sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O que seria um ataque pessoal na política?

 
No calor de uma campanha eleitoral é possível definir insulto, desconstrução de imagem, campanha negativa ou assassinato de reputação? Um político criticar duramente o outro não é "ataque pessoal". É uma opinião política susceptível de contraditório que deve ser feito igualmente no campo político.
 
É livre a liberdade de opinião, de expressão e de crítica no país. E o debate é o "sal" da política. Ainda bem que há conflitos, ainda bem que há notícias deles, ainda bem que as redes sociais permitem que a sociedade possa dialogar sobre eles. A isto se chama democracia e liberdade. 
 
Se um candidato se sentiu ofendido, que procure dar resposta à altura, em lugar de apresentar lamúrias romanescas ou chorar a cântaros. Ataque pessoal seria acusar alguém sem provas de ter praticado um crime. Ou caluniá-lo sobre ato que efetivamente não praticou. 
 
Confrontar um político por ter alianças, por ter votado desta ou daquela maneira, ou dizer que ele foi filiado a este ou aquele partido, nada disso é ofensa. Biografias e declarações de renda de quem pleiteia mandatos devem ser de conhecimento público. E ascensão política exige que homens públicos aceitem, conscientemente, os riscos da exposição.
 
Não se pode exigir "silêncio" a quem cumpre a obrigação democrática de expressar suas discordâncias. Entre outras coisas, a democracia vive, essencialmente, de debate e decisões. Nada se faz, em política, sem debate e as eleições são o corolário do debate. Uma sociedade democrática vive desta dinâmica.
 
Campanha eleitoral implica troca de opiniões divergentes. O que não falta é dedo em riste. Nos políticos, e nos seres humanos de modo geral, infelizmente, os defeitos são mais frequentes que as virtudes. E acredito que haverá sempre, nesta ou naquela encruzilhada, eventuais erros e omissões deste ou daquele candidato. Ninguém é infalível.
 
Podemos aguentar algumas verdades. Somos adultos. Em todas as democracias, a maioria costuma escolher, depois de acompanhar debates e entrevistas, quem é mais autêntico, quem inspira mais confiança. Ninguém é perfeito. Contudo, é difícil tolerar candidato simulando raiva irrefletida, ou simulando indignação com crítica, para tentar esconder o que importa: ter ou não ter algo de substantivo para dizer e fazer.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A propósito da demagogia

 
 
 
SOBRE A DEMAGOGIA DOS QUE SE PENSAM ANTI-DEMAGOGOS

Dizem os manuais que o demagogo, na sua expressão grega primitiva, era apenas o chefe ou “condutor do povo”, sem qualquer sentido pejorativo, e, como tal, se qualificavam Sólon ou Demóstenes, intimamente ligados à defesa da democracia.

Contudo, a expressão sofreu uma evolução semântica, deixando de ser uma arte neutral, principalmente depois da morte de Péricles, em 429 a.C., quando surgiram novos líderes, não ligados às antigas famílias, os quais, a partir do século seguinte, começaram a ser fortemente criticados pelos adversários dos modelos democráticos.

Por causa disso é que a expressão ganhou a atual conotação: aquele que procura dar voz aos medos e aos preconceitos do povo. Ou, para seguir as palavras de Bertrand de Jouvenel: a arte de conduzir habilmente as pessoas ao objetivo desejado, utilizando os seus conceitos de bem, mesmo quando lhe são contrários.

Aliás, já em Platão (Politeia, livro V) o nome serviu para designar o animal que chama boa às coisas que lhe agradam e más às coisas que ele detesta. Do mesmo modo, em Aristóteles (Política, livro V), onde se acentuou que o demagogo utilizava a lisonja e os artifícios oratórios.

Já no século XIX, Lincoln chegou mesmo a assinalar que é sempre possível enganar uma pessoa; que é também possível enganar todos, mas de uma só vez; mas que é impossível enganar sempre todos.

Neste contexto, Max Weber, utilizando um conceito amplo de demagogo, incluiu em tal categoria o jornalista, referindo que o mesmo substituiu o púlpito. Porque, desde que foi instaurada a democracia, o demagogo é a figura típica do chefe político no Ocidente. Uma demagogia que, depois de se transmitir pela palavra impressa e através dos jornalistas, passou para a rádio e para a televisão.

Fiquei assim estupefato quando um dos mais brilhantes artistas da demagogia moderna, o político Dr. José Pacheco Pereira, vestindo o seu hábito de jornalista de ideias, quis assumir-se como um monge da anti-demagogia, utilizando os métodos da mais caricatural escolástica. O brilhante comentarista, que tão weberianamente se desmarxizou, se for fiel à sua matriz de amigo da sabedoria, tem que meter a frase solta no contexto, a letra do texto no espírito do discurso, a parte no todo, a emoção na razão, a honra na inteligência e o sentimento na ideia.

Muito weberianamente dissertando, acrescentarei que a racionalidade tanto é a razão da ação racional referente a fins (Zweckrational), como ação racional referente a valores (Wertrational), a racionalidade em valor.

Na primeira, o indivíduo tanto é capaz de definir objetivos como de avaliar os meios mais adequados para a realização desses objetivos, numa ação social marcada pela moral de responsabilidade, onde o valor predominante é a competência. E aqui já nos situamos no campo do Estado racional-normativo ou do Estado-razão, onde domina a ação burocrática, aquela que faz nascer o poder burocrático, o poder especializado na elaboração do formalismo legal e na conservação da lei escrita e dos seus regulamentos, onde dominam a publicização, a legalização e a burocracia.

Na segunda, os indivíduos inspiram-se na convicção e não encaram as consequências previsíveis dos seus atos. É uma forma de atividade política inspirada por sistemas de valores universalistas, onde o agente atua de acordo com a moral de convicção, vivendo como pensa, sem pensar como vive, em nome da honra, isto é, sem ter em conta as consequências previsíveis dos seus atos, à maneira do que é comandado pelo dever, pela dignidade, pela beleza ou pelas diretivas religiosas.

Poderei assim concluir que o jornalista dos púlpitos dominicais corre o risco de ser duplamente demagogo, mesmo que rejeite o lume da profecia e fique apenas com metade do conceito de razão.

Logo, apenas desejarei que, de regresso em regresso, não regresse em demasia, passando para o estreito conceito de púlpito da santificada inquisição.

Pior ainda quando trata de usar os métodos dos seminaristas georgianos e dos jornais de parede da revolução cultural, esses que, retirando frases do contexto, condenaram os adversários à fogueira da diabolização adjetiva.

Os efetivos amigos da sabedoria, como o Dr. José Pacheco Pereira, porque só sabem que nada sabem, não podem parecer que têm o monopólio da inteligência, do caminho, da verdade e da democracia. Se meterem a frase no texto, o texto no contexto e a letra no espírito, certamente confessarão que se enganaram. Homens livres, livram-se dos ódios e têm a coragem de vencer o preconceito.
Texto extraído do blog Jornalismo de Ideias. Autoria: José Adelino Maltez

domingo, 31 de agosto de 2014

Grandeza:Thomas Mann


 
«Digam o que disserem, o cristianismo, essa flor do judaísmo, continua a ser um dos dois pilares principais em que assenta a civilização ocidental, sendo o outro a Antiguidade mediterrânica. A negação de um destes pressupostos fundamentais da nossa moralidade e erudição, ou até de ambos, por qualquer grupo da comunidade ocidental, significaria a sua exclusão da mesma, e uma inimaginável, de resto, louvado seja Deus, nem sequer exequível redução do seu estatuto humano. (…) Tempos exaltados, como o nosso, que sempre tendem a confundir meras manifestações da época com o eterno (por exemplo, liberalismo e liberdade) e a despejar a criança com a água do banho, exortam toda a pessoa mais séria e livre a que não se limite a flutuar ao vento da época, a regressar às bases, a voltar a ganhar consciência das mesmas, e a insistir nelas sem transigir. A crítica que o século faz dos assuntos morais cristãos, as correções (…), permanecem, por muito fundo que cheguem, por muito transformadores que sejam os seus efeitos, movimento de superfície. Elas nem sequer tocam naquilo que condiciona, define e vincula (…) o cristianismo cultural do homem ocidental (…) uma vez conquistado e nunca alienável.»
Thomas Mann em Viagem marítima com Dom Quixote (1934)

sábado, 30 de agosto de 2014

Não: não quero nada.



Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!,,,
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.

Álvaro de Campos, Lisbon Revisited, 1923

domingo, 24 de agosto de 2014

FEIOS E BONITOS







Qual o papel da boa aparência em política? O que constitui a boa aparência? Sexy é um adjetivo normalmente problemático para mulheres que buscam se eleger?  Há perguntas interessantes a respeito do tema.  Alguns políticos de grande expressão do passado, como Getulio Vargas, que era baixinho e sempre se manteve fora do peso, teriam a mesma popularidade hoje? E Jânio Quadros com aquela aparência de Napoleão de hospício? Os cabelos ajudam? "Cabelos ajudam", diz o ex-governador de Nova York Hugh Carey, que tingia os seus. No Brasil, quase todo o mundo tinge, faz implante ou usa peruca, mas quase ninguém pesquisa, a sério, a questão da aparência. 
 
Nos Estados Unidos, muitos especialistas consultados sobre o tema concordam que aparência suave ajuda em política, mas admitem que podem surgir dúvidas quanto à acuidade intelectual de quem acha que apenas a beleza põe a mesa. Marilyn Quayle disse em 1981, logo depois de seu marido Dan Quayle ser eleito ao Senado (poucos anos depois ele viria a ser vice-presidente dos EUA): "Alguns durante a campanha diziam `não vou votar nele porque ele usa a boa aparência para concorrer'. Bem, o que ele devia fazer? Enfiar um saco no rosto?" A verdade é que muita coisa mudou na política dos EUA desde os debates Kennedy-Nixon em 1960. Com o predomínio da televisão, assessores de campanha passaram a exigir boa aparência ou, pelo menos, a dizer que os candidatos não podem repelir fisicamente os eleitores.

"Depois de 1960, se você for horroroso será muito prejudicado na política", diz Beschloss. "Cem anos atrás, não era bem esse o caso." Até Abraham Lincoln, cujo carisma e presença são inesquecíveis, era geralmente considerado feio - ele próprio o admitia. Morris, o biógrafo de Theodore Roosevelt e Ronald Reagan, disse duvidar que Roosevelt se saísse bem na televisão, por causa de sua "voz muito alta, áspera" e "dentes brancos, rangentes". Mas Reagan, acrescentou Morris, tinha uma "beleza física" que era "uma grande parte de seu poder". 

Traços simétricos, maxilares bem-talhados e ombros largos: John F. Kennedy é geralmente reconhecido como o responsável pelo estabelecimento do padrão perfeito em matéria de atrativos para um presidente. Além da estética quase perfeita, sua grande beleza tornou-se lenda por refletir juventude, energia e entusiasmo.  Gore Vidal conta que, uma vez, numa festa onde estava com Tennessee Williams passou por eles o jovem senador Kennedy. Perderam o fôlego e a visão inspirou ao dramaturgo o seguinte comentário: "Deus do Céu, que belo traseiro!".
 
Nas mulheres, atrativo é coisa mais complicada. Aparência melosa decididamente não ajuda; nenhum dos especialistas conseguiu citar bonecas eleitas, exceto Jeanine Pirro, promotora federal no Condado Westchester (Estado de Nova York). Na opinião de David Garth, “é mais difícil para as mulheres". Mulheres devem parecer atraentes e maduras como Ségolène Royal e Hillary Clinton. Patrick McCarthy dá a Hillary notas bem altas por fixar-se num visual, um conjunto escuro e um penteado. Como consequência, as pessoas pararam de falar de seu cabelo - objetivo de qualquer mulher na política. 
 
McCarthy tem a firme opinião de que a aparência sexy é "desastrosa" para políticos, pois "indica que ele ou ela tem na mente coisas que não se referem à melhor legislação". Atitudes provocantes e sensualidade explícita contrariam em tudo a imagem de eficiência e dever cívico que se espera, ou se deveria esperar, dos políticos. Granger, da revista Esquire, também elogia Hillary por sua aparência bela e austera. "É uma combinação de força e inteligência e também a disposição de juntar firmemente essas armas", diz Granger.
 
Estudos mostram que, quanto mais bonita é uma pessoa, maior é seu salário e maiores são as chances de ser absolvida por um júri. A verdade é que fazemos julgamentos o tempo todo e, hoje, usamos a beleza como um indicador de competência. Pessoas com rosto simétrico ou feições mais definidas seriam vistas como mais dignas de confiança. Além disso, contam pontos também cabelos bem cuidados e roupas alinhadas. Não é por acaso que na época das campanhas, todos eles se cuidam mais. 

A opinião final e unânime dos especialistas é a de que a aparência, em política, nunca importa tanto quanto as posições assumidas ou o firme trabalho nas campanhas. Vale dizer: num mundo em que todos querem ser belos, a política atrai os esteticamente privilegiados e lhes dá um bom empurrão inicial. Depois, seu desempenho tende a ser julgado por padrões mais comuns.


Fontes: historiador Michael Beschloss, especialista em candidatos a Presidência dos EUA, o consultor político David Garth, o ex-governador Mario Cuomo, o ex-prefeito Ed Koch, a ex-candidata à vice-presidência dos EUA Geraldine Ferraro, o consultor-chefe do governador George Pataki para política, o biógrafo de presidentes Edmund Morris, o pesquisador de opinião pública Mark Penn; o chefe de redação da Esquire, David Granger, e Patrick McCarthy, diretor da Crown Books.

sábado, 23 de agosto de 2014

ALEGRIA E TRISTEZA

"Em nenhuma época da história da humanidade esteve o mundo tão cheio de sofrimento e de angústia. Contudo, aqui e além, encontramos indivíduos que não estão contaminados, manchados pela dor comum. Não são criaturas sem coração, longe disso! São indivíduos emancipados. Para eles, o mundo não é que nos parece. Vêem-no com outros olhos, dizemos que morreram para o mundo. Vivem na luz do sol, na harmonia da forma e do ritmo que é melodia pura. Vivem, no momento que passa, com toda a plenitude, e a radiação que deles emana é um perpétuo hino de alegria (...). Morremos a lutar para nascer. Nunca fomos, nunca somos. Estamos sempre na contingência de vir a ser, separados, desligados sempre. Sempre do lado de fora"...
 
Henry Miller, 1948

sábado, 16 de agosto de 2014

EDUARDO CAMPOS




A exemplo de tantos brasileiros, acompanhei com atenção e interesse as noticias sobre o velório e o enterro de Eduardo Campos. Achei impressionante a dor sincera exposta por milhares de pessoas naquele ambiente de comoção, tristeza e inconformismo com a tragédia, sentimentos raros e quase inexistentes no mundo da política.

Acredito que Eduardo Campos representava muito do que a maioria de pernambucanos, nordestinos e brasileiros gostaria de ser. Além de jovem, bonito e inteligente, era feliz e bem sucedido. Tanto que levou para o Palácio das Princesas, onde despachou por oito anos, a alegria de viver ao lado de uma jovem e bela primeira-dama, com uma fieira de filhos lindos e fotogênicos.

Em três décadas de jornalismo, sempre ouvi falar que os políticos pernambucanos divergiam em quase tudo e apenas um ponto os unia: eram fechados, turrões, não falavam com facilidade, não sorriam e não tinham senso de humor. Marco Maciel, Jarbas Vasconcelos, Roberto Freire, Roberto Magalhães e Joaquim Francisco parecem ser assim. Eduardo Campos parecia o contrário.

