Condeno a negação da solidariedade e discordo daqueles que se julgam no direito de um humano pisar outro humano. Acredito e defendo os princípios de uma vida cristã, assentada nos valores do humanismo/iluminismo. Capitalista e em busca de algum progresso econômico? Sim. Se assim não fosse, não lutaria tanto (trabalhando 12, 14, até 20 horas por dia sem folga ou férias durante anos). Meu êxito profissional é menor do que os esforços que fiz, e ainda faço, e dos sonhos que tive e ainda tenho.

Em rodas onde não estou, dizem que sou um pouco chata, me dão apelidos engraçados e inofensivos, mas reconhecem que sou séria e competente. Sobre a linha política asseguram que sou de direita. Na verdade busco ser uma pessoa direita, à moda antiga, que respeita compromissos e orgulha-se por cumprir deveres e obrigações. Não sou melhor, nem pior do que ninguém. Nutro preferências ideológicas pelos líderes de centro e gosto de pessoas bem humoradas, que falam bem. Não concordo, muito menos compactuo, com extremismos, virulência, truculência e violência.

Trabalho com assessoria de imprensa na área política e aprecio, sem medo de críticas, a forma como alguns líderes se conduzem. Ser líder político, na maioria das vezes, é ter coragem de se expor quando todos se escondem. A propósito, dizem que a política não é lugar de virtudes, mas de disputas. É igualmente  verdade que podemos encontrar as maiores virtudes humanas (e/ou os maiores defeitos de caráter) nos momentos das escolhas duras e inadiáveis.

Com a idade fiquei paciente e calma. E com menos certezas. Tudo isso é necessário para apreciar melhor as coisas. Algumas delas, pelo menos. Tenho defeitos, me engano e me desculpo... Como todos os mamíferos, faço coisas condenáveis em nome da sobrevivência e não sou "boa" de coração como gostaria. Sinto raiva, tenho brio e cultivo o amor próprio. A exemplo dos meus semelhantes, sou envolta em brumas e nevoeiros, mas não é difícil me conhecer porque os esforços que faço para esconder meus sentimentos não enganam ninguém. No fundo, sou o tipo de pessoa a quem transparece na cara tudo o que lhe vai na alma.

 

domingo, 10 de maio de 2015

Dia das Mães



  
 
MÃE...
São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais...
E nelas cabe o infinito.
E palavra tão pequena - confessam mesmo os ateus -
És do tamanho do céu
E apenas menor do que Deus!
Mário Quintana

 

terça-feira, 5 de maio de 2015

"Puta que pariu" sim, mas com grandeza

 
 
 
"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem".
LYA LUFT, mandando muito bem em tudo, principalmente no palavrão. Texto brilhante, bem escrito e bem pensado.