Com o sorriso sempre aberto, partilhou a imagem de família feliz com seu estado e com o Brasil. Além disso, defendia com clareza, como a maioria de nós, a visão de um mundo melhor e mais desejável. Não foi por acaso que o trágico acidente em Santos causou em Pernambuco uma sensação de orfandade objetiva, exposta nas cenas comoventes do velório e do enterro.

Essa mesma sensação, de alguma forma, percorreu e ainda percorre o Brasil inteiro, como nunca antes tinha acontecido. Como pode ter morrido alguém assim? Ficamos a dever a ele uma atenção maior? Estamos ainda mais sentidos com sua morte porque não fomos capazes de perceber, antes do acidente trágico, que o ex-governador de Pernambuco era um político que valia a pena?

Só o tempo poderá trazer algum consolo para aqueles que o amaram, admiraram e conviveram com ele, a começar pela sua mulher, seus filhos, sua mãe, irmãos, parentes e amigos. Para nós, que estamos à distância, ficará para sempre, cristalizada na memória, sua imagem jovial e sorridente. Nunca vamos imaginar Eduardo Campos triste, velho, doente ou infeliz.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Seis dicas de Harvard para criar filhos bons





Os psicólogos de Harvard recomendam seis dicas para criar filhos bons, dotados de empatia e consciência social, qualidades que são fundamentais para o sucesso no mundo do trabalho. O estudo, intitulado “As crianças que queremos educar“, começa por afirmar que as crianças não nascem simplesmente boas ou más, e que nunca devemos desistir delas.

“As crianças precisam de adultos que as ajudem, em todas as fases da infância, a tornar-se solidárias e éticas”. É preciso desenvolver nas crianças “a preocupação pelos outros”, não só porque é o correto, mas também porque sentir empatia e assumir a responsabilidade perante outros é uma grande ajuda no caminho para o sucesso e para a felicidade.

Segundo a Making Caring Common, da Harvard Graduate School of Education, os seis princípios gerais para criar os filhos com carinho, respeito e ética são:

1. Seja um mentor e um modelo forte

As crianças aprendem valores e comportamentos através da observação dos adultos que elas mais respeitam: os pais.

Tente isto: Envolva-se em serviço comunitário ou noutras formas de contribuir para a comunidade. Melhor ainda, pense fazer isso com o seu filho. Quando cometer um erro que afete a criança, converse com ela sobre por que acha que o cometeu e como pretende evitar cometer o erro da próxima vez.

2. Faça do cuidado com os outros uma prioridade

Os pais devem explicar que a preocupação com terceiros é de extrema importância, tanta quanto a nossa própria felicidade. “Embora a maioria dos pais diga que o cuidado com os outros é uma prioridade para os seus filhos, eles não estão a receber essa mensagem”.

Tente isto: Em vez de dizer aos seus filhos que “o mais importante é que sejas feliz”, diga que “o mais importante é que sejas gentil e feliz”. Tente também abordar o assunto quando outros adultos importantes para a vida do seu filho estejam presentes, por exemplo, perguntar à professora se o filho é um bom membro da comunidade, em vez de perguntar apenas pelo aproveitamento escolar. E se um dia ele quiser desistir de uma equipe de esporte, de uma banda ou de uma amizade, fale sobre isso. Pergunte se a desistência não vai prejudicar o grupo e encoraje-o a resolver os problemas.

3. Crie oportunidades à criança para que possa praticar atos de carinho e gratidão

Boas pessoas todos podemos ser, mas isso não acontece do nada. As crianças precisam praticar o cuidado com os outros, a gratidão e a apreciação pelas pessoas que as tratam bem. “Estudos mostram que pessoas que têm o hábito de expressar gratidão são mais propensos a ser úteis, generosos, a ter compaixão e a perdoar”, escreve a Making Caring Common. Tudo isto ajudará a criança a crescer mais feliz e saudável.

Tente isto: Espere que as crianças ajudem de forma rotineira, por exemplo, com as tarefas domésticas, e elogie apenas atos menos comuns de bondade. Quando este tipo de ações de rotina são simplesmente esperados e não recompensados, são mais facilmente interiorizados pelos mais novos. Fale também com o seu filho sobre os gestos de cuidado e indiferença, justiça e injustiça que ele vê no dia-a-dia ou na televisão

4. Aumente o círculo de preocupação da criança

É normal que as crianças simpatizem mais com um círculo pequeno de familiares e amigos. O desafio aqui é fazer com que os mais pequenos aprendam a preocupar-se e a dar-se com pessoas fora do círculo, tais como um novo colega da escola ou alguém que não fale a mesma língua

Tente isto: Incentive a criança a considerar os sentimentos daqueles que estão numa situação mais vulnerável. Pode também usar com os seus filhos histórias de jornais ou televisões para iniciar conversas com outras crianças sobre o que se passa no mundo e os problemas que meninos da mesma idade estão a passar, dando-lhes visões muito diferentes da realidade.

5. Ajude a criança a tornar-se numa pensadora e líder ética

As crianças interessam-se naturalmente por questões éticas e por norma gostam de melhorar a sua comunidade.

Tente isto: Aproveitando estes interesses dos mais novos, inicie com eles uma conversa sobre dilemas éticos que surgem, por exemplo, na televisão. Procure causas às quais a criança possa aderir, como a prevenção do bullying ou o apoio à educação nos países em vias de desenvolvimento

6. Ajude a criança a desenvolver o autocontrolo e a gerir os seus sentimentos

Muitas vezes, a capacidade de nos preocuparmos com o outro é suplantada pela raiva, vergonha, inveja ou outro sentimento negativo qualquer.

Tente isto: Uma maneira simples de ajudar os seus filhos a gerirem os seus sentimentos é praticarem juntos estes três passos: parar, respirar fundo pelo nariz e expirar pela boca, e depois contar até cinco. Experimente quando os seus filhos estiverem calmos. Depois, quando estiverem chateados por alguma razão, lembre-os dos passos e pratiquem-nos em conjunto. Não se esqueça também de praticar com eles a resolução de conflitos. Falem sobre um conflito a que tenham assistido e que tenha acabado mal, e peça-lhe para sugerir soluções mais pacíficas e construtivas para resolver o problema.

sábado, 9 de agosto de 2014

Imprensa livre e liberdade de expressão

 
 
Imprensa livre e liberdade de expressão são conquistas máximas da democracia que todos nós construímos. A democracia não sobrevive sem imprensa livre, valor essencial para consolidar a dignidade do ser humano.

A Constituição Federal explicita a liberdade de informação no art. 5º, incisos IV (liberdade de pensamento); IX (liberdade de expressão) e XIV (acesso à informação) e no art. 220, § 1º (liberdade de informação propriamente dita).

No art. 220, § 2º, a Constituição veda qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

O referido artigo dispõe que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.

“Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV”, determina o parágrafo 1º.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, no seu art. 19, proclamou em favor de todos o direito à liberdade de opinião e expressão sem constrangimento e o direito correspondente de investigar e receber informações e opiniões e de divulgá-las sem limitação de fronteiras.
A Convenção Europeia dos Direitos do Homem estabeleceu no art. 10, § 1º que “toda a pessoa tem direito à liberdade de expressão”. Esse direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber ou de comunicar informações ou ideias, sem que possa haver a ingerência da autoridade pública e sem consideração de fronteiras. 

Nenhum cidadão pode achar que exerce poderes irrecorríveis, e, portanto, incompatíveis com as garantias, direitos e deveres constitucionais.

A liberdade de expressão, a crítica, a realização das eleições, enfim o respeito às determinações da Constituição, formam o pacote democrático. Ao cidadão ou cidadã que não percebe esta evidência não podem ser dados poderes acrescidos.

domingo, 3 de agosto de 2014

Não sou menos amiga das pessoas de quem discordo...



«É mais justo acentuar que a amizade, mesmo entre iguais, aceita a diferença, a dissenção e a liberdade do outro. Não sou menos amigo das pessoas de quem discordo. E algumas manifestações de amizade mais consistentes que conheço consistem em deixar alguém em paz, deixá-lo ser quem é, às vezes sozinho, em solidão temporária e benéfica. Não ter amigos, não ter amigos nunca, leva ao fechamento, à incivilidade, à insanidade. Mas há amizades que são também formas de solidão. Amizades sem empatia, isto é, sem a tentativa de entendermos aquilo que nunca experimentámos. Amizades sem confidencialidade, que são formas de perfídia. Amizades inclementes como julgamentos sumaríssimos. Ou um amigo que diz mal de nós em público, ou fica calado quando nos ofendem. Um amigo que é um inimigo.»
 
Pedro Mexia, Expresso/ Portugal, 3/8/2014 
 
 PS: Concordo tão completamente com Pedro Mexia que me ocorre aquele verso da música "Caçador Mim" de Milton Nascimento: "Certas canções  que ouço cabem tão dentro de mim que perguntar carece como não fui eu que fiz?". No caso, "certos textos que leio"...
 

Obama: política e religão

 
 
Depois de séculos de desavenças na política entre laicos, por vezes ateus e os religiosos, penso que alguma coisa acabará mudando nesse tipo de debate em razão do comportamento inovador de Obama nas duas corridas vitoriosas que empreendeu nos Estados Unidos. Obama falou sobre religião no calor da primeira disputa e ao final da segunda. Manifestou-se como crente em Deus, mas disse não ser partidário ou representante de nenhuma igreja.

Sem usar politicamente a relação de proximidade com a fé, deixou claro que não era ateu, mas manteve o distanciamento pessoal, ou seja, não virou personagem da religião. Afinal, assinalou, era candidato a presidente dos EUA e não a pastor de almas. Obama, como é hábito nas campanhas eleitorais nos EUA, se declarou cristão, mas protegeu a sua fé de uma dimensão pública. E inovou ao invocar, em pé de igualdade, a mensagem de amor de todas as religiões do mundo. Com isso, recuperou, de alguma maneira, a retórica quase universalista dos filhos de Abraão.

Ele converteu-se já adulto, não pela catequese ou por revelação, mas pelo contato com as obras sociais das Igrejas de Chicago. Esta maneira de chegar à fé facilitou sua teologia política. O seu pós-secularismo ecumênico permite-lhe falar de um Deus de todas as pessoas e não necessariamente naquele em que o cidadão Barack Obama acredita. E isso parece ter sido satisfatório para a maioria dos eleitores norte-americanos, incluindo os que não acreditam em Deus nenhum.

Sem defender a ideia dos laicos e ateus, que almejam separar a religião do Estado, e ao contrário dos religiosos, que buscam fazer uso maniqueísta de Deus, Obama adotou a seguinte linha: o Estado deve assimilar todas as Igrejas. A teologia política de Obama, porque é disso que se trata, busca fazer da religião um instrumento de política do Estado. Não é a fá particular do cidadão Obama que está em jogo.

Claro que ao falar para o Deus de todas as pessoas, Obama busca extrair dividendos eleitorais, mas não custa reconhecer que essa posição é um avanço em relação ao que estamos acostumados a ver por aí com candidatos sendo fotografados rezando, em procissões ou até recebendo o sacramento da comunhão. Obama, pelo menos, não tentou tirar proveito de algo íntimo e pessoal como sua fé religiosa.

Obama não quer invocar nenhuma Igreja que se julgue detentora da verdade sobre Ele, mas aliar-se a todas as Igrejas. Esta política joga muito bem com a estratégia de renascimento religioso ensaiada por grandes Igrejas nos anos 70, quando transferiram o primeiro passo da sua evangelização da catequese para a educação e as obras sociais. A aliança entre esta estratégia de evangelização e a política pós-secular é duradoura e tem sido profícua.

O Estado encontrou parceiros e intermediários fortes. A Igreja encontrou um modo de convivência com a política sem discussão sobre Deus e o Estado. O Estado não pede aos prestadores de serviços sociais que não doutrinem. As Igrejas co-financiam o Estado e chegam aos locais onde ele não consegue ou não tenta chegar. Obama repete assim uma aposta que dá certo na Inglaterra e na grande maioria dos países europeus.

Antes de Obama, apenas o inglês Tony Blair havia encarnado posição semelhante ao deixar claro que era cristão, era crente em Deus, mas não devotava adesão a nenhuma igreja. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Há palavras que nos beijam...






Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


(poema de Alexandre O'Neill)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

As Leis Fundamentais da Estupidez Humana


As leis fundamentais da estupidez humana (em italiano Le leggi fondamentali della stupidità umana), é o capítulo ( do livro que leva o mesmo nome) no qual o autor, Carlo M. Cipolla, classifica a população humana em quatro grandes grupos: 1) os inteligentes, que conseguem ter uma ação que resulta em vantagem para si e também para os outros (ainda que menor); 2) os bandidos, que tiram vantagem para si com prejuízo de terceiros;3)os tolos, que não geram, nem para si nem para os outros, vantagem ou prejuízo e 4)os estúpidos, que têm uma ação que resulta em prejuízo para si e para os outros (ainda que menor).

Além disso, o livro enuncia as cinco leis da estupidez, que definem o comportamento da estupidez na humanidade. São elas:
1)Sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos que há no mundo.
2)A probabilidade de que uma determinada pessoa seja estúpida é independente de qualquer outra característica dela mesma.
3)Uma pessoa é estúpida se ela causa um dano a outra ou a um grupo sem obter nenhum beneficio para si, ou mesmo sofrendo prejuízo.
4)As pessoas não estúpidas subvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas; esquecem constantemente que em qualquer momento e lugar, e em qualquer circunstância, tratar ou associar-se com indivíduos estúpidos constitui inevitavelmente um custoso erro.
5)A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.

O livro foi traduzido para o espanhol (Crítica), para o francês (Balland), e para o português (Celta), com o mesmo título. Segue, abaixo, uma tradução



As Leis Fundamentais da Estupidez Humana
por Carlo M. Cipolla
traduzido do italiano por Luiz Eleno

Introdução
Capitulo 1 – A Primeira Lei Fundamental
Capitulo 2 – A Segunda Lei Fundamental
Capitulo 3 – Um intervalo técnico
Capitulo 4 – A Terceira (e áurea) Lei Fundamental
Capitulo 5 – Distribuição de frequências
Capitulo 6 – Estupidez e poder
Capitulo 7 – O poder da estupidez
Capitulo 8 – A Quarta Lei Fundamental
Capitulo 9 –Macroanálise e a Quinta Lei Fundamental
Apêndice

Introdução

As atividades humanas encontram-se, por unânime consenso, em um estado deplorável. Esta, no entanto, não é uma novidade. Olhando para trás até onde podemos, elas sempre estiveram em um estado deplorável. O pesado fardo de desgraças e misérias que os seres humanos devem suportar, seja como indivíduos, seja como membros da sociedade organizada, é substancialmente o resultado do modo extremamente improvável – e ouso dizer estúpido – pelo qual a vida foi organizada desde os seus inícios.

Desde Darwin, sabemos que compartilhamos a nossa origem com as outras espécies do reino animal, e todas as espécies, sabe-se, da lombriga ao elefante, devem suportar a sua dose cotidiana de atribulações, temores, frustrações, penas e adversidades. Os seres humanos, todavia, têm o privilégio de terem de se sujeitar a um peso adicional, a uma dose extra de atribulações cotidianas, causadas por um grupo de pessoas que pertencem ao mesmo gênero humano. Este grupo é muito mais poderoso que a Máfia ou que o Complexo industrial-militar ou que a Internacional Comunista. É um grupo não organizado, que não faz parte de nenhuma hierarquia, que não tem chefe, nem presidente, nem estatuto, mas que consegue ainda assim operar em perfeita sintonia como se fosse guiado por uma mão invisível, de tal modo que as atividades de qualquer membro contribuem potencialmente para reforçar e amplificar as atividades de todos os demais. A natureza, o caráter e o comportamento dos membros deste grupo são o argumento das páginas que seguem.

É necessário salientar neste ponto que este ensaio não é fruto de cinismo nem um exercício de derrotismo social – não mais do que o é um livro de microbiologia. As seguintes páginas são, de fato, o resultado de um esforço construtivo para investigar, conhecer e portanto, possivelmente, neutralizar uma das mais poderosas e obscuras forças que impedem o crescimento do bem-estar e da felicidade humana.

Primeiro Capítulo – A Primeira Lei Fundamental

A Primeira Lei Fundamental da estupidez humana afirma sem ambiguidade que
Sempre e inevitavelmente cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos em circulação¹.
À primeira vista esta afirmação pode parecer trivial, ou óbvia, ou até mesquinha, ou mesmo todas as três coisas juntas. No entanto, um exame mais atento revela plenamente a sua realista veracidade. Considere-se o que segue. Por mais alta que seja a estimativa quantitativa que alguém faça da estupidez humana, resta-se repetidamente e recorrentemente espantado pelo fato de que:
(a) pessoas que julgávamos no passado como racionais e inteligentes revelam-se depois, subitamente, inequívoca e irremediavelmente, estúpidas;
(b) dia após dia, com uma incessante monotonia, vêmo-nos dificultados e obstruídos em nossas próprias atividades por indivíduos teimosamente estúpidos, que aparecem repentina e inesperadamente nos lugares e nos momentos menos oportunos.
A Primeira Lei Fundamental nos impede de atribuir um valore numérico à fração de pessoas estúpidas em relação ao total da população: qualquer estimativa numérica resultaria em uma subestimação. Por isto, nas páginas seguintes denotar-se-á a quota de pessoas estúpidas no conjunto de uma população com o símbolo s.

¹ Os autores do Velho Testamento estavam cientes da existência da Primeira Lei Fundamental e a parafrasearam ao afirmar que “stultorum infinitum numerus”, mas cometeram um exagero poético. O número de pessoas estúpidas não pode ser infinito porque o número de pessoas vivas é finito. (N. do A.)

Segundo Capítulo – A Segunda Lei Fundamental

As tendências culturais predominantes hoje nos países ocidentais favorecem uma visão igualitária da Humanidade. Ama-se pensar no Homem como o produto de massa de uma linha de montagem perfeitamente organizada. A genética e a sociologia, sobretudo, esforçam-se para provar, com uma muralha impressionante de dados científicos e formulações, que todos os homens são por natureza iguais e que, se alguns são mais iguais que os outros, isto é atribuível à educação e ao ambiente social, e não à Mãe Natureza.

Trata-se de uma opinião generalizada de que pessoalmente não compartilho. É a minha firme convicção, sustentada por anos de observações e experimentos, que os homens não são iguais, que alguns são estúpidos e outros não, e que a diferença é determinada não por forças ou fatores culturais, mas por características biogenéticas da inescrutável Mãe Natureza. Alguém é estúpido da mesma forma que um outro é ruivo; alguém pertence ao grupo dos estúpidos como um outro pertence a um grupo sanguíneo. Em resumo, alguém nasce estúpido por vontade indecifrável e indiscutível da Divina Providência.

Mesmo convencido que uma fração s de seres humanos seja estúpida e que o seja por vontade da Providência, não sou um reacionário que tenta reintroduzir furtivamente discriminações de classe ou de raça. Creio fixamente que a estupidez seja uma prerrogativa indiscriminada de todo e qualquer grupo humano, e que tal prerrogativa esteja uniformemente distribuída segundo uma proporção constante. Este fato é cientificamente expresso pela Segunda Lei Fundamental, que diz que:
A probabilidade de uma certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica desta mesma pessoa.
A este propósito, a Natureza parece realmente ter superado a si mesma. É fato conhecido que a Natureza, ainda que misteriosamente, age de forma a manter constante a frequência relativa de certos fenômenos naturais. Por exemplo, quer os homens proliferem no Pólo Norte ou no Equador, quer os casais que se unem sejam bem-nutridos ou subdesenvolvidos, quer sejam negros, vermelhos, brancos ou amarelos, a relação macho-fêmea entre os recém-nascidos é constante, com uma ligeira prevalência de machos. Não sabemos como a natureza faz para obter este extraordinário resultado, mas sabemos que para obtê-lo ela deve operar com grandes números. O fato extraordinário acerca da frequência da estupidez é que a Natureza consiga fazer com que tal frequência seja sempre e em qualquer parte constante e portanto igual à probabilidade s, independentemente das dimensões do grupo, tanto que se encontra o mesmo percentual de pessoas estúpidas seja tomando-se grupos muito amplos ou grupos muito reduzidos. Nenhum outro tipo de fenômeno sujeito a observações oferece uma prova tão singular do poder da Natureza.

A prova de que a educação e o ambiente social não tem nada a ver com a probabilidade s foi fornecida por uma série de experimentos conduzidos em muitas universidades do mundo. Podemos subdividir a população de uma universidade em quatro grandes categorias: os zeladores, os funcionários, os estudantes e o corpo docente.

Todas as vezes em que se analisaram os zeladores, descobriu-se que uma fração s deles era de estúpidos. Dado que o valor de s era mais alto do que se esperava (Primeira Lei), pensou-se inicialmente, pagando tributo à moda corrente, que o fato fosse devido à pobreza das famílias das quais os zeladores geralmente provêm, e à sua escassa instrução. Mas analisando os grupos mais elevados, notou-se que a mesma porcentagem prevalecia também entre os funcionários e os estudantes. Ainda mais impressionantes foram os resultados obtidos entre o corpo docente. Seja considerando uma universidade grande ou uma pequena, um instituto famoso ou um obscuro, descobriu-se que a mesma fração s de professores era composta de estúpidos. Foi tal a surpresa com os resultados obtidos que resolveu-se estender a pesquisa a um grupo particularmente selecionado, a uma verdadeira e própria “élite”, isto é, aos ganhadores do Prêmio Nobel. O resultado confirmou os poderes superiores da Natureza: uma fração s dos Prêmios Nobel é constituída de estúpidos.

Este resultado é difícil de aceitar e digerir, mas várias evidências experimentais nos provaram a sua fundamental validade. A Segunda Lei Fundamental é uma lei de ferro e não admite exceção. O Movimento de Liberação da Mulher confirma a Segunda Lei, já que esta lei demonstra que os indivíduos estúpidos são proporcionalmente tão numerosos entre os homens quanto entre as mulheres. As populações dos países do Terceiro Mundo consolar-se-ão com a Segunda Lei, já que ela demonstra que, no final das contas, as populações ditas “desenvolvidas” não são assim tão desenvolvidas. Quer a Segunda Lei Fundamental agrade ou não, mesmo assim as suas implicações são diabolicamente inelutáveis: ela diz de fato que, quer frequentando círculos elegantes, quer refugiando-se entre os cortadores de cabeça da Polinésia, quer enclausurando-se em um mosteiro ou quer decidindo transcorrer o resto da vida na companhia de mulheres belas e luxuriosas, o fato permanece de que deveremos sempre enfrentar a mesma quantidade de gente estúpida – percentual que (de acordo com a Primeira Lei) superará sempre as mais negras previsões.

Terceiro Capítulo – Um intervalo técnico

Neste ponto é necessário esclarecer o conceito de estupidez humana e definir a dramatis persona.

Os indivíduos são caracterizados por diferentes graus de propensão a sociabilizar. Há indivíduos para os quais qualquer contato com outros indivíduos é uma dolorosa necessidade. Eles devem literalmente suportas as pessoas e as pessoas devem suportá-los No outro extremo do espectro estão os indivíduos que não podem absolutamente viver sozinhos e estão até mesmo dispostos a gastar seu tempo na companhia de pessoas que desdenham, para não ficarem sozinhos. Entre esses dois extremos, existe uma grande variedade de condições, se bem que a grande maioria das pessoas esteja mais próxima do tipo que não pode suportar a solidão e não do tipo que não tem propensão a contatos humanos. Aristóteles reconheceu este fato quando escreveu que “o homem é um animal social”, e a validade da sua afirmação é demonstrada pelo fato de que nós nos movimentamos em grupos sociais, que há mais pessoas casadas do que solteiras, que tanta riqueza e tempo sejam desperdiçados em exasperantes e maçantes cocktail parties e que à palavra solidão venha normalmente associada uma conotação negativa.

Quer pertença-se ao tipo eremita ou ao tipo mundano, deve-se de qualquer modo lidar com gente, ainda que com diversa intensidade. De vez em quando, até os eremitas encontram pessoas. Além do que, põe-se sempre em relação com os seres humanos também evitando-os. Aquilo que eu poderia ter feito por um indivíduo ou por um grupo, e que não fiz, representa um “custo-oportunidade” (isto é, um ganho perdido, ou uma perda) para aquela particular pessoa ou grupo. A moral da história é que cada um de nós tem uma conta corrente com cada um dos demais. De qualquer ação, ou não ação, cada um de nós leva um ganho ou uma perda, e ao mesmo tempo determina um ganho ou uma perda a algum outro.Os ganhos e perdas podem ser oportunamente ilustrados em um gráfico, e a figura 1 mostra o gráfico base utilizável para este escopo.


Figura 1
O gráfico refere-se a um indivíduo que chamaremos de Tício. O eixo X mede o ganho obtido por Tício em sua ação. O eixo Y mede o ganho que outra pessoa, ou grupo de pessoas, experimenta em virtude da ação de Tício. O ganho pode ser positivo, nulo ou negativo; um ganho negativo equivale a uma perda. O eixo X mede os ganhos positivos de Tício à direita do ponto O, enquanto as perdas de Tício são indicadas à esquerda do ponto O. O eixo Y, respectivamente sobre e sob o ponto O, mede os ganhos e perdas da pessoa, ou grupo de pessoas, com que Tício tem relação.

Para tornar as coisas claras, tomemos um exemplo hipotético, referindo-nos à figura 1. Tício realiza uma ação que atinge Caio. Se Tício com a sua ação consegue um ganho e Caio, pela mesma ação, sofre uma perda, a ação será registrada no gráfico por um símbolo que aparecerá em qualquer ponto da área B.

Os ganhos e perdas podem ser registrados em dólares ou francos ou liras, caso se queira, mas devem-se incluir também as recompensas e as satisfações psicológicas e emotivas, e os estresses psicológicos e emotivos. Estes são bens (ou males) imateriais, e portanto bastante difíceis de mensurar com parâmetros objetivos. A análise do tipo custo-benefício pode ajudar a resolver o problema, ainda que não completamente, mas não quero aborrecer o leitor com detalhes técnicos: uma margem de imprecisão pode prejudicar as medidas, mas não a essência do argumento. Um ponto contudo deve ficar claro. Ao considerar a ação de Tício e ao avaliar os benefícios ou perdas que Tício leva, deve-se levar em conta o sistema de valores de Tício; mas para determinar o ganho ou a perda de Caio, é absolutamente indispensável referir-se ao sistema de valores de Caio e não àquele de Tício. Frequentemente ignora-se esta norma de fair play, e muitos problemas derivam exatamente do fato de que não respeita-se este princípio de civil comportamento. Vamos recorrer mais uma vez a um exemplo banal. Tício dá uma pancada na cabeça de Caio e obtém satisfação. Tício pode talvez alegar que Caio ficou feliz por ter recebido uma pancada na cabeça. Mas é altamente provável que Caio não compartilhe a mesma opinião. Ao invés, Caio poderia considerar a pancada na sua cabeça um desagradabilíssimo acidente. Se a pancada na cabeça de Caio foi um ganho ou uma perda para Caio, cabe a Caio dizê-lo, e não a Tício.

Quarto Capítulo – A Terceira (e áurea) Lei Fundamental

A Terceira Lei Fundamental pressupõe, ainda que não o enuncie completamente, que os seres humanos pertencem a uma de quatro categorias fundamentais: os ingênuos, os inteligentes, os bandidos e os estúpidos. O leitor arguto compreenderá facilmente que estas quatro categorias correspondem às quatro áreas H, I, B, S do gráfico base (ver fig. 1 [na postagem anterior]).

Se Tício realiza uma ação e sofre uma perda, enquanto ao mesmo tempo oferece uma vantagem a Caio, o símbolo de Tício cairá no campo H: Tício agiu como ingênuo. Se Tício realiza uma ação com a qual obtém uma vantagem, e ao mesmo tempo oferece uma vantagem também a Caio, o símbolo de Tício cairá na área I: Tício agiu inteligentemente. Se Tício realiza uma ação com a qual ganha uma vantagem, causando uma perda a Caio, o ponto de Tício cairá na área B: Tício agiu como bandido. A estupidez corresponde à área S e a todas as posições no eixo Y abaixo do ponto O. A Terceira Lei Fundamental esclarece que:
Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa um dano a uma outra pessoa ou grupo de pessoas, sem, ao mesmo tempo, obter qualquer vantagem para si ou até mesmo sofrendo uma perda.
Diante da Terceira Lei Fundamental, as pessoas sensatas reagem instintivamente com ceticismo e incredulidade. O fato é que as pessoas sensatas têm dificuldades em conceber e a compreender um comportamento irracional. Mas deixemos de lado a teoria e observemos ao invés disso o que nos acontece na prática, na vida de todos os dias. Todos nos recordamos de casos nos quais tivemos desafortunadamente de lidar com um indivíduo que buscava para si um ganho, causando-nos uma perda: deparamo-nos com um bandido. Podemos nos recordar ainda de casos nos quais um indivíduo realizou uma ação cujo resultado foi-lhe uma perda e para nós um ganho: lidamos com um ingênuo¹.

Podemos nos recordar também de casos nos quais um indivíduo realizou uma ação com a qual ambas as partes levaram vantagem: tratava-se de uma pessoa inteligente. Tais casos ocorrem continuamente. Mas refletindo bem, é preciso admitir que estes casos não representam a totalidade de eventos que caracterizam a nossa vida de todos os dias. A nossa vida é também pontuada por eventos em que sofremos perdas de dinheiro, tempo, energia, apetite, tranquilidade e bom-humor, por culpa das improváveis ações de alguma absurda criatura que aparece nos momentos mais impensáveis e inconvenientes para provocar-nos danos, frustrações e dificuldades, sem ter absolutamente nada a ganhar com aquilo que realiza. Ninguém sabe, compreende ou pode explicar por que essa absurda criatura faz o que faz. De fato, não há explicação – ou melhor – a explicação é uma só: a pessoa em questão é estúpida.

¹ Note-se a definição precisa “um indivíduo realizou uma ação”. O fato de ter sido ele a iniciar a ação é decisivo para estabelecer que ele é um ingênuo. Se tivesse sido eu a empreender a ação que determinou o meu ganho e a sua perda, a conclusão seria diferente: neste caso, eu teria sido um bandido. (N. do A.)

Quinto capítulo – Distribuição de frequências

A maior parte das pessoas não age coerentemente. Em algumas circunstâncias uma pessoa age inteligentemente e em outras aquela mesma pessoa comporta-se como ingênua. A única importante exceção à regra é representada pelas pessoas estúpidas, que normalmente mostram uma máxima propensão a uma plena coerência em todos os campos de atividade.

Deste fato não segue que pode-se assinalar no gráfico apenas as posições dos indivíduos estúpidos. Podemos calcular para toda pessoa a sua posição no plano da figura 1 [na parte 3] com base na média ponderada. Uma pessoa inteligente pode às vezes comportar-se como ingênua, como pode às vezes assumir um comportamento banditesco. Mas, como a pessoa em questão é fundamentalmente inteligente, a maior parte das suas ações terá a característica da inteligência e a sua média ponderada colocar-se-á no quadrante I do gráfico n° 1.

O fato de ser possível colocar no gráfico os indivíduos, em vez das suas ações, permite digressões sobre a frequência dos bandidos e dos estúpidos.

O perfeito bandido é aquele que, com as suas ações, causa a outros perdas equivalentes aos seus ganhos. O mais primitivo tipo de banditismo é o roubo. Uma pessoa que rouba 10.000 liras sem causar-nos danos adicionais é um bandido perfeito: perdemos 10.000 liras, ele ganha 10.000. No gráfico, os bandidos perfeitos aparecerão sobre a linha diagonal de 45 graus que divide a área B em duas subáreas perfeitamente simétricas (linha OM da figura 2).


Figura 2
Todavia, os bandidos perfeitos são relativamente poucos. A linha OM divide a área B nas duas subáreas Bi e Bs, e a grande maioria dos bandidos coloca-se em algum ponto destas duas subáreas.

Os bandidos que ocupam a área Bi são aqueles que procuram para si mesmos ganhos maiores que as perdas que causam aos outros. Todos os bandidos que ocupam uma posição na área Bi são desonestos com um elevado grau de inteligência, e quanto mais a sua posição se aproxima da parte direita do eixo X, mais características tais bandidos compartilham com a pessoa inteligente. Infelizmente, os indivíduos que ocupam a área Bi não são muito numerosos. A maior parte dos bandidos coloca-se efetivamente na área Bs. Os bandidos que introduzem-se nesta área são indivíduos cujas ações trazem-lhes vantagens inferiores às perdas causadas aos outros. Se alguém te faz cair e quebrar uma perna para roubar 10.000 liras, ou causa-te danos ao carro no valor de meio milhão de liras para roubar o som, com a qual obterá no máximo 30.000 liras, se alguém te dá um tiro de revólver e te mata só para passar uma noite em companhia da tua mulher em Monte Carlo, podemos estar certos de que não trata-se de um bandido “perfeito”. Sempre utilizando os seus parâmetros para mensurar os seus ganhos (mas usando os nossos parâmetros para mensurar as nossas perdas), ele cairá na área Bs, muito próximo ao limite da estupidez pura.

A distribuição de frequências das pessoas estúpidas é totalmente diferente da dos bandidos e dos ingênuos. Enquanto estes últimos estão na maior parte espalhados pelo espaço da respectiva área, os estúpidos estão na maior parte concentrados ao longo do eixo Y abaixo do ponto O. A razão disso é que a grande maioria das pessoas estúpidas são fundamentalmente e firmemente estúpidas – em outras palavras, eles insistem com perseverança em causar danos ou perdas a outras pessoas sem obter nenhum ganho para si, seja este positivo ou negativo. Há, no entanto, pessoas que, com suas inverossímeis ações, não apenas causam danos a outras pessoas, mas também a si mesmos. Estes formam um gênero de superestúpidos que, com base no nosso sistema de cálculo, aparecerão em qualquer ponto da área S à esquerda do eixo Y.

Sexto Capítulo– Estupidez e poder

Como todas as criaturas humanas, também os estúpidos influenciam outras pessoas com intensidades muito variadas. Alguns estúpidos causam normalmente apenas perdas limitadas, enquanto alguns conseguem causar danos impressionantes não só a um ou dois indivíduos, mas a inteiras comunidades ou sociedades. O potencial de uma pessoa estúpida criar danos depende de dois fatores principais. Antes de tudo, depende do fator genético. Alguns indivíduos herdam notáveis doses do gene da estupidez e, graças a tal hereditariedade, pertencem, desde o nascimento, à elite do seu grupo. O segundo fator que determina o potencial de uma pessoa estúpida deriva da posição de poder e de autoridade que ela ocupa na sociedade. Entre burocratas, generais, políticos, chefes de estado e homens da igreja, encontra-se a áurea proporção s de indivíduos fundamentalmente estúpidos, cuja capacidade de prejudicar o próximo foi (ou é) perigosamente acrescida pela posição de poder que ocuparam (ou ocupam).

A pergunta que frequentemente colocam-se as pessoas sensatas é de que modo e como pessoas estúpidas conseguem chegar a posições de poder e de autoridade.

Classe e casta (seja laica ou eclesiástica) foram as instituições sociais que permitiram um fluxo constante de pessoas estúpidas a posições de poder na maior parte das sociedades pré-industriais. No mundo industrial moderno, classe e casta vão perdendo cada vez mais destaque. Mas, no lugar de classe e casta, existem partidos políticos, burocracia e democracia. Em um sistema democrático, as eleições gerais são um instrumento de grande eficácia para assegurar a manutenção da fração s entre os poderosos. Recordemos que, com base na Segunda Lei, a fração s de pessoas que votam são estúpidas, e as eleições oferecem-lhes uma magnífica oportunidade para prejudicar todos os outros, sem obter nenhum ganho com suas ações. Eles atingem esse objetivo, contribuindo para a manutenção do nível s de estúpidos entre as pessoa no poder.

Sétimo capítulo – O poder da estupidez

Não é difícil compreender como o poder político ou econômico ou burocrático amplifica o potencial nocivo de uma pessoa estúpida. Mas devemos ainda explicar e entender o que rende essencialmente perigosa uma pessoa estúpida; em outras palavras, em que consiste o poder da estupidez.

Essencialmente, os estúpidos são perigosos e funestos porque as pessoas sensatas acham difícil imaginar e entender um comportamento estúpido. Uma pessoa inteligente pode entender a lógica de um bandido. As ações do bandido seguem um modelo de racionalidade: racionalidade perversa, caso queiram, mas sempre racionalidade. O bandido quer “algo mais” na sua conta. Dado que não é inteligente o bastante para inventar métodos para obter “algo mais” para si buscando ao mesmo tempo “algo mais” também para os outros, ele obterá o seu “algo mais” causando “algo menos” ao seu próximo. Tudo isso não é justo, mas é racional e, se é racional, pode ser previsto. Pode-se, em resumo, prever as ações de um bandido, as suas imundas manobras e as suas deploráveis aspirações e amiúde podem-se preparar as defesas oportunas.

Com uma pessoa estúpida tudo isso é absolutamente impossível. Como está implícito na Terceira Lei Fundamental, uma criatura estúpida perseguir-te-á sem razão, sem um plano preciso, nos momentos e nos locais mais improváveis e mais impensáveis. Não há nenhum método racional para prever se, quando, como e por que uma criatura estúpida levará adiante o seu ataque. Frente a um indivíduo estúpido, estamos completamente à sua mercê.

Já que as ações de uma pessoa estúpida não estão de acordo com as regras da racionalidade, segue que:
(a) geralmente somos tomados de surpresa pelo ataque;
(b) mesmo quando toma-se consciência do ataque, não se consegue organizar uma defesa racional, porque o ataque, por si mesmo, é desprovido de qualquer estrutura racional.
O fato de que a atividade e os movimentos de uma criatura estúpida são absolutamente erráticos e irracionais não apenas torna a defesa problemática, mas torna também extremamente difícil qualquer contra-ataque – é como tentar disparar em um objeto capaz dos mais improváveis e inimagináveis movimentos. Isso é o que Dickens e Schiller tinham em mente quando um afirmou que “com estupidez e boa digestão, o homem pode enfrentar qualquer coisa”, e o outro que “contra a estupidez até os deuses combatem em vão”.

É preciso levar em conta também uma outra circunstância. A pessoa inteligente sabe que é inteligente. O bandido está consciente de ser um bandido. O ingênuo está penosamente repleto do senso da própria ingenuidade. Ao contrário de todos estes personagens, o estúpido não sabe que é estúpido. Isto contribui fortemente a dar maior força, incidência e eficácia às suas ações devastadoras. O estúpido não é inibido por aquele sentimento que os anglossaxões chamam de self-consciousness. Com o sorriso nos lábios, como se estivesse realizando a coisa mais natural do mundo, o estúpido aparecerá improvisadamente para destroçar os teus planos, destruir a tua paz, complicar-te a vida e o trabalho, fazer-te perder dinheiro, tempo, bom-humor, apetite, produtividade – tudo isso sem malícia, sem remorso, e sem motivo. Estupidamente.

Oitavo capítulo – A Quarta Lei Fundamental

Não se deve ficar espantado se as pessoas ingênuas, isto é, aquelas que no nosso sistema caem na área H, em geral não consigam reconhecer a periculosidade das pessoas estúpidas. O fato só representa outra manifestação da sua ingenuidade. O que é verdadeiramente surpreendente é que mesmo as pessoas inteligentes e os bandidos frequentemente não conseguem identificar o poder devastador e destruidor da estupidez. É extremamente difícil explicar por que isso ocorre. Pode-se apenas conjecturar que frequentemente tanto os inteligentes quanto os bandidos, quando abordados por indivíduos estúpidos, cometem o erro de abandonar-se a sentimentos de auto-complacência e desprezo, ao invés de produzir imediatamente quantidades maiores de adrenalina e preparar as defesas.

É-se geralmente levado a acreditar que uma pessoa estúpida faça mal somente a si própria, mas isto significa enfrentar a estupidez com a ingenuidade. Às vezes, é-se tentado a associar-se com um indivíduo estúpido com o objetivo de usá-lo para os próprios objetivos. Tal manobra só pode ter efeitos desastrosos porque: (a) é baseada em uma completa incompreensão da natureza essencial da estupidez; e (b) dá à pessoa estúpida mais espaço para o exercício dos seus talentos. Alguém pode se iludir a manipular uma pessoa estúpida e, até certo ponto, pode-se até conseguir. Mas, por causa do errático comportamento do estúpido, não se pode prever todas as suas ações e reações, e em breve ver-se-á desarticulado e pulverizado por suas imprevisíveis ações.

Tudo isso é claramente sintetizado pela Quarta Lei Fundamental, que afirma que
As pessoas não estúpidas subestimam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem constantemente que, em qualquer momento e lugar, e em qualquer circunstância, tratar e/ou associar-se a indivíduos estúpidos demonstra-se infalivelmente um custosíssimo erro.
Nos séculos dos séculos, na vida pública e privada, inúmeras pessoas não levaram em conta a Quarta Lei Fundamental e isso causou incalculáveis perdas à humanidade.

Nono capítulo – Macroanálise e a Quinta Lei Fundamental

As considerações finais do capítulo precedente conduzem a uma análise do tipo “macro”, na qual, ao invés do bem-estar individual, considera-se o bem-estar da sociedade, definido, neste contexto, como a soma algébrica das condições de bem-estar individual. Uma completa compreensão da Quinta Lei Fundamental é essencial para esta análise. É necessário, por outro lado, acrescentar que, das cinco leis fundamentais, a Quinta é certamente a mais conhecida e o seu corolário é citado muito frequentemente. Ela afirma que:
A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigoso que existe.
O corolário da lei é que:
O estúpido é mais perigoso que o bandido.
A formulação da lei e do corolário ainda é do tipo “micro”. Como indicado acima, todavia, a lei e o seu corolário têm implicações de natureza “macro”. O ponto essencial a ter em conta é este: o resultado da ação de um perfeito bandido (a pessoa que cai sobre a linha OM da figura 2) representa pura e simplesmente uma transferência de riqueza e/ou bem-estar. Depois da ação de um perfeito bandido, ele terá um “positivo” na sua conta, “positivo” que equivalerá exatamente ao “negativo” que ele terá causado a uma outra pessoa. Para a sociedade no seu conjunto a situação não terá melhorado nem piorado. Se todos os membros de uma sociedade fossem bandidos perfeitos, a sociedade permaneceria em condições estagnantes, mas não haveria grandes desastres. Tudo limitar-se-ia a uma massiva transferência de riqueza e bem-estar em favor daqueles que realizaram a ação. Se todos os membros da sociedade tivessem de executar a ação em turnos regulares, não apenas a sociedade inteira, mas também os indivíduos particulares, encontrariam-se em um estado de perfeita estabilidade.

Mas quando os estúpidos colocam-se em ação, a música muda completamente. As pessoas estúpidas causam perdas a outras pessoas sem receber vantagens para si mesmos. Segue que a sociedade inteira empobrece.


Figura 3
O sistema de cálculo expresso nos gráficos base mostra que, enquanto todas as ações de indivíduos que caem à direita da linha POM (ver a figura 3) incrementam o bem-estar da sociedade, ainda que em graus diversos, as ações de todas as pessoas que caem à esquerda da mesma linha POM empobrecem a sociedade.

Em outras palavras, os ingênuos dotados de elementos de inteligência mais elevados com respeito à média da sua categoria (área Hi), assim como os bandidos com dotes de inteligência (área Bi), e sobretudo os inteligentes (área I) contribuem todos, em medidas diferentes, a aumentar o bem-estar da sociedade. Por outro lado, os bandidos com dotes de estupidez (área Bs) e os ingênuos com elementos de estupidez (área Hs) só fazem acrescentar as perdas àquelas já causadas pelas pessoas estúpidas (área S), aumentando assim o seu nefasto poder destruidor.

Tudo isso sugere algumas reflexões sobre o desempenho da sociedade. De acordo com a Segunda Lei Fundamental, a fração de gente estúpida é uma constante s, que não é influenciada por tempo, espaço, raça, classe ou qualquer outra variável histórica ou sócio-cultural. Seria um grave erro crer que o número de estúpidos seja mais elevado em uma sociedade em declínio que em uma sociedade em ascensão. Ambas sofrem o mesmo percentual de estúpidos. A diferença entre as duas sociedades consiste no fato de que, na sociedade em declínio:
(a) aos membros estúpidos da sociedade é permitido, pelos demais membros, tornarem-se mais ativos;
(b) há uma mudança na composição da população de não estúpidos, com um aumento relativo das populações das áreas Hs e Bs.
Esta hipótese teórica é abundantemente confirmada por uma exaustiva análise de casos históricos. Com efeito, a análise histórica nos permite reformular as conclusões teóricas de modo mais completo e com detalhes mais realísticos.

Seja considerando a era clássica, medieval, moderna ou contemporânea, permanecemos assombrados pelo fato de que todo país em ascensão tem a sua inevitável quota de pessoas estúpidas. Todavia, um país em ascensão tem também um percentual insolitamente alto de indivíduos inteligentes, que buscam manter a fração s sob controle, e que, ao mesmo tempo, procuram ganhos para si mesmos e para os demais membros da comunidade, suficientes para tornar o progresso uma certeza.

Em um país em declínio, o percentual de indivíduos estúpidos é sempre igual a s; todavia, na população restante nota-se, especialmente entre os indivíduos no poder, uma alarmante proliferação de bandidos com uma alta porcentagem de estupidez (subárea Bs do quadrante B na fig. 3) e, entre aqueles não ao poder, um igualmente alarmante aumento no número de ingênuos (área H no gráfico base, fig. 1). Tal mudança na composição da população de não estúpidos reforça inevitavelmente o poder destruidor da fração s de estúpidos e leva o país à ruína.

Apêndice

Nas páginas seguintes, o leitor encontrará um certo número de gráficos que poderá utilizar para registrar as ações de pessoas ou grupos com os quais tem de lidar constantemente. Isto permitirá formular avaliações precisas das pessoas ou grupos em questão e, portanto, adotar uma linha de ação racional em seus contatos.

[Em virtude do caráter digital desta tradução, julgou-se necessário fornecer apenas uma cópia do gráfico base. (N. do T.)]

Extraído daqui: http://leisdaestupidez.blogspot.com.br/